Os nossos heterodoxos são diferentes

O que gosto dos artigos do professor Nakano (FGV-SP), como o de hoje no valor econômico, é a simplicidade. Tudo o que atrapalha o crescimento do Brasil é a taxa SELIC. Se o Brasil acabar com os títulos de curto-prazo que rendem SELIC, quase que por um milagre as pessoas passariam a confiar mais no governo e a emprestar suas poupanças a um prazo maior e à uma taxa de juros menor. Por que?

Não sei muito bem. Do meu conhecimento de economia eu pensava que taxa de juros elevada seria resultado de baixa poupança (ou excesso de investimento) e que títulos indexados à SELIC apenas aumentariam a flutuação dessa taxa para efeitos de política monetária. Com títulos indexados, as flutuações da SELIC seriam maiores para baixo e para cima devido ao efeito renda que acompanha as flutuações dessa taxa e diminui a eficácia da política monetária.

Fora essa maiores variações, tenho dificuldades de entender como acabar com as LFTs, por canetada, criaria um mercado de longo-prazo para a dívida pública à taxa de juros menores. Na verdade acho que o poder de barganha aqui é do mercado, que poderia pedir taxa de juros maiores para alongar a dívida pública e, assim,  a taxa de juros implicita da dívida pública poderia até aumentar e teríamos taxa de juros maiores. A situação seria diferente se o governo tivesse superávit nominal e que o alongamento da divida e redução do juros fosse resultado de mudanças nos fundamentos reais da economia- maior poupança do setor público. Mas este não é o caso dos que pensam que o problema do baixo crecimento do Brasil e elevadas taxa de juros deve-se à  SELIC, ou melhor, a maldita SELIC.

Acho que as pessoas da cúpula do Ministério da Fazenda foram treinadas para pensar em mecanismos de expansão da demanda e desoneração tributária. Acreditam, excessivamente, no poder de o governo fazer ajuste fino da economia e determinar a taxa de crescimento.  Mas cada ajuste fino deste modelo traz resultados (câmbio valorizado, inflação acima da meta, juros elevados, etc.) que levam a novas medidas (expansão da dívida para bancos públicos, intervenções no mercado cambial, etc.) que aumentam ainda mais as distorções do modelo.

Por exemplo, quando o governo aumenta o investimento por meio da expansão da sua dívida (emite títulos e empresta para bancos públicos) pode até ocasionar um aumento da taxa de investimento, mas a taxa de juros média  será mais elevada (já que parte da demanda é protegida dos aumentos dos juros) e o déficit em conta corrente será maior. E devido à elevada taxa de juros e ao crescimento do déficit em conta corrente, novas medidas são pensadas para corrigir um problema de que decorreu de decisões de política econômica daqueles que se propõe a corrigir esse novo problema.

Mas com o boom do preço de commodities, a vida continua, as distorção vão aumentando e crescemos entre 3,5% e 4%, o que nos dá uma sensacional sensação de conforto e força a ideia de que não precisamos nos preocupar com agenda de reformas. No tempo certo essas reformas, se necessárias, virão e, assim, vamos nos preocupar de imediato com a taxa de câmbio e com o crescimento do PIB para este ano – quem se preocupa com o longo-prazo é quem quer perder eleições. Talvez por isso Keneth Rogoff  (Harvard) em artigo recente no Financial Times tenha mostrado preocupação com educação adulta e eleições:

“…Societies need to find ways to make adult education, including economic and financial literacy, far more available and far more compelling. If voters are uninformed and easily swayed towards demagogues peddling short-term ill-considered policies, there is little hope for righting the course of capitalist economies”. (Rogoff, K. Our ignorance will yield more crises in capitalism” Financial Times, 1 de fevereiro de 2012).

Ao que parece, os heterodoxos daqui acreditam que o problema de crescimento da economia pode ser corrigido como medidas administrativas e pela boa vontade da turma do Ministério da Fazenda. O professor Nakano (FGV-SP) fala de forma taxativa no seu artigo de hoje no valor que: “Para promover uma verdadeira revolução na economia brasileira basta mudar algumas regras operacionais do Banco Central e do Tesouro Nacional.” Eu sinceramente torço para que os nossos heterodoxos estejam corretos, pois, assim, o mundo seria melhor e seria mais fácil promover o crescimento.

O problema é que nem os heterodoxos de Harvard (Dani Rodrik e Ricardo Hausmann) acreditam muita nesta história da carochinha. Clique aqui e veja entrevista do Dani Rodrik ao Valor Econômico em 2011 e clique aqui e veja o diagnóstico do Ricardo Hausmann (2008) de porque o Brasil cresce pouco. Os dois falam de uma tal taxa de poupança baixa……e apesar de ambos serem fortes defensores de política industrial, os dois parecem achar que esse não é o maior entrave ao crescimento do Brasil. Ao que parece, nossos heterodoxos são diferentes dos heterodoxos de Harvard.

34 pensamentos sobre “Os nossos heterodoxos são diferentes

  1. Mansueto,

    Não vejo despreocupação dos heterodoxos brasileiros com ações ou reformas que venham a nos proporcionar ganhos de competitividade e produtividade. O prof. Bressser-Pereira, por exemplo, brigou por elas na década de 1990 e escreveu ótimos materiais sobre o assunto.

