Demanda interna, indústria e inflação

Segue abaixo o meu artigo de hoje no jornal Valor Econômico.

Valor Econômico – 31 de maio de 2012

Demanda interna, indústria e inflação

Por Mansueto Almeida

Depois de um crescimento expressivo de junho de 2003 até julho de 2008, a produção física da indústria de transformação sofreu um forte mergulho em 2009, se recuperou em 2010 e ficou praticamente estagnada em 2011.

Se alguém pegar apenas os anos extremos, segundo semestre de 2008 e final de 2011, chega-se à conclusão óbvia que a indústria perdeu o seu dinamismo, apesar do crescimento da massa salarial, do crédito e das vendas reais do varejo nesse mesmo período. Em um período mais longo, de 2004 até 2011, o crescimento das vendas reais do varejo no Brasil foi de 75% e, mesmo ao longo da crise de 2009, as vendas continuaram a crescer.

Se há algo consensual no Brasil é que a expansão da demanda doméstica foi expressiva ao longo dos últimos oito anos. Mas apesar desse forte crescimento, setores da indústria, acadêmicos e setores do governo começaram a mostrar desconforto com o que passaram a chamar “vazamento da demanda” para produtos industriais importados, principalmente a partir de 2008, quando o superávit da indústria de transformação transformou-se em déficit comercial, que foi de US$ 43,2 bilhões em 2011.

Mas será que esse chamado vazamento da demanda foi necessariamente ruim para o crescimento da economia nos últimos anos e para o bem estar da população? É possível que não.

O padrão de crescimento recente no Brasil, impulsionado pela expansão da demanda, funcionou enquanto a taxa de desemprego era elevada, ou seja, quando havia uma grande quantidade de recursos ociosos. A partir de certo momento, quando a taxa de desemprego diminuiu, o crescimento passou a ser mais inflacionário devido às pressões de custos, principalmente do mercado de trabalho.

O setor de serviços não teve problemas para repassar aumentos de custo para preços. Esse setor goza de uma proteção natural, já que não é possível importar uma refeição, uma ida ao cinema ou uma consulta médica do exterior. O mesmo não vale para a indústria, cujos produtos podem ser importados por serem por natureza bens transacionáveis e, assim, esse setor não conseguiu repassar os aumentos de custos para os preços.

Como se observa no gráfico abaixo, desde 2004, a inflação ao consumidor de produtos industriais ficou, consistentemente, abaixo do centro da meta de inflação (4,5%) e a do setor de serviços sempre acima.

Inflação de Serviços e de Produtos Industriais  (% ao ano)–2000-2011

Fonte: IBGE/IPCA. Elaboração: Gabriel Barros (IBRE-FGV)

O que teria acontecido se o governo tivesse tomado medidas protecionistas já em 2008, quando foi lançada a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), e tivesse garantido uma taxa de câmbio mais desvalorizada? Possivelmente essas medidas teriam ocasionado mais inflação dos produtos industriais e, logo, menor consumo desses produtos pela população.

Ao contrário do que muitos afirmam, o aumento das importações de produtos manufaturados a preços mais baixos, devido ao excesso de produção mundial em conjunto com a valorização do real, foi fundamental para conciliar o forte crescimento de demanda com uma inflação que, apesar de elevada, não ultrapassou o teto da meta (6,5%) de 2008 a 2011.

A única forma de o governo garantir um cenário melhor para indústria seria que sua política de maior proteção e/ou desvalorização do real fosse seguida por uma menor expansão da demanda, que reduzisse a inflação, e aumentasse a poupança doméstica para financiar o investimento. Mas o governo está fazendo justamente o contrário, está atuando para expandir também a demanda (e o Produto Interno Bruto, o PIB) ao mesmo tempo em que incentiva a indústria com medidas protecionistas e desvalorização induzida da taxa de câmbio.

