Governo, Empresários e Boa Vontade – Final

Para finalizar meus comentários, medidas que de fato têm forte impacto no curto-prazo são medidas protecionistas (que não gosto por causarem uma série de distorções). Essas medidas vão desde o estabelecimento de quotas de importação por meio do uso de salvaguardas, aumento do imposto de importação, estabelecimento de quotas voluntárias de exportação como no acordo recente das exportações de veículos do México, etc.

Não tenha dúvida, o efeito imediato dessas medidas são aumento de preços para os consumidores e o efeito sobre a competitividade dos setores é incerto. Há pouco recebi um documento (nota de esclarecimento à imprensa) do produtores de vinho do Rio Grande do Sul que entraram com pedido de salvaguardas junto ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Eles falam de maneira educada que:

“…Deve ficar claro que a Salvaguarda é uma medida temporária e pode ser facilmente compreendida, assim como quando o Brasil limita a importação de automóveis do México, regula a entrada de calçados da China, aceita cotas de comércio com a Argentina, sofre taxação na venda de suco de laranja para os EUA, é impedido de vender carne suína para a África do Sul e a Rússia, sofre barreiras sanitárias da União Europeia para produtos alimentícios, tem cotas para exportar para diversos países, precisa atender a todas as especificações da legislação para onde exporta, e outros tantos exemplos. Não somos os primeiros nem os únicos a estabelecer isso”. (se quiser ler a nota na integra clique aqui).

Os problemas que vejo com a proliferação dessas medidas protecionistas são pelo menos dois. Primeiro, quase todos os produtos nacionais, principalmente na manufatura e em setores intensivos em mão -de-obra, estão  sofrendo “prejuízo grave ou ameaça de prejuízo grave decorrente do aumento, em quantidade, das importações”.  Não sei se o setor de vinhos é o mais afetado, ou o setor de calçados, confecções, brinquedos, etc. A agenda de salvaguardas se aplicada de forma descuidada trará efeitos danosos para economia e poderá atrasar a reestruturação (downsizing) de setores que será inevitável.

Segundo, se o Brasil quiser impor exigências fitosanitárias sobre suas importações ou mesmo exigências de que os produtos importados não seja fruto de trabalho forçado, não use trabalho infantil e atenda as condições mínimas de segurança do trabalho segundo as convenções da OIT, esse tipo de imposição são decisões legítimas e soberanas de um país democrático e faz parte do jogo do comércio internacional.  Mas não é isso que tenho escutado. O que tenho escutado é a demanda por proteção pura e simples.

Depois dessa longa discussão, gostaria de ser mais assertivo sobre o que fazer, mas não tenho a resposta. O que tenho medo é que toda essa discussão comece e termine apenas com mais medidas protecionistas e que, no final, eu como consumidor pague mais caro pelas minhas camisas, meus sapatos, meu vinho, meu celular, etc. sem nenhum benefício real para o crescimento do país. Infelizmente, dormimos na agenda de reformas e não nos preparamos para o mundo atual de excesso de produção de manufaturas e de elevado preço de commodities.

5 pensamentos sobre “Governo, Empresários e Boa Vontade – Final

  1. As exportações brasileiras de básicos (jan. e fev. 2012/2011) cresceram 2,6%, as de Industrializados cresceram 9,8%.
    As importações de bens capital cresceram 18,6% (como aumentar e modernizar a produção e aumentar a produtividade sem importar maquinários?). Bens de consumo cresceram 14,2% e representam 18,9% do total importado (US$ 3,123 bi. em fev./12, ainda é muito pouco). Ao contrário do que falam importar é bom para a economia. Não é bom para os cartórios e oligopólios que exploram o mercado brasileiro. Protecionismo é retrocesso inaceitável. A saída para a indústria têxtil é melhorar a qualidade dos produtos (concorrer com os salários do Vietnã e outros países só mudando a produção para um perfil de melhor qualidade.). Produzir carroças e vender mais caro do que os carros americanos só no Brasil.

  2. Caros Mansueto e colegas,

    Apesar de não ter sido assertivo, acho que a sua posição vem sendo expressada nos seus escritos recentes.

    Creio que há relativo consenso de que inexiste uma solução mais simples de curto prazo e que uma solução duradoura passa por uma ampla modificação do aparato institucional e modernização da sociedade brasileira. Questões fiscais, educação, trabalhistas, infra, etc.

    No entanto, o verdadeiro imbróglio que percebo é o político. E nisso, mais uma vez saliento que o ponto já foi colocado pelo Mansueto (ou algo próximo).

    Embora o problema seja anterior (constitucional, segundo alguns) e haja também a questão da valorização cambial para complicar, parece-me que a opção de forte crescimento adotada no segundo governo Lula tenha criado um impasse de natureza político-econômica.

    Impasse econômico, em função dos elevados gastos públicos e custos de produção vigentes no País, muitos deles rígidos, quando se cogita sobre a sua redução.

    Mas a questão que mais me intriga é a política. Tomando-se como verdadeira a análise de Mansueto – de que uma parcela do “custo Brasil” seja decorrência de uma opção da sociedade brasileira, ainda que por meio de seus representantes, de se adotar políticas de proteção social -, fica para mim a indagação: quem vai defender perante à sociedade a necessidade de redução desses benefícios sociais? Como uma sociedade tão chegada ao “populismo latino” vai ser convencida da eficácia de uma proposta cujos efeitos somente seriam sentidos em longo prazo (principalmente após anos de enormes avanços sociais – que foram atribuídos ao governo Lula e à essa política econômico-social)?

    Hoje, talvez só Lula fosse ouvido e respeitado pelas classes C, D e E. Não vejo nenhuma força política capaz de fazer algo assim e nem ninguém disposto a sacrificar ganhos individuais de curto prazo em nome de um pretenso e incerto ganho coletivo. Muito menos o PT, que, além de tudo, não concorda com essa visão (ainda que concordasse …).

    Essa, para mim, a confusão em que o País está metido.

    Um abraço a todos

  3. Mansueto,

    Não sei se você conhece o artigo Feasible Globalizations, do Dani Rodrik (2002). Cito apenas um trecho: “The political trilemma of the global economy is that the nation-state system, democratic politics, and full economic integration are mutually incompatible. We can have at most two out of the three”.

    Você consegue o artigo aqui: http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=349021

    Não foi o Brasil o país que inventou o protecionismo. EUA, Alemanha, Japão e outros caminharam por essa estrada bem antes. Com sucesso e em direção ao desenvolvimento. Nós, por outro lado, ficamos presos à armadilha da renda média, o que não deixa de ser uma armadilha do subdesenvolvimento.

    O documentário biográfico sobre o Celso Furtado explica bem essa questão:

    Cordialmente,

    Rodrigo

  4. Sobre PROTECIONISMO:
    1) O cambial (desvalorizar moeda pátria) é igual a: a) retirar poder de compra de todos para beneficiar uma minoria e privilegiar acionistas estrangeiros de empresa brasileiras. É reduzir o tamanho do mercado brasileiro = reduzir PIB. Maior o mercado maior a atração de produtores.
    2) OUTROS: é privilegiar a falta de competitividade, é desestimular a necessidade de ganhar competitividade, é punir a todos os consumidores (consumidores = povo). É privilegiar a quem não precisa (as empresas que já têm lucros com as exportações e que são a maioria), É punir os consumidores para proteger uma minoria de empresas quase sempre sem condições de adquirir competitividade.
    Proteger o parque automobilístico que já tem mais de 50 anos e vende produtos inferiores a preços superiores para o 4º mercado mundial? Até quando?

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