Capital estrangeiro, Otimismo e US$ 100 bilhões.

O número elevado de  gestores de fundos estrangeiros que estão visitando Brasília, Rio e São Paulo neste mês de fevereiro tem me chamado atenção. Para quem não é do mercado, essas visitas funcionam mais ou menos assim. Esses analistas e gestores de fundos de investimento pedem a um banco, normalmente  que presta algum serviço a eles, para marcar reuniões com representantes do governo e com alguns analistas independentes.

A lista de instituições oficiais visitadas incluem, geralmente, Ministério da Fazenda, Secretaria de Politica Econômica, Tesouro Nacional, Banco Central e BNDES. Às vezes, dependendo do perfil dos investidores, entra na lista Ministério das Minas e Energia e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Em alguns casos, o Congresso Nacional entra na lista e os investidores procuram líderes de partidos aliados ao governo e antes procuravam líderes da oposição. Hoje, aqueles com quem converso não se mostram muito animados para conversar com políticos da oposição e talvez isso seja reflexo da percepção desses investidores que a oposição, no Congresso Nacional, perdeu a influência que costumava ter na definição da agenda parlamentar.

Além das instituições oficiais, esses investidores procuram conversar também com analistas independentes, que inclui consultorias econômicas em São Paulo e Rio, consultorias políticas em Brasília e pessoas físicas. Entro nesta última categoria. Normalmente, quando posso, aceito almoçar com esses investidores e duas coisas têm me chamado atenção. Primeiro, o interesse cada vez maior desses gestores de fundo em investir no Brasil e América Latina. Segundo, o volume de recursos das carteiras dos fundos de investimento na América Latina e/ou mercados emergentes.

Quando vão marcar entrevistas, esses gestores informam o volume de recursos que aplicam na América Latina e a carteira total dos seus fundos. Apenas no mês de fevereiro, notei que os gestores de fundos com quem almocei e que vou ainda almoçar administram mais de US$ 100 bilhões de investimentos em mercados emergentes. Sempre levantam aquelas preocupações com os indicadores de longo-prazo, a agenda parada de reformas, etc., mas em geral estão otimistas e procurando oportunidades de investimento no Brasil.

O que tenho destacado para todos eles é o seguinte: (i) não me preocupo com a economia brasileira nos próximos três anos. A discussão do que vai acontecer neste período é se a inflação média será mais próxima de 5% ou mais próxima de 6% ao ano ou se o Brasil vai crescer 3,5% ou algo próximo a esse valor; (ii) não vejo risco de crise fiscal no Brasil nesse período e explico que o debate fiscal hoje está relacionado aos impactos dos gastos do governo na demanda agregada e a intenção do governo de trazer e manter a taxa de juros em um dígito; (iii) destaco que o governo terá que abraçar agenda de concessões, pois será a única forma de conciliar a manutenção das políticas sociais com crescimento do investimento público sem precisar aumentar a carga tributária; e (iv) mando eles esquecerem ramos da indústria trabalho intensiva, e investirem nos setores ligados à commodities, serviços e infraestrutura.

Adoraria poder recomendar investimentos na indústria no Brasil, mas quando vejo o custo de se produzir aqui vis-à-vis ao custo de produção em outros países, não há como recomendar investimento na indústria, a não ser naqueles ramos muitos específicos ligados à indústria de petróleo e gás, e agropecuária.

Apesar do debate intenso no Brasil se há ou não desindustrialização, os investidores estrangeiros passam à margem desse debate e querem apenas ter certeza que os indicadores macro estão em ordem para que eles possam investir no Brasil.

É claro que ficam apreensivos com medidas protecionistas, mas se acalmam quando digo que o Brasil não tem como crescer sem ajuda da poupança externa e, assim, não deve tomar medidas que afugentem o investimento externo apesar da retórica do nosso querido Ministro da Fazenda que, no lançamento da plano Brasil Maior fez a observação indevida que: “o mercado brasileiro deve ser usufruído pela indústria brasileira e não pelos aventureiros que vêm de fora”.

17 pensamentos sobre “Capital estrangeiro, Otimismo e US$ 100 bilhões.

    • Obrigado. Sim, você tem razão a BOVESPA já está sentindo isso e a tendência de entrada de capital com essa expansão monetária do FED, BCE, inglaterra e agora Japão será muito forte. Espero não engordar com tanto almoço. Abs, Mansueto

    • Caro Saulo,

      cadastre o seu e-mail no lado esquerdo da página que sempre que eu publicar algo no blog você receberá automaticamente um e-mail. Fico feliz que tenhas gostado do blog. Abs, Mansueto

  1. Olá Mansueto,

    Bem não é comentário e sim queria um esclarecimento: Há muito fiz um concurso que tinha a seguinte questão:

    As reservas internacionais em moeda forte funcionam como um seguro que o Brasil contrata para se proteger contra eventuais ataques especulativos e crises abruptas. Foi graças ao acúmulo desses recursos que o Brasil pôde decretar, há duas semanas, o fim de sua dívida externa. Na última crise financeira que atingiu o Brasil, em 2002, essa poupança era bem mais modesta. Excluídos os empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), não passava de 16 bilhões de dólares; na semana passada, chegou a 190 bilhões de dólares, dinheiro acumulado graças aos superávits na balança comercial…….

