A esquisita proposta de criação do Banco de Fomento dos BRICS

Achei interessante as declarações recentes de autoridades brasileiras a favor da criação de um banco de fomento dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), mas acho tal proposta sem sentido. Por que não acredito em tal instituição? Vamos lá.

(1) Primeiro, Brasil, Índia e África do Sul não têm dinheiro para entrar nessa empreitada. No Brasil, o saldo da dívida do BNDES junto ao Tesouro, em fevereiro de 2011, era de R$ 311 bilhões, ante menos de R$ 10 bilhões no início de 2008. Assim, como vamos colocar dinheiro em um novo banco se o próprio BNDES hoje precisa que o Tesouro emita dívida para aumentar seu funding para empréstimo? Será que o governo quer reduzir as transferências ao BNDES e transferir os empréstimos constitucionais do FAT para esse novo banco de fomento dos BRICS?

No caso da Índia, desconfio que o maior problema do país para financiar a sua ainda deficiente infraestrutura não se deve à falta de funding. A índia tem uma carga tributária (por volta de 16% do PIB) menor do que a do Brasil, mas tem um poupança maior (34% do PIB). Assim, se quisesse, o país poderia conseguir funding adicional para suas obras de infraestrutura até mais fácil que o Brasil que tem poupança baixa (18% do PIB) e já tem carga tributária elevada (36% do PIB). O problema da Índia todo mundo sabe é o excesso de burocracia em uma democracia muito mais complicada que o Brasil.

O país tem uma mão-de-obra de mais de 500 milhões de pessoas. uma taxa de informalidade acima de 90% e o maior empregador formal é o serviço público. Tudo na Índia que não seja o setor de software é complicado. No mais, há US$ bilhões de fundos de investimento que gostariam de financiar infraestrutura na Índia não o fazem exclusivamente por problema de regulação.

No caso da África do Sul, esse país também tem uma carga tributária (25% do PIB) menor do que a do Brasil e como nós, o país tem uma baixa poupança (16% do PIB). Mas no caso deles, ao contrário de nós que já estamos sufocados pela nossa carga tributária, eles ainda podem aumentar a poupança (pública) via aumento de carga tributária. Por que não o fazem? Não sei, talvez porque a África do Sul tenha um sério problema de desemprego – taxa de desemprego perto de 25% – e aumentar carga tributária pode piorar a situação.

De qualquer forma, o que Brasil, Índia e África do Sul têm em comum é que os três poderiam financiar parte dos investimentos necessários em infraestrutura simplesmente melhorando o marco regulatório. Não é preciso um Banco de Fomento dos BRICS para isso.

(2) Segundo, China e Rússia têm dinheiro para capitalizar um possível banco de fomento dos BRICS? Sim, têm e podem. No caso da China, estamos falando de um país com uma taxa de poupança fora do comum, perto de 50% do PIB, e um país que é uma ditadura – umas poucas pessoas em um sala fechada definem o que é prioritário para o país e quem protestar pode ser condenado à morte. É simples assim.

No caso da Rússia, este país está longe de ser uma democracia. Ao contrário, é um uma plutocracia de ex-agentes da KGB que ficaram todos ricos com a privatização e que hoje enriquecem um grupo de aliados. Umas das coisa que mais me assustou sobre a Rússia foi a história do fundo de investimento Hermitage Capital Mgmt, que foi perseguido pelo governo – clique aqui para ver matéria no The New York Times ou aqui para ver matéria da The Economist.

Da mesma forma que a China, o governo da Rússia decide o que fazer sem ter que dar muita satisfação aos seus governados. Se quiserem construir dois trens de alta velocidade ou o que seja, não precisam dar muita satisfação a ninguém e tanto China como Rússia são mercados com elevado potencial de atração de capital externo. O problema é que neste caso, além do marco regulatório, esses países têm governos que não seguem o princípio “the rule of law”.

Em um potencial Banco de Fomento dos BRICS, China e Rússia entrariam com interesses muito bem definidos, possivelmente para controlar o funding do banco, as operações de financiamento do banco e, claro, defender os seus interesses.

(3) Terceiro e último ponto, antes que alguém ache que estou criticando o BNDES, vou deixar claro que não estou. Não tenho absolutamente nada contra o BNDES e acho os seus funcionários competentes e tecnicamente bem preparados.

Dito isso, achei interessante a declaração do presidente do BNDES. Luciano Coutinho, que: “O Banco Mundial perdeu força para financiamentos e se tornou pequeno diante da demanda por infraestrutura social e econômica de vários continentes…”.

Hoje, comparado ao BNDES, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento são instituições pequenas. De fato, como mostra essa tabela preparada pelo próprio BNDES, se somarmos os desembolsos anuais do Banco Mundial e do BID, em 2010, eles não chegam à metade dos desembolsos do BNDES no mesmo ano.

Gráfico – 1 : Desembolsos de Bancos de Desenvolvimento – 2010

Mas o que está errado? O suposto tamanho “pequeno” do Banco Mundial e do BID ou o tamanho do BNDES, cuja atuação se dá, preponderantemente, em um único país?

