Grito de Alerta: será que eles realmente sabem contra o que estão protestando?

Nesta segunda-feira, mais de 4.000 pessoas, segundo o Valor Econômico, protestaram contra os estragos provocados pelos juros altos, pelo real valorizado, pela alta carga tributária no país e pela “invasão” de produtos importados, sobretudo da China. O movimento, Grito de Alerta, ocorreu em Porto Alegre.

Mas exatamente contra o que essas pessoas protestavam?

(1) Juros altos: não é maldade do governo. É fruto de uma série de anomalias como histórico de calotes, prêmio de risco de inflação, tamanho da dívida pública, taxa de poupança de longo-prazo baixa, etc. A taxa de juros de curto–prazo flutua em torno dessa taxa de juros de longo-prazo para equilibrar demanda com oferta. Na verdade, se o motivo do protesto for esse é melhor esperar pelo segundo semestre, quando a taxa de juros de curto-prazo deve se elevar devido à expansão do crédito direcionado e dos gastos do governo que vão elevar a taxa de inflação esperada.

(2) Real valorizado: é resultado da melhora dos nossos indicadores macro aliados à nossa baixa poupança doméstica. Assim, a expansão da nossa taxa de investimento, aumenta o uso de poupança externa e valoriza o Real. Isso vai continuar enquanto quisermos crescer sem aumentar a poupança doméstica. Pode controlar a entrada de capital e “colocar areia no câmbio” mas a valorização do real vai continuar. Na verdade, quanto mais o governo tiver sucesso para aumentar a taxa de investimento (e o crescimento da economia) maior será o uso de poupança externa e a valorização do Real.

(3) Alta carga tributária: é fruto do nosso modelo de crescimento econômico baseado na forte expansão dos gastos e da necessidade de gerar superávits primários para reduzir a Div. Liquida do Setor Público (DLSP)/PIB. Reduzir a carga tributária significa cortar despesas ou diminuir superávit. O que vamos cortar? acabar com a regra atual do reajuste do salario mínimo? reduzir o programa Minha Casa Minha Vida?

(4) “Invasão” de produtos importados, sobretudo da China: devido ao nosso modelo de crescimento que ocasiona uma moeda valorizada, ficou ainda mais barato importar de países que tem uma estrutura de custo menor do que o Brasil. Isso ao invés de prejudicar, beneficia o consumidor, pois com o mesmo salário em R$ ele compra mais produtos manufaturados. O que os trabalhadores querem? Mais proteção e pagar mais caros por produtos fabricados no Brasil. É isso?

Sem saber, parece que as pessoas do “Grito de Alerta” de Porto Alegre estavam protestando contra um modelo econômico que está em vigor no Brasil há tempos e se consolidou desde 2003. Ou seja, parece que protestavam contra as escolhas que muito deles fizeram a favor de mais gastos públicos (o que ocasiona baixa poupança doméstica).

O que aconteceria se o governo escutasse o apelo das ruas e resolvesse acabar com a regra de reajuste do salário mínimo, congelasse o salário dos servidores por quatro anos, reduzisse a expansão do custeio do Min. da Saúde, acabasse com os empréstimos ao BNDES e fizesse uma reforma da previdência de urgência?Isso tudo levaria a um aumento da poupança pública (doméstica), redução de juros, redução de carga tributária e um Real mais depreciado.

O problema é que muita gente quer o modelo atual com juros baixos, real desvalorizado, baixa carga tributária e pouca importação de manufaturados. Esse modelo não existe! Mas é claro que há pessoas que pensam que tudo pode ser feito com uma simples canetada (e boa vontade), como muitos pensavam que um simples congelamento de preços acabaria com a inflação.

PS: acabei de saber que alguns economistas amigos meus da PUC-RJ vão exercer o seu direito democrático e fortalecer o “grito de alerta” contra juros altos, carga tributária elevada e real valorizado. Eles não tinham ideia do quanto são populares.


10 pensamentos sobre “Grito de Alerta: será que eles realmente sabem contra o que estão protestando?

