A Presidência do IPEA e os Departamentos de Economia

Estou assustado com a briga pela presidência do IPEA. O IPEA está longe de ser “uma jóia da coroa” como é a Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Eletrobrás, etc. Nessas empresas, faz todo sentido a briga política por nomeações devido ao volume de recursos que essas instituições controlam.

Um simples contrato com algumas dessas empresas pode ser uma benção para o fornecedor. Mas e o IPEA? Por que tem sido tão difícil para o governo nomear o presidente do IPEA? Acho que é fácil explicar essa briga.

Como já destaquei acima, o IPEA não é uma instituição rica como as demais empresas mistas ou estatais, mas comparando com o orçamento de qualquer departamento de economia, o IPEA é sem dúvida uma jóia da coroa no mundo acadêmico.

Em 2011, o orçamento da instituição foi de R$ 301 milhões. Mais ou menos um terço desse valor, R$ 105 milhões, foi direcionado para o pagamento de aposentados, R$ 122,9 milhões para o pagamento de funcionários ativos, R$ 50 milhões para custeio (aqui entra o custo das pesquisas), R$ 19 milhões para investimento (o IPEA está construindo uma sede propria nova) e o que resta (R$ 3 milhões) vai para reserva de contingência.

Bom, R$ 50 milhões  para pesquisa (e para cobrir os custos administrativos associados à pesquisa) é um cifra invejável no mundo acadêmico. Ademais, como o IPEA é um órgão do governo, ele consegue aumentar ainda mais o orçamento por meio de convênios com Ministérios e tem ainda um empréstimo anual do BID para mais pesquisas e contratação de bolsistas. É uma facilidade que não existe no mundo acadêmico.

Se eu fosse político, jamais perderia meu sono tentando influenciar nomeações para o IPEA. Seria muito mais interessante concentrar esforços para nomear diretores de estatais ou  mesmo tentar nomear o ministro das cidades, esporte, turismo, integração nacional ou saúde – ministérios nos quais a execução do orçamento de investimentos se dá, preponderantemente, por meio de transferências voluntárias para estados e municípios.

Mas R$ 50-60 milhões por ano para pesquisa é muito dinheiro na realidade do mundo acadêmico – que nem sempre consegue recursos para pesquisa por mérito e tem dificuldade de conversar com o setor privado.  A direção de uma instituição como o IPEA implica algum espaço para definir temas de pesquisa e, assim, indiretamente (ou diretamente) beneficiar alguns pesquisadores e departamentos de algumas universidades mais do que outros.

E isso é relativamente fácil. Basta abrir o chamado para uma pesquisa de acordo com o perfil técnico do departamento de uma universidade ou do pesquisador que se quer contratar –os órgãos de controle têm muito pouco controle sobre isso ou nenhum, mas isso é comum com quase todas as instituições de pesquisa do mundo.

A briga pela presidência do IPEA é, na verdade, a briga de alguns pesquisadores por dinheiro para pesquisa, financiamento para viagens e  patrocínio de congressos. Sinceramente, seria melhor que essa briga fosse resolvida no âmbito do Ministério da Educação e do MCT, os dois ministérios que tratam de recursos para pesquisa das universidades.

Assim, seria ótimo, para o IPEA e para o próprio governo, que a Presidenta Dilma e o Ministro Moreira Franco pudessem tomar a decisão de nomeação do novo presidente (ou presidenta) do IPEA fora do jogo político por “verbas de pesquisa” de alguns departamentos de economia, que têm o péssimo hábito de dividir a pesquisa entre “aqueles do nosso lado” e “os outros que não são do nosso lado”.

4 pensamentos sobre “A Presidência do IPEA e os Departamentos de Economia

  1. E tem mais um detalhe, não deixa de ser também uma disputa pelo controle da formação da opinião pública, por meio de uma entidade respeitada que exerce papel fundamental na avaliação das políticas do governo. Dependendo da diretriz da pesquisa encomendada e de quem a produz, o que o Ipea diz pode ser usado para proselitismo político-partidário. Torço para que a presidente Dilma não ceda àqueles que carregam consigo interesses subalternos e podem manchar a reputação do Ipea.

  2. Mansueto,

    Você por acaso conhece algum dado de produto mundial (ou então dos EUA ou da OCDE) com frequencia mensal?

    Att,
    Caio Mello

  3. Por esse preço, melhor seria se revíssemos a validade de ter um órgão como o IPEA nos dias de hoje.
    Em muitos países, os think tanks são de natureza privada, com recursos obtidos de doações de indivíduos ou empresas que querem pensar e influenciar a política. É interessante ter essas instituições de natureza pública, pelo menos em tese. Mas não a qualquer preço. Antigamente, se não fosse nossas entidades de planejamento, dificilmente teríamos uma boa reflexão sobre as políticas nacionais. Porém, hoje, a academia publica muito, num ritmo maior do que há anos atrás e a maioria das pesquisas e opiniões vem de centros de pesquisa universitários, por meio de publicações em revistas, simpósios, congressos, teses e dissertações. Boa parte desse trabalho é feita por pessoas que se dedicam à pesquisa mesmo sem remuneração e o fazem com grande qualidade, sob os olhares críticos de seus pares.
    É importante comparar o IPEA com o NBER — National Bureau of Economic Research. O congênere americano publica ao menos dez vez mais que o brasileiro. Para tal, teve despesas da ordem aproximada de R$ 70 milhões em 2011. E com esse valor conseguiram financiar pesquisas de mais de 1.100 pesquisadores associados.
    O Brasil paga caro por suas pesquisas. O abuso não é só no IPEA. O Depec, do Banco Central, tem mais de 200 funcionários e um custo altíssimo. O BNDES também tem sua equipe de pesquisa para estudar a indústria, assim como o Tesouro para estudar a dívida. Mas cada órgão desse, somado ao Planejamento, ao IBGE e à Fazenda, ainda estuda conjuntura econômica e há centenas de pessoas fazendo basicamente a mesma coisa. O custo é fantástico e o resultado é pífio, porque a maior parte dos frutos pode ser obtido de modo mais eficiente e barato no setor privado ou junto às universidades. Precisamos urgentemente racionalizar nossos think tanks.

    • Boas observações Fabiano. Tendo a concordar com você. Mas a proposta do IPEA é para ser um meio termo entre a universidade e governo e poderia ser mais enxuto e ter o foco de atuação mais bem definido.

      A universidade faz pesquisa mais teórica e, a principio, a pesquisa do IPEA deveria ser mais aplicada de acordo com demandas do governo. Mas pesquisas independentes.

      Hoje, acho que essa falta de foco está piorando pois o IPEA passou a dar cursos de mestrado – o que não faz o mínimo sentido pois para isso existem as universidades.

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