O problema da indústria

Valor Econômico – 20 de abril de 2012

O problema da indústria

Por Mansueto Almeida

Desde o início do ano, quando foi divulgado que o crescimento da indústria de transformação, em 2011, foi de apenas 0,2%, o debate sobre a ocorrência ou não de desindustrialização no Brasil teve um novo impulso. E, no meio desse debate, o que se vê é uma guerra de indicadores conflitantes, o que torna o debate confuso para economistas, políticos, empresários e para a população. Em seguida, tento esclarecer um pouco esse debate para o leitor.

Primeiro, o que os dados mostram? Regis Bonelli e Samuel Pessoa, do IBRE-FGV, fizeram levantamento cuidadoso dos dados a preços constantes e mostram que, de fato, a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) passou de 23% (média 1973-1976) para 16% (média 2009-2011). Mas a queda neste período foi um fenômeno global, com exceção dos países asiáticos, que não são grandes produtores e exportadores de commodities e têm poupança elevadíssima.

Na verdade, quando se avalia a questão pelo ângulo do PIB per capita, o Brasil da década de 70 tinha uma participação da indústria maior que outros países, o que alguns economistas recentemente apelidaram de “doença soviética”. Assim, analisando um período mais longo, a tese da desindustrialização não se sustenta. Os produtos manufaturados ficaram mais baratos, parte do que era considerado como indústria é hoje classificado como serviços e a perda de participação da indústria no PIB não foi algo “anormal”.

Segundo, olhando apenas para o período mais recente, os dados mostram que há um sério problema de competitividade da indústria brasileira. Desde2008, a produção física da indústria de transformação está praticamente estagnada, apesar do crescimento ainda positivo do emprego formal e da recuperação das exportações de manufaturados que, em 2011, foram praticamente iguais a 2008: US$ 92 bilhões.

Mas, novamente, a queda da produção física da manufatura que se seguiu à crise financeira de 2008 foi um fenômeno mais global do que algo específico ao Brasil (com exceção da China). No entanto, é consensual que, no mundo pós-2008, há um excesso de oferta de produtos manufaturados e que esses produtos estão em busca de mercados onde há crescimento da demanda, como o Brasil. Dado o elevado custo de produção no Brasil, a tendência é de aumento das importações de produtos manufaturados e substituição da parte da produção doméstica por produtos importados. A preocupação maior, portanto, é com o que vem pela frente mais do que o que ficou para trás.

Terceiro, e este seja talvez o ponto mais sensível desta discussão, apesar de muitos enxergarem a valorização do real com uma “maldição”, essa valorização decorreu de fortes ganhos nos termos de troca devido ao crescimento do preço médio das exportações e queda do preço médio dos produtos importados (manufaturas).

Isso está longe de ser uma maldição. Ganhos de termos de troca são positivos e enriquecem o país. Pode-se debater, no entanto, o uso que se faz dessa riqueza. No nosso caso, não há dúvidas que a sociedade optou por utilizar a maior parte desse “maná dos deuses” para aumentar o consumo presente.

Assim, para aumentarmos a taxa de investimento da economia, precisamos, apesar de estarmos mais ricos, da ajuda do resto do mundo (poupança externa), que tem o efeito adverso de valorizar ainda mais o real e aumentar ainda mais o custo de produção em dólar.

Se os ganhos nos termos de troca tivessem sido utilizados para aumentar a poupança e o investimento, possivelmente a taxa de juros seria menor e o câmbio mais desvalorizado. Mas não foi isso que a sociedade com a ajuda do governo, que sempre colocou o problema de crescimento do Brasil como sendo de insuficiência de demanda, decidiram.

A verdade é que, com um salário mínimo perto de US$ 350 e dada a nossa produtividade, o Brasil tornou-se um país caro para a produção de produtos intensivos em mão de obra. Países como Bangladesh, Camboja, Paquistão, Indonésia e Vietnã, que são grande exportadores de confecções para os EUA, todos têm salário mínimo inferior a US$ 100.

Adicionalmente, a produção de produtos mais sofisticados, como bens de capital, é também cara no Brasil e tenho escutado empresários desse setor pedirem com urgência uma taxa de câmbio (R$/US$) de R$ 2,3. No curto prazo, elevar a taxa de câmbio para esse nível requer excessiva intervenção no mercado cambial e medidas protecionistas que, além do crescimento da inflação, podem mais prejudicar do que ajudar a indústria.