  1. Parabéns pelo texto.
    A verdade é que existe um início de clima de insatisfação. Não sabem direito do que reclamar mas sentem que algo está errado. De fato existem muitas coisas erradas. A maioria das regras do jogo atual: legislação trabalhista herança do fascismo, a picaretagem do imposto sindical obrigatório (não sei como os empresários aceitam esta picaretagem); a justiça trabalhista com sentenças absurdas em algumas partes do Brasil (as vitimas são muitas); o alto custo dos legislativos (dos municipais ao senado. São semelhantes aos privilégios da corte e reinóis); uma justiça eficiente (concursos, etc.), mas não eficaz (justiça lenta não é justiça); os privilégios (e impunidades) são um incômodo geral, a corrupção generalizada (a rasteira e a grande); o sentimento de que nada pode ser feito.

    O Collor tentou a melhoria da legislação, o FHC e o Lula ídem, todos falharam (o sistema político atual é um entrave à eliminação dos privilégios).

    UM EXEMPLO: os estados que desonestamente passaram a receber uma parte do ICMS de importações destinadas a outros, através de legislação não aprovada no CONFAZ, utilizam o argumento de que não conseguem viver sem esta receita. É o caso do ladrão argumentar: preciso de tempo para parar de roubar já que não vivo sem isto (você acostumou-me portanto tem parte da culpa). SÓ NO BRASIL.
    Mas apesar das melhorias da economia um clima de insatrisfação existe (parte do governo incentiva).

    Como pode o povo (consumidores) reclamar pedidno redução de seu poder de compra (a desvalorização cambial), considerando que estamos vivendo as menores taxas de desemprego. Olha que o país já gasta uma fortuna para manter o Real desvalorizado. O país tem o poder normativo para regularizar a entrada de capitais (é uma bagunça difíicil até para experts do ramo entenderem). Elimanos o IRF das aplicações dos estrangeiros. e passamos a cobrar IOF dos exportadores (olha a competência. Bem verdade que elimaram um parte. Bem verdade que após a grita eliminaram parte.).
    Moeda desvalorizada artificialmente é semelhante a abaixar os preços dos ativos nacionais para estrangeiros comprar. Não encarece apenas os preços dos produtos de consumo importados, encarece também as tecnologias e maquinarias importadas para modernizar o nosso parque industrial.

  2. No que diz respeito à carga tributária: provavelmente ninguem quer ver acabarem os programas sociais, ainda que custosos. Mas acho que existe um clima geral de insatisfação com as ineficiências de uso dos dinheiros públicos, seja de forma ilícita (licitações fraudulentas e adjacências), seja de forma legal (altos salários e regalias a certos postos). O que não sei calcular, e nem tenho as informações para isso, é se esses “vazamentos” são “apenas” injustos e anti éticos, ou se tem efetivo peso nas contas públicas.

  3. Pelo menos o debate está sendo feito, bem ou mal. Continuo acreditando que o problema é que estamos efetivamente presos na armadilha do subdesenvolvimento, ou seja, não se pode avançar em grandes reformas progressistas e democratizantes porque isso desestabilizaria a coalizão vigente de poder.

    Resultado prático… Convergência para os voos de galinha da década de 1990!

    O governo tem os instrumentos para atuar no câmbio, mas aí pode vir a ferir interesses e, é claro, haveria algum efeito na inflação. Essa é uma dimensão da armadilha. Há outras…

  4. Caro Mansueto,
    Ótimo texto. Só para acrescentar
    Vc escreveu:
    “Isso ao invés de prejudicar, beneficia o consumidor, pois com o mesmo salário em R$ ele compra mais produtos manufaturados”
    Pode-se dizer tb:
    “”Isso ao invés de prejudicar, beneficia o consumidor, pois com o mesmo salário em R$ ele compra mais produtos manufaturados E também serviços produzidos no Brasil.”

    Abraços,
    leo.

  5. O que os trabalhadores querem? Mais proteção e pagar mais caros por produtos fabricados no Brasil. É isso?
    Respondendo a sua pergunta, eu como trabalhadora posso dizer:
    Não queremos pagar mais caro os produtos fabricados no Brasil e nem queremos que se deixe de importar. O que queremos é poder competir de igual para igual com esses produtos importados. Queremos ter o direito de escolher entre um produto brasileiro e um estrangeiro pagando o mesmo preço.
    Queremos ter o direito de ter nossos empregos garantidos, pois se os perdermos, nem os importados com menor custo poderemos comprar.
    Pouco nos importa quando começou essa bagunça toda, se está assim é porque deixamos isso acontecer e já está mais do que na hora de fazermos alguma coisa! Eu não quero mudar o mundo, mas também não quero passar por ele e deixar minha página em branco!
    O seu ponto de vista deve ser considerado, mas nós (os trabalhadores) também temos o direito de ter nossa opinião e ao contrário do que disse, sabemos sim pelo que estamos lutando.