    A questão do câmbio precisa ser enfrentada no curto prazo para que haja médio-longo prazo. Bem, assim como os mecanismos indexadores da nossa economia. Vejamos o que diz um documento do Bacen:

    “Ao se decompor o IPCA em preços livres e em preços administrados, nota-se que, entre 1996 e 2007, a inflação dos preços administrados foi sistematicamente maior que a inflação dos preços livres (…) O elevado peso dos preços indexados à inflação passada na composição dos índices de preços dificulta a gestão da política monetária. A inflação dos preços administrados apresenta maior grau de persistência do que a inflação dos preços livres, aumentando a inércia inflacionária geral”.

    http://www4.bcb.gov.br/pec/gci/port/focus/FAQ%205-Pre%C3%A7os%20Administrados.pdf

    Afinal, por que a regulação das atividades econômicas é tão ruim no Brasil? Tem algo a ver com a política e os tais malfeitos?

    O governo deu um tombo no crescimento do PIB porque alguns olhavam pelo retrovisor e acreditavam que o governo controla pela política monetária os preços das commodities. Deu no pibinho, num alvoroço no Planalto e mais uma rodada de improvisos. Seguindo Keynes, essa seria uma situação típica em que o governo preferiu cair com o mercado do que vencer contra ele. Banco Central independente de quem mesmo? São questões não tão bem resolvidas aqui e mundo afora.

    Sei que o tema é complexo e creio existirem acordos pré-campanha que os governos buscam honrar junto aos financiadores. De qualquer forma, penso que o debate é necessário.

    Cordialmente,

    Rodrigo

  2. Mas concordo com você Rodrigo. O debate é necesário e bom. Quanto mais debatermos e expormos pontos de vista diferentes melhor para o Brasil.

    Quando discordo do professor Nakano não tem nada a ver com a pessoa física. Ao contrário, o admiro muito. Uma pesoa como ele que luta pelo ensino e tem se dedicado à vida acadêmica e procura expor de forma clara suas ideias deve sr elogiada e muito com para o debate.

    Admiro pessoas que escrevem o que pensam e participam do debate indepdendentemente de concordar ou não com o que essas pessoas falam. Tenho muitos amigos próximos que pensam exatamente como o professor Nakano nesta questão dos juros e são meus amigos e discordo deles.

    A minha opnião pessoal é que não acho que esse probpema seja tão simples assim. O Brasil tem uma taxa de juros maluca e precisamos reduzi-la. O que acho é que esse problema não decorre da existência de titulos de curto prazo que rendem SELIC.

    É claro que posso estar errado. Economsitas erram todos os dias e além do mais sou um grande admirador de Albert Hirschman e como ele não acredito em pré-condições para crescimento. O que queria destacar é que o probpema dos juros no Brasil não me parce ser a mera existência de titulos selicados e que resolveremos esse problema apenas com medidas administrativas como parece sugerir o artigo.

    No mais, não tenho birra nenhum com heterodoxo até porque me simpatizo com várias teses tidas como “heterodoxas”. Agora não acredito em micro administração de politicas de crescimento.

    • Também gosto muito do Hirschman! Ele escreveu um livro sobre projetos de desenvolvimento que é bem interessante. Creio que foi um estudo para o Bird, ou algo do gênero. Já o livro “As paixões e os interesses” traduzido pela Record (2002) é muito instigante.

      Um abraço,

      Rodrigo

  3. Fora a inversão de casualidade – ele alega que a taxa dos títulos determina a Selic, como se esta não fosse decisão do Banco Central (ou como se o Banco Central só acatasse as taxas de mercado). Difícil entender a reputação de alguns profissionais…

  4. Mansueto,

    Acho que, assim como no caso do Krugman, vale deflacionar um pouco o entusiasmo dos colunistas quando eles se dirigem a um grande público. O formato impõe uma contundência que ele não pode justificar. Mas acho que o Nakano tem uma visão global bastante satisfatória sobre o problema. Ele tratou a questão da poupança em artigo recente (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=2&id_noticia=168227) e acho que consegue, através do conjunto de seus escritos recentes, sustentar que a distorção dos juros é o maior gargalo da economia brasileira. Como você aponta, existem outros (educação, poupança, contas externas). Mas o gargalo posterior não importa enquanto houver um anterior (pensando primitivamente nas “tubulações). Se há verdadeira polêmica sobre como resolver os problemas crônicos de educação, saneamento, saúde, previdência, criminalidade, tributação, acho que todos podemos concordar que enquanto não se der uma solução para a distorção dos juros e câmbio, aquelas não importam muito.

    Agora, confesso que achei a lógica do argumento sobre as LFTs um pouco confusa, ainda mais com essa interpelação do Drunkeynesian. Talvez você pudesse explicar um pouco melhor (e confirmar se realmente o Brasil é um dos raros países a aglutinar o financiamento do tesouro e a política monetária com os tais efeitos deletérios)

  5. As LFTs são títulos da dívida pública indexados a taxa Selic – ou seja, no vencimento eles são remunerados pela variação da Selic desde a data de emissão. Ainda que o estoque e a emissão desses papéis tenham diminuído muito nos últimos anos, ainda há um efeito perverso da elevação da Selic nas contas fiscais, já que toda vez que a política monetária é apertada via alta de juros isso tem impacto no custo para o Tesouro da dívida em poder do mercado na forma desses papéis. Para cumprir com um dado superávit nominal, a política monetária mais restritiva exige política fiscal também mais restritiva, para compensar o impacto na dívida da alta dos juros.

    De fato o Brasil é o único país que conheço que financia parte relevante da sua dívida com juros atrelados à taxa overnight. O padrão no resto do mundo é pagar juros pré fixados (que garantem total previsibilidade da necessidade de caixa futura) ou indexar à inflação (e o custo da dívida fica de certa forma correlacionado com a arrecadação).

