Política de redução dos juros ou populismo dos juros?

Com todo o respeito que tenho pela liturgia do cargo, o pronunciamento da Presidenta da República hoje na TV em rede nacional teve um tom de populismo que há muito tempo não escutava. Para mim foi de mais a afirmação que “…os bancos não podem continuar cobrando os mesmos juros para empresas e para o consumidor, enquanto a taxa básica Selic cai, a economia se mantém estável e a maioria esmagadora dos brasileiros honra com presteza e honestidade os seus compromissos.…o setor financeiro, portanto, não tem como explicar essa lógica perversa aos brasileiros“.

Já falei por diversas vezes que não gosto da política de grito para baixar os juros porque (podem me chamar de legalista) acho que ações desse tipo deveriam partir dos órgãos responsáveis pela regulação e fiscalização do sistema bancário, i.e. o Banco Central do Brasil (com ou sem a ajuda do CADE).

Hoje tem um artigo excelente dos professores da PUC-RJ, João Manoel Pinho de Mello e Vinícius Carrasco no Estado de São Paulo no qual concordo 100% com os argumentos do dois (clique aqui) de que:

“…..No caso de conluio, cabe às autoridades antitruste comprová-lo e impor as sanções cabíveis. Da mesma maneira, portanto, mesmo que o diagnóstico seja de que os bancos brasileiros estão hoje cartelizados, usar bancos públicos para forçar a queda de preços é uma atitude equivocada….

Os spreads podem ser altos porque os bancos estão em concorrência oligopolística, o que não significa que não estejam competindo. Significa tão somente que há poucos bancos. Nesse caso, a solução não é forçar preço para baixo na marra, mas impedir fusões entre bancos grandes e tomar medidas para diminuir o custo de entrada.

Em tempo, não tinha nenhuma restrição que o setor público utilizasse a CEF para forçar maior concorrência no setor. É um banco 100% público e acho legítimo o governo, em uma conjuntura de restrição do crédito, utilizar o seu banco para evitar uma forte contração do crédito. Mas não é isso que está acontecendo. O governo utiliza CEF e Banco do Brasil e ainda fica inflando o sentimento da população contra os bancos privados.

Na semana passada, em palestra-jantar que fui convidado em Brasília para deputados e senadores do PSDB, na terça-feira dia 24 de abril, falei o seguinte em resposta a uma pergunta formulada:

“Em relação à redução de taxa Selic e da questão do spread, o senador Tasso foi o relator de uma comissão da crise, lá atrás, no Senado Federal, e o presidente da comissão era o senador Francisco Dornelles (PP/RJ).  Foi feito um documento que vale a pena resgatá-lo, em que se tenta explicar por que o spread bancário no Brasil é tão elevado.  E há um conjunto de fatores: imposto elevado, crédito direcionado, compulsório muito elevado, ou seja, uma série de coisas.

Na questão de concentração bancária o que me assusta é que se realmente o setor bancário do Brasil era concentrado, significa que as instituições deste País não funcionaram. Significa que o Banco Central não funcionou ou o Cade não funcionou.  Quando há mercado concentrado tenta-se desconcentrar aquele mercado com atuação das agências que são responsáveis pela concorrência, como é o caso do Cade ou o Banco Central. 

Se de fato conseguirmos reduzir os juros no grito, significa que nossas instituições, que deveriam olhar concentração de mercado, no caso específico de bancos, não funcionaram.  Isso me deixa muito assustado, porque pode passar a impressão que se pode resolver os problemas do Brasil no grito e, assim, não se resolve.  Por exemplo, o PAC não está andando.  Grande parte da execução do PAC é de financiamento habitacional.  O financiamento que é dado é computado como gasto do PAC…..Não se resolvem os problemas do Brasil no grito, mas resolvem-se os problemas deste país com reformas institucionais.” 

Se os problemas no Brasil podem ser resolvidos no grito, alguém pode me explicar então por que não conseguimos acelerar a execução do investimento público? Se tudo pode ser resolvido no grito, por que então o governo propôs a Lei nº 12462/11, que trata, entre outros assuntos, do denominado Regime Diferenciado de Contratações Públicas para as obras da copa e das olimpíadas?As questões de licitações mal elaboradas e os problemas de excesso de controle do TCU é tudo invenção dos Ministérios e das construtoras?

Por favor, me expliquem. Por que não resolvemos o nossos baixo investimento público à base do grito? E por que não forçamos as empreiteiras a cobrar menos pelo seus serviços?

39 pensamentos sobre “Política de redução dos juros ou populismo dos juros?

  1. Essa senhora somente sabe jogar para a platéia. Nada fez e nada fará …
    nenhuma reforma, somente populismo.

    Mas como o cérebro da patuléia situa-se no bolso, enquanto não sentirem o sabor amargo das consequências desse intervencionismo crescente, das concessões de privilégios a grandes grupos, do afrouxamento (abandono?) da LRF, foco no consumo (me lembra o conto da cigarra …), mais bodes espiatórios terão que ser encontrados.

    E lá fora o cheiro de enxofre está aumentando …
    Teremos muitos mais gritos mais adiante.

    Abs

    • O grande problema que vejo é exatamente este: a agenda do Brasil parece restrita ao que vai acontecer em 2 ou 3 anos e não com a melhoria institucional em duas ou três décadas. E sempre temos que encontrar inimigos ao invés de discutirmos os reais problemas da economia brasileira.

  2. Estou convicto de que a Presidente Dilma, o ex-presidente Lula, o ex-presidente da Casa Civil e o conjunto da obra do PT caminham para alguma coisa que tenha a cara do PRI do México ou algum tipo de ‘argentinização’. Estamos caminhando célere para lá. Não há hoje a menor possibilidade de, a começar pelos altos escalões do Judiciário, dar um fim ao processo de desmoronamento dos poderes da República. Essa é a tese com que trabalho e o faço com serenidade, sem pânico. Mas ela vai tomando forma e é cada vez mais visível.

  3. Olá Mansueto e colegas,

    Também acho que estejamos no terreno do populismo. O Estado brasileiro dispõe dos instrumentos adequados para intervir, desde que na forma e nos limites previstos nas leis e na Constituição Federal.

    Muitas vezes o populismo resultou em arbítrio, embora sempre vestido com uma roupagem que justifica os atos pela boa intenção do governante em exercício. Argentina e Venezuela são exemplos ilustrativos, atuais e nem tão distantes assim de nossa realidade política e institucional.