Nem sempre tamanho é documento.  Recentemente, o processo de escolha do novo presidente do Banco Mundial deu início a um saudável debate que envolveu especialistas em desenvolvimento econômico e ministros de vários países. Um dos candidatos, José Antonio OCampo, esteve no Brasil para pedir apoio a sua candidatura ao governo brasileiro.

O Banco Mundial e o BID continuam com um papel relevante na produção de conhecimento e de boas práticas no mundo, por isso que vários acadêmicos no mundo se interessam em presidir essas instituições. O que me surpreende é o crescente desdém com que essas duas instituições são tratadas por órgãos do governo brasileiro que apenas as enxergam como fonte de crédito, como se fosse um BNDES internacional.

A ideia de um banco de fomento dos BRICS é sem sentido, não vai resolver os problemas de financiamento do desenvolvimento dos países que precisam de recursos para investimento e nem facilitar o investimento de projetos de infraestrutura nos BRICS. Por isso, não entendo a proposta de criação desse banco.

Muito melhor do que criar um banco de fomento dos BRICS seria um esforço maior desses países para melhorar o seu marco regulatório, pois dinheiro no mundo a procura de boas oportunidades de investimento há de sobra.

9 pensamentos sobre “A esquisita proposta de criação do Banco de Fomento dos BRICS

  1. Mansueto, seria possível voce escrever um artigo esclarecedor, como sempre faz com seus textos, e em uma linguagem compreensível, razão de minha apreciação pelo seu trabalho, sobre a atual queda de juros? Minha esposa, que é gerente do BB, acredita com um olho e com o outro desconfia. Eu, de per se, sou incrédulo!

    • Eduardo,

      vou tentar escrever algo a respeito apesar de não estudar muito esse assunto, Mas posso tentar resumir o que vários economistas que estudam o assunto falam e a conclusão dessas pesquisas.

      Esse debate sobre o spread bancário já ocorreu em 2009, quando o Senado Federal criou, inclusive, uma subcomissão que estudo o assunto. Talvez um bom ponto para começar esse debate é olhando o relatório dessa subcomissão que foi publicado no final de 2009 ou inicio de 201o. Vou checar e prometo escrever sobre o assunto.

      Abs,

      Mansueto

  2. Caro

    Aqui o “grande debate” do momento são os spreads. Uma bateção de bumbo ensurdecedora em torno do tema. Não nego que o debate a respeito dos spreads seja necessário. Mas não sou tonto e sei muito bem perceber que as ensurdecedoras algazarra, gritaria, bateção de bumbo contra o este novo “grande satã” tem como alvo estratégico provocar ruído suficientemente amplificado para abafar e calar outras vozes que falam da economia, como a que ouvimos neste post.

    Abs

  3. Respondendo a questao do Rodrigo Medeiros
    A proposta de criação desse outro banco absolutamente desnecessario e sujeito a regras igualitárias, nas quais os pequenos vão retirar a maior parte do dinheiro, foi aprovada pelo Parlamento, e o Brasil se dispoe a colocar 2 bilhoes de dolares (exigivel no momento 400 milhoes) numa instituicao com sede em Caracas e diretoria politica.
    Acho que vamos perder dinheiro, como alias já fazemos com o tal FOCEM, fundo de correcao de assimetrias do Mercosul, que nao vai corrigir nenhuma assimetria, apenas dar um dinheiro gratuito a paraguaios e uruguaios.
    Paulo Roberto de Almeida

    • Não sabia que já havia passado no Congresso. Bem, deve ter sido por rolo compressor da base e sem grandes discussões. Como o Funpresp, que precisará de um Proer em menos de uma década. rsss!!!

  4. Bom, desnecessário dizer que o acrônimo, designativo de mercados atraentes, por lucrativos, para investimentos estrangeiros, tivesse o condão de inflar egos. Agora, chegar ao ponto de tentar mostrar uma coesão e capacidade de investimento comum, é demais.
    Não é preciso dizer que a China seria o membro assimétrico do grupo e do banco. Ou seja, deve ser superavitária com todos os demais membros do acrônimo. Em relação ao Brasil deve ser, além de superavitária, capaz de deter grande poder de influência sobre a corrente de comércio do País.
    Recentemente, supernavios da Vale, foram impedidos, carregados de minério, de aportarem em portos chineses.
    Assim, como poderia haver algum tipo de coesão entre ambos, no Brics, dado que prevalecem interesses conflitantes a tal ponto?
    A desnecessidade de tal banco é evidente. E também que não passará de mais um delírio. Com o foi a ideia do ministro da Fazenda do Brasil, dizer que o Brics seria mobilizado para aportes de recursos para salvar a economia da Europa, notadamente a Zona do Euro.

  5. O acrônimo a meu ver extrapola uma perspectiva de angariar investimentos, para uma outra que reforça os interesses entre os Brics, é uma análise a ser feita, o comum entre esses países é o famoso “um por todos, todos por um”, onde nitidamente “um”, a China com seu capitalismo selvagem, continuará com a expropriação nos irmãos menores Brasil, Ìndia e África do Sul, agora com um consenso que além de permitir, apoia com investimentos. O comum é que assim como a Rússia, a China ex-comunista parece não deixar traços de democracia. Previsão de tempos perigosos para o Brasil, Ìndia e África do Sul, apesar de já viverem nestes tempos a tempos.

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