Por que as taxas de juros dos Bancos Públicos são elevadas?

Há um grupo de pessoas no governo que acredita que o motivo das elevadas taxas de juros para empréstimo no Brasil é uma suposta concentração do mercado bancário e o poder de oligopólio dos bancos. Essa tese faz sentido? Não sei. Não estudo esse assunto e qualquer opinião minha sobre esse assunto seria tão qualificada quanto falar das novas descobertas recentes para o tratamento do câncer.

No entanto, o governo tem o poder de descobrir se isso é ou não verdade. O governo é acionista de dois grandes bancos, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal (CEF) e poderia descobrir até que ponto uma atuação mais ousada dos seus bancos teria o poder de “mexer” com o setor financeiro e reduzir as taxas de juros.

Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) no Senado Federal no dia 12 de março de 2009, o economista Luiz Schymura, diretor do IBRE-FGV, fez a seguinte proposta:

“…..Eu queria aproveitar o pouco tempo que me resta para tecer alguns comentários sobre a questão do spread bancário. Eu creio que olhando os números de spread bancário, claramente nós observamos que um dos componentes, a inadimplência que de fato é o maior responsável pelo problema do spread bancário. Mas tem o segundo item que são… ,tem os resíduos líquidos, que é muito que o Marcos (Lisboa) falou, que são as benesses que ocorrem. Eu creio que se nós, de fato, tivermos interesse de mexermos, de tentarmos diminuir esse spread bancário, eu defenderia fortemente uma medida no sentido de que a Caixa Econômica Federal, que é um banco federal, começasse a trabalhar um retorno em cima do investimento dessa aplicação em spread bancário, o menor possível. Porque se nós temos um banco público tendo um lucro alto, o resto do mercado é seguidor, se é que essa é a preocupação. Quer dizer, acho que a Caixa Econômica Federal é um ótimo sinalizador; poderia ser um ótimo parâmetro para que o resto do mercado se comportasse em função dela.

Por que o governo não faz esse teste? Existe alguém irracional que deixaria de pegar uma empréstimo na CEF (ou Banco do Brasil) à uma taxa de juros substancialmente menor do que aquela cobrada pelos bancos privados? A questão é por que a CEF não paga mais aos seus depositantes e porque não cobra muito menos do que os bancos privados cobram nas suas linhas de crédito comerciais (sem subsídio)?

O governo deveria responder isso e mostrar por que as taxas de juros da CEF e Banco do Brasil não são substancialmente menores do que aquelas cobradas pelos bancos privados.

Por exemplo, acabei de entrar na minha conta do Banco do Brasil e a taxa de juros para credito automático para R$ 57 mil, em 48 meses, é de 5,63% ao mês.  Na minha conta do Itaú Personnalite, um empréstimo semelhante  teria uma taxa de juros de 2,95% ao mês.

A proposito, não tenho nenhuma aplicação do Itaú e tenho aplicações em CDB do Banco do Brasil. E nos dois bancos o perfil da minha conta bancária é semelhante: conta estilo no Banco do Brasil e conta Personnalite no Itau.  Por que o Banco do Brasil me cobra uma taxa de juros maior que o Itaú? Em qual dos dois o governo é um grande acionista?

Simulação: Crédito Direto ao Consumidor Banco do Brasil – Pessoa Física – Conta Estilo

Simulação: Crédito Direto ao Consumidor – Pessoal Física – Conta Itaú-Personnalite

11 pensamentos sobre “Por que as taxas de juros dos Bancos Públicos são elevadas?

  1. Também tenho conta em ambos, e o BB me cobra tarifas abusivas, ausentes no Itaú. Não estou satisfeito com nenhum, mas quais outras opções tenho?

  2. Caros colegas,

    Embora a proposta faça todo sentido economicamente, juridicamente ela é assustadora, principalmente em face do que este governo já andou fazendo com Petrobrás e Vale.

    O BB é sociedade de economia mista e, como tal, tem que conciliar o interesse público com o interesse de seus acionistas privados.

    A CEF é empresa pública, mas tem de agir em conformidade com o art. 173 da CF, que visa a evitar exatamente que o Estado use de suas peculiaridades ao agir como ente privado.

    Isso não quer dizer que esteja defendendo as taxas cobradas. Apenas acho que a maneira proposta não é adequada. Não é a presença de bancos estatais que garante baixas taxas de juros mundo afora. Resolvamos, pois, os problemas que criam tais desajustes.

