Notícias que merecem uma profunda reflexão

Tenho uma imensa dificuldade de entender notícias recentes nos jornais que são divulgadas como normais quando, na verdade, são coisas absurdas em um país que se propõe a ser uma estrela no mercado internacional. Cito três exemplos desta semana.

1) Preços do hotéis no Rio para a conferência Rio + 20 (Valor Econômico)

Segundo informação do Valor, “a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ) fechou nesta quarta-feira acordo com o governo federal para reduzir de 25% a 60% o custo da hospedagem durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20…..A redução nos preços foi possível pela diminuição da comissão da empresa Terramar, contratada pelo Itamaraty para intermediar as reservas, e pelo fim da exigência dos hotéis de vender somente pacotes fechados de no mínimo sete dias.”

Como é que uma única empresa tem o poder de afetar o preço de todos os hotéis no Rio de Janeiro por causa da sua comissão? Isso deveria ser investigado inclusive se essa empresa tomou atitudes para limitar a concorrência junto aos hotéis.  Será que quando for ao Rio de Janeiro da próxima vez devo falar antes com o Ministério do Turismo para conseguir uma diária melhor para mim?

2) O pedido das montadoras: socorro, governo (Estado de São Paulo)

Li na edição de terça-feira do jornal O Estado de São Paulo que “as montadoras pediram ao governo mais pressão sobre os bancos para liberação de crédito e medidas para ajudar a reduzir os estoques de caminhões acumulados nos pátios. Para o setor, os bancos ainda estão muito rigorosos na aprovação de financiamentos, por causa da taxa recorde de inadimplência desde o fim de 2011.

Alguém teve o trabalho de pensar (um pouquinho) e perguntar ao presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Cledorvino Belini, por que as montadoras não se endividam e repassam os recursos para que a rede de concessionárias aprovem empréstimos baratos para todo mundo?

Será que agora quando eu for trocar de carro devo procurar também o governo para me ajudar no desconto que consigo junto as as concessionárias de automóveis?

3) Queda de juros causa atrito entre Banco do Brasil e Caixa (Folha de São Paulo)

A Folha de São Paulo publicou no último domingo (13 de maio de 2012) que “Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal passaram a trocar farpas nos bastidores e protagonizaram uma “corrida” pelo posto de líder no corte de juros, com anúncios seguidos de reduções. Segundo a Folha apurou no governo, o BB acusa a Caixa de ser agressiva demais e assumir risco excessivo com os cortes de juros em suas principais linhas de crédito.”

Só faltava essa. Os dois bancos públicos trocando farpas entre si para ver qual dos dois agrada mais a Presidenta e, no final, se eles fizerem tolice, nós (contribuintes) que pagaremos a conta. O Banco do Brasil, ao contrário da CEF, precisa agradar aos seus acionistas e captar recursos no mercado para suas operações.

A CEF é um banco 100% público e, assim, por definição, sempre poderá trabalhar com taxa de juros menores que o Banco do Brasil e mesmo que qualquer outra grande banco.  Mas seria ótimo que esses bancos se preocupassem em não perder dinheiro público e que fizessem o que se espera deles: emprestar dinheiro para pessoas físicas e jurídicas que tenham ainda capacidade de endividamento.

Será que no meu próximo empréstimo no Banco do Brasil devo antes ir à CEF e dizer (ao gerente do Banco do Brasil) que o gerente da CEF me disse que os gerentes do BB são capitalistas e gananciosos?

Ainda bem que nesta quinta-feira vou me reunir com a missão do FMI que está em Brasília, porque depois de uma semana lendo e escutando coisas tão absurdas, preciso relaxar e participar de diálogos interessantes.

24 pensamentos sobre “Notícias que merecem uma profunda reflexão

  1. Pra que contratar uma empresa para intermediar reserva em hotel? É tão fácil reservar um hotel em qualquer lugar do mundo via internet. E, se a empresa foi contratada, deveria reduzir e não aumentar o valor das diárias pela sua negociação em bloco.
    Segundo ponto: hotel adora escalpelar seus clientes. Nos feriados prolongados é a mesma coisa, basta a procura aumentar e eles passam a fixar exigência mínima de permanência. Falta concorrência e proteção ao consumidor. Se eu quero ficar apenas 1 dia no hotel tenho este direito.

