Governo, Empresários e Boa Vontade -2

Falta um diagnóstico do que exatamente se quer salvar

O Brasil vem desde a promulgação da constituição de 1988, aumentando os gastos com transferência de renda, saúde e educação. Se há algo que não há dúvida é que forte expansão do gasto público desde 1990 é resultado de medidas planejadas de expansão do gasto social e, a partir de 1995, da política de valorização do salário-mínimo.

No caso do salário-mínimo, o grande debate, em 2002, era quando o mesmo chegaria a US$ 100.  Hoje, o nosso salário mínimo vale R$ 622 ou US$ 345. Para o produtor, quando incluímos os encargos trabalhistas (mesmo com hipóteses conservadoras),  o salário mínimo vai para próximo de US$ 600. Esse é o salario mínimo relevante para comparação internacional com os Asiáticos.

Vamos agora ver o caso de Bangladesh, um pais com 161 milhões de habitantes com a renda per capita de menos de US$ 1.000 – ou seja menos de 10% da renda per capita do Brasil. Este país começou a exportar confecção (US$ 40.000), em 1977, para França e Alemanha. A partir de 1990, a produção e exportação de confecção aumentou fortemente e, em 2010, este país exportou quase US$ 16 bilhões de confecções, correspondente a 82% da exportação total de Bangladesh. Mais de 80% dos trabalhadores na indústria de confecção são mulheres da zona rural e o salário mínimo mensal em Bangladesh é de apenas US$ 37. Isso mesmo! Trinta e sete dólares por mês.

Hoje, não há como o Brasil com um salário mínimo próximo a US$ 600 competir com um país pobre de salário-mínimo de US$ 37 em setores intensivos em mão-de-obra que exigem pouca escolaridade do trabalhador. Nem mesmo a China consegue competir com os baixos custos de Bangladesh no setor de confecções e são justamente empresas chinesas (ou clientes Chineses) que estão organizando a produção em Bangladesh.

Assim, é normal esperar um redução substancial do setor de confecções e de calçados no Brasil. Parte desses dois setores vai sobreviver (ainda há fábricas de calçados e confecções mesmo nos EUA) mas, dada a  nossa estrutura de custo, não há mais como sermos competitivos com esses países de baixo custo nesse setores, mesmo com taxa de importação de 100%. O presidente da COTEMINAS parece que entendeu bem isso e, sabiamente, começou a diversificar seus investimentos para o setor de serviços (construção e shopping center) – clique aqui.

Será que o governo e associações empresariais têm um diagnóstico claro de quais setores da indústria um “downsizing” será inevitável?