    Entendo que as normas jurídicas e as instituições protegem o cidadão do poder estatal. Conferem transparência aos atos do Estado e garantem aos cidadãos os meios legais para discuti-los.

    A democracia, essencialmente fundada na legalidade, ainda é a melhor opção que temos. Essa, no entanto, não parece ser uma convicção profundamente enraizada na sociedade e nos governantes do País. Aqui, como o sistema funciona mal, ninguém realmente o respeita. Melhor seria se estivéssemos discutindo como melhorá-lo. Daí porque parabenizo Mansueto pela discussão que vem suscitando.

    Abraços

    • Concordo com você Rafael. O difícil de combater atos populista é que,por definição, eles são extremamente populares e as pessoas parecem ainda acreditar em pessoas do bem e pessoas do mal, ao invés de olhar para incentivos e instituições.

  4. Se há um problema de concentração bancária, gostaria de lembrar que o governo é o principal culpado. Ele (através do CADE e/ou Bancen) poderia ter vetado a consolidação no setor que ocorreu após a crise de 2008. Muito pelo contrário, eles não apenas deram o aval, como lideraram esse processo com os bancos BB e CEF. Ou seja, eles tem culpa no processo.

    abracos

    • É isso ai Fernando. No caso do banco Votorantim e Panamericano, o Ministério da Fazenda incentivou o processo de compra para turbinar os bancos públicos.

      • Sendo que o Panamericano em particular era para ter sido declarado insolvente e liquidado pela BC em 2011. Mas, o governo optou por salvá-lo usando dinheiro do FGC. Por que? Se fizesse isso, os bens do SS e de todos os PTistas dirigentes da CEF na época seria bloqueados.

  5. Mansueto,

    Dólar a um real (com juro básico na casa dos 40%) foi populismo? Chegou a hora de se questionar mesmo a regulação das atividades econômicas no País? Vejamos o que diz um estudo do Bacen:

    “Ao se decompor o IPCA em preços livres e em preços administrados, nota-se que, entre 1996 e 2007, a inflação dos preços administrados foi sistematicamente maior que a inflação dos preços livres (…) O elevado peso dos preços indexados à inflação passada na composição dos índices de preços dificulta a gestão da política monetária. A inflação dos preços
    administrados apresenta maior grau de persistência do que a inflação dos preços livres, aumentando a inércia inflacionária geral”.

    http://www4.bcb.gov.br/pec/gci/port/focus/FAQ%205-Pre%C3%A7os%20Administrados.pdf

    Hummm… Há uma CPI mista rolando no Congresso que perpassa questões correlatas sobre a relação entre o público e o privado no País. Bem, vejamos o que diz Joseph Stiglitz:

    “We know the basic dilemma, and we know the effect of campaign contributions on policy-makers. So we are facing a vicious circle: Because money matters in politics, that leads to outcomes in which money matters in society, which increases the role of money in politics”.

    http://theeuropean-magazine.com/633-stiglitz-joseph/634-austerity-and-a-new-recession

    Vale para o Brasil também. A questão dos juros bancários… Você conhece o capítulo 17 da Teoria Geral de Keynes (1936)? Pois bem…

    “É, porém, uma diferença essencial entre a moeda e todos os demais bens (ou a maioria) que, no caso da moeda, o seu prêmio de liquidez exceda de muito o seu custo de manutenção, ao passo que no dos outros bens seu custo de manutenção é muito maior que o prêmio de liquidez”.

    Os 30 primeiros minutes desse vídeo são esclarecedores… A fala do prof. Randall Wray…

    Cordialmente,

    • Rodrigo,

      o caso do Plano Cruzado com o congelamento dos preços liberado depois das eleições que o PMDB foi o grande beneficiário foi sim um outro caso de populismo nos anos 80 e respeito sua opinião do câmbio de R$ 1 = US$ 1 no caso do plano Real quando começamos a perder reservas e tentamos manter a taxa de câmbio fixa.

      Mas acho justo reconhecer que o governo FHC fez várias reformas em um ambiente adverso ao crescimento – reconhecimento da divida do FCVS, renegociação das dividas estaduais, fechamento dos bancos estaduais, PORER, PROES, Lei de Responsabilidade Fiscal, adoção do sistema de câmbio flutuante, regimes de metas de inflação, nova lei de Petróleo e Gás, implantação das agências reguladoras, etc.

      O primeiro governo Lula deu sequência a essa agenda de reformas, mas a partir de 2005, com o escândalo do mensalão, o governo passou a priorizar o crescimento de curto-prazo baseado em um diagnóstico que os maiores problemas do Brasil decorrem da escassez de demanda.

      O episódio dos juros para mim entra nessa nova fase de olhar excessivamente para o curto prazo ao invés de resolver os problemas estruturais. O caso dos preços administrados, não vejo o mínimo problema em renegociar os contratos de forma ordenada. O próprio Edmar Bacha tem uma proposta interessante sobre isso.

      Mas a questão dos juros á mais complexa. O BACEN faz uma análise de custo e benefício entre concentração/segurança e concorrência. o que quero entender e vou insistir neste ponto até levar esse debate para o Congresso Nacional é se o BACEN errou na sua análise, já que o governo acredita que sim com as suas atitudes recentes.

      O seu argumento de doação-grupos de interesse e “captura de políticos”, citando Stiglitz, vale para todos os setores, acho que até mais para outros setores e algumas empresas específicas que cresceram absurdamente desde 2007: Sadia/Perdigão; JBS/Friboi, VCP, Oi/Telemar; etc.

      O mesmo argumento sobre contribuição eleitoral-influência política eu poderia utilizar até de forma mais contundente da relação do governo com as grandes construtoras, inclusive a Delta.

      Assim, acho que o problema é mais complexo e prefiro resolvê-lo pela via institucional ao invés de ver a Presidente da República indo à TV e rádio em cadeia nacional e sugerir que a população se revolte contra os bancos privados. por que a presidenta não faz o mesmo com as companhias de telecomunicação? ou com os serviços do SUS? As coisas nem sempre se resolvem no grito.

      • Mansueto,

        Também aposto na via institucional para melhorar o Brasil. O problema é saber se as tais instituições inclusivas estão ganhando das extrativas no País. Devemos incluir as instituições informais nesse imbróglio.

        Não sei se você conhece o livro “Understanding the Process of Economic Change” (Princeton University Press, 2005), do Douglass C. North. Pois bem, nem tudo o que está escrito é aplicado e tampouco o que é efetivamente praticado socialmente está escrito nas regras formais do jogo.

