Entrevista do Ministro da Fazenda

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu uma interessante entrevista ao jornal folha de São Paulo neste final de semana (clique aqui). Tenho dúvidas quanto a algumas declarações do ministro e destaco três passagens da entrevista.

1) DEMANDA SEM FÔLEGO: “Acho isso quase uma piada. O endividamento das famílias brasileiras é dos menores do mundo. Sabe qual é o comprometimento de orçamento das famílias brasileiras [com o pagamento de dívidas]? Em torno de 20% a 22%. Sabe quanto é nos Estados Unidos? Na maioria dos países, é acima de 80%. Nós somos o lanterninha em termos de endividamento.”

Não é possível que uma família gaste 80% da sua renda com o serviço da dívida. Na verdade, o gasto com juros de uma família americana refere-se ao serviço da dívida com financiamento habitacional que alcança 31,5% da renda das famílias (clique aqui). E no caso de financiamento habitacional, esse tipo de divida está atrelada a um ativo que, em épocas normais, se valorizava ao longo do tempo.

Isso é bem diferente das pessoas se endividarem para comprar um carro que tem uma elevada depreciação e, a depender dos juros e da entrada na compra do veículo, em pouco tempo você pode acabar com uma dívida maior do que o valor do bem financiado.

Neste domingo o jornal Estado de São Paulo fez uma matéria sobre esse assunto baseado em estudo da MB Associados que mostra que o comprometimento com o serviços da dívida das famílias de baixa renda já é próximo de 30% da renda familiar e que, em muitos casos, essas dívidas foram contraidas para financiar a compra de um carro novo, que depois é vendido a preço de banana.

Ao que parece, o Ministro da Fazenda acredita que o espaço para aumentar o consumo via crédito ainda é enorme e por isso a cruzada para os bancos emprestarem mais à qualquer custo. Seria bom as pessoas lembrarem que, se não conseguirem pagar a escola dos filhos ou seus gastos com comida e vestuário porque compraram um carro novo, o Ministro da Fazenda não vai pagar a conta.

2) PLANO B PARA CRISE: “Nós temos todos os instrumentos para neutralizar…… A situação fiscal é melhor que em 2008. Temos já a expertise. Aprendemos em 2008 e 2009. Ali, a gente estava começando. Então, às vezes, demorava um mês, dois, para bolar uma medida. Agora somos muito rápidos.”

Isso, infelizmente, não é verdade e economistas do governo por diversas ocasiões já desmentiram essa tese do ministro. A situação fiscal de 2008 era muito melhor do que a situação fiscal atual. Em 2008, por exemplo, a despesa primária teve uma redução de 0,7 ponto do PIB (passou de 17,12% do PIB em 2007 para 16,42% do PIB em 2008), apesar do crescimento do investimento público de 0,82% para 0,93% do PIB.

O ano de 2008 foi um ano no qual a despesa de pessoal, previdência, gastos com subsídios e outras despesas de custeio caíram em relação ao PIB. A folga fiscal foi tão grande que o governo capitalizou o Fundo Soberano com R$ 14,2 bilhões, aumentou o investimento e ainda cumpriu o primário cheio. Adicionalmente, ao contrário de 2011, a arrecadação federal cresceu apenas 0,38 ponto do PIB e a receita líquida do Tesouro Nacional foi levemente reduzida.

Nada disso vale para 2011-2012. Quando se tem o cuidado de retirar a receita e despesa decorrente do processo de capitalização da Petrobras, o famoso truque contábil de 2010, a arrecadação federal passou de 22,41%, em 2010, para 23,91% do PIB em 2011; crescimento de 1,49 pontos do PIB. Infelizmente, esse crescimento tão forte da arrecadação não se transformou em um crescimento do investimento público, apesar de, recentemente, o Tesouro Nacional ter revisado o dado de investimento público de 2010 e 2011 (diminuiu o investimento de 2010 e aumentou o de 2011). Mas mesmo com essa revisão, a expansão do investimento público foi pequena (0,10 ponto do PIB) frente ao crescimento da receita.

Por fim, para aqueles que não se lembram, no inicio de 2008, o estoque dos empréstimos do Tesouro Nacional para o BNDES era de menos de R$ 10 bilhões. Esse valor, em fevereiro deste ano, já era de R$ 311 bilhões; o que significa que, ao contrário do que afirma ministro, o poder de fogo do governo federal pela via da expansão dos empréstimos do Tesouro para o BNDES também é mais limitado.