  6. Dr. Mansueto,

    Minhas dúvidas são:
    Qual o superávit necessário para aumentar a poupança pública a ponto de desvalorizar o câmbio satisfatoriamente? (imagino que deva ser altíssimo, uma vez que partimos de um ponto de razoável prudência fiscal)
    Quanto da redução da carga tributária representaria aumento da poupança privada? Será o suficiente?

    Não sei, cada vez mais me parece que talvez a questão da poupança no Brasil passe avanços estruturais em outras áreas e por uma séria (e cara) reforma da previdência, com a adoção do regime de capitalização.

  7. Digo: “cada vez mais, me parece que, talvez, a questão da poupança no Brasil passe POR avanços estruturais em outras áreas e por uma séria (e cara) reforma da previdência, com a adoção do regime de capitalização”

  8. Grito de Alerta: será que eles realmente sabem contra o que estão protestando?
    Mansueto: Como criticar o povo (no caso são massa de manobra da FIERGS) considerando que o Nakano, diretor da escola de economia da FGV- SP, escreveu que a selic é uma taxa do TN utilizada pelo BC (se é o BC que fixa a selic claro que é uma taxa do BC utilizada pelo TN por ser de seu interesse). A taxa básica é ainda a de menor custo para o TN (ao conrário do que escrevem). Se é básica claro que é a menor taxa de lp.
    O Oreiro (professor da UNB) e um doutorado seu, escreveram no Valor que um aumento da Selic faria os títulos pré do TN diminuir de valor (É O INVERSO). Um êrro de teoria econômica (não aceitável para economistas) levou a um outro de finanças (aceitável para economistas que não militam e não escrevem sobre finanaças). Um aumento da taxa básica (taxa de cp) tem como efeito reduzir as expectativas de inflação e por extensão as taxas de juros de lp (esta é a parte da teoria econômica mundilamente aceita e utilizada nos dias de hoje). Se a taxa de juros de lp cai o valor de mercado dos títulos do TN sobem (é o inverso do que os doutores escreveram.).
    Como criticar o povo que é utilizado como massa de manobra se um jornal da qualidade e resposabilidade do Valor divulga escritos assim de um professor da UNB e um doutor?
    Como explicar tais erros? Entendo que o preconceito contra a taxa básica vira teimosia e leva ao embotamento.
    Tem economista que escreve que o aumento da taxa básica não reduz a inflação (mas falam que reduz o crescimento. Como entender e aceitar?.).
    quando o Alex escreve zurros temos que aceitar.

  9. Parabéns pelo texto bem explicativo que fez muitos entender melhor o proposito da manifestação.
    Opinião própria. Só vamos começar a solucionar em partes o que está sendo reivindicado no “Grito de Alerta”, quando nós mesmos começarmos a mudar, quando nós mesmos não formos corruptos, quando nós mesmo deixarmos de levar vantagens às custas dos outros, quando nós mesmos seguirmos as leis, quando nós mesmos elegermos pessoas confiáveis que usem corretamente o dinheiro público, sem pagamento de favores, sem desvios de verbas públicas, sem gastos em obras inacabadas que não tem função para o povo, sem o “pensar no meu bolso”. No momento, creio que esse “Grito de Alerta” não tem valor sem uma reorganização do Brasil no que se refere ao controle de desperdícios do dinheiro público, ao ajuste tributário e ao consumo consciente. Com custo menores de bens e serviços, os juros cairão automaticamente, com juros baixos o capital externo e especulativo deixa de ser atraente, não haverá mais necessidade de uma arrecadação extorsiva para compensar os gastos públicos, seremos competitivos com produtos importados e com tudo isso, nós consumidores seremos beneficiados.
    Essa são palavras de um leigo no que se refere a economia do país, mas, no meu entender, toda essa insatisfação é provocada por nós mesmos que elegemos nosso representantes sem uma analise criteriosa do seu caráter.

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