Política Industrial aqui e lá fora

Estou sem tempo para sentar e escrever. Bem que gostaria, pois essas duas últimas semanas estão sendo bem interessantes. Acabei de chegar hoje dos EUA onde fui participar de um seminário no BID sobre cooperação público-privada e política industrial (clique aqui para ver a programação).

Vou ver depois a possibilidade de disponibilizar as apresentações e textos aqui. O power point do Ricardo Hausmann (Harvard) estava bem interessante e com mais de 100 slides. Este é um dos que vale a pena  ver. Eu não o conhecia e no jantar tivemos a chance de conversar e ele é totalmente crítico da política externa do Brasil pelo fato do Brasil não condenar as violações de direitos humanos em outros países da América Latina.

A minha apresentação foi provocante e acho que dei o recado que queria dar. Uma coisa para mim ficou clara. O que a academia lá fora está discutindo de política industrial é bem diferente do que praticamos. A preocupação lá fora é entender como em um mundo complexo é possível desenvolver cooperação entre setor púbico e privado que facilite o processo de descoberta de novas tecnologias e de novas atividades.

Se há mais de 50 anos era difícil o processo de coordenação em um mundo menos complexo, hoje essa coordenação de atividades (por um planejador central) é impossível. Para se conseguir um simples café da manhã, por exemplo,  como mostrado por Hausmann, isso requer uma série de atividades: que galinhas sejam alimentadas; vacas leiteiras e transporte refrigerado para o leite; uma fábrica de produção de queijo;  plantação de trigo, uso de fermentos e fornos para produzir pão; café, água, energia, etc.

Assim, para que o setor público possa ajudar o setor privado no processo de diversificação produtiva e inovação é preciso canais de comunicação de tal forma que o setor público tenha informação de que tipo de insumos (bens públicos) o setor privado precisa. O maior desafio é criar esses canais de comunicação público-privado sem que o público seja capturado pelo privado.

Parece simples? Parece, mas isso é extremamente complicado. Basta ver o número elevado de atividades que de alguma forma impacta na produção de manufaturas (de novo da apresentação do Hausmann):

Fonte: Ricardo Hausmann – apresentação no BID em 05/03/2012.

Em resumo, política industrial é algo complexo e hoje o desafio é muito mais institucional: como o setor público consegue criar mecanismos de comunicação com o setor privado de tal forma que o setor público possa adotar reformas e/ou subsídios que facilite o processo de diversificação industrial e/ou aumento de produtividade de atividades que já existem.

É claro que há sempre o risco de captura do setor público pelo setor privado. Mas esse tipo de risco se combate com mecanismos que aumentem a transparência na relação público-privado e mecanismo de “accountability”. Vale lembrar que mesmo em áreas que nada te a ver com política industrial, como política monetária, é comum contatos frequentes entre analistas de mercado e diretores do Banco Central e nem por isso falamos de captura. Ou falamos?

Desse debate uma coisa ficou clara para mim. O nosso debate de política industrial aqui no Brasil que na prática toma a forma de crédito para a criação de grandes grupos brasileiros multinacionais está muito longe desse debate lá de fora do que seja política industrial. Na próxima semana volto aos Estados Unidos para um novo debate sobre Política Industrial com pesquisadores Sul Coreanos no MIT.

3 pensamentos sobre “Política Industrial aqui e lá fora

  1. Caro

    Que inveja!

    A respeito da relação público-privado, nos termos do post, li faz algum tempo um artigo que gostei bastante.

    Public research institutions and economic catch-up

    Roberto Mazzoleni a,∗, Richard R. Nelson b

    a Department of Economics and Geography, Hofstra University, Hempstead, NY 11549, United States
    b The Earth Institute, Columbia University, New York, NY 10025, United States
    Received 23 October 2006; received in revised form 1 June 2007; accepted 18 June 2007. Available online 27 August 2007

    Não encontrei link aberto para o artigo

    Abstract
    Public research institutions, often but not always connected with universities, have been in the past important elements of the structures supporting economic catch-up. Recent changes in the international economic environment, and the growing scientific basis for contemporary technologies, will make those institutions even more important in the future. Universities and public labs have contributed to the development of technological capabilities in different forms across countries and economic sectors. IN CONTRAST with current EMPHASIS on university-based embryonic inventions and fundamental esearch, effective research programs have PREDOMINANTLY occurred in the APPLICATION-ORIENTED SCIENCES AND ENGINEERING, AND HAVE BEEN ORIENTED TOWARDS PROBLEM-SOLVING,AND THE ADVANCEMENT OF TECHNOLOGIES OF INTEREST TO A WELL-DEFINED USER-COMMUNITY

    © 2007 Elsevier B.V. All rights reserved.

    Keywords: Catch-up; Public research; Indigenous technological capabilities

    Um trecho

    Universities and public research organizations are key institutions supporting this process of catching up. Our focus in this paper is on the role these institutions have played in countries that have in the past successfully caught up with the leaders in industrial technology and practice, and the roles these institutions will be called upon to play in countries still in the process of catching up.

    Talvez você já conheça o artigo.

    Quanto aos riscos da captura, eles são constitutivos das relações público-privado. É ilusão imaginar a possibilidade de um ente que pairasse como um deus supremo acima dessa condição demasiadamente humana.

    A alternativa, da qual infelizmente estamos afastados em distância que se mede a anos-luz, é “a transparência na relação público-privado”: accountability.

    Abs.

  2. “Vou ver depois a possibilidade de disponibilizar as apresentações e textos aqui. O power point do Ricardo Hausmann (Harvard) estava bem interessante e com mais de 100 slides.”

    Mansueto, você conseguiu as apresentações?

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