Cuidado com a “escada do desenvolvimento”

Quem chutou a escada do desenvolvimento? Foi algum “gringo rico” ou foi um brasileiro?

Acabei de receber o power point da apresentação do professor Ha-Joon Chang na FIESP na terça-feira desta semana. É uma apresentação de 33 slides com a defesa de várias teses polêmicas, muitas das quais sugerem, a meu ver, implicações equivocadas.

O leitor tem uma clara e nítida impressão que o Brasil de hoje é pior do que o Brasil dos anos 70. Por que? Bom, porque a participação da indústria no PIB caiu e, assim, estamos condenados a ser um país de segunda classe se não modificarmos, radicalmente, a nossa política macroeconômica e “salvarmos a indústria”.

Pergunto ao leitor. O Brasil seria um país melhor hoje se a participação da indústria no PIB fosse de 23% e não de 14,6% do PIB? Acho impossível ter resposta para esse pergunta sem o uso (abusivo) de hipóteses heróicas.

As comparações com a Coreia são interessantes, mas passa a impressão que se tivéssemos feito o “dever de casa” – incentivado a produção e exportação de produtos de elevado conteúdo tecnológico- seríamos hoje o país do “presente” e não o país do futuro. Neste caso, não consigo entender porque Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Itália, Chile, etc. que não são grandes exportadores de eletrônicos conseguiram se desenvolver.

Na opinião do professor Ha-Joon Chang, o Brasil passa por um claro processo de desindustrialização e o nosso erro comparado com a Coreia foi que:

“Korea has  a broad range of world-class industries (e.g., semiconductors, display, mobile phones, shipbuilding, automobile, steel)  and high innovative capabilities (no. 3 in the world, after Japan and Taiwan, in terms of the number of US patents acquired per year per capita); Brazil has great industrial potentials, but has achieved world class only in a few limited areas (EMBRAER and Petrobras) and, more importantly for the longer term, does not have high innovation capabilities.”

Em nenhum momento ao longo da apresentação (o que não é surpresa) se fala de duas coisas fundamentais do crescimento coreano, além é claro da política industrial: (1) a reforma agrária no país, o que significa que a Coreia fez política industrial partindo de uma desigualdade de renda muito menor que o Brasil; e (2) o esforço de investimento em educação em conjunto com o esforço de política industrial.

Há várias coisas interessantes na apresentação, mas o que discordo dele é achar que um país com tanta riqueza em produtos naturais precisaria seguir o modelo coreano e ser um grande exportador de produtos manufaturados. A propósito, hoje a exportação de produtos primários como “soja” tem por trás anos de pesquisa e inovação. Se você duvida disso, sugiro visitar a Embrapa.

Queremos promover a indústria? Claro é bom para o crescimento da economia de um país ter uma indústria inovadora e competitiva. Mas dessa afirmação tirar a conclusão que precisamos ter uma meta de participação da indústria no PIB ou de “manufacturing value added per capita” é um pouco demais.

Por fim, na conclusão de sua apresentação o economista fala que:

“Brazil needs to arrest its industrial decline. In the short run, this requires a radical change in macroeconomic policy, but in the longer run, Brazil’s industrial renaissance cannot be engineered without a new, more aggressive industrial policy. Without these policy changes, Brazil’s will forever remain the country of tomorrow.”

OK, mas exatamente qual tipo de política industrial? Promover grandes empresas em setores que já somos competitivos ou promover mais inovação? Proteger mais o mercado para permitir que empresas domésticas aumentem o preço dos seus produtos (e logo mais inflação) ou aumentar a concorrência e reduzir a carga tributária do setor industrial? Promover grandes empresas ou ofertar bens públicos (melhores portos) para várias empresas?

O termo política industrial é um termo elusivo; serve tanto para justificar uma montanha de dinheiro para empresas que não precisam de política industrial como para caracterizar incentivos à inovação.

No mais, o que atrapalha o crescimento do Brasil não é a falta de uma indústria de semicondutores ou o fato de não sermos um grande exportador de eletrônicos, mas a baixa poupança, baixo investimento público, elevada carga tributária, excesso de regras e um ambiente de negócios não muito favorável ao empreendedorismo.

