O que é isso companheiro?

O professor de economia, Luiz Carlos Bresser Pereira, já foi Ministro da Fazenda, Ministro da Ciência e Tecnologia e Ministro da Administração. Além disso, no setor privado, foi bem sucedido trabalhando no Grupo Pão de Açúcar. Ele pertence a uma lista seleta de economistas que conseguiram unir sucesso no setor público (três vezes ministro) e no setor privado, além de ter uma participação bastante ativa no circuito acadêmico.

Dito isso, não entendo como um profissional com esse currículo pode escrever o que ele escreveu no seu artigo da Folha da São Paulo do dia 23 de abril: “A Argentina tem razão”. Destaco duas passagens do artigo:

(1) “Não faz sentido deixar sob controle de empresa estrangeira um setor estratégico para o desenvolvimento do país como é o petróleo, especialmente quando essa empresa, em vez de reinvestir seus lucros e aumentar a produção, os remetia para a matriz espanhola.”

Qualquer país tem o direito de decidir se quer ter ou não empresas estatais ou mesmo se privatiza ou não suas empresas estatais. O problema no caso da Argentina foi outro. A companhia YPF havia sido privatizada e agora o governo decidiu expropriar o investimento da REPSOL. Poderia ter comprado a empresa baseado no seu valor de mercado de forma transparente. Uma coisa é reestatização outra é expropriação.

Imaginem se o governo brasileiro decidisse que foi um erro a privatização da Vale e decidisse tomar essa companhia de volta, pagando o que quisesse aos seus acionistas? Poderia justificar que a VALE não defende o interesse do país porque agrega pouco valor aos produtos que exporta (o que seria uma mentira). Isso seria um completo desastre, mas não faltariam professores de economia para aplaudir a “coragem do governo”.

Países se beneficiam de boom de commodities tributando mais esses setores e utilizando os recursos arrecadados para investir mais em educação, saúde, infraestrutura e inovação. O que a Argentina fez foi um desastre e a população da Argentina ainda vai pagar caro por isso. Por sinal, na literatura econômica, a Argentina é aquele país que tinha tudo para dar certo, mas um sucessão de governos populistas desde a década de 50 fez com que o país fosse um caso de sucesso não realizado na América Latina.

(2) “…Mas a Argentina é também um bom exemplo. Desde que, em 2002, depreciou o câmbio e reestruturou a dívida externa, teve superavits em conta corrente. E, graças a esses superavits, ou seja, a esse câmbio competitivo, cresceu muito mais que o Brasil. Enquanto, entre 2003 e 2011 o PIB brasileiro cresceu 41%, o PIB argentino cresceu 96%.”

Isso é conversa fiada. Para se chegar ao crescimento do PIB real é preciso utilizar um deflator (descontar a inflação) do crescimento do PIB nominal. Acontece que, na Argentina, os índices de inflação são controlados pelo governo e, assim, eles devem utilizar um deflator do PIB muito menor do que a inflação real, superestimando, assim, o crescimento do PIB real.

Por exemplo, vamos supor que o PIB nominal em um certo ano cresça 24% e a inflação real seja de 20%. Mas o governo pode dizer que a inflação calculada pelo seu instituto de estatística (INDEC) foi de 15% e, assim, o crescimento do PIB real oficial seria de 7,8%. Em países que falsificam os índices de inflação, não dá para acreditar em crescimento do PIB real. Foi justamente por isso que a revista The Economist parou de divulgar o índice oficial de inflação da Argentina calculada pelo INDEC nas suas tabelas de estatísticas semanais – clique aqui.

A Argentina como a Venezuela, Cuba e Bolívia, não são modelos para nenhum país da América Latina que queira crescer. O que o governo Argentino faz é uma política populista. É claro que o país é uma democracia e eles têm todo o direito de fazer políticas populistas, apesar das conseqüências negativas que essas políticas ocasionam no médio e longo-prazo.

Agora dizer que isso é correto é um pouco demais, mesmo para quem já foi três vezes ministro e teve uma carreira de sucesso no setor privado. O que é isso companheiro?

18 pensamentos sobre “O que é isso companheiro?