        Creio que esse é um ponto cego no trabalho do Daron Acemoglu:

        http://trumanfactor.com/2012/daron-acemoglu/

        Não tenho certeza, mas ainda irei verificar melhor…A questão dos juros é de poder, não se limita a aspectos técnicos.

        Cordialmente,

  6. “Por favor, me expliquem. Por que não resolvemos o nossos baixo investimento público à base do grito? e por que não forçamos as empreiteras a cobrar menos pelo seus serviços?”

    Entendi a ironia, Mansueto.

    O pronunciamento de Dilma deve ser tomado pelo que é: discurso mediado pelo marketing político.

    O ataque aos os bancos e a promessa de rigor contra a corrupção que o próprio governo estimula, revela o objetivo tático implícito no discurso: defender e manter os elevados índices de popularidade da Presidente. Ponto para João Santana.

    Mas esse discurso permite também entrever o desespero do governo. Dilma iniciou seu mandato prometendo taxas de crescimento na casa de 5%. Como há sinais evidentes de que isso não está acontecendo, há que se encontrar FORA DO GOVERNO o grande satã responsável. E, convenhamos, nada é melhor para isso do que apontar o dedo imperial para os bancos.

    Quando deixei em post anterior um longo comentário a respeito do episódio “sucessão na Vale”, visava mostrar o método do “grito imperial” em ato, e com a participação ativa de Roger Agnelli e do sócio Bradesco. No que deu?

    Somente agora recente reportagem do Jornal Valor mostrou aspectos da inviabilidade técnica da usina siderúrgica do Pará (não há infraestrutura para escoamento da produção). Ninguém viu isso antes? A gritaria a fvor do “investimento estratégico”, claro, abafou qualquer possibilidade de debate racional a respeito da patacoada que atendia a interesses da reeleição de Ana Júlia Carepa e ajudava na construção da mitologia do grande timoneiro do “nunca antes”.

    No comentário, acrescentei os dados que mostram a atual inviabilidade econômica com base na situação mundial da produção de aço. Ou seja, nem mesmo as usinas siderúrgicas tecnicamente viáveis e em operação no Brasil estão conseguindo sucesso. Os balanços de 2011 apontam números vermelhos. Insisto, prestem atenção no desempenho da moderníssima CSA (Thyessen + Vale em Santa Cruz/RJ).

    O governo segue a cartilha de economistas hoje tornados influentes nele: forçar o crescimento via aumento de crédito para o consumo. Via dar certo? É, de fato, o melhor a caminho para o crescimento? Como se diz, o caminho do inferno é pavimentado por boas intenções e auto-engano

    Uma dica: Bobbio produziu uma das melhores metáforas para o contingente na História. Mais ou menos assim: a história é um labirinto. Acreditamos que nele existe uma saída. Mas como não existe ninguém que paire sobre o labirinto e, assim, nos possa mostrar qual o caminho que nos conduziria á saída, o que temos de fazer é procurar por nós mesmos como sair. O que as várias tentativas de procurar o caminho no labirinto da história nos ensinam, ou seja, o que a história ensina diz somente respeito aos caminhos que levam para lugar nenhum. Ela útil para mostrar por onde já fomos e como fomos.

    • É exatamente esse o ponto: “forçar o crescimento via aumento de crédito para o consumo”. Esse modelo deu certo até agora, mas dá sinais de esgotamento. Aí, se as s famílias se endividarem mais do que são capazes de pagar, dá um mega problema – vide crise mundial.
      A Dilma está de fato preocupado em resolver os problemas estruturais da economia brasileira para produzir um crescimento de longo prazo? Na minha opinião, não. O que ela está fazendo para melhorar a estrutura tributária? Nada. O que ela está fazendo para melhorar a infra-estrutura? Quase nada. Diminuir a burocracia? Nada. Temos uma longa lista de reformas e não atacamos os reais problemas…

      • Se a presidente encaminhasse um rol de reformas, começando pela redução de seus próprios gastos e redução do número de ministérios e de funcionários de livre contratação e com os maiores salários (DAS6) seria um bom exemplo a todos.

        Pelo contrário, o governo parece estar induzindo as pessoas a mais endividamento via consumo.
        E na base de ameaças e críticas aos bancos, como se o governo não fosse um dos que podem forçar a taxa de juros para cima. Afinal, ele gira sua dívida diariamente no mercado financeiro nacional e internacional. Será que ele vai topar receber menos por suas aplicações? Afinal ele tem de defender os recursos públicos.
        Essa atitude não pode ter vida longa ou resultados palpáveis em termos de política econômica.

  7. Prezado Mansueto, poderia explicar o que e ¨populismo? Parece uma expressao muito utilizada por consultores e periodistas frente a medidas que geralmente nao beneficiam certo tipo de interesses. Coisa extranha…

    • Populismo são medidas que têm efeito no curto-prazo, isto é, as medidas de fato funcionam, mas não se sustentam ao longo do tempo ou causam distorções graves na economia.

      No caso dos juros, é possível que haja uma concentração excessiva do mercado bancário e que o governo esteja correto? sim, é possível.

      O que não me agrada é que se de fato há concentração, o Banco Central ou o CADE deveriam ter tomado à frente deste processo.

      Se as companhias aéreas ou telefônicas adotam práticas irregulares e limitam a concorrência, espero que a punição dessas companhias devido às suas práticas de controlar preços venham dos órgãos responsáveis pela fiscalização da competição.

      Em 1986, quando o governo adotou o Plano Cruzado e para funcionar seria preciso medidas de ajuste fiscal, o governo não quis tomar essas medidas e no final, a inflação voltou. Assim, o Plano Cruzado funcionou em um segundo momento como um plano populista.

      O que sabemos no caso do Brasil?

      sabemos que (1) os juros básicos são absurdamente elevados (SELIC); e (2) o Spread bancário é também absurdamente elevado. As medidas que reduzam os juros básicos e spread são medidas positivas. O que não entendo é porque tais medidas não partiram das instituições e sim da ação pessoal da Presidente da República que culpa a ganância dos bancos privados.

      Por princípio, todos os empresários, no bom sentido, são gananciosos – eles buscam o maior lucro de suas atividades. O que limita esse busca por maior lucro é a regulação das atividades (em caso de monopólio e mercados muito concentrados sujeitos a ganhos de escala) e/ou concorrência – a possibilidade de eu punir empresários muito gananciosos comprando o produto do seu concorrente.

