Argentina e o PIB: o que é real?

Em post anterior deste blog (o que é isso companheiro) levantei a hipótese que um país (Argentina) que “brincava” com os índices de inflação, possivelmente, utilizava também dados subestimados para deflacionar o PIB e calcular o crescimento do PIB real.

Em post seguinte falei pelo que li do The Drunkeneysian que talvez isso não fosse verdade. Não havia dados de que a Argentina fizesse com o deflator do PIB o que faz com os índices de inflação.

Pois bem, a evidência chegou. O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, gentilmente pesquisou o assunto e conseguiu com uma consultoria da Argentina, a Ecolatina, resolver esse dúvida.

A Ecolatina acompanha de perto as estatística na Argentina e calculou o crescimento real do PIB, a preços de 1993, e, dessa forma, conseguiu identificar que, de fato, o governo da Argentina falsifica ou subestima (para ser mais educado) o deflator do PIB desde 2007. O que significa que o crescimento do PIB real por lá, o verdadeiro, é muito menor do que o número oficial.

A tabela abaixo foi preparada pela Ecolatina.  Pelos dados oficiais, o crescimento real do PIB da Argentina de 2007 a 2011 foi de 39% (PIB precios Cte, 1993 INDEC). Pelo dado correto estimado pela Ecolatina (PIB precios Cte.1993 Ecolatina), o crescimento do PIB real neste período foi de 25,35%; bem menos que o crescimento real do PIB oficial.

Obrigado ao Sérgio Vale da MB Associados e a Ecolatina. E quanto ao governo Argentino “Lo siento por el populismo”.

30 pensamentos sobre “Argentina e o PIB: o que é real?

  1. Minha pergunta não resulta de suspeita, talvez, no máximo, dúvida. Eu saberia, por ser da área, quando um juiz está ou é tendencioso em decisão de mérito, ou mesmo quando um tribunal faz o mesmo, via seu relator, em geral abatido em pleno voo pelo colegiado. Transferindo a mesma dúvida carregada com aquela mineirice própria da idade, mutatis mutantis, e guardando as devidas proporções, não mentimos no Brasil também? De modo que “… o crescimento do PIB real por lá, o verdadeiro, é muito [um pouco] menor do que o número oficial”?

    • Eduardo, talvez não com a amplitude da Argentina.
      Lá chegaram ao ponto, segundo noticiário, de ameaçar de punição os institutos e consultorias independentes.
      No Brasil, pode ser que a falta de verdade seja a tentativa de reduzir juros no grito. Ou de manter congelados os preços dos combustíveis da Petrobras no atacado. O ministro da área já fala em reajuste. A presidente e a Fazenda, que não haverá.

      • Dawran Numida

        “O pior é que no Brasil, o populismo está crescendo e muito. A cada dia parece que as decisões são tomadas para aumentar a popularidade presidencial, mesmo que choquem com a realidade e com as críticas. Estas rareiam e aquelas aumentam. Não pode dar em boa coisa.”

        Que precisão! Perfeita! Sem arestas!

        Cerca de 4 meses venho comprando dólares para viajar. Pois bem, compro sempre no BB. Ontem comparei os recibos de compra de Janeiro a Maio. A taxa (‘la mordida’) que o banco cobrava em Janeiro (2%) agora é de 4% (Maio).

        Resposta de minha esposa, gerente administrativa de uma agência aqui em Natal: “… estou percebendo que estão ‘baixando’ taxas que costumeiramente são visíveis [cheque especial, por exemplo] e aumentando em outras que o público [ela quis dizer, ‘cliente’] não vê!”.

        Lembrei-me da máxima em política de que político que quer reeleger-se não coloca cano de esgoto… ninguém vê!, muito embora tratamento de esgoto é muito mais importante do que praça, mas essa dá enorme visibilidade (eleitoral).

        A lembrança minha foi nesse sentido: tomaram a máxima do esgoto e aplicaram-na com efeito inverso ao desejado!