O problema do nosso crescimento não é que os “gringos” estão chutando a escada, mas que temos um mix de políticas que não favorece ao crescimento mais rápido – embora essas políticas tenham, por enquanto, resultado na redução da pobreza e na desigualdade. Quem definiu a carga tributária e o mix de gasto público com baixo investimento público no Brasil? Foi a sociedade brasileira por meio de seus representantes eleitos de forma legítima ou os gringos?

Não foram os gringos que chutaram nossa escada, fomos nós mesmos e o fato de não crescermos mais rápido talvez não tenha a ver com o argumento da indústria nascente, menor proteção ou de ganhos de escala; i.e talvez não tenha a ver com chutar a escada, como defende o professor Ha-Joon Chang.

E insistir nessa agenda protecionista pode nos levar a outra escada famosa, aquela ao lado, em Georgetown (MD) nos EUA, do filme “O Exorcista”, no qual a escada está ligada à morte e não ao crescimento.

17 pensamentos sobre “Cuidado com a “escada do desenvolvimento”

  1. “No mais, o que atrapalha o crescimento do Brasil não é a falta de uma indústria de semicondutores ou o fato de não sermos um grande exportador de eletrônicos, mas a BAIXA POUPANÇA, BAIXO INVESTIMENTO PÚBLICO, ELEVADA CARGA TRIBUTÁRIA, EXCESSO DE REGRAS e um ambiente de negócios não muito favorável ao EMPREENDEDORISMO.” (Mansueto).

    Poder-se-ia acrescentar uns outros três itens aqui. Mas essas aí são mais do que suficientes.

    De minha parte eu acrescentaria um item que eu não saberia dar um nome preciso. É como saber exatamente o que é pornografia e um nu artístico: difícil de definir, mas a gente sabe exatamente a diferença.

    Pois bem, eu vou chamar essa sutileza de ‘traço cultural’. Busco o exemplo acontecido ontem.

    Era eu, como se diz por aqui, ‘o pobre lascado’ na rodinha de um grupo de homens endinheirados. Ou, como se diz aqui no Nordeste, ‘enricados’.

    Um deles, na área de construção civil, pode muito bem construir um prédio de 20 andares com recursos próprios: sem atraso nas obras, pagando tudo o que um empreendimento dessa envergadura exige, uma equipe boa, etc. Depois de tudo pronto, ele pode muito bem colocar a venda e em 72 horas quase tudo estará vendido. E com lucro enorme!

    Mas ele faz o que muitos outros, se não a maioria, fazem: ele constrói com dinheiro da CEF e depois segue-se aquele processo que todos nós conhecemos, etc.

    Pois bem, ontem ele ‘descia o cacete’ no governo, na burocracia, em tudo o que você pode imaginar e em todas as mazelas do sistema financeiro da habitação.

    Não sou nem tenho condições ou qualquer coisa próxima da construção civil. Mas pensei comigo, “que diabos, porque ele não faz isso sem que tenha que ficar dependendo da CEF?”

    Como eu era o ‘pobre’ e não podia abrir a boca, minha vontade era perguntar a ele qual a razão de não fazer tudo sozinho sem tem que pactuar com um sistema que ele acha que é o maior atraso.

    Ouvi aqueles homens conversar e pensei também, “esse é o ‘traço cultural’ que parece nos unir. Não é nem falta de empreendedorismo [eles têm de sobra!], parece ser esse ‘amor’ por essa visão estranha, essa coisa estranha, um vício, sei lá, uma espécie de ‘amancebar’ com uma visão ‘cultural’ mais estranha ainda. Eles não precisam do governo nessa área!”.

    E o curioso é que eu estava ali como advogado porque sabia que é justamente esse ‘traço cultural’ de ‘amancebamento’, torto, tudo errado, que permite que eu sobreviva.

    Que coisa, não?! É dali desse ‘amancebamento’ que recebo pedidos para servir-me de anteparo a eles no judiciário para resolver pepinos criados justamente por esse sistema.

    Morei muitos anos nos EUA e não acho justo fazer comparações. Mas, mas eu não entendo qual a razão desse ‘traço cultural’ que nos marca uma profunda diferença. Para melhor e por vezes, para pior, como no caso de ontem.

