Lara Resende e o Limite do Possível

Sinceramente, eu já havia esquecido o artigo do economista André Lara Resende sobre a tese que consumo mundial está no seu limite e que, assim, seria tolice tentar superar a crise atual com politicas keynesianas para estimular o crescimento que, inevitavelmente, levariam ao aumento do consumo, aumento dos preços dos alimentos e a uma nova crise.

O economista escreveu sobre isso no Valor Econômico (clique aqui) e neste final de semana deu entrevista ao jornal O Globo (clique aqui). No seu artigo no jornal Valor Econômico, o economista fala que: “A crise de 2008, que insiste em não terminar, pode não ser apenas mais uma crise cíclica das economias modernas, sempre ameaçadas pela insuficiência de demanda. É possível que o prazo de validade do remédio keynesiano tenha se esgotado. Não há mais como contar com o crescimento da demanda de bens materiais para crescer. O crescimento pode não ser mais a opção de saída para a crise”.

Não tive tempo ainda de ler o livro “The Great Disruption” de Paul Gilding que Lara Resende cita e que parece contar também com a simpatia do jornalista Thomas Friedman do “The New York Times” (clique aqui). Mas confesso que acho essas teses pessimistas difícil de engolir.

Não discordo da tese que um crescimento muito rápido dos países emergentes poderia ocasionar um aumento do consumo, piorar o efeito estufa e até ocasionar um forte crescimento dos preços dos alimentos e de outras commodities. Mas disso inferir que chegamos no limite do consumo é ter pouca fé no progresso tecnológico e no aumento de produtividade (com efeitos incertos sobre os preços) que resultaria desse maior progresso.

Assim, enquanto o dia final não chega, seria melhor pensarmos em como superar atual crise ao invés de acreditar muito nessas teses neo-malthusianas.

5 pensamentos sobre “Lara Resende e o Limite do Possível

  1. Isso quando não dizem que quando todos os cidadãos da China estiverem consumindo como os países desenvolvidos o mundo estará acabado.

  2. De fato, o malthusianismo voltou com força, alguns até o chamando de neomalthusianismo — como no caso dos ecologistas que alertam contra a ameaça de escassez de recursos naturais, energia, etc — mas se trata da mesma reação paranóica, irracional e totalmente desmentida pela história econômica e pelo desenvolvimento tecnológico.
    Incrível é que um economista do porte do Lara Rezende caia nessa história, ainda que ele pretenda fazer uma crítica do keynesianismo aplicado.
    Na verdade, não há nada de muito sofisticado na prática dos governos (os europeus pelas últimas décadas) insistirem no crescimento via estímulo ao consumo: todos os políticos — que são demagogos, por definição — fazem isso, até o limite do possível. Depois, quando chega a hora do ajuste de contas, se entra em um período recessivo e de contenção fiscal. Nada que não seja contradito mais adiante por novas políticas expansionistas, até a repetição infindável desse ciclo de políticas social-democráticas e de ajustes ortodoxos, alternadamente.
    O caso atual é um pouco mais complexo, pois a irrupção da China obriga a uma nova e importante redistribuição mundial de polos de produção, com inevitáveis consequências na repartição mundial do trabalho.
    Ou seja, o atual ciclo obrigará não apenas a um ajuste de políticas macroeconômicas mas também a importantes mudanças estruturais e locacionais. Se quisermos algo parecido, em escala macrohistórica, se deve referir às invasões bárbaras no apogeu do império romano, que alteraram profundamente o panorama econômico até então vivido sob a dominância mediterrânea, quase toda a Europa ocidental e boa parte do Oriente Médio.
    Mas, ao contrário dos dez séculos de fragmentação econômica que tivemos na Idade Média, vamos ter séculos de integração capitalista, com todo o seu lote de bondades e desigualdades estruturais que é possível esperar.
    O Brasil, por enquanto, é semiperiferia nesse jogo, que vai ter China (Ásia, com Japão, Coreia, Asean e outros dinâmicos participando da grande economia da bacia asiática, incluindo os americanos do Pacífico, do Alasca ao Chile), a Europa e os EUA como protagonistas principais.
    Nossos políticos simplesmente não possuem capacidade mental para fazer o país participar da grande estratégia da globalização capitalista, por isso mesmo permaneceremos nas fímbrias do sistema.
    Enfim, a China também permaneceu nessa condição por dois séculos, até conseguir se levantar de seu torpor, após os desastres da era do maoismo delirante. Nós estamos reproduzindo o que de pior a Argentina fez durante décadas (e que ainda não terminou de praticar) e que deve atrasar ainda mais o Brasil nas próximas décadas: introversão econômica, protecionismo comercial, stalinismo industrial, obscurantismo educacional.
    Não sou totalmente pessimista, apenas moderadamente no caso do crescimento econômico — vamos continuar crescendo lentamente, puxados em parte pela China, em parte pelo mercado interno — mas absoluta e totalmente no plano educacional, o que nos fará perder a oportunidade de ter significativos ganhos de produtividade para enfrentar o fim do bonus demográfico mais adiante.
    Esperemos que pessoas mais lúcidas do que a atual geração de políticas ascenda ao poder ainda nesta década, que promete ser moderadamente perdida.
    Paulo Roberto de Almeida
    (Paris, 6/022012)

    • Paulo,

      obrigado pela análise. Não acho a sua visão pessimista porque na sua visão mais ou menos crescimento está ligado a investimentos maiores ou menores em educação e a um conjuno de políticas responsáveis ou não. Na sua visão, a nossa trajetória de sucesso ou fracasso está ligada à decisões políticas que podem ou não serem alteradas.

      O probema da tese do Lara Resende e de outros é que estamos preso em um caminho que exigirá, necesariamente, menos consumo indpendentemente da combinação de politicas que venham a ser adotadas pelos países. Como você, acho essa visão extremamente radical.

  3. Mansueto,

    Há uma discussão similar interessante entre a sustentabilidade forte e sustentabilidade fraca, bem explicada no último relatório do PNUD de 2011. A última propõe que o estoque de capital natural é homogêneo com o capital feito pelo homem, logo, se a soma da poupança “tradicional” com a poupança verde for positiva, ainda estaremos em um caminho sustentável, mesmo que o meio ambiente esteja sendo degradado. Essa é uma visão anti-malthusiana, pois presume que as inovações tecnológicas darão conta do impacto ambiental.

    O relatório tende para a posição oposta (e são bem persuasivos). Argumentos emotivos contra Malthus aparte, o meio ambiente é um sistema complexo demais para supor com razoável segurança que qualquer nível de degradação pode ser compensado com tecnologia, inovações e mecanismos de mercado. Um bom exemplo é o limite, nada arbitrário, de 2oC no aumento da temperatura a que se refere o IPCC da ONU. Acima disso, muito provavelmente fontes de metano e carbono sequestradas naturalmente no fundo dos oceanos e geleiras seria lançado na atmosfera em um terrível ciclo vicioso. E esse é um caso que conhecemos e podemos prever, ainda há uma série de suposições razoáveis sobre breaking points em diversos ecossistemas.

    Me parece razoável dizer que terá de haver sim algum tipo de racionamento, nem que seja do atum

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