Consumo, crédito e crescimento

Tenho certeza que alguém já deve ter escrito sobre esse assunto. Mas como tenho escutado vários professores de economia afirmarem que o Brasil pode continuar crescendo puxado pela combinação de crescimento do crédito e do consumo, achei por bem escrever rapidamente sobre o assunto.

O saldo total dos empréstimos do sistema financeiro no Brasil atingiu R$ 2,07 trilhões, ou 49,3% do PIB em março deste ano. Desse total, R$ 665,3 bilhões ou 15,8% do PIB correspondem ao saldo dos empréstimos (recursos livres) para pessoas físicas – crédito para consumo. Do inicio de 2006 até março de 2012, o crédito total do sistema financeiro como % do PIB passou de 28% para 49,3% do PIB.

Gráfico 1 – Saldo dos Empréstimo do Sistema Financeiro – Brasil – % do PIB – 2002- março/2012

Fonte: Banco Central

Esse forte crescimento do crédito, mais o crescimento das transferências de renda do governo para as famílias e crescimento da massa salarial explicam o forte crescimento do consumo; o que muitos chamaram de “modelo brasileiro”. Mas será que existe mesmo um modelo brasileiro que poderia ser replicado em outros países?

Países (com recursos ociosos) podem crescer por muito ou algum tempo impulsionado pela expansão de crédito e por maiores gastos do governo, ainda mais um país como o Brasil cujas exportações cresceram impulsionadas pelo crescimento de preços das commodities. Mas esse tipo de crescimento tem limites.

A última edição da revista “foreign affairs”, por sinal, traz dois artigos interessantes sobre esse limite do crescimento via expansão do crédito e consumo. Um deles do Raghuram Rajan (clique aqui) trata do problema do excesso de endividamento nos EUA, que na opinião do economista, professor de Chicago:

Politicians sought to boost consumption, hoping that if middle-class voters felt like they were keeping up with their richer neighbors—if they could afford a new car every few years and the occasional exotic holiday—they might pay less attention to the fact that their salaries weren’t growing. One easy way to do that was to enhance the public’s access to credit.”…Cynical as it may seem, easy credit was used as a palliative by successive administrations unable or unwilling to directly address the deeper problems with the economy or the anxieties of the middle class.”

Um versão resumida da tese do economista pode ser lida (clique aqui) na entrevista das páginas amarelas da revista Veja em maio.

O outro artigo interessante da “foreign affairs” (Bearish on Brazil: the commodity slowdown and the end of the magic moment – clique aqui) é assinado por Ruchir Sharma e trata especificamente do Brasil que, na opinião do economista do Morgan Stanley, teve seu crescimento recente explicado, principalmente, pelo boom de commodities (ele deu entrevista no dia 14 de maio para a Folha de São Paulo – clique aqui).

É difícil falar em modelo brasileiro quando se tem em conta três fatores. Primeiro,   o crescimento mais rápido do Brasil não foi uma excepcionalidade quando comparado com outros países da América do Sul como mostra a tabela abaixo do crescimento do PIB em alguns países da América do Sul. Todos esses países foram favorecidos pelo boom de commodities, independentemente do número e da intensidade de reformas.

Índice Acumulado do Crescimento do PIB (2002 = 100)

Fonte: Banco Mundial.

Segundo, é difícil falar em “modelo brasileiro” quando se tem em mente que temos a maior carga tributária entre os países em desenvolvimento que não aumentou nossa capacidade de crescimento; já que essa a maior carga tributária foi utilizada para financiar maiores gastos sociais (inclusive previdência) e não para aumentar o investimento.

Terceiro, o forte crescimento crédito que acompanhou a expansão do consumo e boom de commodities tem limites. No nosso caso, apensar do saldo dos empréstimos ser de apenas 49% do PIB, o crescimento nos últimos anos foi particularmente expressivo – acima de 20% ao ano em vários anos.

Crescimento Anual dos Saldos dos Empréstimos do Sistema Financeiro

Fonte: BACEN

É bom que haja expansão do crédito e ainda há espaço para o crescimento do credito no Brasil (% do PIB); pois o saldo de empréstimos do sistema financeiro de 49% do PIB  ainda é baixo relativamente a outros países. No entanto, em outros países, a maior participação do saldo dos empréstimos (% do PIB) está ligado ao financiamento habitacional.