É bom lembrar o caso Embraer, uma das empresas mais inovadoras, a quarta maior exportadora do país (US$ 4,16 bilhões), mas também uma grande importadora (US$ 2,51 bilhões). Sua competitividade depende, entre outras coisas, do acesso aos melhores insumos produzidos no mundo.

A indústria no Brasil sofre, em geral, por problemas micro (baixa produtividade, baixa capacidade de inovação, elevado custo dos insumos, etc.) e pelas consequências de um modelo macro baseado no gasto público crescente, carga tributária crescente e dependência da poupança externa para financiar o aumento do investimento. Esse debate pode ser um boa oportunidade para reavaliar o nosso modelo de crescimento, até porque as medidas recentes pouco ajudam no aumento da competitividade da indústria brasileira.

12 pensamentos sobre “O problema da indústria

  1. Caro Mansueto,

    Como sempre, claro e preciso. Este é um debate que acontece hoje em diversos países – a tal da “desindustrialização” (i.e. cada vez menor participação do setor de manufatura no PIB), e se os governos devem tomar medidas para evitar este fenômeno.

    Infelizmente isto é um assunto novo, e há pouquíssima pesquisa científica feita em cima deste assunto.

    Ressalto um artigo do NY Times, escrito pela prof. Cristina Romer da Universidade da California (Berkley) em Fev-2012. Dentro das limitações da pesquisa dela (tamanho da amostra, principalmente), não há nenhuma evidência empírica de correlação entre participação da indústria manufatureira e bem estar/riqueza das famílias.

    http://www.nytimes.com/2012/02/05/business/do-manufacturers-need-special-treatment-economic-view.html?_r=1

    At,
    Pedro

  2. “Na verdade, quando se avalia a questão pelo ângulo do PIB per capita, o Brasil da década de 70 tinha uma participação da indústria maior que outros países, o que alguns economistas recentemente apelidaram de “doença soviética”.”

    Mansueto, quando se fala da “doença soviética”, já há alguma referência pública ou acadêmica? Imagino que isso se refira, de maneira próxima, ao que Duílio Ávila chamou de “industrialização precoce”

  3. Mansueto,

    Parece-me que a solução para você fala passa pela adoção de um novo modelo, que deva propiciar uma redução dos custos de produção no País. Acho que o governo pensa a mesma coisa, embora de uma maneira peronista (aumentos salariais nominais a serem compensados por desvalorizações cambiais).

    Levando-se em conta a rigidez nominal dos salários, acho que estejamos falando de uma futura e gradual desvalorização cambial.

    Daí, duas questões me aparecem:

    Qual o resultado e custos da atuação do governo no câmbio?

    No longo prazo, pensando em termos de aumento da poupança pública, gastos sociais, serviços da dívida e rigidez salarial: o que cortar?

    Abraços

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    • Rafael,

      no caso da primeira pergunta, acho que o governo não tem muita flexibilidade para atuar no câmbio. Acumular reservas tem custo fiscal e, assim, não vamos conseguir fixar a taxa de câmbio como quer o governo. Mas se tivessemos uma taxa poupança mais elevada, a história seria outra. A possibilidade de intervenção no mercado cambial seria maior.

      Segundo, a discussão do que cortar é um debate político. Mas quando se fala em cortar na verdade é controlar a taxa de crescimento ao longo do tempo. Minha aposta? acho que o governo nos próximos quatro anos vai renegociar a regra de reajuste do salário mínimo.

  5. No trecho, “Isso está longe de ser uma maldição. Ganhos de termos de troca são positivos e enriquecem o país. Pode-se debater, no entanto, o uso que se faz dessa riqueza. No nosso caso, não há dúvidas que a sociedade optou por utilizar a maior parte desse “maná dos deuses” para aumentar o consumo presente.”, fica-me a dúvida se podemos realmente chamar de “consumo presente” ou de “realização de consumo passado postergado”, dado que grande parte do que é consumido hoje me parece ser de gêneros que a vida moderna ocidental fez de primeira necessidade enquanto as aberrações do mercado brasileiro pareciam ser de luxo e, portanto, passíveis de “decisão racional de consumo”.

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