O rico debate da academia americana

Depois de duas viagens aos EUA (volto hoje para o Brasil) em menos de duas semanas para dois debates sobre política industrial, um no BID e outro no MIT, tenho certeza de uma coisa. Não há nada parecido no Brasil seja nas universidades seja nos institutos de pesquisa. Isso eu já sabia, mas essa percepção foi reforçada.

A primeira grande diferença é que, no Brasil, as pessoas tem o péssimo hábito de achar que o Brasil é o centro do mundo. As discussões sempre giram em torno do Brasil com pouco ou nenhuma comparação com resto do mundo e muitas vezes nem mesmo com América Latina. Isso porque a academia brasileira ainda tem o péssimo hábito de não estimular que seus alunos façam pesquisa de campo e teses em outros países. As teses são feita sobre o Brasil e no Brasil. Aqui nos EUA, os alunos são incentivados com bolsas para ir a China, Vietnam, Malásia, Singapura, Índia, Brasil, etc. para fazer pesquisa de campo e suas teses.

Nas universidades grandes como MIT e Harvard se encontram pessoas que estão viajando para diferentes locais do mundo, professores nos departamentos que são especialistas em certos países e que efetivamente viajam frequentemente para esses países e falam a língua do país. Eu não conheço nada parecido no Brasil. Quais são os professores da USP, UNICAMP, FGV ou PUC que estudam China, têm escrito sobre a china e falam chinês fluentemente? Ou quais são aqueles que estudam o México ou Argentina? Quais livros eles publicaram sobre esses países?

Segundo, há outra grande diferença aqui na academia americana. No Brasil, nos seminários internacionais há uma preocupação enorme com “propaganda”. Várias instituições de pesquisa, inclusive o IPEA do qual participo, organizam seminários internacionais no qual as pessoas se encontram em um dia e depois todas perdem o contato. Esses seminários não resultam de um projeto de pesquisa conjunto nem tão pouco dão origem a um projeto de pesquisa conjunto. É um encontro no qual os convidados mostram seus trabalhos e vão embora. Aqui nos EUA é diferente.

Os seminários na academia entre diversas instituições internacionais tem o objetivo real de promover estudos comparativos, como o que participei ontem. É isso que falta ao Brasil. Dado o interesse crescente do mundo pelo Brasil, era para os pesquisadores de um grande centro de pesquisa no Brasil estar com uma agenda de viagens lotadas e com vários trabalhos comparativos em andamento. Mas não é isso que vejo em nenhum instituto de pesquisa do Brasil. Há exceções individuais de pesquisadores que conseguem fazer esses vínculos, mas são muito mais exceções que confirmam a regra.

É triste reconhecer isso, mas espero que a academia brasileira e as instituições de pesquisa no Brasil comecem a pensar um pouco mais em entender o Brasil estudando outros países, caso contrário, nunca vamos chegar próximo da qualidade de pesquisa que é feita aqui nos EUA.

Uma terceira diferença é que nos EUA, mais do que respostas imediatas, a academia  está preocupada em formular perguntas. Em um bom debate como o que participei ontem (e depois vou resumir neste blog) os pesquisadores saíram do debate com várias perguntas para as quais não tinham respostas. Todos nós apresentamos papers quase na sua versão final, mas todos saíamos com perguntas para as quais não tínhamos as respostas. No Brasil, há um viés excessivo em ter respostas imediatas para tudo.

Ontem soube coversando aqui com os professores que a presidenta Dilma vai fazer uma visita ao MIT e Harvard agora em abril ou maio. Espero que os bons ventos aqui de Cambridge (MA) sirvam de inspiração para a presidenta entender que, para o Brasil ser grande, precisa olhar para fora e não apenas para o “nosso quintal”.

11 pensamentos sobre “O rico debate da academia americana

  1. Mansueto,

    Você conhece essa iniciativa do Obama?

    http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2012/03/09/president-obama-announce-new-efforts-support-manufacturing-innovation-en

    Vejamos: “The President’s proposals to revitalize American manufacturing build on that momentum and recognize that a growing and vibrant manufacturing sector is central to our ability to innovate, to export, and to create good-paying American jobs”.

