Morreu a primeira mulher que ganhou o prêmio Nobel de Economia

Morreu hoje Elinor Ostrom, a primeira economista mulher a ganhar o premio Nobel de economia. A professora Ostrom foi uma grande estudiosa de maneiras de solucionar problemas de cooperação como, por exemplo, de que forma agentes econômicos se organizam para utilizar um recurso de propriedade comum.

No seu brilhante livro (Governing the commons) ela tenta refutar os três modelos que tratam do problema de administração de recursos comunitários: (1) a tragédia dos comuns; (2) o dilema do prisioneiro; e (3) problemas de ação coletiva (Mancur Olson).

Esses três modelos quando aplicado ao uso de recursos comuns (por exemplo, pesca em um lago público, uso livre da água de uma bacia, etc.) levam a conclusões nada animadoras. Pela tragédia dos comuns,  como cada agente econômico sabe que não tem como controlar a atividade da pesca pelos demais, cada um terá incentivo em pescar o máximo possível sem se preocupar com os seus vizinhos. Assim, a existência de propriedade comum levaria ao rápido esgotamento dos recursos.

O conhecido caso do dilema do prisioneiro, por sua vez, leva a um equilíbrio que não é (pareto) ótimo – existe um equilíbrio melhor que poderia ser alcançado no qual todo mundo se beneficiaria ou alguém se beneficiaria sem prejudicar os demais .  Por exemplo, o equilíbrio ideal seria um no qual cada pescador não comprometesse a reprodução das espécies e, assim, houve a manutenção do lago com peixes para gerar renda para comunidade ao longo do tempo.

No entanto, se um pescador não tiver como observar o comportamento do outro pescador, a melhor estratégia para ele é pescar o máximo que conseguir, pois, independentemente da decisão do seu companheiro de pesca, ele sempre sairá ganhando: pescará o máximo sem se preocupar com a reprodução das espécies (que o outro está preocupado) ou terá também o ganho de curto prazo se o outro adotar a mesma estratégia de pescar o máximo possível.

O pior dos casos para qualquer pescador é um deles se preocupar com a reprodução das espécies e outro não se preocupar (ou os outros não se preocuparem). Assim, o equilíbrio que se chega que é a característica do dilema do prisioneiro é que todos vão maximizar os ganhos de curto-prazo, pescar o máximo possível, sem se importar com a reprodução das espécies. A racionalidade dos indivíduos leva a um resultado que não é ótimo do ponto de vista coletivo. (OBS: mesmo que o jogo fosse repetitivo, o equilíbrio só seria diferente se houvesse informação perfeita).

Uma terceira teoria que trata do problema de administração de recursos comunitários é o famoso livro do Mancur Olson, a lógica da ação coletiva. A ideia desse livro é muito simples. Os indivíduos fazem cálculos de custo e beneficio dos ganhos decorrentes de se organizarem, ou melhor, cooperarem para utilizarem um recurso de propriedade comum. O problema é que, quanto maior for esse grupo, por exemplo, quanto maior o número de pescadores, maior será o incentivo para um pescador deixar para os outros o custo de se organizarem e ele  colher o benefício da organização sem ter que contribuir com o custo da ação coletiva (“free rider”).

Ostrom mostra que os três modelos acima (tragédia dos comuns, dilema do prisioneiro e a lógica da ação coletiva) levam à conclusão que a única forma de organizar o uso de recursos comuns (lago para pesca, bacias hidrográficas, qualidade do ar, etc.) é por meio da regulação dos recursos (naturais) e controle pelo governo do uso dos recursos.

O que a economista mostrou com sua brilhante pesquisa de décadas baseado em estudos de caso sobre cooperação foi que, nem sempre, a solução de regulação e centralização do controle do uso de recursos naturais é a melhor forma de maximizar intertemporalmente o uso de recursos comuns.

Para o governo ter sucesso em regulamentar e controlar o uso de recursos comuns pressupõe que ele (governo) tenha; (1) informação perfeita; (2) capacidade de monitorar o uso dos recursos pelos agentes, (3) capacidade de aplicar sanções, e (4) baixo custo administrativo para levar adiante essas três atividades.

O que a professora Ostrom mostrou com a sua pesquisa foi que, às vezes, os próprios agentes econômicos conseguem solucionar problemas de ação coletiva adotando diversos mecanismos de auto-monitoramento, aplicação gradual de sanções, pagamento pela manutenção dos recursos e estratégias de resolução de conflito no âmbito local.