  2. O “economista” coreano de Cambridge converteu-se numa copia deformada dos piores economistas protecionistas da história econômica (Hamilton List, Manoilescu), como a justificar o epiteto de que a emenda sempre sai pior do que o soneto. Ele consegue ser uma versão piorada de tudo o que o prebischianismo produziu de elementar ou de equivocado.
    Conheço há muito tempo suas teses principais (desde o Chutando a Escada) e cada vez me surpreendo mais com a falta de lógica de seus argumentos ou a completa falta de embasamento histórico para suas “explicações” para o sucesso de uns e o fracasso de outros.
    Alem da teoria do conspiração, tem muita deformação dos fatos que explicam seus argumentos, mas como ele sempre remete a esse bode expiatório que é a culpa dos ricos e do Consenso de Washington para justificar o não desenvolvimento de alguns, isso lhe assegura o reconhecimento dos fracassados no atribuir a causas externas a razão de seu próprio fracasso.
    Há muito tempo que já desmantelei os seus argumentos (e os de seus seguidores no Brasil, como Bresser Pereira e professores como Paulo Gala), num artigo da minha séria Falácias Acadêmicas, este aqui:
    Falácias acadêmicas, 5:
    O mito do complô dos países ricos contra o desenvolvimento dos países pobres
    publicado em Espaço Acadêmico (93, fevereiro de 2009) e que pode ser lido neste link: http://www.espacoacademico.com.br/093/93pra.htm

    Mas, não tenho ilusões: mais da metade dos nossos professores de universidades, metade dos economistas, grande parte dos industriais e quase todo o governo acreditam, piamente, nas teses dos professor Chang.
    Como eu sempre digo: um dos problemas da América Latina e do Brasil não é tanto o atraso material de que padecem, ainda, mas sobretudo o atraso mental que caracteriza boa parte dos suposta elite pensante em nossos países.
    Difícil ter progresso material com atraso mental…
    Paulo Roberto de Almeida

  3. Acredito que políticas industriais causam muito mais ineficiências do que algum benefício. O setor automobilístico já apresenta uma reserva de mercado, e o governo consegue piorar isso aumentando os impostos dos carros importados. Industriais e pós keynesianos estão preocupados com o cambio, contudo o grande vilão da economia brasileira é o gasto público. Se diminuirmos o tamanho do estado, os problemas com cambio e juros estariam resolvidos. Ah, mais uma coisa: somente o Brasil se derruba juros no “grito”, incrível.

  4. Duas perguntas ao professor:

    Com base no que diz que a reforma agrária no país (Coréia) existiu e foi bem sucedida? No BR, mais de 70% do território não é utilizado para agricultura e está engessado para a produção. Faz sentido falar em reforma agrária? Considere toda a grana que já foi injetada, todas as milhões de pessoas que já foram assentadas, e o problema não se resolve. Faz sentido falar em reforma agrária? O Estado deve confiscar terra de proprietário, dar para outro indivíduo, e usar dinheiro dos pagadores de impostos para sustentar esses indivíduos ( que é o que ocorre no BR)? Por fim, cite um único lugar no mundo onde reforma agrária deu certo. No Japão lá fizeram sim reforma agrária. O resultado foi que a produção agrícola caiu no país. Veja o caso da URSS e da Ucrânia, que era berço de produção na europa e conseguiram produzir o holodomor. Defender reforma agrária é um tolice sem fim…

    Por fim, o professor citou educação, que eu concordo. Contudo, basta educação? Por que não fala de abertura aos mercados e concorrência? Se educação basta, o que dizer de Cuba? Educação só ajuda a medida que possibilita o indivíduo usar o conhecimento produtivamente. De nada adianta estudar se o Estado afoga o setor privado!

  5. Ótimo posts e comentários do Paulo Roberto Almeida.
    O sucesso do Chang só é explicado pelo fato de haver uma demanda potencial por esse tipo de análise. Afinal, ele só repetiu os autores citados por PRA , adicionou a “Bairoch Thesis” (ie. a protecionismo contribuiu para a industrialização antes da Primeira Guerra) e disse que continuaria valendo hoje. Além disso, ele ignorou os estudos recentes mostram que o protecionismo foi uma má ideia pós-1950, bem como as críticas à Bairoch Thesis (vejam os papers to Antonio Tema ( http://e-archivo.uc3m.es/bitstream/10016/11674/1/bairoch_tena_EHES_2009_ps.pdf )
    Enfim, o Chang só diz aquilo que muitos desejam ouvir.