3) INFLAÇÃO EM 2012: Será menor que a do ano passado. Por enquanto, está na casa do 5,2%, 5,1%. No ano passado, foi 6,5%. Se ficar onde está, fica bom para nós.

O que significa esta frase do ministro que “se ficar onde está, fica bom para nós?” Acho que agora está claro que o governo não tem intenção de perseguir mais o centro da meta (4,5%). Para o governo, parece que uma inflação de 5% ou mesmo 5,5% ao ano não faz muita diferença. Resta saber se o Banco Central pensa igual ao governo federal.

Em resumo, não acho que haja espaço para o crescimento do crédito ao consumidor como o ministro fala (olhem o trabalho da MB Associados), a questão fiscal hoje é pior que em 2008 e o saldo dos empréstimos do  Tesouro ao BNDES já é muito elevado. Tudo isso significa que, mesmo com a recupearação do crescimento do PIB no próximo ano, o nosso ritmo de crescimento mudou de patamar (para baixo).

19 pensamentos sobre “Entrevista do Ministro da Fazenda

  1. Todos os pontos são relevantes, contudo destaco esta frase do ministro: “se ficar onde está, fica bom para nós?” Venho batendo nesta tecla há algum tempo. Se o Bacen ainda usa metas de inflação, essa meta não é 4,5%. Se consideramos o modelo de informação imperfeita de Lucas, o governo está usando o viés inflacionário para crescer no curto prazo. Contudo, os agentes não serão enganados para sempre, e perceberão que a meta não é 4,5%, talvez algo entre 6-7%, com isso o PIB não crescerá além de 2,5 – 3% (que é seu PIB potencial, devido a sua condição institucional). Outro fato importante é que o Bacen perdeu independência neste governo. O Mantega fala de assuntos monetários como se as decisões fossem tomadas no Ministério da Fazenda. Conquistas de 20 anos estão sendo jogadas no lixo.

  2. O percentual de 31,5% citado como sendo o serviço da dívida hipotecária como percentual da renda disponível nos EUA é na verdade o peso de moradia (shelter) no indice de preços CPI, e inclui aluguéis efetivos e inputados (no caso de proprietários). A série de serviço de dívida das famílias, hipotecária e outras, como percentual da renda disponível é publicada pelo FED, e atualmente está em 10,9%, sendo que o pico pré-crise foi de 14%, em setembro de 2007. Um conceito mais amplo de serviço de dívida, que inclui também leases de automóveis, aluguéis efetivamente pagos, seguro residencial e IPTU, está em 15,9% da renda disponível, e atingiu 18,9% no pico pré-crise. Os americanos são muito endividados, mas grande parte da dívida é hipotecária, de prazos muito longos, logo as amortizações mensais são pequenas, e juros baixos. O contraste com o Brasil é grande.

    • Ótimas explicações João Carlos. Obrigado. Esses seus dados reforçam ainda mais o ponto que queria fazer que o comprometimento do consumidor brasileiro com o serviço da dívida já é elevado. Vou olhar esses dados do FED. Como é que o ministro fala em 80%? Muito obrigado pelos dados.

      Mansueto

  3. Talvez por acreditarem terem criado o Brasil “do nada” em 2003, não temem qualquer reação em consequência de suas ações. Fica cada vez mais difícil saber se perseguem metas de inflação.
    Se for, seria para cima.
    E quem teria mudado o mandado do BC, que seria o de trazer os preços para o centro da meta de 4,5%?

  4. Outro aspecto que chama a atenção é a fala de “…em 2008 e 2009, estávamos aprendendo…”.
    Oras, na época o discurso era de que o Brasil teria sido “o último a entrar na crise e o primeiro a sair dela”.
    Até recomendações de como sair da crise foram dadas aos países desenvolvidos. Assim, como pode agora falar de “aprendizado” se davam a entender que entendiam tudo e tinham a saída?

    Ademais, deveriam ter tido e apreendido, antes, um grande conhecimento, considerando tudo o que ocorreu na economia brasileira até 1994.
    E depois, já com o Real e os mecanismos de política fiscal e monetária, incluindo o câmbio.