    O curioso é que, nesse ponto da história, o jeito mais barato do Tesouro se financiar é via LFT, já que os juros de um dia, aos olhos do mercado, estão num patamar baixo demais. Se o Banco Central se provar correto e não precisar aumentar esses juros nos próximos anos, uma consequência provável e natural é a migração de boa parte da demanda do mercado por títulos pré-fixados, pagando prêmios maiores. Isso facilitaria bastante a retirada das LFTs do mercado, mas ainda seria necessário resolver a indexação da poupança, que concorre diretamente com esse tipo de investimento.

  6. Parabéns Mansueto. Vou pegar mais pesado (mas menos do que o Alex).

    O artigo é um atestado de mente embotada (ou demagogia). Ele acha que acabando com a Selic estará acabando com a taxa básica. Se a Selic é fixada pelo BC claro que é uma taxa do BC (e não do TN) que o TN utiliza por ser de seu interesse. Ele acha que a taxa Selic é do TN e que o BC a utiliza (é ignorância confessada). O correto seria o TN parar de vender título corrigido por Selic. Não para por quê? Por ser uma taxa básica e, portanto, a de menor custo a longo prazo (se é básica lógico que é a de menor custo). Só quem não conhece mercado para confundir (o TN publica os ustos). É O MOTIVO DE TERMOS TANTOS ECONOMISTAS ONFUSOS (escolas com professores confusos). Se o BC acabar com o nome Selic para denominar a sua taxa básica surgirá outro (o Fed utiliza Fed Funds). O que ele quer é acabar com a taxa básica (é o mesmo que acabar com o sistema de metas. O BC volta a ser um nada como antes.). Quer voltar ao que era e acha que não ocorrerá inflação. Quer derrotar quem acabou com a inflação(só no Brasil na FGV-SP, na UNICAMPe a maioria das federais).

    • marco aurélio garcia, ao que aparenta, o sistema de metas de inflação acabou, mesmo. Se a crença fosse que ainda o mandado do BC seria o de perseguir o centro da meta, em 2011, a inflação fincou no pico da banda. E as previsões do ministro da Fazenda, apontam para crescimento de 5%, mas não de inflação na meta de 4,5% ou abaixo. De juros ele não fala, pois, aparenta, que o BC estaria alinhado com o Executivo.
      Ou será que haveria, agora, perseguição de meta para os juros?

      Ainda mais um aspecto: o que se percebe, é mais um governo confuso e não professores e/ou economistas. Exceto os alinhados ou crentes dos credos do governo.

  7. Acho que entendi bem o problema da causalidade inversa. Obrigado Drunk e Garcia (por um momento achei que fosse seu xará do governo. Por um momento!). Agora, falando em termos mais genéricos, acham que existe alguma reforma no aparato monetário (afinal, herdado do pré-real) que deveria ser reformado com resultados menos distorcivos que permitisse uma maior eficácia na pol. monetária?

    • Não conheço o xará do PT.
      Considero que a turma do BC (esta e as passadas) está dirigindo a política monetária de maneira adequada. Conseguiram dominar o processo inflacionário, reduzir as taxas de juros de mercado (a básica só pode cair se as taxas de mercado caírem). Esta turma que critica a Selic não utiliza o termo taxa básica (parece que não existe no modelo deles). Querem que o BC não atue retirando os excessos de moeda do mercado (só as sobras de caixa). O resultado seria tome inflação. Se o TN parasse de vender títulos corrigidos por selic teria que financiar-se utilizando outras taxas: juros mais IGPM, mais IPCA, taxas pré e outras invenções que apareceriam. Existiria um mercado de compra e venda destes títulos (que seria a selic com outro nome ou o mesmo). Existe o mercado interbancário (CDI ou DI). As taxas de 1, de 30, 60, 90, 180 e 360 dias sempre existirão. Os títulos corrigidos por selic têm a vantagem de se a inflação subir a taxa acompanha, se cair também (é um título de menor risco, como os CDI). Um título pré pode ter seu valor de mercado reduzido ou aumentado dependendo de como evolui a inflação (o valor de mercado pode ser maior ou menor do que o de face). Se a tendência da inflação é cair o menor custo é selic. As taxas pré sempre cobram um over a mais. Nas crises sobem de maneira acima da lógica.

    • thor, apenas se houvesse mais uns oito anos de aprimoramento do real, a partir de 2002, poder-se-ia pensar em modernizar o que não deu para ser realizado nos oito anos anteriores. No momento, considerando momento, desde 2003, não aparenta haver qualquer coisa no sentido de reformar o que quer que seja. A onda parece, mesmo, é segurar a base de apoio parlamentar. E só isso deve ocupar todo o tempo. A economia permanecerá confusa.

  8. Creio que o foco dessa discussão é outro. As operações de mercado aberto, e compromissadas continuarão a existir, sempre. Seja com LFT, ou com qualquer outro papel.
    O objetivo essencial de todo esse interessante debate é a busca de caminhos que levem a taxas de juros civilizadas. Do ponto de vista institucional, econômico e social, o Brasil e a sociedade brasileira vem avançando, e muito oportunamente, o atual governo vem procurando atenuar e corrigir essa distorção histórica, que vem de décadas passadas. Estamos rumando nesse sentido, e com sucesso. Muito se fala, aqui no Brasil, que o mandato de um banco central é, apenas, a busca do controle do nível de preços. Pura balela. Todo e qualquer banco central atua sintonizado com os interesses políticos do governo situacionista. Ou seja: atua politicamente. Ainda recentemente, o BCE — nada obstante a taxa de inflação andar pela casa dos 2% aa (teto) —– a taxa básica manteve-se em 1% aa. Ou seja, taxa negativa. O que tal política aponta ?? Que o mandato, que a atuação do BCE está totalmente convergente com os objetivos políticos das elites européias. O mesmo ocorre na sociedade americana, e assim por diante. Saibamos nós: jamais os bacens serão autônomos. Jamais. Tudo o que mais se disser é, em essência, tentativa de manipulação.
    Lógico é que a agenda brasileira de reformas é por demais extensa. E terá que ser encarada de frente, e já. Mas é imperativo, darmos um basta a esse diferencial de juros que alimenta uma especulação sem risco algum aos detentores do grande capital, tendendo a super-apreciação do câmbio. E, no atual contexto econômico/financeiro global, nada mais correto e legítimo do que criarmos mecanismos que impeçam tal apreciação.
    A queda dos juros é o principal mecanismo.