    • E isso, porque a Rio + 20, é para cuidar da ecologia, discutir medidas para salvar o mundo do efeito estufa e evitar a concretização da profecia maia.

      Só o bolso de quem veio discutir como salvar o mundo, parece não ter qualquer chance de salvação.

      Devem ser bolsos não ecológicos, não sustentáveis, não biodegradáveis…

  2. Pelo que li os bancos das montadoras também estão tendo o mesmo comportamento dos demais bancos privados: redução nos valores e prazos de financiamento em virtude da inadimplência recente. Comportamento natural. Vão jogar este abacaxi na mão dos bancos estatais.

  3. Sou acionista do BB e já estava preocupado com possíveis perdas no futuro devido à inadimplência mas estou mais calmo. Parece que os créditos podres dos estatais (BNDES, B.Nordeste,CEF e BB) vão ser transferidos para um órgão estatal que eu nunca havia ouvido falar: Empresa Gestora de Ativos (Emgea). É a tia Dilma atendendo todos os segmentos sociais: para os pobres, o Bolsa Família, para os ricos, o Bolsa BNDES, e agora para a classe média endividada o Bolsa Emgea.

    • Depois vou pesquisar um pouco mais sobre esse empresa e de que forma essas transferencias afetam a despesa primária (se afetam).

  4. Mansueto, na sua reunião com o FMI veja se eles não precisam de um pouquinho de dinheiro do Brasil para atender os caloteiros do mundo.

      • Melhor ver se eles, o FMI, não têm algum DES para aplicar nessa tal de Emgea…Uma vez que a ação Brics para capitalizar o FMI e resolver os problemas da Europa desmilinguiu, quem sabe a Ana Maria Juhl, atual, não tenha algo para ajudar a Fazenda daqui. Impressionante e desculpe a brincadeira.

  5. Meu caro,

    vc estava indo bem, concordei com boa parte dos seus argumentos. Mas por que finalizar com esse elogio ao corpo técnico do FMI? Não tem ninguém no Brasil, ou no Estado, ou na academia, que esteja no seu nível de “interesse”? Vc é tão melhor assim que os outros?

    • Fernão,

      há várias pessoas interessantes aqui no Brasil nas empresas, academia, órgãos públicos, etc. e muitos deles MUITO melhores do que eu. Eu não acredito que pessoas sejam melhores ou piores que outras. Todos têm habilidades diferentes e não acredito em títulos. OU seja, não sou melhor do que os outros.

      Eu sempre aprendo com meus amigos ainda mais quando discordo deles. O problema não são as pessoas, mas comigo que fiquei a semana toda lendo e escrevendo sozinho na minha sala no IPEA e não participei de nada interessante ao longo da semana. Assim, o primeiro debate que vou ter a chance de participar nesta semana será com o pessoal do FMI, que são profissionais como eu e você.

      Assim, acho que você me interpretou mal. O que faço todos os dias é justamente tentar estimular o debate e pago um preço pessoal caro por isso. Assim, quando falei que estava contente de encontra a missão do FMI não é porque sejam do FMI, mas é porque são pessoas que vão querer discutir. Teria o mesmo estimulo se fosse um encontro com um grupo de estudantes no Ceará (minha terra natal) ou no Piaui ou de qualquer outro estado no Brasil.

      • mansueto, foi perfeitamente entendido seu raciocínio sobre os interessantes.

        Seria realmente desinteressante, a meu ver, ficar ouvindo a Fazenda dizer que o US$ alto é bom para a indústria e que a moeda dos EUA é flutuante, assim, sobe e desce.

        E lembrar que, não faz muito tempo, dizia que o US$ baixo ajudava o Brasil, pois poderia ajudar no controle dos preços. E que o câmbio flutuante ora sobe e ora desce.

      • Mansueto: A verdade é que a turma do FMI de fato é competente (eu gostaria de participar do evento). Desconhecer isto é preconceito e recalque. Todos? Claro que não. Em todo lugar tem cabeças de bagre. Seus textos continuam interessantes e motivando o pensar. Continue firme e forte.