  2. Mansueto,

    Peso a um dólar foi populismo na Argentina? Engraçado como essa onda quase pegou por aqui… Deixou estragos… A “modernização” menemista foi elogiada em nosso país. Você se lembra do que diziam os respeitáveis formadores de opinião da velha mídia?

    Hoje, Carlos Menem defende a nacionalização da YPF. rsss!!! Mudar de ideia é a norma na América do Sul:

    http://www.advivo.com.br/node/880750

    A taxa de desemprego oficial do IBGE é real? Essa taxa não é formada por pesquisa em apenas 6 regiões metropolitanas? E o resto do País? A questão formalidade-informalidade ainda é problemática em nosso país. Já foi pior, mas ainda é alta a informalidade e isso prejudica a produtividade da economia.

    Cordialmente,

    • Impressionante. Impressionante.
      Seri um caso de “niilismo demagógico”, seja lá o quer que isso signifique?

  3. A loucura maior é ainda ter gente aqui no Brasil defendendo o calote argentino e outras loucuras recentes, sob o pretexto de que eles estão crescendo … QQ pessoa que tenha ido a Argentina 2 x em épocas disitintas percebe o quao ruim as coisas estão ficando e como a prosperidade é algo pra ser sonhado por lá

    • No Brasil, PIB rodando abaixo da inflação, tem o nome de “economia estável”. Ou de “crescimento sustentável”. Há cerca de 20 anos, tal situação seria chamada de estagflação, nunca de “estabilidade”.

  4. A medida do PIB argentino agredia o bom senso. Se a produção de petróleo cai, gás idem, investimentos externos quase zero, padrão de vida cai, a dependência do Brasil aumenta a cada dia (50% da produção automobilística chegou a ser exportada para o Brasil), como justificar um crescimento de PIB tão maior do que o do Brasil? A indústria automobilística só se viabilizou por causa do Brasil (a indústria é Brasil dependente). A fuga de argentinos para o Brasil é coisa da época Kirchner. Um país com PIB crescendo atrai trabalhadores, não exporta. É semelhante ao que Kruchev escreveu: “que comunismo bom que é este se temos que fazer muros para que ninguém fuja, se fosse bom os muros seriam para que não entrassem.”
    Infelizmente a medida de PIB é muito fácil de ser falseada.
    O de bom que existe na Argentina ocorre por falta de crédito. Se tivessem crédito seria muito pior. Se os preços das commodities cederem (o que não acredito que ocorra em percentual significativo) a Argentina quebra. E o Brasil? NÃO.