      O que me parece esquisito nesta história toda é:

      (1) Por que as taxas de juros dos bancos públicos não eram menores do que as dos bancos privados? Por que o presidente da CEF ou do BB não foram antes à TV e imprensa escrita para falar das elevadas taxas de juros? Se havia concentração de mercado que atrapalha a concorrência, não apenas os órgãos públicos foram coniventes com a situação, mas os bancos públicos parecem ter participado e se beneficiado até recentemente desta situação; e

      (2) Se precisamos de um mercado bancário mais concentrado por questões de segurança e se isso vai levar, necessariamente, a menor concorrência e juros maiores; talvez fosse a hora de discutirmos a concentração do setor bancário e os prós e contras do crescimento excessivo de poucas instituições financeiras. Não tenho nada contra isso e seria um debate saudável.

      Em um mercado competitivo com mecanismos de seguro-depósito para proteger os depositantes e poupadores até determinado limite, não há porque se preocupar com falência de bancos. Mas com mercados muitos concentrados, isso é sim uma preocupação.

      O tom do discurso de Presidenta dando um puxão de orelha nos bancos privados me pareceu um discurso populista: o bem, o governo, contra o mal (os banqueiros gananciosos). Não significa que esteja chamando o governo de populista até porque todos os governos recentes na história do Brasil, desde 1985, adotaram medidas populistas, apesar do efeito líquido de nossa história recente ser claramente positivo. Sou mais otimista do que pessimista.

  8. O de melhor que se escreveu até agora sobre queda de juros foi a sugestão da FEBRABAN. Se de fato existe interesse na queda REAL dos juros finais o estudo deve partir das sugestões da FEBRABAN. O resto de fato é popúlismo.

  9. Mansueto, você está confundindo as coisas – e acho que sabe disso. Em nenhum momento a Presidenta disse que iria, ou que queria, baixar os juros no grito. O discurso fala a grande parte da população brasileira que não entende patavina de economia – e que inclui, por sinal, a grande parte das pessoas que têm ensino superior e tal, mas comentam em sites de jornais por aí com base em aproximações e conceitos pra lá de duvidosos.

    O governo está usando os bancos públicos pra administrar uma política pública. Como isso pode estar errado? Se o CADE, o BACEN e o judiciário não têm instrumentos para atacar um problema grave na economia brasileira, que pode ser atacado sem danos usando-se os bancos públicos, o governo deveria dar de ombros? Uma resignação aos instrumentos que alguém decidiu que são os únicos aceitáveis? Quer dizer, não é como se os efeitos estivessem sendo atacados. Se você provar que a queda dos juros praticados pelos bancos públicos vai resultar na quebra de algum banco privado – e sabemos que não vai, não é mesmo? – ou em endividamento insuportável – e estou pra ver algum estudo sério, comparativo com o que ocorreu nos países desenvolvidos, que diga isso – daí podemos criticar a medida. Mas sua crítica parece ter por único fundamento não uma medida concreta que vá desaguar em problemas reais, mas um pronunciamento pela TV que a acompanha. Aliás, concentrar no discurso parece ser uma boa forma de não discutir as medidas…

    Ora, é direito sagrado do governante capitalizar em cima das medidas que toma e que produzem benefícios, como é direito sagrado da oposição criticar o governo pelos malefícios que são ou podem ser causados. Mas é curioso que ninguém tenha sido capaz de ser contra as medidas, de dizer que não são necessárias ou que vão causar danos. Concentra-se chumbo em meia dúzia de parágrafos veiculados na TV. É preciso muita imaginação pra transformar uma fala na TV em prenúncio do caos – mas, tendo em vista que faz pelo menos 10 anos que se prevê o caos, não é nada surpreendente, não é mesmo? Nesse ritmo, aliás, prevejo que teremos mais pelo menos 6 anos de previsão do Grande Caos sem que nenhum dos seus elementos se concretizem na realidade. Por isso, aliás, por desconexão entre as previsões catastróficas e uma realidade bastante boa do ponto de vista econômico, fica a oposição falando sozinha e sem projeto. Aliás, existe alguma proposta concreta de reforma soltada pela oposição? Não conheço. Quais tributos deveriam ser elevados para compensar a perda de arrecadação? Quais serviços públicos cortados?

    Daí entram as questões do PAC, dessa reforma tributária oca, da corrupção na prefeitura de seiláonde. Que nada dizem sobre a medida teoricamente em debate. Ou existe alguma ligação mística que permita inferir da dificuldade histórica de fazer obras públicas no prazo que o governo não deve pressionar pela baixa dos juros se ele tem instrumentos para tanto? Por acaso os juros devem ficar altos até que tudo o mais se resolva? Nesse caso, faltou falar da educação e da saúde – às vezes, parece que nada pode ser feito até que o Brasil tenha um sistema público de educação e saúde equivalente ao da Noruega.

    Aliás, nesse caso específico a ligação parece até existir, só que ao contrário. A taxa de investimento é baixa em parte porque o governo e o sistema financeiro pagam juros altos sem necessidade de investimento produtivo, não? Ainda que as coisas não sejam tão simples assim, reduzir os juros – com instrumentos existentes, sem violar nenhuma lei nem produzir danos de longo prazo – parece um passo bem razoável para aumentar a vontade dos empresários de investir em vez de girar no financeiro…

    Como disse lá em cima, é direito sagrado da oposição fazer oposição. O que não dá é pra querer dar a isso ares de teoria econômica sem embasar o argumento com teoria econômica. Essa de “temo pelas instituições do país” é meio da década passada, né? Acho que nem o PSDB acredita mais nisso…

    • Prezado Carlos,

      Você parece desconhecer bastante o funcionamento da economia. Uma pena. Além disso, parece não ter lido com a devida atenção ao post do Mansueto e nem ter sequer folheado o artigo no Estadão mencionado por ele. Aí, acaba tendo um descasamento entre o que você fala e a realidade

      Dizer que “o CADE, o BACEN e o judiciário não têm instrumentos para atacar um problema grave na economia brasileira”. Cara, em que mundo você vive? Isso mostra o quão você desconhece o funcionamento. Ambos (o BC com certeza) podem processar os bancos por cartel e, se comprovado, pode aplicar pesadas multas. Podem impor sanções ou, no limite, forçar uma desconcentração. Simples. Alias, o Mansueto foi muito claro na opinião dele: “Em tempo, não tinha nenhuma restrição que o setor público utilizasse a CEF para forçar maior concorrência no setor. É um banco 100% público e acho legítimo o governo, em uma conjuntura de restrição do crédito utilizar o seu banco para evitar uma forte contração do crédito. ”

      Seguindo adiante: “Mas é curioso que ninguém tenha sido capaz de ser contra as medidas, de dizer que não são necessárias ou que vão causar danos.” Mais uma vez mostra que você não leu nem o post e nem o artigo do João Manoel e do Vinícius Carrasco no Estadão. Quer criticar? Que ao menos tivesse lido a bibliografia…

      Ninguém é contra o “direito sagrado do governante capitalizar”, mas somos contra fazer disso um maniqueísmo que não levará a lugar nenhum. Puro populismo com demagogia. E, concordo com você, a oposição não tem projeto.