Isso poderá não ser um problema neste ano, dada a forte retração do nível de atividade, mas será logo que a economia retome sua trajetória de crescimento entre 3 e 3,5% ao ano. Evitar o “vazamento da demanda” significa preços mais elevados de produtos industriais e mais inflação. O Brasil atual com taxa de desemprego de 6% não é aquele de 2004 com taxa de desemprego de 12%, no qual o crescimento das transferências do governo para as famílias e expansão do crédito garantiam o crescimento do consumo e do PIB.

Parece paradoxal, mas a forma mais efetiva de ajudar a indústria, no curto prazo, é controlando a expansão do consumo. No longo prazo, não há alternativa que não seja investir mais em educação e inovação.

11 pensamentos sobre “Demanda interna, indústria e inflação

  1. Olá,

    Concordo com a sua posição de que há excessos nas transferências, tendo em vista o custo que acarreta para a sociedade.

    Contudo, sem ter exatamente precisão sobre os dados, parece-me que ocorreu elevada diminuição da mortalidade infantil no País recentemente. Apesar de não ter analisado o assunto, não pude deixar de associar à elevação do salário mínimo, tendo em vista a capilaridade do sistema previdênciário.

    Daí a pergunta: haveria possibilidade do País manter sistema de proteção eficaz com um custo menor? Há possibilidade de maiores cortes no orçamento fiscal?

    Abraço,

    • Mas há precisão sobre os dados. Hoje temos programas mais focados nas crianças e mais baratos, como o bolsa-familia, do que a politica de atingir as crianças via aumento do mínimo. Sem dúvida o efeito do salário minimo indireto existe, mas acho que com o cadastro do bolsa-familia seria possivel atingir o memso objetivo de redução da mortalidade infantil e da extrema pobreza a um custo muito menor.

      O ponto chave, na minha opnião, não é deixar de dar aumentos reais para o salário mínimo. Mas que esses rejustes reis não sejam fixados em lei e sejem pequenos. Em contrapartida, o governo poderia aumentar os gastos de programas de transferencia de renda mais focados nos mais pobres. Isso permitiria uma brutal economia fiscal.

      Duplicar o bolsa familia em quatro anos por exemplo, teria uma custo adicional (+R$ 20 bilhões) que seria menor do que o impacto nas contas públicas do reajuste do salário mínimo neste ano de 2012. É claro que isso é questão para debate e acho que essa nova classificação da SAE de classe média baixa, média, e classe média alta é um primeiro passo nessa direção de identificar o público alvo e melhorar o foco das politicas sociais.

      • Obrigado pela resposta. De fato, era exatamente essa a resposta que eu gostaria de ouvir.

        Sobre a questão do crescimento, acho que pouca gente sensata sugere um crescimento intenso no momento. Para mim, parece claro que a Dilma está aprisionada pelo mundo criado pelo seu antecessor. Não que estejamos em uma situação ruim. Mas, como o Lula efetivamente fez o brasileiro sonhar muito alto, qualquer coisa parecida com a realidade se torna um pesadelo. Hoje, para mim, a pressão política resultante desse fenômeno é a grande ameaça à uma gestão de política econômica mais sóbria e voltada para um prazo mais longo.

        Abraços

  2. Aproximadamente 2/3 do nosso PIB está no setor de serviços. Vamos conseguir controlar a inflação centrando todos os esforços nos 15% que constituem a indústria de transformação através de uma concorrência que tem se demonstrado predatória em virtude do real estar temporariamente forte?

    • Não é que os esforços para trazer a inflação para a meta tenha que sacrificar a indústria. Meu ponto é que querer crescer mais rápico com uma economia com baixo desemprego e ainda ajudar a industria não vai dar, pois o crescimento mais rapido com a manutenção da atual politica de reajustes do minimo vai pressionar repetindo a dinâmica de custos-preços no setor de serviços e custos-sem repasse de preços na indústria.

      Com a desvalorização do câmbio e mais proteção aumento a possibilidade da industria fazer, até certo ponto, o mesmo que o setor de serviços. Por iso que falo que apesar de parecer paradoxal, devemos controlar a velocidade de expansão do consumo para ter menos inflação e permitir que as medidas do governo de câmbio + proteção não se transformem simplesmente em mais inflação.

