Pare ler e refletir na semana

Ao ler os jornais neste domingo, deparei-me com teses interessantes. O mesmo nas revistas semanais (ou quinzenais) que passaram a discutir os impedimentos ao crescimento do país.

Não tenho grandes discordâncias do que tem sido publicado, mas se há um diagnóstico tão consensual (esgotamento do crescimento econômico baseado em aumento do consumo impulsionado pelo crédito, aumentos de transferências de renda do governo para as famílias, aumento de importações e benefícios das reformas estruturais que tiverem prosseguimento até 2005) é difícil entender por que o governo parece ainda insistir no que deu certo antes.

A resposta mais fácil para esse aparente dilema é que, de fato, o governo está preocupado com a forte desaceleração da economia e quer aumentar o investimento público (sob seu controle direto) e privado (via incentivos); além de atuar na melhoria de fatores mais estruturais como redução no custo da energia e gás, redução do número de impostos, etc.

O problema é que essa agenda requer persistência e, assim, não é possível responder com  o mesmo nível de voluntarismo que o governo adota para forçar redução da taxa de juros, expansão do crédito via BNDES, redução do IPI para alguns setores e redução de compulsórios para financiamento do setor automotivo.

E nem mesmo a modificação gradual do modelo é possível porque o governo “amarou suas mãos” em um tudo ou nada. O colunista da folha, Vinicius T. Freire, termina a sua coluna de hoje (clique aqui) argumentando que “….mas destravar uns investimentos públicos, dar um tempo no aumento de salário e renda via mão pesada do Estado e simplificar burocracias já podem nos fazer crescer um pouco mais de 3,5% ou 4%. Não é lá tão difícil”.

Mas como dar um “tempo no aumento de renda via mão pesada do Estado” se estamos presos a uma política de indexação do salario mínimo que muitos apontavam que tem um custo elevado? Simplificar burocracia é também difícil porque sempre há incerteza em calibrar alíquotas novas para compensar mudanças de bases e a troca de um imposto por outro.

Um outro ponto normalmente desconsiderado sobre o impacto de reformas é que muitas delas têm efeito cumulativo, ou seja, “alguma reforma” ou pequenas reformas na margem podem trazer efeitos decepcionantes. Por exemplo, reduzir o número de impostos e adotar ao mesmo tempo outras medidas intervencionistas de concessão de alíquotas diferenciadas para setores e proteção diferenciada por setor pode (mais que) compensar os benefícios de uma redução do número de impostos. O gradualismo, embora sedutor por ser mais fácil de negociar e implementar, nem sempre funciona e seu resultado é incerto.

A verdade é que, sem o instrumento da expansão do crédito tradicional, não há medidas de curto prazo no arsenal do governo. Nem mesmo o investimento público. Possivelmente, um esforço do governo de investir mais aparecerá apenas em meados de 2013 para 2014.

Por fim, cabe um questionamento sobre os dados excessivamente pessimistas do meus amigos do IBRE em matéria de hoje no Estado de São Paulo (clique aqui). Há talvez uma preocupação excessiva com a queda recente da produtividade total dos fatores que já dura, segundo o IBRE, dois anos. Talvez eles estejam corretos e, apesar do curto espaço de tempo, essa queda já sinalize uma nova tendência.

Mas confesso que tenho dificuldades de colocar tanta fé em uma medida, produtividade total dos fatores (PTF), que é uma medida residual e que os economistas não sabem exatamente de que forma se dá o seu crescimento e nem mesmo a defasagem entre reformas e seus efeitos na PTF, investimento e no crescimento da economia.

Se concordamos 100% com a análise do IBRE que a queda dos últimos dois anos da PTF é uma tendência e, dado que há uma defasagem entre reformas,  crescimento da PTF, crescimento do investimento e crescimento do PIB, o máximo que o governo poderia fazer ao longo desse ano e do próximo seria talvez garantir um ambiente mais favorável ao crescimento da economia, não mais no governo Dilma, mas no próximo governo que tem início em 2015.

De qualquer forma, acho que é preciso ter em mente três pontos. Primeiro, o ponto de partida da desaceleração não é ruim. A economia brasileira iniciou este processo de desaceleração com uma taxa de desemprego baixa. Assim, os efeitos negativos na economia não serão tão ruins quando comparado ao cenário de 2003. Segundo, mesmo que o crescimento deste ano fique por volta de 2% a 2,5%; um crescimento médio ao longo dos próximos dois anos perto de 3,5% com a mudança do mix do PIB (menor crescimento do consumo e maior expansão do investimento) não é um cenário totalmente desastroso. Terceiro, teve início no Brasil um debate saudável sobre o crescimento potencial e a necessidade de reformas, um debate que é a meu ver extremamente positivo. E a dúvida que fica, como fala Rogoff na sua entrevista ao jornalista Fernando Dantas, é se o Brasil está preparado para atacar os velhos problemas (clique aqui).

O que é incerto é qual será a reação de uma equipe econômica que, desde 2006, dormia, acordava e rezava com “A Teoria Gera do Emprego e da Moeda” de Keynes na mesa de cabeceira. E que na sala de estar pendurou na parede a foto ampliada do BNDES. Ou eles trocam o livro da cabeceira e retrato da sala de estar ou correm o risco de serem desalojados do seu habitat.