      Por fim, nada contra discutir o setor bancário. Isso está acontecendo no mundo toda. Essa “democracia do grito” e a “Argentinazação” do Brasil é que é o problema

      • Fernando Setubal Souza e Silva, muito bom seu comentário.
        E essa história de o “Banco Central, sou eu”, foi num período de niilismo autoritário que não cabe mais nos dias de hoje.
        Em qualquer situação, há de se contar com as Instituições e seus órgãos, como, no caso o BC, o SBDC, o Judiciário e tudo o que a Democracia tem de salvaguardas.
        Ignorar as Instituições por voluntarismo niilista, não cabe em pleno Século XXI.

    • Carlos,

      respeito muito sua opinião, apenas não vejo os elementos que você vê. No momento, não há como decidir quem está correto porque o contra fatual não existe. O que o governo está fazendo é sim tentar baixar os juros na base do grito. Me responda duas coisas.

      Primeiro, Por que os bancos públicos esperaram tanto para baixar os juros? esse bancos antes desse episódio já eram responsáveis, no final de 2011, por 44% do crédito total concedido. Você pode me responder o seguinte, Os bancos públicos estão reduzindo os juros agora porque apenas agora isso passou a ser política do governo. OK, então para im significa que o bancos públicos eram tão ou mais gananciosos que os bancos privados.

      Segundo, o CADE e Banco Central têm sim instrumentos para atuar na regulação e concorrência do setor bancário. Se poderia facilitar a abertura de novos bancos, não aprovar a vendas que foram de bancos aumentaram a concentração do setor, etc. não há problema algum ter vários bancos pequenos e que esses bancos possam falir – se são pequenos não haverá risco sistêmico e com seguro depósito os depositantes pequenos estarão protegidos.

      O que eu lhe pergunto para mostrar que a política de redução dos juros não está sendo feita à base do grito é o seguinte. me ponte um único estudo oficial do governo que mostre que há um problema de coordenação de juros e taxas por parte do setor bancário? Lá atrás, em 2009, o Banco Central fez um estudo junto à Secretaria de Direito Econômico (SDE) sobre o setor de cartões de crédito e identificou práticas não concorrenciais e, em seguida, adotou medidas para promover a concorrência. O estudo pode ser visto aqui: http://www.bcb.gov.br/htms/spb/Relatorio_Cartoes.pdf

      Olhe no estudo logo na primeira página os logotipos das instituições: SDE, Banco Central do Brasil e SEAE. Pergunto novamente, onde está o estudo mostrando que o setor bancário, inclusive os bancos públicos até 2011, usavam de práticas não concorrenciais? O Banco Central, a SDE e a SEAE são competentes por um lado para identificar concentração no setor de cartão de crédito mas não para identificar concentração no mercado bancário?

      A respeito da teoria econômica quando você falou que “…O que não dá é pra querer dar a isso ares de teoria econômica sem embasar o argumento com teoria econômica…”, bom me prove que os países de juros mais baixos são aqueles que têm atuação mais agressiva de bancos públicos. Há evidência empírica para isso?

      É claro que o caso da China não vale porque é uma ditadura e o governo tem bancos públicos porque entre outras coisas, pouco se preocupa com o social, pode alocar receita tributária para bancos públicos. Mas respeito a sua opinião e você talvez seja muito mais qualificado do que eu para tratar deste assunto dos juros.

      É possível que a política da presidenta funcione? Sim, sem dúvida! É possível que a política da redução forçadas dos juros via bancos públicos funcione, o que para mim vai indicar que o Banco Central, o CADE, SDE e SEAE foram todos incompetentes para identificar um problema que foi descoberto com atuação mais agressiva dos bancos públicos que, em geral, deveriam sempre cobrar taxas mais baratas no mercado, já que o objetivo do maior lucro não deveria ser o objetivo maior de bancos públicos.

      Mais uma vez, respeito sua opinião; apenas discordamos e teremos que esperar para ver quem tem razão. Do ponto de vista empírico, sempre mudo de opinião à luz da evidência e gostaria de conhecer casos em que a agressividade dos bancos públicos foram fundamentais para reduzir os spread bancários.

      Abs, Mansueto

      • Mansueto e Fernando, obrigado pelas respostas – confesso que fui um pouco abrasivo no comentário, e agradeço-lhes por manterem o tom. Quando dizem que o sistema de defesa da concorrência tem instrumentos para resolver o problema, entretanto, isso parece ir contra o fato concreto de que a óbvia desproporção dos juros no Brasil (posso chamar de óbvia? há alguma conta que conclua que o patamar é razoável? que guarda correspondência com o Brasil de 2012, e não de 1980?), a óbvia desproporção não foi atacada até hoje por nenhum dos órgãos do sistema. Parece uma situação semelhante ao que ocorre no mercado de carros: sem que se possa demonstrar que existe conluio, há uma prática generalizada de preços que parecem ao público – e a grande parte da crítica especializada – estar em desacordo com o que deveria acontecer num sistema concorrencial.

        É verdade que, no caso dos carros, o governo adotou a solução proposta no artigo: chamar mais players para o mercado e esperar que a concorrência faça seu trabalho. Mas há ao menos três diferenças importantes: o governo está disposto a aguardar 2014 ou 2016 para ter um mercado de carros mais competitivo; o preço dos carros não se espalha pela economia toda nem distorce outros mercados, decisões de investimento e endividamento das famílias; e quanto aos carros não há a enorme pressão do empresariado e da imprensa, que semana sim outra também fazem diatribes contra o governo federal, que consideram culpado pelas altas taxas de juros.