    Gostaria, se possível, de um esclarecimento sobre o pagamento da dívida externa: o texto mostra que a dívida foi extinta, mas leio em alguns blogs que não.

    abs

    Klaus

    • Vamos por parte. Primeiro, é verdade que um maior estoque de reservas funciona como um seguro. Mas o nível de reservas no Brasil de mais de US$ 350 bilhões já é muito elevado e quanto mais acumularmos reservas, maior o custo fiscal. Normalmente, quando o BACEN compara moeda estrangeira e aumenta as reservas, aplica o dinheiro no mercado internacional em ativos seguros, como títulos americanos com rendimento muito baixo, e vende títulos no mercado doméstico que rendem SELIC. O diferencial de juros é o custo fiscal.

      Segundo, a divida externa não acabou como fala a questão do concurso. O que aconteceu foi que o nível de reservas brasileiras aumentou tanto frente ao estoque da divida externa que, a dívida externa líquida do setor público (dívida menos reservas) passou a ser negativa. A dívida externa total do governo, em dezembro de 2011, era de US$ 57,8 bilhões, volume muito inferior ao total de reservas no mesmo período que era de US$ 352 bilhões; o que significa que a divida externa (do setor público) líquida era negativa.

      Terceiro, se incluirmos na cálculo da divida externa a dívida do setor privado e os empréstimos em moeda estrangeira intercompanhias, a dívida externa do Brasil, em dezembro de 2011, era de US$ 402,4 bilhões; superior ao volume de reservas.

      A questão tem dois erros: (i) a divida externa do setor público não acabou; a divida externa LÍQUIDA ficou negativa decido ao acumulo de reservas; e (ii) a dívida externa total (setor público e privado) do Brasil é superior ao volume de reservas. A questão deveria ter falado da dívida externa líquida do setor público.

      Abs,

      Mansueto

      • Na verdade a dívida externa total em 31/12/2011 publicada pelo TN era de US$402,4 bi, a do governo US$62,3 bi.; a privada US$235,1 bi. e a entre empresas US$105 bi. As reservas somavam US$352,073 bi.; portanto a dívida líquida era de US$50,32bi. As reservas devem fazer frente também ao retorno de investimentos, remessas de lucros, entre outras obrigações (que não fazem parte da dívida externa). A previsão do saldo em transações correntes em 2012 é negativo em US$65 bi. (no momento a entrada de capitais é superior a esta necessidade). Mas quando os USA e a Europa deixarem de monetizar o mundo com moeda em desvalorização (quase podre), a maré irá virar (as entradas de moeda reserva irão reduzirl). É o preço que tem não emite moeda reserva paga.
        Os USA estão inundando o mundo de dólar e os preços internos nem se movem (já as commodities mundiais sobem absurdamante e beneficiam os países produtores).
        A conta é: custo de carregar reservas contra ganhos com preços de comoodities exportadas. O Brasil está ganhando. Alguns países estão quebrando. A valorização da nossa moeda, ao contrário do que escrevem os defensores (eternos gigolôs dos brasileiros) da defesa do privilégio da reserva de mercado (inimigos da concorrência e do pensamento liberal). A maioria dos exportadores nãso necessitam de proteção cambial nem de privilégios (vide os lucros), a minoria que precisa não merece (é o interesse de uma minoria ruidosa contra o interesse maior do país e de todos).

      • CORREÇÃO (o texto anterior ficou muito truncado).
        Na verdade a dívida externa total, em 31/12/2011, publicada pelo TN, era de US$402,4 bi, a do governo US$62,3 bi.; a privada US$235,1 bi.; e a entre empresas US$105 bi. As reservas somavam US$352,073 bi.; portanto a dívida líquida era positiva em US$50,32bi. As reservas devem fazer frente também ao retorno dos investimentos, remessas de lucros, entre outras obrigações (que não fazem parte da dívida externa). A previsão do saldo em transações correntes para 2012 é negativa em US$65 bi. (no momento a entrada de capitais é superior a esta necessidade). Mas quando os USA e a Europa deixarem de monetizar o mundo com moeda em desvalorização (quase podre), a maré irá virar (as entradas de moeda reserva irão reduzir). É o preço que quem não emite moeda reserva paga.
        Os USA estão inundando o mundo de dólar e os preços internos nem se movem (já as commodities mundiais sobem absurdamente e beneficiam os países produtores).
        A conta é: custo de carregar reservas contra ganhos com preços de commodities exportadas. O Brasil está ganhando. Alguns países estão quebrando. A valorização da nossa moeda, ao contrário do que escrevem os defensores (eternos gigolôs dos brasileiros) da defesa do privilégio da reserva de mercado (inimigos da concorrência e do pensamento liberal) é benéfica ao país. A maioria dos exportadores não necessita de proteção cambial nem de privilégios (vide os lucros), a minoria que precisa não merece (é o interesse de uma minoria ruidosa contra o interesse maior do país e de todos os outros).