  6. Mansueto,

    Abrir a conta de capital favorece o crescimento econômico sustentado de um país? Dólar a um real foi populismo? Há alguma diferença entre exportar manufaturas (price maker) ou exportar commodities (price taker)? Creio que a argumentação do prof. Chang vai por aí…

    Qual a população da Austrália (3 hab/km2) ou o tamanho da economia chilena (US$203 bi)? Hummm… Aí pode comparar com o Brasil? Hummm….

    Cordialmente,

    • Meus comentários ao que escreveu o Rodrigo Medeiros:

      1) “Abrir a conta de capital favorece o crescimento econômico sustentado de um país?”
      PRA: Capitais externos sempre constituem um bom aporte quando não se tem poupança doméstica, mercado de créditos amplo, financiamento de longo prazo ou associado a projetos de qualidade. Mesmo na simples oferta de capitais financeiros, sempre é bom: concorrência faz bem para o setor bancário e diminui o custo do dinheiro.
      Mas entendo que o Rodrigo se refere especialmente aos fluxos monetários e capital especulativo, mais do que a investimentos sem controles, ou limitados por políticas restritivas. De fato, existe um problema com afluxos importantes, mas acredito que políticas de esterilização podem minimizar seus efeitos mais deletérios sobre a moeda em circulação.
      Se sou a favor da livre conversibilidade: sou sim, com alguns mecanismos de controle, caso as fugas se revelem por demais prejudiciais. Mas entendo que fuga de capitais se refere a capitais internos, que fogem de políticas econômicas erráticas no plano interno, não entrada e saída de capitais externos.
      Resumindo: crescimento sustentado tem a ver com muitas outras políticas macro e micro, e não apenas com a abertura da conta capital, que pode, reconheço, trazer mais instabilidade para a gestão monetária e cambial, mas representa, por outro lado, um tremendo upgrade na inserção internacional.
      Ou o Rodrigo acha que os países avançados, com mercados maduros, fizeram bobagem ao abrir progressivamente a conta capital a partir dos anos 1960 e com muito mais intensidade nos anos 1970 e 1980? Não exista um só país desenvolvido que não tenha feito isso, e os últimos a fazê-lo foram Japão e Itália. Deve ser sinal de maturidade, não?
      Ou eles estariam em melhores condições com controles extensivos e seletivos? SInceramente, não creio. Este é também o caminho que será tomado pela China, pelo Brasil e por outros emergentes no devido tempo, ou seja, livre conversibilidade da moeda e abertura da conta capital.
      Conclusão: crescimento sustentado não necessariamente é prejudicado pela abertura de capital, mas essa abertura, precocemente, e sem as políticas macro adequadas pode, sim, trazer problemas,

      2) “Dólar a um real foi populismo?”
      PRA: Essa pergunta não faz nenhum sentido, pois não existe economista no mundo capaz de dizer qual a taxa ideal em termos nominais. Sempre depende dos fluxos reais e monetários de um país, sua dinâmica de crescimento, o coeficiente de abertura, sua integração a mercados internacionais de capitais, e vários outros fatores que não determinam, a priori, qual deve ser a taxa. Essa, feita pelo mercado, sempre será a de equilíbrio, ou seja, neutra, entre juros internos e externos, mas os governos sempre interferem, preferindo paridades depreciadas (se se trata de países que são grandes exportadores ou que dependem disso), ou valorizadas (se dependem de importações).
      Apenas dois exemplos: Alemanha e Japão tiveram valorizações ENORMES de suas moedas, sempre continuando a ser grandes exportadores, com superávits estruturais, e isso mais pela produtividade interna do que por manipulações cambiais de governo. Será que esses dois países também praticaram populismo cambial ao deixarem suas moedas se valorizarem?
      Quanto ao Brasil, convém não esquecer que o Real começou a 1US, sem qualquer “populismo”. Se ele se valorizou depois, foi devido as altas taxas de juros, e isso porque o Itamar recusou os ajustes necessários nas contas públicas, pois ele não queria recessão, e sim estabilidade sem sacrifícios (com a inflação que tínhamos, era irresponsabilidade, mas ele era o presidente). FHC continuou, mas aí já não tinha muito jeito: os ajustes internos não tinham sido feitos e era preciso continuar (até onde foi possível, e o próprio Itamar balançou a roseira quando se tornou governador).