Não há uma forma ótima, mas diversas formas dos agentes se organizarem e o governo participar do processo em uma fase posterior, sancionado mecanismos de controle e cooperação desenhados pelos agentes econômicos interessados na solução do problema. Ela estudo diversos casos de cooperação com um histórico de cooperação de mais de 100 (cem) anos no uso de florestas na Suíça e Japão, uso de canais de irrigação na Espanha e Filipinas, e o uso de bacias hidrográficas na região metropolitana de Los Angeles.

A professora Elinor Ostrom contribuiu para a compreensão e limites dos problemas ligados à ação coletiva e cooperação. Um tema que hoje continua importante no uso de recursos comuns, controle de poluição, etc.

3 pensamentos sobre “Morreu a primeira mulher que ganhou o prêmio Nobel de Economia

  1. Meus caros,
    Só um pequeno comentário sobre a Olstrom e seu prêmio Nobel. Há muito tempo, a teoria econômica descobriu que dificilmente a alocação feita pelos mercados seria eficiente (uma vez que os mercados seriam inevitavelmente incompletos devido aos problemas informacionais inevitáveis que existem). Entretanto, seriam exatamente estes problemas informacionais que descartariam também a solução fácil (e errada) dos problemas de coordenação a partir de alguma intervenção pública direta. Isto abriu caminho para uma exuberante massa teórica de relações alternativas que existiriam entre os agentes que buscariam suprir estes problemas (e, atenção, estou falando principalmente da parte mais ortodoxa e mainstream da teoria econômica). O forte desenvolvimento da teoria dos jogos (e, posteriormente, de desenho de mecanismos) seria o principal pilar teórico desta grande massa teórica. Estas teorias são lindas, excitantes e extremamente aplicáveis (e muito difíceis, do ponto de vista matemático).
    A Olstrom ganhou o prêmio Nobel com o Williamson. Ambos tem uma grande quantidade de contribuições teóricas pouco formalizadas (o que não é problema, é só uma curiosidade). Enquanto a Olstrom tratava destes problemas de coordenação em pequenas comunidades (já descrito muito bem pelo Mansueto), o Williamson tratava do mesmo problema mas em organizações privadas. Daí que foi bastante correto ambos ganharem simultaneamente o Nobel.
    Por que estou descrevendo estas coisas todas? Estou particularmente preocupado com os estudantes que vem até o blog. Infelizmente, existe no país (com raríssimas excessões) uma discussão estúpida mercado x governo. Esta discussão não tem sentido, seja empiricamente, seja teoricamente (e, atenção, DE ACORDO COM A TEORIA MAIS ORTODOXA QUE VOCÊ QUEIRA – POR EXEMPLO, MINESSOTA). Devem-se olhar os mecanismos existentes, as falhas informacionais existentes e as relações contratuais alternativas que estariam sendo utilizadas pelos agentes para se definir o que o estado deve ou não fazer. Mais ainda, a estrutura organizacional do estado juntamente com os mecanismos que seus agentes poderão utilizar também determinarão se tal intervenção pode ser benéfica ou não. Entenderam? Economia trata da coordenação entre os agentes (que são racionais e vivem em ambiente de fortes assimetrias informacionais). Quem não sabe disto não conhece teoria econômica.
    Saudações

  2. “Infelizmente, existe no país (com raríssimas excessões) uma discussão estúpida mercado x governo.”

    Não.
    Existe uma bando de gente estúpida no governo que acha que tudo na economia pode ser resolvido por decisões arbitrárias e pouquíssimos economistas (a maioria dos que vem a esse blog) que percebem que está na hora de diminuir um pouco a influência desses sovietes.

    “Entenderam? …. Quem não sabe disto não conhece teoria econômica.”

    Hummm continua a aula professor….

  3. Que existem “assimetrias informacionais”, tudo OK.
    Mas, o que está existindo são aprendizes de feiticeiros tentando fazer todos aceitarem que a economia está muito bem.
    E que é um exemplo para o mundo. Exibiria crescimento robusto, ocorreria mudanças de patamares de renda das pessoas, haveria crédito de longo prazo para aquisição de bens duráveis, juros com pressão de baixa. Em suma, coisa saudáveis, que colocam mais fogo na fogueira da liquidez e no consumo etc. Mas, tirando tudo isso, o crescimento sustentado da economia brasileira tem como vitrine PIB menor que inflação.
    Melhor não entender de economia e começar a pagar os carnets antecipadamente.

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