  3. Sobre investir mais em educação: Dados do IBGE mostram que o rendimento médio real da população ocupada com ensino superior cresceu 0,3% nos últimos oito anos, e o mesmo índice avançou 37,1% na construção civil e 23,8% na indústria. Em 2011, enquanto o rendimento médio real dos trabalhadores da construção civil aumentou 5% e o dos trabalhadores domésticos cresceu 5,6%, quem possui diploma de curso superior viu seu rendimento real ficar estagnado. Precisamos mesmo de mais educação formal preparando jovens para o desemprego ou empregos com renda não crescente?

    • Bom, aumentos de salarios independentemente da qualificação está ligado também à lei da oferta e da demanda. Como mais de 80% do emprego que é gerado no Brasil (emprego fomal CAGED) são para postos de trabalho que pagam até 2 sal. minimos, não acho esquisito que a pressão maior do crescimento seja sentido no aquecimento do mercado de trabalho de pessoas como mais baixa qualificação.

      O problema é que esse movimento se não for acompanhado por maior crescimento da produtividade, significa maiores custos de produção e, logo, maior inflação. Quando falo em investir mais em educac’ão não significa formar mestres nem doutores, meu foco é no ensino pré-escolar, fundamental e médio; que foi o que historicamente negligenciamos neste país.

      • mansueto, o que pode ocorrer, seria que pessoas com curso superior empregadas em vagas e funções de segundo grau, por exemplo. Isso precisaria de observação, mas, de forma intuitiva dá para imaginar algo assim. Olhando a tabela da SAE de salários e classes, dá para imaginar que algo em tal sentido possa ocorrer.

  4. Com a economia do País migrando, nos últimos anos, para a primarização com concentração na área de commodities agrícolas e minerais, a indústria estagnou e, em muitos segmentos encolheu, eliminando vagas na área de profissionais de nível universitário e superior enquanto a antiga classe média continua procurando qualificar mais seus filhos na área de educação.

    Ao optar por uma economia centrada em atividades primárias tem sentido exigir maior grau de instrução da população e ver profissionais qualificados com salários estagnados? O que está errado: a sugestão de mais educação ou a opção econômica do País? Ambas são excludentes ou eu estou divagando? Que futuro aguarda nossa juventude inteligente e promissora sem empregos em setores como os conglomerados industriais que exigem este tipo de mão de obra mas estão sufocados com uma concorrência internacional que passa NECESSARIAMENTE por um câmbio desajustado em função de uma demanda explosiva de commodities da China e um FED com seus QEs que desvalorizam o dólar?

    • Tenho receio em classificar as atividaes de forma tão simples entre “primárias” versus “indústria”. Hoje muito do que se chama de commodities envolve o uso intensivo de tecnologia – extração de petróleo em águas profundas, soja geneticamente modificada, melhoramento da matriz genética do gado para exportação, etc.

      O Brasil é continuará sendo uma grande exportador de commodities. O efeito China ampliou fortemente nossa vantagem comparativa e isso tende a se agravar, inclusive por incentivos do próprio governo, ja que a forma de crescer mais rápido é aumentando investimento no que já temos.

      Agora mesmo com a China, há opções para se decidir o que se quer fazer. Por exemplo, se a sociedade achar que é ruim se especilizar em commodities é possível resolver o problema. O governo pode instituir uma carga tributária maior para o setor de commodities e diminuir sua rentabilidade, o que levará a uma mudança de preços relativos e, assim, a uma taxa de câmbio mais desvalorizada. Todo o ganho extra de tributação poderia ser revertido para desonerações na indústria.

      A questão toda é: a sociedade quer realmente isso ou continuar no equlibrio atual? Memso com China, o que fazemos ou deixamos de fazer depende de decisões doméstica e não deles. A china, na verdade, permitiiu que comprássemos produtos mais baratos e não consigo ver como isso pode ser ruim.

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