      3) “Há alguma diferença entre exportar manufaturas (price maker) ou exportar commodities (price taker)?”
      PRA: Claro que existe, mas seria uma burrice o Brasil deixar de explorar suas vantagens comparativas, apenas porque as commodities são determinadas externamente. Exportar manufaturados não deveria permitir a ninguém deixar de praticar suas vantagens ricardianas. Não há nenhuma contradição entre uma coisa e outra, e ambas podem existir perfeitamente. Não deveria ser programa de nenhum governo a redução compulsória de commodities apenas para poder competir em manufaturados nos quais nem sabemos se seremos competitivos.
      Quem determina isso não é o governo e sim os mercados (fatores de produção), os espíritos animais dos empresários, as condições da economia mundial e a interação dessa economia mundial com os mercados mundiais.
      Normalmente, quem exporta manufaturas inovadoras tem condições de extrair renda do resto do mundo, ao passo que os exportadores de commodities ficam dependentes dos preços externos, daí grandes desequilíbrios e comportamento errático de suas receitas externas.
      Ou seja, é muito melhor exportar manufaturas, mas fazê-lo com subsídios apenas para “deixar” de ser exportador de commodities me parece um tremendo mau uso dos fatores e dos recursos.

      4) “Qual a população da Austrália (3 hab/km2) ou o tamanho da economia chilena (US$203 bi)? Hummm… Aí pode comparar com o Brasil? Hummm….”
      PRA: Humm… desde quando tamanho foi documento? Pode ser para a guerra, para mobilização de fatores brutos, mas não para competitividade econômica, do contrário todos os países pequenos seriam medíocres e pobres e todos os grandes ricos e poderosos, o que não é exatamente verdade.
      O que vale mesmo é a qualidade das políticas econômicas, não o tamanho das economias, que SEMPRE VAI VARIAR tremendamente.
      O que vale mesmo é PIB per capita, que traduz a renda disponível para a população e a prosperidade de um país. Do contrário, grandes exportadores de petróleo como Nigéria ou Angola teriam populações ricas e afluentes, sem a miséria que de fato têm.
      Ou seja, se quisermos comparar o Brasil com outros, só podemos fazer com países de dimensões semelhantes?
      Isso não faz nenhum sentido. A Coréia do Sul, com a metade do nosso PIB total, exporta 4 vezes mais, e tem uma renda per capita cinco vezes superior, com muito menos recursos naturais do que o Brasil.

      Bom debate este…
      Paulo Roberto de Almeida

    • Na época da implementação do R$, ele não foi fixado em US$1,00, numa paridade fixa. Muito menos o foi por emenda à Constituição. Na realidade o R$ foi indexado à URV, com variação diária, que gradativamente expulsava a moeda ruim, o desvalorizado CR$ (Cruzeiro Real) e ia incorporando a indexação, provocada pela elevada inflação. Assim o R$ surgiu forte, dado ter incorporado a inflação interna da moeda ruim a ser expulsa, elevada. E por ter, com a URV, favorecido, antes de entrar oficialmente em vigor, o alinhamento de preços relativos numa medida estável. A âncora do R$, foi mais fiscal que o alinhamento com o US$. As dívidas dos Estados foram equacionadas e a consolidação foi a edição da LRF em 2000, pondo fim ao mecanismo das ARO. Ou seja de 1994 até 2000, foi o manejo sério das contas públicas e a discussão e gestação da LRF que manteve a economia estável. Mais do que a “âncora” cambial. Havia na época, o comportamento de definir os preços em dólares, em data momento e depois ir convertendo para a moeda nacional. Com a URV, isso acabou. E com o R$ entrando em vigor, este passou a ser a moeda como unidade de referência de contas, intermediária de trocas e reserva de valor.

  7. Paulo, sem o trabalho da Embrapa nao haveria soja no cerrado. A transgenica tambem nao serviria nessas terras que hoje representam grande parte da producao nacional.

    • Marcio Nejaim, parece, que sem a Embrapa e sua tecnologia, também não haveriam plantações de abacaxis no agreste do Rio Grande do Norte. E são dos bons.