  1. A Argentina, como grande produtor de petróleo, tem todo o direito de ter sua empresa estatal na área. O caminho mais correto, uma vez que a YPF foi vendida, seria criar uma nova empresa do zero. Se o governo acredita que as empresas privadas atuais não estão produzindo na quantidade adequada, estabeleça uma empresa estatal para concorrer no mercado. Faça como nós, tenha uma estatal (ou semi-estatal) tipo Petrobrás e empresas privadas concorrendo. Nada melhor para ambas: concorrência.

  2. A parte a desonestidade intelectual grosseira, de comparar variáveis nominais de um país com inflação a 20% ao ano com outro de inflação 5% (nesse sentido o Zimbábue deve ser o maior caso de “sucesso” das últimas décadas), creio que os dados de crescimento real da Argentina não são tão pouco confiáveis quanto os de inflação. Semana passada eu fiz uma comparação entre os crescimentos de Argentina, Brasil, Chile e Venezuela (http://drunkeynesian.blogspot.com.br/2012/04/alguns-fatos-subversivos-sobre.html), e os dados indicam que os ritmos de crescimento de Brasil e Argentina são bem parecidos. Também notei que, no caso da Argentina, há uma grande diferença entre o índice de preços oficial (IPC) e o deflator do PIB, com este bem mais próximo do que se aponta como a verdadeira inflação do país (http://drunkeynesian.blogspot.com.br/2012/04/um-anexo-para-os-fatos-subversivos.html) – isso levaria a um número de PIB real que talvez reflita a realidade (ou pelo menos que não seja tão superestimado).

  3. Muito bom posts. Pelo menos, ao contrário do que eu esperava, eles não estão falsificando a estatística do deflator do PIB.

    Mas mesmo assim, o comportamento da Argentina comparado com o Brasil está longe de ser brilhante na comparação mais longa (1980-2011) e os efeitos dessas políticas recentes no longo-prazo devem ser desastrosas.

    Muito bom os dois posts vou replicar na pagina principal.

    Abs,

    Mansueto

  4. Mansueto e colegas,

    Desconsiderando a questão da expropriação (que é triste), minha opinião é que houve uma guinada de um grande número de economistas no sentido de uma posição mais liberal. Posso estar engando, mas acho que nos anos oitenta, direita e esquerda no país acordavam quanto à estatização e ao nacionalismo.

    O sucesso alcançado por políticas liberais adotadas pelo PSDB (partido de Bresser), convenceram boa parte dos economistas, que, hoje, defendem posições mais liberais. Nos anos 80, Bulhões, Campos e mais três ou quatro ficavam levando pedradas.

    Acho que a PUC/RJ teve o mérito de implementar medidas de caráter liberal e esse modelo deu certo. Bresser continuou com a posição de antes, como também, me parece, a UNICAMP.

    Abraços

    • Acho que isso mesmo. Concordo com sua análise, mas o preocupante é que hoje muitos economistas no Brasil parecem acreditar novamente que as coisas podem ser resolvidas no grito, ao invés de retomar a agenda de reformas. O caso do spread bancário é um bom exemplo. Se havia problema de concentração, por que os órgãos reguladores não agiram? e se não há problema de concentração, então o que fazemos vai acabar mal.

      Morro de medo da politica do grito, embora pessoalmente não tenha medo de grito.

  5. Até o Carlos Menem é favorável à nacionalização…

    https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/4/18/empresarios-temem-onda-de-reestatizacoes-e-nacionalizacoes

    rssss!!! Na Argentina até o passado é incerto. Veremos se o episódio da nacionalização da YPF não abre precedente na região. Essa empresa já foi um dos símbolos do nacionalismo argentino…

    http://www.esquerda.net/artigo/ypf-da-fantasia-aos-factos/22800

    Vejo, portanto, a nacionalização como uma questão simbólica e é claro econômica. As perspectivas dos preços do barril de petróleo estão acima dos US$100 e os argentinos precisam de preços favoráveis para uma re-industrialização. Parece que tem a questão do gás ao sul, na Patagônia. O problema é que a Argentina não possui capacidade tecnológica. Está contando com a Petrobras…

    Talvez o Menem esteja hoje preocupado com essa questão… rsss!!!

    Estou buscando fazer uma análise positiva, deixando de lado aspectos normativos. Claro que haverá retaliações; a questão é saber se um país arrasado economicamente como a Espanha pode fazer algo forte por hora. Talvez o rei Juan Carlos tenha treinado alguma tática quando caçava elefantes na África… rsss!!!