    Um abraço

    • Mas a autonomia operacional, esta existe sim. Ou deve ser perseguida por aqui. Ninguém, é de crer-se, aqui no Brasil, pugna por BC independente nos moldes do Fed. Mas, sim, por autonomia operacional do BC.

      E esta autonomia significaria não ser, o BC, desacreditado pelo Executivo em suas decisões de defender a estabilidade da moeda e na execução da política monetária.

      Oras, se o BC contenta-se com inflação acima do centro da meta e esta fecha em 6,5%, no pico superior da banda de metas, algo não está ocorrendo bem. Ainda mais com o PIB fechando em 2,7%.

      Ao que se imaginava, o mandado do BCB era trazer os preços para o centro da meta de 2,5%. Se 6,5% está OK, pode ser que estejamos falando de outra galáxia: por que depois de miríades de corte de zeros e plano milagreiros contra a inflação, desde 1967 até 1994, agora a inflação acima da meta passa a ser considerada normal. Chegando a falar em economia estável?

      Está OK que, antes, a cada medida desinflacionária, a inflação retornava ao nível de 20% ao mês. Agora, fala-se de 6,5% ao ano. Mas, a moeda é outra, a institucionalidade do real é outra. A ver, mas, o real não parece compatível com inflação de 6,5% aa.

      E também não precisaria ter-se chegado até a jaboticaba, talvez, de ter o presidente do BCB, um ministro de Estado.

      • A autonomia operacional, ou a independência (“absoluta” ou relativa )dos bancos centrais ocorrem circunscritamente a contextos de estabilidade financeira, econômica, ou seja lá por qq outro motivo.

        O que quero dizer com isso ?? Que quando há a necessidade do governo central intervir —- como tem sido de 2008 para cá, dadas as crises financeiras e fiscais diversas —– as decisões de política monetária saem das elites políticas e dominantes ( governos), e os bancos centrais atuam como apêndices dos respectivos governos. É o caso do Fed e do BCE, por exemplo.

        Ou de outra maneira: o que é mais importante para um governo ( e para a sociedade ) são as variáveis desemprego e sua gestão, crescimento econômico, arrecadação de impostos..etc….

        Falando da política monetária adotada pelo atual governo, creio que a sinalização do Bacen de que o limite da queda da taxa básica será na casa dos 9% aa servirá para acalmar as projeções do mercado de juros futuro.

        E que, num 2º momento, dependendo dos indicadores internos e externos, a taxa tenderá a continuar declinante. E neste caso, a política fiscal mais apertada no que concerne a custeio e pessoal será alvo dos atuais gestores da Fazenda. Não esquecendo que os investimentos deverão tomar um impulso significativo.

        O que me parece inexorável é a tendência cadente de nossa taxa básica de juros.

  9. Mansueto: continuando na crítica a essa turma que se diz keynesiana ou “desenvolvimentista”. Escreviam que os liberais eram contra toda forma de regulamentação. ERRADO: é princípio fundamental do pensamento liberal normas para limitar o poder discricionário do governo, regras do jogo pré-estabelecidas para defender a concorrência e o mais fraco contra o mais forte. Utilizavam a técnica de conceituar pensamentos contrários de acordo com seus interesses. Quase dois terços de seus textos eram escrevendo inverdades sobre o pensamento contrário (isto era rotina na imprensa brasileira). Chegavam ao cúmulo de definir uma pessoa como liberal conservadora e ortodoxa. Se pegar números antigos do Valor verá absurdos maiores do que este. Eram mais ignorantes ou demagogos, melhorou um pouco. Escrevi um texto demonstrando as diferenças entre o monetarismo e o keynesianismo (tantos eram os erros divulgados em nossa imprensa). Um colega engenheiro de tecnologia da informação em uma festa perguntou-me qual a minha linha de pensamento, falei que era um liberal-democrata e monetarista. Ele assustou-se e disse: você não pode ser isso. O nome monetarista é realmente menos atrativo do que desenvolvimentista. Mas se a pessoa tiver que escolher entre um conceito e outro escolherá o monetarismo. Segue abaixo um resumo: os monetaristas são contra o poder discricionário na condução da política monetária e fiscal (os keynesianos são a favor), são a favor de regras (os keynesianos são contra). Os monetaristas são a favor de responsabilidade fiscal e monetária (os keynesianos são contra). Os monetaristas são contra gastos improdutivos, os keynesianos são a favor (Keynes achava que furar buracos e mandar tampar era aconselhável. Era a favor da construção das pirâmides do Egito). Os monetaristas aconselham que a quantidade de moeda deve ter um crescimento sem oscilações e constante, tendo como limite o PIB potencial (fatores de produção). A principal causa das crises: oscilações na oferta monetária.