  5. Pobreza real argentina seria três vezes maior do que a oficial
    Índice de pobreza calculado pela Universidade Católica Argentina aponta a existência de 8,7 milhões de pobres no país, ou seja, 6,1 milhões a mais do que diz o governo – 02 de maio de 2012 | 15h 19
    Ariel Palacios, correspondente
    BUENOS AIRES – A Universidade Católica Argentina (UCA), que elabora um índice próprio de pobreza, anunciou que 21,9% dos argentinos são pobres. O índice da instituição contraria os números oficiais, preparados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), que sustentou na semana passada que a pobreza quase desapareceu do país, já que somente afetaria 6,5% dos argentinos, o equivalente a 2,6 milhão de pessoas. Mas, segundo o cálculo da UCA, existem 8,7 milhões de pobres na Argentina. Entre ambas estimativas existe uma significativa brecha de 6,1 milhões de pessoas.
    A UCA também afirma que, dentro da população pobre, a proporção de pessoas indigentes é de 5,4%, enquanto que o Indec sustenta que é de apenas 1,7%. Desta forma, de acordo com o cálculo oficial, somente existiriam 680 mil pessoas indigentes em toda a Argentina. Segundo a UCA, os indigentes chegariam a 2,2 milhões.
    Segundo o Indec, a pobreza teria caído de 53% em 2003 (ano da posse de Nestor Kirchner) para 23,4% em 2007 (ano da posse de Cristina Kirchner). Em 2011, segundo o Indec (ano da reeleição de Cristina), a pobreza foi de 8,3%. Neste ano, com o índice oficial da pobreza em 6,5%, o Indec celebrou “o menor índice dos últimos 30 anos”.
    No entanto, a UCA, os partidos da oposição, economistas independentes e diversos sindicatos afirmam que não há motivos reais para celebrar. Segundo eles, o governo tenta camuflar a pobreza desde 2007, ano em que o governo Kirchner iniciou uma férrea intervenção no Indec, que implicou na manipulação das estatísticas sobre a inflação, PIB, além da evolução do número de pobres. Segundo os economistas, a pobreza, que havia caído entre 2003 e 2006, voltou a crescer em 2007. Desta forma, o total de pobres oscilaria atualmente entre 20% e 25% da população.
    Os economistas indicam que a pobreza na Argentina pode ter-se transformado em um fenômeno “estrutural”, já que não desce do patamar extraoficial de 20%.
    Segundo o relatório da UCA, a província de Tucumán e os municípios da Grande Buenos Aires concentram os principais bolsões de pobreza.
    Agustín Salvia, pesquisador do Observatório da Dívida Social da UCA considera que “os programas sociais do governo não foram eficientes para reduzir os índices. É difícil perfurar o piso da pobreza no contexto inflacionário por intermédio da transferência de ingressos”.
    Enquanto a pobreza persiste, a economia informal permanece elevada. Segundo dados oficiais, 34,1% dos assalariados não possuem carteira registrada. Em média, os profissionais informais recebem salários 57% inferiores aos formais na Argentina.
    RICA – Cristina Kirchner é – depois do bilionário chileno Sebastián Piñera – a segunda presidente mais rica da América do Sul, com US$ 17 milhões, segundo a declaração oficial de bens, basicamente investidos em imóveis e aplicações financeiras. A fortuna de Cristina – uma declarada admiradora de Evita Perón, a “mãe dos humildes” – aumentou 930% desde 2003.
    A presidente argentina – que em seus comícios ostenta um Rolex Presidente, usa bolsas Louis Vuitton e sapatos Christian Louboutin – define sua política como “nacional e popular”, mais conhecida pela abreviatura “nac e pop”.
    Malaria: Nada a ver com a doença tropical. Na Argentina é o período de vacas magras, tempos de pobreza.

    • Intressante. Realmente não se pode mais confiar em nenhum dos indicadores do Indec. É uma pena porque se a população não conhece os dados reais, corre o risco de aprovar medidas cujos efeitos reais são diferentes dos divulgados.

      • Mansueto: sabemos que os dados macro reais (os honestos, a busca da verdade) são difíceis de aferir (de fato são aproximações). Mas podemos aceitar como verdade (não distorcem a realidade). Não é trabalho fácil. É um aperfeiçoamento que se conquista ao longo dos anos. É um crime jogar isto fora. E a Argentina está jogando tudo fora.

  6. Seria interessante ver a progressão das receitas, imagino que sejam mais difícil de adulterar. E o nível de emprego.

    Outra estranheza fica sendo a política. Todo comentário presume que o kircherismo se escorou na pujança econômica. Se essa não aconteceu, parece que o poder ideológico e ausência de oposição de Cristina é bem maior que se concebia antes.

    • A pujança econômica ou é delírio ou populismo puro. Se é que haveria alguma diferença importante entre delírio e populismo.

  7. Ocorreu-me agora que a Argentina, na reestruturação da dívida depois do calote de 2001, emitiu títulos da dívida indexados ao crescimento do PIB. Faz tempo que não leio a respeito, mas seria interessante ver que taxa estão pagando para essa dívida – um efeito colateral de superestimar o PIB seria pagar mais juros para os credores. Tudo muito bizarro.