9 pensamentos sobre “Pare ler e refletir na semana

  1. Olá Mansueto e leitores,

    Concordo com o post porque, ainda que a discussão econômica seja relevante, há aspectos que precedem a implementação de políticas econômicas. No caso brasileiro, entendo que haja fatores políticos e ideológicos que complicam o governo atual.

    O problema político envolve a questão referente à desaceleração do crescimento brasileiro. Concordo que a situação brasileira não seja tão ruim assim. Acho até que deveríamos “esquecer” todos esses estímulos e pensar na construção de uma nova proposta de longo prazo. Ocorre que o Governo Lula vendeu um novo milagre brasileiro. Daí o aparente desespero do governo atual.

    O segundo aspecto é ideológico. O segundo governo Lula apresenta uma retomada de propostas petistas guardadas no armário durante o primeiro mandato. Ora, boa parte das propostas discutidas têm caráter no mínimo levemente liberal.

    Por fim, uma questão: qual sua análise sobre a redução do crescimento sobre a área habitacional. Os preços vigentes são sustentáveis em um ambiente de baixo crescimento?

    PS: Interessante reportagem sobre a questão habitacional do valor reproduzida no housing br.

    Abraços

  2. Ao que parece, a condução da economia seria “voluntarista”. Algo do tipo “querer é poder”, ou “fiat lux”. As promessas sempre são mais possíveis do que sua transformação em realidades. Ainda não dá para entender como pode ser considerado bom o PIB crescer menos que a inflação. Por anos consecutivos. 2011, fechado. E previsões para 2012 e até para 2013. O mandado para levar a inflação para a meta foi alterado? Por quem? Apesar de “aceitar” mais inflação, o crescimento não deslancha, os investimentos são insuficientes frente a gastos e custos que parecem mais desperdícios. Com essa carga de aspectos negativos, não é possível crer em demarragem nos próximos anos.

  3. Uma economia para crescer tem, de fato, que ter fatores de produção disponíveis (capitais, trabalho, recursos naturais e tecnologia) ou condições de ampliá-los (internamente ou através de importação de mão de obra, de maquinários, de tecnologia, de energia, etc.). Estrangulamentos em fatores de produção paralisam o crescimento (energia, estradas, portos, etc.).
    O crescimento se consegue de inúmeras maneiras: o não sustentado (“desenvolvimentista” de curto prazo), facilmente, apenas com irresponsabilidade monetária ou fiscal. O sustentado, exige responsabilidade monetária (estabilidade monetária, que permite previsibilidade e segurança para investimentos de lp) e fiscal (limites de déficits e de endividamento). As crises, todas, têm origem em irresponsabilidades fiscal e/ou monetária.
    Se um país tem um gasto público de 20% (e dívida pública de 25% do PIB) do PIB é possível conseguir crescimento aumentando-o para 25%. Mas se o gasto é de 40% do PIB e a dívida já está no limite superior isto não pode ser feito. Melhorias de distribuição de renda em países de renda baixa, de fato, aumenta o PIB com sustentação. Melhorias na gestão dos gastos públicos também possibilitam crescimento do PIB. Mas demanda um tempo.
    O Brasil, como quase todos os países, está sofrendo reflexos da conjuntura mundial atual, desaceleração, redução da previsibilidade, da mesma maneira que se aproveitou nos anos recentes.
    SOBRE INFLAÇÃO: no auge da crise olha o comportamento dos índices de inflação (acumulados em 2012). Acumulados até 05/2012:
    META 1,85509%; IPCA 2,24; IPC 10 2,81; IPC M 2,79; IPC DI 2,72; IGP M 2,50; IGP DI 2,89. O que acontecerá quando a crise iniciar a redução de seus reflexos?
    CRESCIMENTO SUSTENTADO NÃO SE FAZ COM DEMAGOGIAS NEM COM PENSAMENTOS MÁGICOS. Keynes defendeu a construção das pirâmides do Egito como causa de crescimento, Adam Smith escreveu que gastos públicos improdutivos reduzem a riqueza nacional (esta é a diferença).

    • marco aurélio garcia, enquanto a administração mantiver a situação de geração de empregos, que pode ser advinda dos estímulos à construção civil e a determinados setores da indústria, que reflitam positivamente no nível de emprego, inclusive no setor terciário, a sensação de bem-estar não será tão afetada. Ainda existe um “cordão sanitário” a proteger a “renda”, mas, não, a proteger o endividamento das pessoas. Se esse cordão for rompido, ai sim, o enredo será outro.
      Contudo, mesmo na ausência de estudos mas complexos, dá para perceber que a sensação de alta nos preços, pouco a pouco vai sendo percebida pelas pessoas.

  4. Os governos:

    (a) não agem, apenas reagem; (b) sempre procuram a trilha do menor custo político.

    Somente estadistas contrariam as regras acima.

  5. Mansueto,
    Não sou entendido no assunto, mas uma coisa que me instiga é o seguinte: com crescimento do PIB em 2,5% ou 2%, é possível manter o emprego nesse patamar que está no Brasil, ou é só questão de tempo para vermos o desemprego de volta?

    • Pode ser ZehCarlos.
      Tanto que o governo está liberando recursos, via BNDES, para os 27 Estados da Federação. Logicamente para aplicações em investimentos, visando, provavelmente, também, a geração de empregos.
      A ver.

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