  10. Marco Aurélio,

    Acho que você está simplificando as coisas sobremaneira. Keynesianos são a favor da gastos diretamente improdutivos porque em seu modelo esse gasto indiretamente gera mais produção. Não são essa caricatura que você faz parecer. E Keynesianos não são a favor da irresponsabilidade fiscal, esse é um clichê sem base na realidade e a cuja refutação basta dizer que defendem políticas contracíclicas- se são contra a austeridade grega atual, com certeza não foram a favor do rombo fiscal que a antecedeu.

    Mais importante, tenho de concordar com seu colega. Como é possível que alguém seja contra a política fiscal e monetária discricionária e se diga um democrata? Nada mais contrário à democracia que instâncias de decisão isoladas do povo e do controle popular. Uma camarila tecnocrática de bancos centrais independentes e agências governamentais opacas e insulares não é nem razoável do ponto de vista político, nem (como demonstrou a recente crise e a sua gestão pela UE e Troica) pode ser dita eficiente ou inescapável.

  11. Thor: por incrível que pareça Keynes defendeu a construção das pirâmides do Egito como um fator de desenvolvimento (eu entendo como um excesso de um período de riqueza e poder discricionário). Defendeu gastar com furar buracos e mandar tampá-los. Os liberais monetaristas são contra o poder discricionário na condução da política monetária. A favor era Keynes e por extensão os novos keynesianos. Economistas dos bons são a favor da política fiscal discricionária (o que não pode é falar que é um pensamento liberal). O pensamento liberal é contra todos poder discricionário. Os liberais são contra os gastos improdutivos, a favor são os keynesianos.
    Keynes escreveu:“O remédio para o auge não é portanto a alta, mas a baixa da taxa de juros; porque aquela pode fazer perdurar o chamado auge. O verdadeiro remédio para o ciclo econômico não consiste em evitar os auges e em manter assim uma semi depressão permanente, mas em evitar as depressões e manter deste modo um quase auge constante.” CONSIDERO UMA receita de inflação e bolha (preços dos ativos subirem em velocidade maior do que os preços do consumo; fuga da moeda mais juros, como reserva de valor, para outros ativos.).
    Adam Smith escreveu: A RIQUEZA DAS NAÇÕES, ADAM SMITH (1776).
    Trecho do capítulo III:
    As grandes nações nunca empobrecem devido ao esbanjamento ou à imprudência de particulares, embora empobreçam às vezes em consequência do esbanjamento e da imprudência cometidos pela administração pública. Toda ou quase toda renda pública é empregada, na maioria dos países, em manter cidadãos improdutivos. Tais pessoas constituem uma corte numerosa e esplêndida, um grande estabelecimento eclesiástico, grandes esquadras e exércitos, que em tempos de paz nada produzem, e em tempos de guerra nada adquirem que possa compensar os gastos de sua manutenção, mesmo enquanto perdura a guerra. Essas pessoas que nada produzem, são mantidas pela produção do trabalho de terceiros. Quando, portanto, esse contingente è multiplicado além do necessário, em determinado ano ele pode consumir uma parcela tão grande da produção anual, a ponto de não deixar o suficiente para manter os trabalhadores produtivos, que reproduziriam, no ano vindouro, o que foi gasto neste. Em consequência, a produção do ano seguinte será menor do que a do precedente e se a mesma situação confusa continuar, a produção do terceiro ano será ainda inferior à do segundo. Os cidadãos improdutivos, que deveriam ser mantidos apenas por uma parcela da renda economizada pelo povo, podem chegar a consumir parte tão relevante da renda total, e com isso obrigar tão grande número de pessoas a interferir em seu capital, nos fundos destinados à manutenção de mão de obra produtiva, que toda a frugalidade e a boa administração dos indivíduos podem ser incapazes de compensar o desperdício e aviltamento da produção, gerados por essa intromissão violenta e forçada.

  12. Thor: poder discricionário é contra normas que limitem o poder (desculpe a redundância) dos governantes. Como conceituar quem é a favor de normas que limitem o poder discricionário dos governantes (em todos os níveis) como não democrata? Ou contra a democracia seria o poder discricionário dos governantes? Os comunistas se definiam como democratas.
    Quanto maior o poder maior a corrupção (pelo menos é mais fácil).

  13. Semantica a parte (acho que usei uma acepção mais jurídica), considero a ideia de que os bancos centrais devem ser independentes profundamente antidemocrática, assim como outras instâncias que pretendem pairar acima dos humores da plebe. De qualquer maneira, desconheço uma “escola” keynesiana que discorde de que os governantes devem ter limites para gastar, onde gastar e como gastar. Tenho a impressão que essa imagem decorre do fato que eles defendem gastos contracíclicos, que parecem aos ortodoxos como absurdos ( gastar mais justo quando a receita diminui). Um debate sobre esses fundamentos e resultados é saudável, mas não concordo em creditar a defesa dessas políticas à má fé, desejo de locupletar. São diferenças acadêmicas (e, claro, existem escroques em todos os lados, claro)

    • Thor Ribeiro, desculpe pela brincadeira, mas decidir política monetária em “assembléia de plebe”, pode ser que não de certo nem aqui no Brasil.

      BCB com independência operacional, já está de bom tamanho.