      Ademais, os bons exemplos, em termos de métodos e trabalho e educação, devem sempre ser comparados independente do tamanho de países.
      No caso do Brasil, ainda somos o país do futuro, enquanto países menores, já vivenciam um presente muito melhor que o nosso.

      Em termos de Educação, por exemplo, há uns 50 anos, existiam estojos de madeira com os dizeres “O Estudo é a Luz da Vida”. Hoje, temos a vida no sufoco e o estudo tendo sua luz tirada por questões ora ideológicas, ora pelo que parece ser experimentalismo e voluntarismo.

  8. Mansueto,

    O José Luis Oreiro da UNB bate sempre na tecla de que a indústria, por conta de economias de escala estáticas e dinâmicas são o polo dinâmico da economia que impõe ganhos de produtividade em todos os outros setores. Nesse sentido, a política industrial competente seria, em um ambiente hostil, a única forma de garantir um futuro de crescimento sustentado.

    E acho bastante razoavel falar em ambiente hostil. Um mundo onde as políticas cambiais e monetárias não tem uma coordenação razoável, com políticas comerciais predatórias- dumping, barreiras, trapaças. Um exemplo contundente recente foi o cancelamento da licitação da Embraer, claramente injusto. Nesse sentido, acho que embora possamos discutir quão significativo é o efeito desse beggar thy neighbour, temos de concordar que ele existe e desenhar políticas apropriadas para lidar com isso. Esse ponto foi sistematicamente feito através da história embora o clássico do Friedrich List é o melhor. Existe um fator geopolítico forte e determinante e argumentos meramente econômicos (vantagens comparativas, ganhos de eficiência ou de escala, etc) deixam escapar dinâmicas eleitorais e ideológicas que tem peso relevante nos resultados econômicos.

    Quanto às objeções contra políticas industriais, elas são reais, mas casos contundentes como Japão, Coreia e China mostram o potencial enorme que elas tem de dar certo e superar esses problemas…ou as vezes ignorá-los: a Coreia investiu descaradamente em grandes grupos (Chaebols) em um modelo que nos pareceria injusto mas teve sucesso em criar uma sociedade menos desigual que a nossa, focada em inovação e tecnologia e de grande avanço econômico e social. O Dani Rodrik aborda frequentemente os problemas da política industrial que você mencionou e mostra que são problemas complexos e desafiadores…assim como são políticas públicas para a saúde e a educação, campos nos quais a complexidade não impede que consideremos a ação estatal imprescindível.

    Abraço

  9. Acredito que mesmo com uma mega desoneração, desburocratização e mais investimentos nossa indústria continuaria não competitiva frente aos asiáticos.

    Falta inovação, espírito animal, o povo só sabe chorar para o governo, a culpa nunca é deles. O Estado não investiu em educação e perdeu o bonde, não há como remediar trinta anos (grande parte do sucesso coreano é fruto da semente de 30 anos atrás).

    Vamos rezar para que os investimentos em energia criem produtos inovadores a nível mundial.

  10. E preciso esclarecer melhor essa historia de modelo sul-coreano que parece inspirar economistas brasileiros (como Coutinho), pois tem servido erroneamente de justificativa para transferência de recursos públicos ao setor privado pelo BNDES.

  11. “Mas dessa afirmação tirar a conclusão que precisamos ter uma meta de participação da indústria no PIB ou de “manufacturing value added per capita” é um pouco demais.”

    Para ver se entendi bem, o que a frase acima quer dizer é que o crescimento não está necessariamente associado à elevação da participação da indústria no PIB?

    Mas quando Chang (ou a OCDE, conforme link indicado no fim do comentário) enfatizam a industrialização como via de crescimento por excelência, não estão se referindo a crescimento sustentável e mais equânime – ou então, à sustentabilidade do crescimento? (embora a própria OECD seja cautelosa e admita que essa pode não ser a única via, apontando alguns exemplos, entre eles a Austrália, aqui já citada)

    É possível relacionar índices de distribuição de renda à natureza da atividade econômica, ou seja, comparar o nível de distribuição de renda produzido por atividades industriais versus o nível de distribuição de renda produzido por atividades de exploração de commodities?

    Link para o texto da OCDE: http://www.keepeek.com/Digital-Asset-Management/oecd/development/perspectives-on-global-development-2010/the-growing-technological-divide-in-a-four-speed-world_9789264084728-11-en

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