    • Impressionante. Como é que pode? Por aqui, há a fórmula de reajuste do SM “pelo PIB” + inflação do ano anterior. No texto, alguém saberia dizer se “pelo PIB”, seria só por taxas positivas? E se o PIB recuar para negativo? Ou será que no texto da medida estaria “evolução do PIB”? Ai, de for negativo, teria o efeito de reduzir reajuste. Ai, popularmente, o “pau iria comer”, com as categorias, não é? Impressionante.

    • Tens toda razão. Krugman parece concordar com as politicas da Argentina. Será que de fato ele conhece bastante o que está sendo feito por lá? Em geral, gosto das provocações do Krugman, mas confesso que em alguns casos fico meio perdido com as posições dele.

      No livro dele com o Obstfled, International Economics, no cap. 11 (trade policy in developing countries) eles não são nada entusiastas de politica industrial e restrições ao comércio, e têm uma visão bem ortodoxa do milagre Asiático: abertura comercial e menos regulação governamental. No mundo real, já escutei Krugman elogiar politicas industrial e restrições ao comércio internacional como legítimas.

      Agora para fazer um bom contraponto, Daron Acemoglu (MIT) destroi a Argentina no seu livro why nations fail e tece altos elogios ao Brasil. A Argentina é o caso do país que tinha tudo para dar certo mas anos de populismo pioraram o funcionamento das instituições e, o Brasil, seria o caso oposto: vem desde meados dos anos 80 criando instituições participativas e melhorando a perspectiva de crescimento.

      O que não sei no caso da Argentina é se as medidas recentes são medidas enegenhosas para sair de uma crise (como coloca Krugman) ou algo mais na linha da sucessão de políticas populistas que vem desde o pós-guerra (na linha do Daron Acemoglu). Acho que neste debate fico mais com o Daron Acemoglu do que com o Krugman.

      Obrigado pela indicação que é realmente “instigante”. Abs, Mansueto

      • O pior é que no Brasil, o populismo está crescendo e muito. A cada dia parece que as decisões são tomadas para aumentar a popularidade presidencial, mesmo que choquem com a realidade e com as críticas. Estas rareiam e aquelas aumentam. Não pode dar em boa coisa.

  8. Nota do Citibank:
    Argentina: Official Annual Inflation to Remain Unchanged
    √√ Consumer Price Index (Friday, 3:00 p.m., April Fcst: 0.8% Month
    Over Month)
    We expect the National Statistics Institute (INDEC)’s monthly CPI inflation to stand at 0.8% in April, down from 0.9% in March. If our forecast proves correct, the official annual inflation rate would remain unchanged at 9.8%. It is worth noting that most, if not all, non-official annual inflation estimations stand above 20% (i.e. more than double the official print).

  9. Pingback: Paul Krugman (and Matt Yglesias) do a disservice to Argentinians | Historinhas

  10. Ecolatina es propiedad de un ex-ministro de economia muy resentido con el gobierno de Cristina. Esto debería ser tenido en cuenta. Ecolatina no es creible. Es corrupta ya que cuida su trabajo, sus papers mensuales. Mansueto no seas envidioso. Julián

    • Estive no Chile. Coisa de dois anos atrás. Nosso guia, um jovem Chileno muito alegre e super piadista, ao perguntado (estávamos na região de Viña Del Mar) qual a razão dos canhões que víamos não estarem apontados para o Pacífico, respondeu que “nosso problema é com os Argentinos”. No primeiro dia de viagem, entrando e se apresentando no ônibus, perguntou se tinha algum Argentino no grupo (havia somente um casal de Mexicanos). Certificado de que não havia nenhum, disse: “sabem como um Argentino se suicida?” Em coro respondemos que não, ao que retrucou: “ele sobe em seu próprios ego, e pula!”

  11. Meu caro Eduardo, essa do argentino suicidar eu gostei, foi legal, o Argentino Sobe no próprio ego, e pula! É isso mesmo, e faz tempo que pensam que são Europeu.

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