        Mas o fato de concorrência privada por abertura do mercado ser um instrumento poderoso isso não significa que esse seja o único instrumento à disposição – nem que seja fácil abrir o mercado sem criar problemas sérios. Se o mercado financeiro é estritamente regulado, demanda altos investimentos para entrada e isso desestimula ou impede a entrada de novos players, não vejo por que o governo não possa se utilizar de instrumentos normais no caso de mercados regulados. Poucos parecem reclamar quando o governo atua para manter o dólar em patamares controlados em vez de deixá-lo explodir e desabar a cada dois meses. Também há pouca reclamação quanto ao uso da Petrobras para evitar repassar volatilidade de curto prazo ao mercado – é verdade que já está claro que desde há uns bons meses já não é mais de curto prazo a volatilidade, e pode-se dizer que o governo está abusando da técnica, com efeitos perniciosos sobre o mercado. Por que esses instrumentos são demonizados agora?

        A pecha de populista parece um catch-all, como diz o Thor Ribeiro abaixo, que evita discutir a questão em si e concentra-se num (na realidade, olhando de novo, até bem suave) pronunciamento na TV. Mesmo admitindo que nossos vizinhos são populistas em algum sentido, é preciso muita imaginação pra igualar o que disse a Presidenta às atitudes de Chávez ou Morales, e mesmo aos discursos inflamados e estatísticas duvidosas de Madame Kirchner. Se populista for dizer coisas no mesmo sentido da crença popular, então populista não se distingue de político. Mas acho que há uma definição mais adequada para o caso: populista é a medida que produz efeitos deletérios no longo prazo. Só que, neste caso, para caracterizá-lo é preciso um mínimo de evidências de que esses efeitos deletérios pode acontecer no sistema financeiro nacional com as medidas – na verdade, bastante tímidas – de redução dos juros em bancos públicos. Aliás, minha impressão de leigo é de que a consequência pode ser positiva: sem poder cobrar uma fábula no crédito ao consumidor, os bancos talvez tenham de começar a considerar financiar os produtores – coisa que hoje o BNDES faz de maneira desproporcional sem que isso apareça como um escândalo.

        (os demais bancos públicos, é verdade, vinham dançando conforme a música até agora, o que não é nenhum pecado. No capitalismo ao menos, ganância não é defeito, mas a atitude esperada dos agentes econômicos; um bom diretor de banco público deveria e deve, na ausência de intervenção do acionista majoritário para atingir outros objetivos, buscar maximizar o lucro. Assim como a Graça está pressionando o governo para aumentar o preço dos combustíveis para que a Petrobras lucre mais, espero que os diretores de bancos públicos, podendo aproveitar-se de um mercado atraente, o façam e da maneira mais rentável. Desvios dessa conduta, como você diz, Mansueto, devem ocorrer apenas quando houver política de governo nesse sentido.)

        Enfim, aceito o argumento de que a *melhor* forma de fazer o ajuste, nos casos em que isso é possível, seja forçar a concorrência abrindo o mercado para a entrada de mais agentes privados. Mas não vejo porque essa acusação de heresia em usar *quaisquer outras* formas, em especial quando todos concordam que existe uma distorção e que esta pode ser corrigida sem quebradeira, com benefícios para a maior parte da população e de maneira sustentável. Lembrando que o governo dispõe dos instrumentos para fazer isso sem quebrar leis nem destruir mercados. Forçar a concorrência não é a mesma coisa que sair estatizando e congelando preços, e é essa equiparação que me incomoda.

        Você pode ver no seu post sobre a Argentina acima, Mansueto, que quando vocês da crítica com PhD tratam qualquer minuta de reunião de diretório municipal do PT como elemento de uma grande “Argentinização” do governo brasileiro, quem não entende muito já acha que os dados do IBGE são comprados, que é tudo uma grande farsa e que o Brasil vai andando pra trás – só falta finalmente aparecer a Grande Catástrofe. O que é aceitável como brado político da oposição, mas simplesmente não se sustenta olhando o que fazem e como agem uns e outros governos. O Brasil, como diz o embaixador espanhol hoje, é bem outro país. Grande abraço.

      • Bom,

        Mas acho que estamos mais próximo de um consenso do que de divergências. Não me lembro de ter dito que o Brasil caminha para ser uma Argentina porque, como já falei, o Brasil tem feito progressos em vários governos desde a sua redemocratização. Políticas populistas existem em vários governos e em várias democracias.

        Não me lembro também de ter falado mal do PT. Falei mal apenas do tom populista do discurso da presidenta no dia 1o de maio. Em todos os partidos do Brasil há pessoas bem intencionadas seja PT, PSDB, PMDB, PSB, etc. E em todos os partidos políticos há pessoas que se preocupam mais com o poder do que com o bem público. O Brasil de fato melhorou e acho que não discordamos disso – sou otimista e acho que os erros que estamos fazendo se corrigem.

        No caso dos bancos públicos, acho legítimo o que o governo faz. Acho que já falei isso aqui também e o efeito de redução dos juros lideradas pelos bancos públicos, como você corretamente falou, pode ser positivo – mesmo que rentabilidade da CEF fique menor. Quem falou que um banco 100% público precisa da mesma rentabilidade de um banco privado? Eu acho que pela sua própria natureza, banco público não debe procurar maximizar o lucro e sim maximizar o apoio a projetos de elevado retorno social.

        O que não gosto é achar que o problema do spread decorre apenas da ganância dos bancos privados, o que não é verdade, ou mesmo que apenas com o uso de bancos públicos vamos resolver as anomalias de taxas de juros elevadas no Brasil. O meu ponto são dois: (1) acho que precisamos entender essa passividade do BACEN e do sistema de defesa de concorrência nesse processo; e (2) atuar sobre os demais fatores que afetam o spread bancário (impostos diretos, compulsórios, inadimplência) como sugerido pela FEBRABAN e que não estão relacionados diretamente à concentração do setor bancário.

        Um último ponto. Jamais acredite em pessoas que usam o titulo acadêmico para sustentar as opiniões. Muito do debate “econômico” é por natureza político. Um bom economista não tem as soluções, ele pode apontar os prós e contras de determinadas políticas e buscar mostra a evidência.

        Mas para essas discussões não existe uma solução técnica. Por exemplo, qual o ritmo adequado de redução da Div. Liquida do Setor Público? qual dever ser o tamanho do gasto primário como % do PIB? qual deve ser o tamanho da carga tributária como % do PIB? qual deve ser o mix de gasto entre políticas distributivas e investimento?

        Não há respostas técnicas para as perguntas acima. Assim,se em algum momento passei a impressão de saber mais do que outros me desculpe. O que gosto do meu blog é justamente o debate e de pessoas como você desafiar os argumentos que aqui são expostos.