O saldo dos empréstimos imobiliários no Brasil era, em março de 2012, R$ 201,4 bilhões ou 4,79% do PIB. Em vários países desenvolvidos, por exemplo, o financiamento habitacional representa mais de 50% do PIB (ver tabela abaixo) e esse foi o tipo de créditro com forte expansão desde 1998.

Tabela – Financiamento Imobiliário – % do PIB

Fonte: FMI, 2011: Residential Mortgage Debt to GDP Ratio.

Assim, quando se fala que ainda há espaço para a forte expansão do crédito no Brasil não é exatamente crédito para consumo, mas sim crédito imobiliário, pois neste caso somos uma anomalia (saldo dos empréstimos inferior a 5% do PIB). E mesmo para esse tipo de crédito, a sua expansão nos países desenvolvidos foi exagerada e está na raiz da crise financeira atual.

Em resumo, não acredito na tese de que a simples expansão do crédito à juros menores seja suficiente para garantir pelos próximos dez anos o mesmo crescimento que tivemos no período recente (4,4% ao ano de 2004 a 2010).

Como tentei mostrar aqui, nosso crescimento recente está ligado ao crescimento dos preços de commodities que favoreceu não apenas o Brasil mas vários outros países da América Latina, ao crescimento das transferências do governo para as famílias que teve a contrapartida de uma elevada carga tributária que começou a atrapalhar o crescimento e forte expansão do crédito que não é desejável que se mantenha no mesmo ritmo ao longo dos próximos anos.

O modelo brasileiro baseado na forte expansão do consumo de fato funcionou entre 2004 e 2010. Mas esse modelo parece ter atingido o seu limite e, agora, crescimento da produtividade, aumento do investimento (público e privado), investimento em educação e maior esforço de inovação passarão a ser mais importantes para o crescimento sustentável.

O  ponto chave é: será que há um mínimo de consenso quanto a esse diagnóstico ou a grande maioria ainda acha que basta turbinar ainda mais os bancos públicos e expandir as transferências de renda para que o país volte a crescer perto de 4,5 % ao ano?

17 pensamentos sobre “Consumo, crédito e crescimento

  1. Boa colocação. Esse modelo de crescimento através do consumo chegou ao fim. Na verdade o desfio é aumentar o investimento, mas esse governo está interessado no curtissimo prazo, a política de incentivo a compra de veículo é absurda. Olham para a demanda sem dar a menor atenção para a oferta. Outro problema é o nível de crédito do Brasil, que chegou ao seu limite. Mesmo sendo relativamente baixo, não deve ser comparado com outros países, pois nossos empréstimos são de curto prazo e com juros altos. Os avanços vão gerar inadimplência.

    • Celso, sem duvida nas atuais circunstâncias, não podemos ter o mesmo nível de endividamento de outros países. Concordo com você. O que queria destacar, adicionalmente, é que, mesmo nesses outros países, a expansão do crédito para pessoa física é um tipo específico: financiamento habitacional.

      Aqui no Brasil, tem-se a impressão que algumas pessoas acham bom os consumidores gastarem 30% da sua renda com pagamento de carros financiados e outros bens duráveis.

      No nosso caso, alguns analista já fizeram a comparação e mostram que o endividamento das familias para consumo – por volta de 15% do PIB – já é semelhante aos EUA. A diferença entre os dados de crédito para pessoa física é financiamento habitacional, que será um tipo de crédito que deverá crescer ao longo do tempo no Brasil.

      Mas se o governo quiser utilizar o crédito como instrumetno de expansão forçada da demanda (mesmo o habitacional), acho que coisa desanda e no final tereos mais inadimplência e inflação.

  2. Nos EUA há o índice affordability que tem o objetivo de mensurar se os preços dos imóveis cabem no bolso dos cidadãos. Desconheço se tem esse índice para o nosso mercado. De qualquer forma, me parece que com a expressiva valorização dos imóveis eu tenho as minhas dúvidas sobre as perspectivas de expansão do crédito imobiliário.

    Mansueto, você poderia nos dizer qual é o endividamento total sobre o PIB brasileiro, governo, famílias e o setor corporativo?