  14. Thor: não concordo que BC independente é antidemocrático. Claro que estou falando independente do poder político discricionário normalmente utilizado nas eleições, mas com o compromissado com normas e metas. Milton Friedman pai do monetarismo moderno e um liberal radical era contra BC independente. Antidemocrático é o poder discricionário total.
    O monetarismo como é contra o poder discricionário, é a favor de metas, de câmbio flutuante (é uma limitação de poder), de reponsabilidade fiscal, de limites para gastos e para déficits. Os liberais monetaristas são a favor da responsabilidade fiscal (orçamento com limites para gastos com pessoal, educação, déficits, etc.). Os desenvolvimentistas são contra. A favor de gastos contras crises todos são: a diferença é a qualidade dos gastos e os limites. Se os nomes desenvolvimentistas e keynesianos são mais simpáticos deve-se adotá-los e também seus princípios. Foi Milton Friedman quem defendeu que nas crises a autoridade monetária não pode deixar a oferta monetária cair. Escreveu também que toda crise veio acompanhada de oscilações na oferta monetária. MONETARISMO É A DEFESA DO CRESCIMENTO DA MOEDA SEM OSCILAÇÕES E COM LIMITE (a taxa de juro básica é uma ferramenta para retirar moeda do merado).
    OS KEYNESIANOS E DESENVOLVIMENTISTAS DEFENDEM GASTOS PÚBLICOS SEM LIMITES, TAXA DE JURO BÁSICA SEMPRE CAINDO. NÃO SE PREOCUPAM COM A OFERTA MONETÁRIA.
    TODA CRISE QUE ACONTECEU NO MUNDO VEIO ANTECEDIDA POR IRRESPONSABILIDADE MONETÁRIA.
    Se a turma hetrodoxa adotou o marketing do nome desenvolvimentista (desenvolvimentistas todos são, os caminhos é que são diferentes), a turma liberal adotou o marketing do nome reponsabildade monetária e fiscal.
    Quem é a favor de déficits sem limites, de gastos improdutivos, de furar buracos e depois consertar tem que ser contra a responsabilidade fiscal e monetária (eu não chamei de irresponsáveis como escreveu.).
    Definir uma escola de pensamento erradamente é que não podemos aceitar. E isto foi feito por muitos anos no Brasil (professores famosos da UNICAMP e da FGV-SP utilizavam a técnica de definir pensamentos contrários erradamente).
    PODER DISCRICIONÁRIO É ACEITO EM UMA DEFINIÇÃO DE DEMOCRACIA?
    O Delfim Netto foi o poder econômico discricionário dos últimos governos militares. Deixou como herança o início de uma hiperinflação.

  15. Marco,

    Te desafio a me mostrar uma prova de que “keynesianos defendem gastos públicos sem limites”. Não vai encontrar nunca uma declaração, livro ou trabalho que defenda isso porque obviamente é algo impossível e ridículo de defender. Essa é a caricatura que você tem de desenvolvimentistas, estruturalistas e keynesianos.

    Também te desafio a provar que toda crise veio antecedida de irresponsabilidade monetária. Obviamente existem crises cambiais, choques de oferta e quedas de demanda súbitas causadas por desconfiança, pânico e fatores exôgenos.

    Repito. Keynes atraves de toda sua obra sempre defende o equilíbrio fiscal, Assim como o fazem os neokeynesianos.

    Por último, qualquer significado minimamente partilhavel de democracia inclui o poder do povo de definir, através de seus representantes, as regulações e alocações da moeda e dos gastos (“the power of the purse”). Preteder que a oferta da moeda, a regulamentação cambial, o sistema bancário devem estar isolados dos representantes votados e controlados por burocratas, tecnocratas e pessoas apontadas sem accountabilty com o povo é muito pouco democrático. Você pode defender dizendo que esse sistema é mais eficiênte, mas não pode dizer que é democrático

  16. Thor: indico o livro de K. S. Rogoff e Carmen M. Reinhart, Oito séculos de DELÍRIOS Financeiros. Aí verá os motivos das crises.
    Nos tempos de predomínio keynesiano tivemos déficits de até 50%. Não tinhamos política monetária, existia uma conta no BB que era sem fundo.

    A política fiscal do EURO de déficit limitado a 3% e dívida a 60% é criticada como ortodoxa. Os keynesianos estão criticando os alemães por seu rigor.
    Se considerar as construções das pirâmides do Egito como uma das causas da riqueza do país, mandar furar buracos e depois consertar é responsabilidade fiscal, como equilíbrio fiscal, Keynes estava correto. O que keynes quis dizer é que se não existir mais no que gastar faça gastos improdutivos. Adam Smith considerava gastos improdutivos e desncessários ccomo uma das causas da pobreza. Keynes considerava gastos improdutivos e desnecessários como causa de riqueza.
    Com todo o respeito Keynes em sua principal obra, o Teoria Geral, onde rompe com o passado (era adjunto de Marshall), não defende o equilíbrio fiscal, é o inverso. Os keynesianos têm horror a equilíbrio fiscal (isto é monetarismo). Até os liberais monetaristas aceitaram (a contra-gosto é verdade) os 3% de déficit do Euro (os keynesianos estão defendendo mais gastos, então mais déficits, mais dívida, mais cano, mais moeda). Keynes era a favor de câmbio flutuante (como os monetaristas). Sobre juros escrevi uma frase dele no post anterior.

    A GRANDE FALHA DA TEORIA GERAL (KEYNESIANA): é uma teoria que determina taxas de juros baixas priorizando o consumo e os investimentos como solução de crescimento. Não tem solução para a inflação. O processo de crescimento inicial caminha para inflação e estagnação (queda do poder de compra da moeda). O pleno emprego leva à inflação. A taxa natural de desemprego evita a corrida preços x salários, é necessária para evitar a inflação e a estagnação (estagflação). A taxa de juro de equilíbrio (neutra) tem que ser considerada para evitar a deflagração de processo inflacionário.