  2. Mansueto

    O comentário do Klaus é impressionante, Seria interessante ter acesso ao texto completo da questão e saber para qual instituição ela foi formulada.

    Do jeito que está, a questão mais parece um press release produzido sob medida para o interesse de um contratante de serviço de assessoria de imprensa. E aí as hipóteses são duas. Ou quem escreveu não entende patavina do riscado, ou enunciou a questão em má fé.

    Pelo enunciado da pergunta, que já embute a resposta “certa”, a que você apresentou seria considerada incorreta. 🙂

    ” Foi graças ao acúmulo desses recursos que o Brasil pôde decretar, há duas semanas, o fim de sua dívida externa.”

    No mínimo, essa assertiva deveria propor ao candidato que ele dissertasse a respeito da relação entre aumento de reservas e dívida externa. Mas não. Optou-se pela afirmação, dando ao fato da suposta liquidação da dívida o caráter de uma efetividade autodemonstrada. Assim, restaria ao candidato apenas argumentar para confirmar o enunciado que, como você demonstrou, está equivocado.

    Em termos históricos, o ano de 2002 foi posto como uma data inaugural, isto é, como o elemento periodizador de um “antes” e um “depois”. 2002 marcaria, desse modo, o fim de um certo período das trevas e o início de um presente radiante e promissor nunca antes visto neste país.

    Um candidato esperto perceberia o truque e, mesmo sabendo que a questão é equivocada, responderia sofismando em defesa da assertiva, escrevendo que nunca antes neste país o fim da dívida externa foi liquidada “há duas semanas”.

    No enunciado, a frase “O Brasil decretou” é de lascar.

    E assim vamos.

  3. Confesso que estranhei não haver preocupação quanto ao câmbio. Tenho muitas dúvidas.

    O real fica valorizado como está e quebra a indústria ou ele se desvaloriza? Não parece ser possível ganhos de produtividade de curto prazo que sustentem esse câmbio.

    As commodities sustentariam todos esses gastos em moeda estrangeira? Até quando?

    Um País do tamanho do Brasil pode viver sem indústria, exclusivamente apoiado em petróleo, alimentos e minérios?

    Desculpem o excesso de perguntas, mas é porque eu não sei as respostas!

    • Na verdade, o cenário deles é que vai entrar muito dinheiro no Brasil e que a taxa de câmbio deve ficar de R$/US$ 1,70 para baixo. acham que o Banco Central vai continuar comprando um mundo de reservas, muito acima do que estima o próprio Banco Central que no relatório de janeiro trabalha com a expectativa de aumentar o estoque de reservas em apenas US$ 5 bilhões este ano se não me engano (variação do ativos reservas na conta do Balanço de Pagamentos).

      A questão da indústria não preocupa eles porque essa turma do mercado olha mais para o horizonte de 5 anos e até lá é possível que tenhamos bastante fôlego neste modelo. A indústria não vai acabar, mas ela vai perder participação no PIB e é difícil saber até que ponto isso é positivo ou negativo. por exemplo, existe um limite inferior de participação na industria no PIB que ultrapassado pode gerar várias deseconomias e altear o dinamismo do setor serviços? eu não sei e essa pergunta é o tema de uma pesquisa interessante no MIT (no Industrial Performance Center) conduzido pela professora Suzane Berger.

      Suas perguntas são boas e pertinentes. Mas não tenho resposta.

    • Olha só, o Alex também não tem acesso ao SIAFI. O melhor sistema que conheço que replica bem o SIAFI é o sistema SIGA Brasil do Senado Federal. Você tem que mandar um e-mail para eles e pedir a senha de especialista e dá para você construir suas próprias análises.

      Eles haviam parado de dar senha porque o numero de usuários havia aumentado muito. Mas talvez já tenham reativado. Agora esse dado de recolhimento de dividendos é publicado, se não me engano, em algum relatório público da Receita Federal. Vou checar.

  4. Pois é, muitas expansões monetárias, QE para todo lado, enquanto isso o risco de colapso está afastado momentaneamente. O radar dos investidores está ativado e retomamos o fly-to-yield e ativos reais, associado a fuga das moedas e títulos dos desenvolvidos. Mas ficar nesse limbo (algum crescimento e muito QE) é impossível. O equilíbrio não se dará em algum outro ponto menos empolgante (ou menor empuxo monetário ou menor crescimento)? Será que este movimento não é puro debasement sem fundamento?
    Obrigado

  5. Para Paulo Araújo,

    Bem, o texto se encontra no site PCI concursos .A questão está na prova do concurso BB para escriturário. A prova é de 2008 e foi elaborada pela UnB/CESPE, caderno branco na parte conhecimentos básicos de língua portuguesa.

    abs

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