        Abs,

        Mansueto

    • Ninguém precisa entender patavina de economia. Mas, também e principalmente, como estamos num Pais civilizado, em plena Democracia, com alguns laivos, quiçá passageiros, de arrogância, ninguém deve ser enganado. Engambelado ou engabelado, seria o termo mais adequado.
      As pessoas estão endividando-se além da conta para os padrões brasileiros. A alavancagem está elevando-se. Negar isso é errado. E fazer disso política econômica é pior ainda. E criticar quem alerta sobre isso é arrogância, que não cabe no dicionário de um País com mais de 190 milhões de habitantes.
      O momento seria de parcimônia, de ajustes das contas governamentais, das pessoas pouparem. Não trata-se nem do “paradoxo da parcimônia”, dos manuais de Economia. E nem do “paradoxo da composição”.
      Mas, de razão pura e simples.
      O sistema atual não é sustentável. A conta será apresentada logo logo.
      É disso que se trata. E não haverá voluntarismos que possam impedir que isso venha a ocorrer. E a conta poderá ser mais alta e mais pesada do que o mais pessimista possa esperar.
      E como somos uma Democracia, não tem ninguém com poder de impedir que haja oposição no País. Em qualquer nível, sobre qualquer assunto.
      De todo modo, seus pontos de vista permitem vislumbrar que realmente há voluntarismos na condução da economia e que isso está tendo apoios.
      Seria interessante que houvesse um redirecionamento, antes que não haja mais tempo.

      • Exato, Dawran, é isso o que muitos pensam. Só que isso absolutamente não é sustentado pelos números. A dívida do governo, medida da maneira correta (isto é, em proporção do PIB) está sob absoluto controle e tem até diminuído bastante nos últimos anos, e a dívida das famílias só explodiu porque vinha de patamares muito baixos – sinal de que grande parte da população não consumia. O FMI tem dados disso tudo de abril de 2012, que estão disponíveis no Google Public Data Explorer.

        Pelos dados agregados, comparados com qualquer país exceto talvez uma China ou Cingapura, estamos dentro da mais absoluta normalidade. O pensamento contrário só se apoia em dados isolados transformados em manchete de jornal sem nenhum interesse em comparar nem em agregar nem em aferir se os dados são ou não fora do normal. Ou então na Bíblia, naquela percepção atemporal de que a sete anos de vacas gordas se seguem invariavelmente sete anos de vacas magras. Só os números é que não corroboram a tese de que as vacas magras estão chegando para o Brasil – e muitas pessoas que acham que estão acham isso há pelo menos sete anos já, o que as torna um pouco suspeitas, hehe.

        Ao menos eu desconheço estudo, dentro das regras básicas de um estudo econômico, que dê qualquer indicação de que “As pessoas estão endividando-se além da conta para os padrões brasileiros.” Negar isso é errado? Mesmo numa democracia? Acho o contrário, e acho que você concordará comigo: num blog de debates adultos eu tenho o mesmo direito democrático de contrariar o dono do blog que ele tem de contrariar a Dilma, o Sarney e até o STF. É assim que funciona, e é assim que deve funcionar. Abraços!

    • Carlos
      Carlos

      Recentemente, tivemos na cena política, com a inestimável colaboração de renomados economistas e lobistas(*) hoje tornados influentes no governo federal e no Congresso, uma ensurdecedora gritaria de matiz catastrofista a respeito da desindustrialização. A gritaria teve como um dos resultados a elevação das alíquotas de importação de automóveis, como é sabido.

      Hoje, Alexandre Schwartsman publicou um post que demoliu com números, (fez exatamente o que pediu para ser feito no seu comentário) a grande tese que, veja só, nunca foi confrontada com números pelos defensores dela.

      O que causa apreensão não é o fato de governos intervirem na economia, mas sim COMO governos que fazem intervenção.

      Mansueto e Alexandre seguramente divergem. Mas nem e nem outro discordam que o Estado pode e deve intervir institucionalmente não só na economia, mas também na saúde, segurança pública, educação etc.

      Não sei se você já pensou a respeito do nome do blog do Alexandre: Mão Visível. Um blog paleoliberal. Se não pensou, aproveite a ocasião.

      “Em suma, manufaturas perderam importância na pauta principalmente pela queda de seus preços relativamente aos primários e pela lenta recuperação dos principais mercados. Por outro lado, a participação de manufaturas nesses mercados caiu apenas marginalmente entre 2007 (1,39%) e 2011 (1,32%), indicação que “competitividade” não parece, nem de longe, ser o problema. Mas quem está disposto a fazer conta se, de antemão, chegou às conclusões que desejava?”

      http://maovisivel.blogspot.com.br/2012/05/datafobia.html

      (*) Lobby não é atividade por excelência de bandidos. É atividade legítima de indivíduos e grupos em sociedades abertas e democráticas. O que ocorre no Brasil é que nenhum governo até hoje interessou-se seriamente em criar a regulação que dê à atividade a devida institucionalidade. Por que será, né?

      Por isso vemos políticos ditos ex-políticos virarem, da noite para o dia, prósperos consultores de negócios. Se não me engano, há um projeto de regulamentação da atividade de lobby que há anos rola para lá e para cá e de gaveta em gaveta no Congresso. Por que será que o Executivo Federal não manda para o Congresso uma MP de regulamentação da atividade? Por que não vemos no governo uma gritaria contra a bandidagem travestida de lobby?

  10. Mansueto,

    Acho que o problema nessa discussão está em separar o técnico do político, algo que a maior parte dos comentaristas aqui toma como algo positivo, cuja contrapartida é o inevitável populismo. Vimos que há bons argumentos que explicariam a inação das instituições vigilantes naturais da concentração bancária (incapacidade estrutural e legal no caso do CADE, imperativo da segurança no BC). O aspecto do lobby dos bancos não pode ser descontado, com toda certeza os polpudos lucros, a perpetuação de famílias, enfim, as conexões extra oficiais entre grandes grupos financeiros e produtivos e governantes (Os curiosos tentáculos do Cachoeira, que parecem ir do STF ao Senado a governos estaduais, a grandes empreiteiras e instituições financeiras não me deixa mentir).

    Se aceitarmos que existe uma situação de lucros excepcionais no setor(que vários estudos parecem provar) e a tese altamente plausível de que eles são defendidos por lobistas e influências espúrias, a solução natural parece ser exatamente uma atuação nos fronts técnicos e políticos. Como notou o Carlos, não podemos falar de consequências terríveis ou de irresponsabilidade com a máquina pública. Assim, há razões o suficiente, mesmo que não se concorde com elas, para assumir que o governo está agindo de boa fé aqui. O perigo em falar de populismo no caso é querer ter o monopólio da verdade e do correto, sendo que há bastantes técnicos, economistas e gente competente fundamentando essa decisão e não se pode afirmar cabalmente que há uma atitude antirrepublicana.