    BANCO CENTRAL INDEPENDENTE: Milton Friedman um liberal radical (de extremos) era contra BC independente. Mas era também contra o poder discricionário defendido pelos hetrodoxos e keynesianos (é só ler os livros de Macro). Os monetaristas (liberais) é que são a favor de normas para limitar poderes (inlusive da burocracia dos BC e outros). A meta de inflação é um limitador de poder, o superávit (ou limite de déficit) fiscal outro. O câmbio flutuante retira poder (o administrado dá poder).

  17. Marco Aurélio, acho que você vai ter dificuldade de achar, tanto na Teoria Geral, como na síntese neoclássica, como na obra de Galbraith, Paul Krugman, algo que lembre a defesa da irresponsabilidade fiscal. Simplesmente não há, pelo contrário. Quem defendeu que “deficits não importam” foram os republicanos dos anos 80 baseados na curva de Laffer e no Tirckle Down. Te desafio a mostrar onde na teoria de qualquer keynesiano há “horror a equilíbrio fiscal”

    Você critica as políticas keynesianas dos investimentos improdutivos (e eles nem precisam ser improdutivos, na verdade, é só pra exemplificar que um aumento da demanda agregada puro consegue reativar o circuito econômico). Só porque parece absurdo, não significa que é- um fundamento de toda ciência. Há muita pesquisa empírica mostrando que o efeito multiplicador existe- o nosso, e todos os Bancos Centrais do mundo os contemplam em seus modelos.

    • Se construir pirâmides do Egito, furar buracos e mandar tampar, não for irresponsabilidade fiscal não sei o que é.
      Ser contra poder discricionário é menos democrático do que a turma keynesiana que é a favor?
      O partido republicano americano é conservador, o democrata é liberal (pelo menos no nome). Na prática são iguais.
      Leia Oito séculos de DELÍRIOS FINANCEIROS (ali tem quase tudo e com provas).
      O modelo de desenvolvimento liberal condena os gastos improdutivos (para eles é motivo de redução da riqueza), o modelo keynesiano fala que é indutor de riqueza. ESCOLHA O MAIS CORRETO.
      Se quiser definir desenvolvimentistas, heterodoxos e keynesianos como a favor de responsabilidade fiscal, de equilíbrio fiscal (quer dizer déficit zero?) vou aceitar como uma evolução para o monetarismo. Quem está criticando a exigência alemã de ajustes nos gastos públicos gregos é o Krugman (que é autor de um excelente livro. Mas ele tem recaídas). Ele defende não penalizar os gregos mas os contribuintes alemães. Defender salários de deputados gregos 3 vezes superiores aos da Alemanha? Os contribuintes alemães não aceitam.
      A crise do EURO é resultado de que? DE IRRESPONSABILIDADES FISCAIS.

      • Meus caros,
        Só um pequeno pitaco nesta discussão para clarear alguns conceitos:
        1- Um liberal é aquele que não acredita na possibilidade da população controlar seus políticos. Bastante razoável caso olhemos a nossa volta no país. Caso, mesmo com eleições, este controle se mostre impossível, faz-se necessário criar estruturas de controle sobre os políticos para que consigamos UM PAÍS MAIS DEMOCRÁTICO!
        2- Um bom exemplo (o Thor, com todo respeito, dá a entender que é jurista) é a justiça. Poder-se-ia dizer que a independência da justiça é extremamente anti-democrática. Como a Dilma (atual presidente) foi eleita, esta deveria ter o poder de fazer julgamentos sumários sobre qualquer assunto no país, possibilitando que a democracia aqui se aprofundasse. Claro, isto representaria um aumento da tirania, não o inverso (e cito a Dilma por ela ser nossa presidente, não que eu esteja fazendo algum julgamento pessoal dela).
        3- Citei o exemplo acima, bem simples, para defender que em um sistema democrático, é possível sim que existam restrições às ações discricionárias dos políticos, e isto representaria um aprofundamento da democracia entre nós, exatamente porque nosso controle sobre os políticos é bastante falho.
        4- Um BC independente não define nenhuma política econômica. ELE IMPLEMENTA A POLÍTICA ECONÔMICA ESCOLHIDA PELO GOVERNO E COMUNICADA À SOCIEDADE!!!! Ele, portanto, é um mecanismo que restringe a possibilidade do governo mentir para nós!!!! É o mesmo caso das agências independentes (tanto estas como o BC estariam sujeitas a contratos de gestão bastante rígidos e fiscalizados pelo congresso, ninguém, em nenhum lugar, já defendeu que estes deveriam ter liberdade para fazer o que quiserem).
        5- Este conjunto de políticas representa uma evolução institucional sofisticada e busca restringir o que é conhecido como inconsistência intertemporal do governo.
        Um grande abraço,
        Claudio