  6. Ridículo…

    Se separaram Estado de religião, por que não separam Estado de economia?

    Em breve vamos pagar a conta por causa dessas ‘políticas’.

    • Não seria de todo mal.
      Isso, caso o Estado, fizesse o que deve fazer em termos de regulação, parcimônia e eficaz na provisão de bens públicos.
      Cumprido isso, tudo bem.

  7. Mansueto:

    Adorei o comentário:
    “Eu sempre aprendo com meus amigos ainda mais quando discordo deles.””
    Esse país precisa de mais debates abertos, francos e menos “consensos” incapacitantes.
    Quando aprenderemos a conviver com a discordância de forma civilizada?

  8. Paulo Simões

    A Emgea foi criada no final do governo FHC para dar solução ao problema de milhares de contratos de financiamento imobiliário (SFH) com origem nos anos 80. Contratos de crédito imobiliário da Caixa Econômica Federal foram transferidos para Emgea (criada por MP em agosto de 2001). Com essa medida, técnica e socialmente correta a meu ver, FHC e Malan promoveram uma bela limpada de área.

    As pajelanças econômicas perpetradas nos governos Sarney e Collor levaram milhares de mutuários à situação de insolvência. A medida também tinha como alvo a solução para os milhares de contratos de gaveta. Havia milhares de ações movidas por mutuários que questionavam na justiça as dívidas atreladas ao imóvel financiado. Enfim, foi uma medida para dar solução e, principalmente, tirar esse “esqueleto” dos bancos públicos.

    O problema gerado pelo aumento nos valores das prestações que não amortizavam o saldo devedor era o principal a ser resolvido. Não era incomum o saldo devedor exceder à larga o valor do imóvel e as prestações subirem além da capacidade de pagamento do tomador do empréstimo. Enfim, a medida inseriu-se naquele conjunto saneador (e como sabemos, em economia não existe almoço grátis. Nós, os contribuintes, pagamos a conta) que visava dar solução para a bagunça financeira em que nos enfiamos nos anos 80 e 90. Não sei se a lei que criou a Emgea também beneficiou outros devedores (BNDES e empréstimos rurais)

    O fato é que a Emgea foi criada para dar solução para um problema específico (créditos podres dos bancos público com origem no SFH) e com origem em um passado complicado. A ideia era, portanto, restrita a distorções do passado anterior ao Plano Real. O que querem fazer agora me parece ser a transmutação da Emgea em maravilha curativa. Algo como as populares garrafadas de ervas vendidas por camelôs farmacêuticos que prometem curas milagrosas para dor de corno, espinhela caída etc.

    O que parecem querer fazer agora é completamente o contrário da ideia original, isto é, querem ativar a Emgea para dar solução a um problema cuja origem é outra e bem mais recente: a capitalização da CEF.para continuar emprestando, por exemplo.

    Essa iniciativa parece ser mais uma daquelas que poderíamos incluir no rol da contabilidade criativa ativada ao bel prazer do atual governo.

    Não sei quem no governo lançou agora na roda essa maluquice com ares de pajelança Li que a ideia não foi bem recebida no MF (a Emgea é subordinada ao MF). Mas desse governo eu espero tudo e não duvido de mais nada.

    Essa das montadoras exigirem que os bancos ofereçam crédito fácil para quem quiser é digna do bordão do Silvio Santos: “quem quer dinheeeeeiro?”
    E isso depois das montadoras conseguirem emplacar as medidas protecionistas contra os importados.

    • paulo araújo, matou a pau.

      Mais uma medida que foi tomada para sanear e fortalecer a estabilização da economia, agora passa a ser uma forma de realizar política clientelista.
      E depois poderão dizer que foi tudo por culpa de FHC, em cujo governo foi criada a empresa.
      Isso se a pajelança não der certo.
      Pois, se der, o que será muito difícil, ai será trombeteado como uma genial ideia do governo atual.

  9. Estarei publicando essa observação no twitter do meu site, e também no facebook,pois como trablaho representando empresas na area de reservas de hoteis na internet, fico preocupado com os preços praticados nesta cidade, será onde irão parar os preços nos eventos que estão por vir? é certo que o governo tem de intervir para que se pratique um preço justo para Hoteis no Rio de Janeiro

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