    Acha mesmo que é tão moderna e arejada? Se o governo Dilma propuser algo do gênero cai sobre ele uma avalanche de críticas…

    Cordialmente,

    Rodrigo

    • Rodrigo,

      essa proposta do Obama foi criticada, mas há também vários centros na própria academia Americana que concordam com ela. O que vejo aqui é um debate muito mais rico do que vejo no Brasil. E quando falo sobre academia americana não estou falando especificamente dos centros de economia, mas de vários departamentos. O meu debate de política industrial aqui foi no departamento de ciência política; onde muitos professores estudam política industrial e a relação estado-empresários.

      Te respondo uma coisa. É muito mais arejada e moderna do que a brasileira e do que de outros países que conheço.

  2. Caro Mansueto,
    Este é um dos desafios que o Brasil precisa lidar caso realmente tiver ambições globais. No governo Dilma, tais ambições aparentemente se arrefeceram, embora a expectativa mundial continue em alta. Isso não é desculpa, no entanto, para que as Universidades permaneçam na inércia. O setor privado – sobretudo em mineração e construção – está um passo a frente, porém não tem compromisso com o debate público, conforme esperado.
    H.

  3. Como diplomata, e acadêmico, já vivi em muitos países (Europa, Américas, Ásia) e já convivi, como convivo regularmente com acadêmicos de todas as partes, e participei de dezenas de seminários internacionais e de publicações coletivas em outras línguas.
    Sou professor, também, no Brasil, e conheço muito bem a produção, e os seminários feitos no Brasil, os trabalhos apresentados, dou parecer para artigos preparados para revistas acadêmicas brasileiras, enfim, todo esse movimento acadêmico-intelectual.
    Vou pedir licença para não expressar minha opinião — baseada em conhecimento direto, não em percepções visuais — sobre a academia brasileira, especialmente a da minha área (humanidades), mas que também se reflete um pouco em economia e administração. Eu teria de ser muito, mas muito cruel, excessivamente pessimista sobre a produção, sobre os professores, sobre os métodos e até a administração dessas universidades públicas (e muitas privadas conceituadas, também), pois não tenho, sinceramente condições de ter palavras gentis, sequer compreensivas, para o quadro que se me apresenta.
    Acredito que ainda estamos numa ladeira descendente, e não recuamos tudo o que ainda vamos recuar nos próximos anos, como resultado de políticas absolutamente nefastas em sua concepção e aplicação, e isso se aplica aos demais níveis também, sobretudo aos dois primeiros ciclos, dominados por essa coisa surrealista que tem a pretensão de se chamar MEC.
    Sinto muito ter de concordar, ao quadrado, com o Mansueto, e eu até poderia agravar o quadro se fosse entrar em uma descrição mais detalhada do panorama acadêmico brasileiro. Só posso dizer que ele é desolador.
    Paulo Roberto de Almeida

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  5. Parabéns pela observação.
    Já foi muito pior. O Brasil se fehou para a informática durante anos. Nossa moeda era muito fraca, as viagens ao exterior eram caras e só compensadoras para a turma que fazia compras (ou os mais ricos). O Brasil era um país fechado.
    Nossa moeda valorizou-se, o poder de compra do povo cresceu, o mercado aumentou, o PIB acompanhou, as exportações batem recordes de crescimento, inlusive as manufaturas (para desmentir a turma da desindustrialização). Os gastos com viagens no balanço de pagamentos naturalmente cresceram. As críticas são absurdas a respeito.
    Ainda temos um número muito grande de econonomistas nacional-desenvolvimentistas (no mundo civilizado isto aabou há tempos). A maioria acredita que importar é maléfico para o país. E olhe que mais de 50% de nossas importações são de matérias primas ou complementos para a produção indústrial.
    As empresa exportadoras brasileiras nunca lucraram tanto. A indústria automobilística nunca cresceu tanto. A FIAT está fazendo uma expansão de 20% em Betim e abrindo uma nova fábrica em Pernambuco. E dizem que o país está desindustrializando. Na verdade somos escravos de cartórios que não querem abrir mão de seus privilégios. Cartórios de todos os tipos, até de importadores (centralizam as importações e cobram o preço que querem.). Precisamos é de um CHOQUE DE CONCORRÊNCIA (inclusive das importações). E se alguma fábrica fechar? Garanto que 10 abrirão. Existindo mercado existirão fábricas.
    Mansueto: não sei se sobrou tempo para verificar os preços dos automóveis (tributos não explicam as diferenças). E câmbio explica? Se as exportações de mnufaturados tem crescido acima do PIB, claro que não. o que explica então? Oligopólios e cartórios.