  18. Belo debate, embora com posições rígidas, e um pouco repetitivas, nos dois principais contendores em torno dos méritos e desvantagens respectivos do keynesianismo e do monetarismo, mas prefiro retomar a demanda inicial do Rodrigo Medeiros, que pede uma taxa de juros mais baixa (o que ele acha um problema grave, mas eu não).
    Muito simples, como diria o Nakano: basta o governo elevar o superávit primário — que em si já é uma trambicagem — para 5 ou 6% do PIB. Assim, não precisará ficar tomando dinheiro no mercado e as taxas de juros em geral (de referência e outras) cairão quase automaticamente.
    Não creio que ajude muito ficar debatendo o que disse um ou outro dos personagens citados (embora grandes economistas, claro): importa mais verificar o que o governo anda fazendo e o que precisaria ser feito.
    O que governo anda gastando demais? Esse é um fato, e desafio qualquer keynesiano-desenvolvimentista a me provar que o governo gasta pouco.
    Quem arrecada todo ano — com altas ou baixas taxas de crescimento — o dobro do crescimento da inflação e o triplo do crescimento do PIB, só pode ser um gastador compulsivo. Desafio também qualquer linha a me provar que o governo arrrecada pouco ou que a Receita Federal está motivada por qualquer outra preocupação — como o ambiente de negócios, por exemplo — do que o simples aumento, linear, nominal, e real, de sua arrecadação.
    Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são, dizia Monteiro Lobato quase cem anos atrás.
    Pouca poupança e muita gastança, os males do Brasil são, poderíamos dizer atualmente.
    Paulo Roberto de Almeida

    • Paulo: a política econômica (monetária, fiscal e cambial) de um país é em parte resultado das crenças dos economistas (na verdade o poder é dos políticos). Podemos, resumidamente, dividir os economistas em: a) liberais, monetaristas, clássicos (neoclássicos) e ortodoxos (os liberais não gostam do nome ortodoxo) de um lado; b) heterodoxos, keynesianos (desenvolvimentistas) de outro.
      Resumindo mais ainda: liberais-monetaristas x keynesianos (heterodoxos).
      O modelo de desenvolvimento de um país dependará da política econômica (fiscal, monetária e cambial).
      Os monetaristas são a favor de câmbio flutuante (Keynes também era).
      Os liberais-monetaristas são contra o poder discricionário na condução das políticas fiscal, monetária e cambial (é o contrário do que muitos pensam). Defendem normas para limitar o poder das autoridades e dos governos: a meta de inflação, os limites de défiits, o orçamento fiscal compromissado, o câmbio flutuante, são limites para as autoridades. Defendem que a moeda tenha um crescimento constante, sem oscilações (causa das crises), transparente para todos. M. Friedman falou em algo como 5% (mas aconselhou acompanhamento dos ambientes). Escreveu que a crise de 29 teria sido menor e causado menos sofrimentos se a autoridade monetária não tivesse deixado a quantidade de moeda ter caído (hoje a turma está aumentando a quantidade de moeda ao invés de não deixar cair). Defendem que os gastos públicos devem ser necessários e produtivos (os improdutivos devem ser o menor possível). Postei um escrito de Adam Smith a respeito.
      Os keynesianos defendem o poder discricionários para as autoridades na condução das polítias fiscal e monetária (muitos bons economistas são a favor destas idéias). O errado é definir liberalismo (e monetarismo) erradamente. Keynes defendia o pleno emprego e para consegui-lo defendeu até a construção das pirâmides do Egito como bom para a economia. Consideram os gastos improdutivos como bons para a economia (os liberais onsideram como ruim).
      Os liberais consideram necessária para que não aconteça a inflação uma taxa natural de desemprego (um número menor do que 6%). Keynes defendia a redução da taxa de juro (não fala mas deve ser a básica) mesmo depois da economia ter atingido o auge. Os monetaristas defendem uma taxa básica acima ou abaixo da taxa de equilíbrio (neutra ou natural) dependendo da conjuntura prospectiva (ascendente ou descendente).
      Como vê as diferenças são muito grandes.
      Política fiscal com déficit zero nem liberais nem keynesianos defendem.
      A diferença é o tipo do gasto público: os liberais defendem os produtivos e necessários, os keynesianos defendem os gastos públicos como forma de manter o pleno emprego.

  19. Cláudio: concordo com seus argumentos.
    Existem diferenças fundamentais entre os modelos de desenvolvimento liberal-monetarista e keynesiano (heterodoxo). Os liberais consideram boas instituições como fator de desenvolvimento (deu até um Nobel).
    O que critico no Brasil é a definição errada que muitos economistas (e aí proçlifera) dão ao pensamento liberal e monetarista. Em uma sala de formandos de economia (não sou professor) apenas um sabia as definições corretas (a mioria definia erradamente). Nenhum tinha lido Adam Smith, Milton Friedman e Keynes no original. Mas eram bons em modelos matemáticos macroeconômicos e econométricos. A wikipédia definia neoliberalismo coma a ausência total de regulamentos (isto é a anarquia).
    As expectativas racionais (que os monetaristas são a favor e os keynesianos contra) é que justificam o pensamento de que normas devem ser utilizadas na política monetária. Os keynesianos que não acreditam nas expectativas racionais justificam o poder discricionário assim (a autoridade monetária deve ter poder discricionário).
    Samuelson definiu assim o livro Teoria Geral de Keynes: “É um livro mal escrito e mal organizado….Não serve para uso em classe. É arrogante, mal-educado, polêmico e não muito generoso nos agradecimentos. É cheio de falácias e confusões: desemprego involuntário, unidades de salário, equivalência da popupança e do investimento, caráter intertemporal do multiplicador, interações da eficiência marginal sobre a taxa de juros, poupança forçada, taxas de juros específicas e muitos outros….depois de entendida a sua análise, se mostra óbvia e ao mesmo tempo nova. Em resumo, é um trabalho de gênio.!

  20. Bom, de todo modo, ainda bem que nem Keynes e nem Adam Smith e nem Marx têm culpa da política pé na jaca atual por aqui.

    Se fossem vivos e viessem estudar o que se passava aqui, poderiam gostar das praias.

    As jacas, com certeza, já teriam sido erradicadas, por algum tipo de plantio, colheita e venda subsidiadas, por recursos públicos, para grupos de famílias assentadas.

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