    Essa métrica é muito usada em textos lá fora sobre a capacidade de endividamento em uma economia. Mas interessante é que quando se levanta essa questão muitos analistas não abordam o problema do serviço das dívidas. Ou seja, não me parece ser tão simples comparar o percentual do endividamento total (para se ter uma ideia sobre os limites) sem levar em conta os juros, ou seja, o que pesa nos orçamentos de cada categoria.

    Abraços

    • Eu não conhenço algo como o indice affordability que você cita para o caso Brasil. Neste domingo, o Estado de São Paulo fez uma matéria baseado em estudo da MB associados no qual mostra que o comprometimento da renda das familias (classe C, D e E) com o pagamento de dividas está perto de 30% da renda mensal. Como essas familias de mais baixa renda gastam entre 65% e 70% de suas rendas com a manutenção básica, o limite de endividamento estaria próximo do esgotamento.

      No caso do crédito imobiliário, não é que eu espere um forte crescimento em um, dois ou três anos. Mas essa deverá ser a tendência normal se fizermos o dever de casa. Em uma sociedade mais estável é normal que haja expansão do crédito imobiliário – se houver segurança quanto ao valor das prestações e o prazo de finacimento for longo.

      No caso do total da dívida (governo, familias e corportaivo) podemos fazer uma proxy da dívida bruta. Pelos dados de empréstimo do setor financeiro, temos que o saldo dos empréstimos do setor financeiro para famílias em março de 2012 foi de R$ 970,4 bilhões (23,1% do PIB) e para pessoas juridicas foi de R$ 1,1 trilhão (26,2% do PIB). Neste mesmo mês, a divida bruta do setor público era de R$ 2,4 trilhões (56,3% do PIB) – e aqui não estou incluindo os titulso públicos na carteria do Banco Central que entra na estatistica dos outros países.

      O total da divida bruta (pessoa fisica, pessoa juridica, e governo) seria então de 105,6% do PIB. Esse é um número aproximado.

      O Banco Mundial tem uma estatistica (Domestic credit provided by banking sector) no qual soma o saldo do crédito (bruto) do sistema financeiro para o setor privado mais o saldo do crédito líquido para o governo. Em 2010, o dado para o Brasil era de 97,7% do PIB; ante 74,5% do PIB em 2005.

      Por essa estatistica do Banco Mundial, temos um crédito total do sistema financeiro para pessoa fisica, juridica e governo maior que Chile (90,3% do PIB); Colombia (65,6% do PIB); México (45% do PIB) e Uruguai (32,4% do PIB) entre outros.

      Assim, como você, acho que não haja muito espaço para expansão do crédito. Nossa dívida não é pequena e o crescimento do financiamneto habitacional é algo que vejo mais como resultado do crescimento do que como indutor.

  3. KB,
    Creio que a dívida pública total (interna e externa, pública e privada, garantida pelo governo) deve andar por volta de 60 a 65% do PIB, e o Mansueto poderá confirmar ou não os seus números exatos e participação no PIB.
    Mas não vejo a magnitude absoluta da dívida total como um problema em si, mas sim o seu perfil e o seu financiamento.
    O Japão, por exemplo, possui uma das dívidas mais elevadas do mundo, com algo perto de 240% do PIB.
    As grandes diferenças em relação ao caso brasileiro (e a vários outros) sao estas: (a) essa dívida japonesa é inteiramente financiável internamente, ou seja, com poupança local, sem qualquer dependência externa de fluxos de capitais; (b) seu custo é baixíssimo, pois os japoneses consentem em emprestar para o governo a uma taxa inferior a 2% (e talvez mesmo a menos de 1%); (c) ela é de longa maturação
    No caso do Brasil o governo tem dependencia da poupança interna E externa, prazos mais curtos e custo altíssimo, o que torna mesmo uma dívida inferior a 60% do PIB (critério de Maastricht) um peso enorme para as contas nacionais, já que seu serviço representa a maior rubrica no orçamento anual, em detrimento dos investimentos e outros gastos sociais.
    Uma loucura que os dirigentes econômicos, desde longas décadas, ainda não se decidiram equacionar…
    Na verdade, o Brasil sempre padeceu em razão de dois déficits: o fiscal e o de transações correntes. Acho que caminhamos para os dois, mas não sei dizer qual virá primeiro…
    Paulo Roberto de Almeida

    • Paulo Roberto,

      Tens toda razão quando apontas para o custo do financiamento da dívida. Pagamos juros muito altos e os prazos de financiamento são muito curtos.