  6. marco aurelio garcia, talvez a resposta não abranja o tema do post.

    Porém, parece que mais do que ganho de renda, o cidadão brasileiro está auferindo de mais crédito para consumo a prazo mais longo. Cartão, limites de cheques especiais, consignados. CDC etc.
    E modalidades “populares”, como o ” empréstimo de nome ou de CPF”, pelo qual pessoas adquirem, a prazo, bens de consumo, duráveis, semiduráveis, em nome de parentes, conhecidos etc. Ou seja, a capacidade de alavancar está elevada. Não dá para dizer, assim, que a renda das pessoas cresceu. Os salários nominais permanecem praticamente os mesmos, depois de certa elevação. E menores, dado a inflação e a tributação.
    Muito poucos têm, no mínimo, uma caderneta de poupança.

    Dessa forma, o tema do Mansueto é relevante. Há estudos na academia brasileira apenas enfocando a ascensão das classes C e D. No Brasil. E só do lado do sucesso, não do lado real, que parece não ser assim duradouro.

    A parceria comercial com a China está dos dois lados desfavorável: importamos tecnologia, bens de capital e manufaturados da China e exportamos commodities e semimanufaturados.
    E pouco ou nada falamos han, ou mandarim. Ou qualquer outra língua “brics”. Nem na academia. Quanto mais viajar e imergir num país de interesse crucial ao Brasil do futuro.
    Da mesma forma que poucos falamos Inglês. E se falamos, não estudamos Inglês ou países que têm o Inglês como língua.

    Pode ser que o núcleo do post seja este. Pelo que deu a entender.
    Grato.

  7. Dawran: De fato a renda dos brasileiros cresceu (a simples valorização do Real justifica parte). Os salários de mais baixo nível cresceram acima do IPCA. Isto faz o consumo crescer. A quantidade de moeda (no aspecto geral) também cresceu. Todos os agregados monetários cresceram (isto não é novidade). O crédito é consequência da liquidez. Mas as taxas aos consumidores são altas. A taxa básica (selic) vem caindo consistentemente. Nos últimos meses as taxas de mercado (a curva da BM&FBOVESPA) também vem caindo. isto possibilita a queda da selic. A selic está maior do que o DI 360 (taxa de 1 ano). A liquidez mundial tem ajudado a queda dos juros internos. Por outro lado a crise trás insegurança. O BC está agindo corretamente (apesar de existir grande risco da inflação voltar no segundo semestre). O primeiro efeito da taxa selic é retirar moeda do mercado e por extensão reduzir o volume do crédito, as atividades e fazer as expectativas de inflação cair. Este modelo econômico foi lançado no governo Itamar Franco (com O FHC) e aperfeiçoado pelo Armínio Fraga. O Lula teve a virtude de manter o mesmo presidente do BC por todo o governo (e apoiar a política monetária).
    Os antigos desenvovimentistas, heterodoxos e agora neokeynesianos estão defendendo queda do déficit ou déficit zero (é uma mudança de postura para o lado monetarista), apesar de keynes em seu livro maior o “Teoria” ter considerado as construções das pirâmides do Egito como uma das causas de sua riqueza. Adam Smith teria considerado como a origem da pobreza.

    • Os salários nominais que cresceram num dado momento estão sendo revistos para baixo.
      Os indicadores que aponta, podem todos sofrer uma forte inflexão.

  8. Concordo com você Mansueto, recentemente fiz um trabalho a respeito dos determinantes de taxa de juros no Brasil e fiquei alarmado com a pequena quantidade de trabalhos que tratam do tema comparando o Brasil a outros países. A grande maioria dos trabalhos analisam a taxa de juros no Brasil olhando apenas o cenário e os dados do Brasil. Creio que este tipo de análise é importante, mas análises comparativas com outros países possuem grande relevância e deveriam ser mais exploradas.
    Abraços

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