    Cordialmente,

    • É interessante ver onde isso vai parar ou se vai parar – muita gente que converso olha com uma certa satisfação para o modelo Argentino. Confesso que não estou com tempo para entrar nisso de cabeça, mas me interessa muito ver análises sobre o assunto.

      Mas a Argentina bem que poderia fazer uma parceria com a Petrobrás e mesmo ter endurecido com a Repsol. A pergunta relevante desse episódio é: será que há como os países em desenvolvimento se beneficiar do boom de commodities sem ter que adotar políticas que afugentem o capital estrangeiro?

      Eu acredito que sim. Ou seja, sabemos que as multinacionais muitas vezes negociaram acordos muito bom para elas e péssimo para os países em desenvolvimento. acho legítimo que a sociedade questione tas acordos acho até que esse pode ser o caso da privatização do setor de telecomunicação do México.

      Mas neste caso da Argentina não vi nada que comprovasse que a Repsol enganou o país ou que houve mutreta na privatização.Me parece muito mais uma expropriação por motivos ideológicos.

  6. Este crescimento foi o resultado do enquadramento da política económica, que tanto o orçamento do estado e quanto a conta corrente acabam com um superávit. E a única maneira que Argentina podia ignorar a seus credores internacionais e manter uma política económica autónoma. Como conseqüência dos “Defaults” do 2011 ainda não totalmente resolvidos, o governo argentino pode levantar capital no mercado internacional de capitais so con taxas de juros proibitivamente altas.
    O saldo externo piorou significativamente, sobretudo devido ao forte crescimento das importações de energia. Isso aumentou enormemente nos últimos anos, como controles de preços e outras medidas intervencionistas fez a produção de petróleo e gás na Argentina desinteressante.
    É muito provável que os investidores estrangeiros são detidos mais do que nunca por a expropriação de Repsol, e pode-se especular de onde os fundos virão de fazer os investimentos necessários.

  7. Mansueto, tudo faz muito sentido.
    Isso não é coisa da Argentina. Essas besteiras são a cara do Brasil.
    Não é a toa que ele foi ministro 3 vezes e que o Mantega é um dos mais longevos ministros da fazenda.

  8. Pingback: O ex-ministro e a expropriação argentina | Ordem Livre

  9. Comparar o crescimento do Brasil com a Argentina pós 2003 é, no mínimo, um insulto à inteligência alheia.

    A terrível crise econômica argentina, iniciada em 1999, culminou com o default da dívida em 2002. O PIB argentino nesse período caiu uma enormindade (quase 11% em 2002)! Com uma base tão retraída, qualquer melhora da economia significaria um salto enorme em termos de crescimento.

    O Sr. Bresser sabe como niguém como utilizar a (má) estatística em favor de seus argumentos.

  10. Talvez não seja possível comprovar isso, mas o Sr. Bresser teria rompido com a social-democracia e retornado ao socialismo, ao que foi lido a respeito em certo texto dele mesmo. Pena não ter guardado datas e outras informações a respeito.
    Então o que ele fala agora e talvez antes, nunca tivesse algo de liberal, realmente.
    Até ai tudo bem. Só falta entender onde ele poderia entender ser o governo argentino socialista.
    E por que a Argentina e tudo o que acontece por lá, exerce um enorme fascínio por aqui.
    Antigamente, poderia ser por causa da terra agriculturável dos pampas e seus mais de três metros de solo agriculturável. O frio europeu. A Siglo XXI, que publicava lá o que não podia sequer ser citado aqui etc.
    A ocupação e o envio de jovens despreparados para morrer na ocupação das Malvinas, uma pedra congelada no fim do mundo.

    Agora defender a desapropriação de empresa privada, não dá.
    Aqui, foi feita uma intervenção na Vale, sem desapropriação ou reestatização. Apesar de um ato político de envergadura e na direção oposta à modernidade.

    De todo modo, ao que parece, dentro das incoerências vigentes, há uma certeza: o Sr. Bresser poderia lutar pela estatização da Petrobras.
    A não ser que partidarização, sendo que partidos são organizações absolutamente privadas, seja entendida como estatização.

    Assim, fica difícil crer que foi uma boa medida tomada por Mrs. Kirchner.

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