    Afinal, creio que o BACEN tenha todas as informações contábeis pertinentes das diversas instituições financeiras. A legislação de crimes de abuso de poder econômico está aí para ser usada, caso esteja caracterizada qualquer forma de atuação anti-concorrencial. Pesquisando um pouco mais, tenho certeza que outras normas legais poderiam ser encontradas, pois são abundantes (economia popular, etc).

    O passado deste governo condena. Em momentos de aflição governamental, como o atual, imagino que o governo adoraria uma solução rápida para a questão. Mas todos sabemos que o caminho não é efetivo.

    Estratégias que sigam as normas legais e de mercado, removendo os velhos problemas institucionais me parecem mais interessantes.

    Abraço a todos

    • O rafael tem razão. A proposta é esdrúxula.
      Mansueto, em outro post você falou que os americanos tentam formular perguntas, vou tentar algumas:
      – porque agora o governo fala em abaixar spread sendo que há um ano e pouco fez medidas macroprudencias com o objetivo explicito de aumenta-los?
      – pq se fala tanto, da parte do governo inclusive, nos efeitos nocivos da concentração bancaria e tão pouco de fala da concentração em outros setores (cerveja, frigoríficos, alimentos, etc…)? Nao custa lembrar que, nesses setores, a concentração foi considerada benéfica, afinal ela geraria campeões nacionais.
      – como confiar na gestão de uma empresa (caixa) envolvida num dos piores escândalos financeiros da história desse país (panamericano)? Ou: pq ninguém lembre desse rombo?
      – o que isso tudo tem a ver com a escalada do market share dos bancos públicos no credito nacional?
      – será que as declarações acuadas d e altos executivos dos bancos que vc citou tem alguma coisa a ver com isso??

      De novo, me parece que o buraco é mais embaixo….

  3. Como disse um diretor de uma indústria automobilística sobre os preços internos de automóveis serem tão mais caros que no exterior: se o mercado paga.
    O caso dos juros dos bancos e cartões (deveria dar cadeia) são semelhantes: se o mercado paga.
    Alguma coisa como a relação poupança x demanda por crédito? Se o BC monetiza um pouco mais a economia para fazer os juros baixarem o crescimento da demanda faz as expectativas de inflação subir (e tudo é jogado fora). A solução: as reformas institucionais. As dificuldades: eliminar privilégios (e também meio de vida).

  4. Caros
    Não podemos ignorar os efeitos perversos da concentração econômica no mercado bancário, nem o efeito de uma redução da lucratividade do BB e da CEF no currículo dos atuais presidentes (quem vai querer assumir a queda da lucratividade?).
    Outro exemplo é o mercado de previdência privada, as taxas de administração e de carregamento são absurdas, fazem com que a maioria dos planos sejam antieconômicos, mesmo com o benefício do IR. Agora tente verificar nos 10 maiores bancos (e seguradoras) do Brasil as taxas. Todas igualmente altas.
    A concentração bancária (e dos outros setores) ocorrida nos últimos anos é um fator econômico ainda pouco compreendido e também pouco estudado. Mas arrisco que é um forte componente do tão alardeado “custo brasil”.
    Porém, como o governo da vez sempre tem interesse na existência de “grandes grupos comerciais/bancários/industriais brasileiros”, fica difícil dar suporte institucional ao CADE para que se evite estes efeitos.
    Cada dia mais eu acho que o que falta no Brasil é o bom e velho capitalismo à la Smith.
    Abs
    Ronaldo

  5. Os jornais hoje noticiam. Caixa e B.Brasil baixam os juros. Juros do cartão? É isso mesmo? Isso está certo, Mansueto?

    • Alexandre,

      Eu não sei se isso está certo ou errado, mas agora o governo vai testar o poder dos bancos públicos. Como disse no post, eu nunca estudei a fundo esse assunto e os trabalhos que conheço não mostram uma situação de oligopólio no mercado bancário do Brasil.

      Mas muita gente no governo acha que há sim um problema de concorrência no mercado de crédito. Se isso é verdade, acho que agora vamos saber com essa prova do pudim.

      Eu não sou especialista neste assunto e não vou arriscar a dar palpite até porque alguns bons economistas que conheço apostavam que a inadimplência da CEF ia disparar em 2010 e isso não aconteceu.

      O que sei é que os bancos públicos tradicionalmente não são mais competitivos do que os bancos privados na concessão e no custo do crédito. Se o governo acha diferente, ele está correto em testar sua hipótese.

      No entanto, eu achava que o teste ai ocorrer apenas com a CEF (que não tem acionistas privados). O governo foi ousado, vamos agora acompanhar. Eu como pesquisador (e não acionista do Banco do Brasil) estou curioso para ver o T+1 desse teste.

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