      Mesmo para alongar a divida, o governo está fazendo isso parcialmente, utilizando NTNs que são titulos indexados à taxa de inflação. As pessoas ainda não tem confiança para comprar um titulo de prazo muito longo à juros pré-fixados.

      Os títulos de prazo mais longo (180-190 meses) lançados pelo Tesouro são NTN-B que pagam inflação mais uma taxa entre 4% e 5% ao ano. Estamos longe da situação confortável dos EUA que, mesmo com a crise, vende titulos com vencimento em 30 anos à uma taxa de juros pré-fixada de 2,8% ao ano.

  4. Pingback: Consumo, crédito e crescimento « Blog do Mansueto Almeida | Info Brasil

  5. Paulo

    Bem colocado. No caso do Japão eu sabia, através de um relatório da McKinsey de 2010 (dados de 2008) que de 93% é financiado internamente e que o total girava em torno de 469%.Todavia, o Japão – em parte pelo efeito do tsunami – teve os seus primeiros deficits em conta corrente com volume maior de importações de combustíveis. Se a matriz energética mudar por lá o Japão poderá entrar na mira dos investidores. Já li gente com os holofotes sobre o Japão.

    Quanto ao percentual total do endividamento você expressou o que eu deixei subentendido. Qual seja, o limite de endividamento em nosso país deve ser bem inferior ao de muitas economias desenvolvidas devido à taxa de juros mais elevada.

    No mesmo relatório a McKinsey falava em dívida brasileira total (família, governo e corporações) de 142% em 2008. Certamente esse percentual aumentou, se é que o número é verossímil.

    Abs

    • Achei esse número de 142% muito elevado. Mas no dado que citei acima e aquele do do Banco Mundial, em ambos, a divida é aquela das pessoas fisicas e juridicas junto ao setor financeiro e a divida publica, bruta no meu caso e liquida no caso do Banco Mundial.

    • Sem dúvida. Sempre que alguém me fala da importância do salário mínimo para o crescimento; eu sempre pergunto qual país consegiu crescer de foma sustentável porque tinha uma política mais agressiva de crescimento do salário mínimo?

      Nunca ninguém me respondeu a essa pergunta. No fim, o que prevalece são os fundamentos.

  6. Boa tarde!
    Tenho uma certa intolerância para digerir o método de transferência de renda.
    Se uma das fontes desta transferência é o alto imposto:
    -o imposto tira o consumo ou economia (poupança) de A e desloca para B, não vejo nenhuma vantagem nisto pelo contrario, se uma parcela da população economiza e deposita na poupança o Brasil poderia financiar sua divida com recursos internos, como já dito nos comentários acima.
    -li recentemente que só no primeiro trimestre deste ano a inadimplência do setor automotivo chegou a R$10 bi.
    -O governo avalia a possibilidade de limpar os balanços de alguns bancos públicos com uma operação de transferência de créditos “podres” para a Empresa Gestora de Ativos (Emgea). Quando um governo pune o consumidor responsável, quando um governo promove a qualidade de educação para suas crianças como temos no Brasil, fica difícil de ser otimista. abs

    • Compartilho de suas preocupações, apesar de eu achar que programas de transferência de renda como o bolsa failia são programas bons e que a recuperação do salário minimo foi uma opção legítima da sociedade. O problema é que, apesar de conhecer o mérito das politicas sociais, talvez tenhamos exagerado em algumas coisas como na regra de indexação do salário mínimo.

      A questão toda é que, transferencia de renda, é uma política com resultado imediato e investimento em saúde e educação são investiemntos cujo retorno é mais disperso e aparece no longo-prazo. Vamos ver se os eleitores mudam a sua preferência e passam a se preocupar mais com saúde e educação ao invés da política de valorização do salário mínimo.

  7. Obrigado pela resposta. Voce poderia, algum dia, fazer uma analise das leis trabalhistas da Alemanha em comparação com as brasileiras?

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