    (Sobre o termo “populismo”, a Angela de Castro Gomes tem uma obra clássica sobre o assunto onde termina por desconstruir seu uso: ele teria se dado nos mais diferentes contextos, contra as mais diferentes ideologias e geralmente manifesta crenças tecnocratas e antipolíticas- não por acaso fosse talvez a palavra favorita de Carlos Lacerda e da UDN. Recomendo vivamente para quem se interessa sobre o assunto)

    • Concordo com você Thor. Mas não me lembro de ter afirmado nada muito diferente de você quando fala que:

      “….há razões o suficiente, mesmo que não se concorde com elas, para assumir que o governo está agindo de boa fé aqui. O perigo em falar de populismo no caso é querer ter o monopólio da verdade e do correto, sendo que há bastantes técnicos, economistas e gente competente fundamentando essa decisão e não se pode afirmar cabalmente que há uma atitude antirrepublicana.”

      Eu jamais falei algo diferente. Falei que o governo está agindo mais pelo grito neste episódio (como tenho um pouco a impressão de ser o PAC) e que o discurso da presidenta no 1o de maio teve um “tom de populismo”.

      Como já calculado pelo BACEN, a margem líquida dos bancos junto com erros e omissões respondem por 32,7% do spread total; os outros 67% não são os lucros dos bancos. E os spreads são bem menores nas linhas de empréstimo com maiores garantias como é o caso do crédito consignado.

      Assim, não vejo porque tratar essa questão como sendo apenas um problema de suposta ganância de bancos privados ao invés de discutir o problema com um todo. E continuo achando que nosso sistema de regulação e supervisão bancária falhou em não olhar como deveria para questões de concorrência do sistema bancário.

      Mansueto

  11. Ontem uma jornalista fez um comentário, na minha opinião, muito inteligente no porquê a Presidente Dilma estaria atacando em rede nacional os bancos.

    Independente se a maneira pela qual o governo vem atuando (via bancos públicos) para tentar reduzir os spreads bancários estaria certo ou errado (o que, na minha visão, é uma forma equivocada de lidar com o problema!), o discurso da Presidente visa, dentro de uma estratégia política, elevar sua gordura de popularidade para, num segundo momento, ter a capacidade de mexer nas regras das cadernetas de poupança (coisa que nem Lula “paz e amor”) teve êxito.

    Apesar das cambaleadas no modus operandis econômico, a estratégia política parece fazer sentido!

    • faz sentido mas não sei avaliar. O governo terá que modificar a remuneração da poupança e isso será um atitude correta, apesar da oposição aproveitar o episódio para deitar e rolar nesse assunto. Mas o governo está fazendo o correto já que com as reduções maiores da SELIC haveria o risco de migração das aplicações para poupança.

      • mansueto,
        Dá para concordar com a questão da migração de aplicações e com os descompassos que isso poderia causar. Porém, com discordância quanto à forma. Colocar bancos como vilões, onde dá para vislumbrar claramente um viés político-eleitoral, não seria uma boa coisa. Tratar-se-ia de uma intervenção politica num mercado que funciona livremente, vigiado pelo BC, porém, há anos. Em época onde houve problemas, houve a forte atuação técnica do governo da época, saneando, intervindo, liquidando. E os “players” desse mercado, trabalham sempre com o governo na rolagem e financiamento da DP, no plano nacional e internacional. De repente, colocam mais um “vilão” para ser combatido pelos paladinos atrapalhados da ordem econômica e do “crescimento sustentado”. O baixo crescimento do PIB e abaixo da inflação, ao que consta, não teria nada a ver com a atuação livre, porém supervisionada pelo BC, dos bancos. Se alguém tivesse de ter as orelhas puxadas, seria o BC e o SBDC, pela falta de concorrência. Por que não bancos com atuações locais, regionais? Privados, lógico. E um BC que puxe as orelhas do governo e não o contrário? Mesmo dentro conceito de autonomia operacional. Ou seja, o próprio governo e sua estrutura pesada de gastos é que é o vilão, com viés intervencionista e populista.
        Nada contra a política. Governos, só sabem fazer política e é essa a função deles. Só essa. Só que devem fazê-la bem. Assim, só política, em casos de economia, não é nada recomendável. Se for política ruim, então, “pode parar”, como fala a garotada.

  12. Mansueto: recebi a fatura de meu cartão de crédito. Era uma rotina, nem lia, este mês resolvi ler. Nunca financiei nada pelo cartão (por causa dos juros). É um cartão que tenho ha mais de quarenta anos. OLHA SÓ AS TAXAS DE JUROS QUE PUBLICAM: 13,40% AO MÊS E 381,45% AO ANO COM IOF. PARA SAQUES 439,21% AO ANO. ISTO NÃO É MERCADO, É ABUSO. NADA JUSTIFICA. NÃO SEI COMO A JUSTIÇA TEM SENTENCIADO ESTES CASOS ABSURDOS. MAS PRESO DEVERIA IR QUEM COBRA UMA TAXA DE JUROS DESTA. NOS USA CASOS ASSIM SÃO INACEITÁVEIS.

    • marco aurélio garcia,

      O que incomoda mais ainda, são os números, precisos, após as vírgulas!!! Impressionante. Nunca tem algo como 45,00%. É sempre 45,79%, 45,02%…

  13. Prezado Mansueto,

    Você viu que, para o Mantega, a medida da poupança foi uma “reforma estrutural que permitirá os juros caírem no Brasil”? Isso mesmo, uma simples medida provisória publicada numa edição extra do Diário Oficial. Isso é estadismo para o PT! Tá aqui aos 2min e 05 seg. http://g1.globo.com/globo-news/jornal-das-dez/videos/t/todos-os-videos/v/mantega-diz-que-mudanca-na-poupanca-remove-obstaculo-para-maior-reducao-de-juros/1931872/

    • Vi o que o ministro falou e não entendi absolutamente nada. Como você, não entendi porque chamaram essa modificação de reforma estrutural. Espero que isso não passe de simples retórica e que o governo esteja estudando de fato medidas mais estruturais como, por exemplo, controlar a expansão do gasto público e aumentar a poupança pública.

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