Governo, Empresários e Boa Vontade -1

Tenho certeza que o governo está disposto a mover montanhas para ajudar os empresários brasileiros a serem mais competitivos. O governo se sensibiliza com as demandas dos empresários e busca com suas ações maior crescimento, redução da desigualdade e redução da pobreza. Há uma imensa boa vontade por parte de todos para que os problemas sejam resolvidos.

O desafio é  “como resolver os problemas” e, aqui, as soluções não são fáceis. Demandas legítimas se confundem com demandas por puro e simples protecionismo, governo e entidades empresarias relutam em reconhecer publicamente que alguns setores da indústria não tem salvação e que políticas industriais têm custo e benefícios e, por isso, é preciso ter bons mecanismos de avaliação dessas políticas que hoje não existem.

Não se sabe nem mesmo o por que da baixa taxa de investimento público, apesar de ser consensual a importância dessa variável para o crescimento do Brasil. Alguns culpam o excesso de gastos, outros o mecanismo de contingenciamento que libera os empenhos apenas no final do ano, outros apontam para problemas de gestão da máquina pública e outros falam dos problemas de legislação e controle.

Qual desses fatores tem sido de fato o maior empecilho ao aumento do investimento público no Brasil? Simplesmente não se sabe. No ano passado, por exemplo, o governo “jura de pés juntos” que não segurou o investimento público e que a não expansão do investimento público decorreu dos problemas com o DNIT. Isso é papo furado, pois a execução do investimento público no Min da Integração passou de R$ 4,8 bilhões, em 2010, para R$ 2,7 bilhões no ano passado; o investimento do Min das Cidades passou de R$ 4,2 bilhões para R$ 3,5 bilhões; e o do Min da Defesa ficou praticamente constante em R$ 7,9 bilhões como o do Min dos Transportes (R$ 12,9 bilhões).

O que os investimentos do Min das Cidades, Min da Integração e Min da Defesa têm a ver com mudanças no DNIT? Nada. Mas já escutei de vários interlocutores que o problema na execução do investimento público foi o DNIT. Pode até ter prejudicado a execução do investimento do Min. dos Transportes, mas isso não é o que explica nossa dificuldade de investir.

O que tem deixado muita gente preocupada (eu inclusive) é a falta de diagnósticos do governo em vários temas, inclusive quanto aos problemas para aumentar o investimento público e um bom diagnóstico da reestruturação industrial. Assim, a reação parece improvisada, de curto-prazo e sem uma sinalização clara aonde se quer chegar.

A reunião da Presidenta com os empresários para “libertar o espírito animal” – eu desde pequeno morro de medo de espíritos- vai levar a um conjunto de medidas de difícil implementação para salvar a indústria por quatro motivos que detalho a seguir: (1) falta um diagnóstico do que exatamente se quer salvar; (2) a demanda por igualdade de condições de produção tendo como parâmetro muitas vezes a China não faz sentido; (3) medidas de redução do custo Brasil beneficiam tanto o setor industrial quanto o setor exportador de commodities e, assim, não resolve o problema da indústria; e (4) os mecanismos de desoneração terão efeitos limitados porque o espaço fiscal para desoneração é pequeno. Em seguida, detalho esses motivos em dois posts e termino com um terceiro no qual alerto sobre o perigo do protecionismo.

3 pensamentos sobre “Governo, Empresários e Boa Vontade -1

  1. Mansueto

    Lembra da fábula do rei e do alfaiate? Pois é. Falta coragem e sobra a covardia e o puxa-saquismo dos áulicos de sempre, que se beneficiam de vários modos com os favores do rei.

    O fato é que o rei está nu e poucos têm coragem para vir a público e dizer que este governo é muito ruim.

    A culpa é do Dinit, assim como a culpa foi o tamanho do Brasil, quando se precisou “explicar” a mazelas do Enem. Agora, a culpa é do dólar e da China. E assim vamos, sempre apontando o “inimigo” da vez, mesmo que para isso seja preciso inventá-los…

  2. A minha teoria se chama “Bom Senso” , o mesmo que “KISS” (keep it simple stupid):

    1- onde se geram mais empregos são as pequenas empresas que começam com start ups. Inovações estão sempre presentes e o que precisamos são de incentivos ao entrepreneurship; o brasileiro é nato nisso. Precisamos de incentivos para start ups: redução da burocracia, da carga fiscal (pelo menos para esse segmento de empresas pequenas), incentivo aos venture capitalists (poderia ser o BNDES também);
    2- Não precisa de teoria para saber que o Estado inchado é uma das causas principais dos nossos entraves, além de ser sinônimo de má alocação de recursos (não que o mercado seja perfeito nessa tarefa) e de corr…. Na China a carga fiscal é de 20% (número de 2008-fonte: McKinsey);
    3- Só um cego não enxerga que esse governo fez um pacto com a grande elite empresarial em troca de … em troca de .. xapralá. Isso significa inflação, pois o price power dessa elite tenderá a aumentar;
    4 – Essa reunião da nossa (minha não é) presidente é marketing puro e ela está jogando para a plateia; empresário não precisa de reunião para ser incentivado a produzir mais; produz-se mais se houver perspectiva de lucros;
    5- Sugestão: os empresários agora poderiam convidar a nossa presidente (minha não é) a reduzir os gastos desnecessários desse elefante branco chamado Estado Brasileiro.

    Para finalizar: meu, nem pense em parar de escrever; hoje eu me fio mais nas tuas análises do que nas dos economistas da banca. Tenho dito. Forte abraço, cara.

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