  5. Prezado Mansueto e colegas economistas.

    Nem perco mais meu tempo tentando interpretar entrevistas dadas por ministros, secretários de fazenda, presidentes de Banco Central, etc. Como vcs mesmos constataram, tratam-se de raciocínios falaciosos, que não se sustentam com uma ida ao supermercado. Basta um passeio ao comércio e breve leitura de estatísticas industriais para constatar que os preços estão em alta, mas teimosamente e contrariando a lógica economica, a taxa de juros, que decorre do excesso de gastos de governo desprovido de poupança interna, teima em baixar.

    eh, o Banco Central anda tão independente, mas tão independente, que nem sequer se dá ao trabalho de respeitar a lei da oferta e da procura…e enquanto isso os bancos, montadoras, etc seguem tomando bronca…Daqui a alguns meses, quando surgirem novas estatísticas, veremos quem tem razão, se o mercado ou as autoridades responsáveis pela política economica. Aposto no primeiro.

    • Olha, bergenriise, não dá para saber qual o grau de influência do Executivo sobre o BC. E até não sabe-se se seria bom que se soubesse, mesmo. Porém, até medidas institucionais em contrário, o BC goza de autonomia operacional, mandado para levar a inflação para o centro da meta de 4,5%, quando esse limite for ultrapassado. Ou para menos de 4,5%. Se a inflação estiver no acima do centro da meta ou no topo do intervalo e o BC não agir, seria necessário que, institucionalmente, fosse explicado essa mudança do mandado, o que não ocorreu até agora.

  6. Qual o grau de risco que uma quebra do BNDES representa ? Tendo em vista que ele tem feitos investimentos pouco ortodoxos, poderia eles comprometer a economia nacional ?

  7. FORA DO CONTEXTO:
    A turma do IPEA deveria fazer um apelo respeitoso á presidente Dilma para que a presidência do órgão fosse ocupada por um nome técnico (se possível do próprio IPEA). Os nomes falados são de envergonhar a profissão.

  8. Meus caros,
    Outro ponto que estamos distantes de 2008 (e bastante grave) se refere a nossas contas externas. Já estamos com 3% de déficit externo (e tinhamos superávit em 2008). Qualquer turbulência externa nos atingiria em cheio (e teríamos, uma vez mais, uma boa crise a qual já vimos milhões de vezes).
    Saudações

  9. Mansueto

    Miriam Leitão comentou na CBN a mesma entrevista. Ela deixa ao final um alerta, que complementa o seu post:

    “Nos EUA, as dívidas são mais longas e mais baratas; mesmo assim, acabaram de passar por uma crise de superendividamento.

    As famílias têm de ter cuidado ao assumirem dívidas, porque consumirão parte da renda e há outras contas para pagar todos os meses.”

    Íntegra do comentário no blog dela

    Dívida: cálculos distintos, mesma conclusão. Tenha cuidado

    http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2012/05/28/divida-calculos-distintos-mesma-conclusao-tenha-cuidado-447655.asp

  10. No final, nao entendi se o endividamento do americano esta em 15% ou 31 % … Por fim, alguem tem alguma idéia de onde surgiu o numero 80% pro Ministro ??

    • Mario,

      o número correto, quando não se computa o pagamento de aluguéis, é de 17,56% da renda disponível no terceiro trimestre de 2007. Esse valor refere-se ao “financial obligation ration (FOR)” que inclui os gastos das familias americanas com leasing de automóveis, dividas para consumo, finaciamento habitacional, seguro residencial e impostos s/ propriedade.

      Se incluirmos o pagamento de alugúeis além do pagamento das familias com hipotecas (casa própria), o endividamento de uma familia americana chegou no máximo de 18,85% da renda disponível no segundo trimestre de 2007.

      Essas duas estatíscas são semelhantes ao comprometimento da renda das familias brasileiras com dividas, que é de 18,5% da renda disponivel (2008/09) pelo calculo do BACEN. Mas um dado mais amplo, calculado pela MB Associados, inclui a dívida dos consumidores com cartão de crédito de pagamentos à vista e vendas de lojas à prazo sem vinculo com instituições financieras, chega a um número acima de 25% da renda disponivel para todas as classes de renda.

      Em resumo, as familias brasileiras já comprometem com o serviços e pagamento de dívidas mais do que as familias americanas antes do agravamento da crise financeira lá.

      Fonte dos dados do endividamento das familias americanas:
      http://www.federalreserve.gov/releases/housedebt/default.htm

    • O ministro pode ter-se enganado com os números. Impossível crer que não soubesse o que está posto aqui. Além do que, deve ser muito bem assessorado ao dar entrevistas.

Os comentários estão desativados.