Por que os Iphones não são fabricados nos EUA?

O que seria preciso para fabricar Iphones nos EUA? Foi essa a pergunta provocante que presidente Obama fez ao ex-CEO da Apple, Steven P. Jobs, em fevereiro de 2011, em um jantar na Califórnia.

O The New York Times trouxe uma excelente matéria neste último domingo (How the U.S. Lost Out on iPhone Work) que tenta responder a esta pergunta do presidente Obama a partir de uma série de entrevistas que os repórteres fizeram com vários funcionários e ex-funcionários da Apple, economistas, pesquisadores, especialistas em comércio internacional, etc.

A matéria mostra que o grande diferencial da China, por exemplo, não são apenas os salários menores (corrigidos pela produtividade), mas também: (i) abundante oferta de mão-de-obra qualificada e semi-qualificada; (ii) elevada flexibilidade e disponibilidade de trabalhadores que podem, se necessário, iniciar um turno de trabalho não programado durante à noite já que esses trabalhadores moram nas fábricas; (iii) rapidez das fábricas tanto para aumentar quanto para reduzir a escala de operação; e  (iv) elevada integração das cadeias produtivas entre os vários países asiáticos.

A matéria mostra que uma empresa, nos EUA, levaria pelo menos 9 meses para contratar cerca de 8.000 engenheiros, enquanto, na China, os fornecedores da Apple levaram apenas 15 dias para executar essa tarefa.

Reportagens como essa sobre por que os Iphones são produzidos na China e a maneira que a Foxconn trabalha, me fazem questionar a promessa da Foxconn de investir US$ 12 bilhões para produzir Ipads e telas dos dispositivos móveis no Brasil (ver aqui post anterior sobre esse tema). Não tenho dúvidas que, a depender do volume de subsídios e de barreiras tarifárias e não tarifarias contra importação, a Foxconn possa eventualmente produzir alguns Ipads para serem vendidos no Brasil e Mercosul.

Mas não espere muita coisa além disso porque, dada a nossa estrutura de custo, o Brasil não tem como ser uma plataforma de exportação de aparelhos eletrônicos e, assim, ainda acho delírio a expectativa de que a Foxconn venha a empregar 100 mil trabalhadores e 20 mil engenheiros no Brasil como chegou a ser anunciado pelo governo em abril de 2011.

Mais do que acreditar em planos mirabolantes, seria melhor que a presidenta Dilma em reunião com empresários aproveitasse a oportunidade e fizesse pergunta semelhante que o presidente Obama fez no jantar da Califórnia com duas modificações:

O que seria preciso para que vocês empresário aumentassem o investimento na indústria no Brasil, sem que para isso seja necessário aumentar o volume de empréstimo do BNDES e a proteção comercial?

11 pensamentos sobre “Por que os Iphones não são fabricados nos EUA?

  1. Mansueto,
    Acredito que a presidente Dilma sabe muito bem qual vai ser a resposta dos empresários brasileiros em relação a mesma pergunta que o presidente Obama fez ao ex-CEO da Apple. Entretanto, a impressão é que ela não quer ouvir essa resposta dos empresários.
    Certamente, os empresários dirão:
    O Brasil necessita de uma carga tributária menor, um sistema tributário que não onere demais a produção e o investimento, a abolição da atual regra do salário mínimo, se possível, a abolição da legislação do salário mínimo (em Cingapura, por exemplo, não existe legislação do salário mínimo e nem por isso os trabalhadores de lá ganham mal), reforma da CLT para torna-lá mais adequada aos dias atuais, reforma da previdência e por aí vai…..
    Abraço!

  2. Citação: “Though Americans are among the most educated workers in the world, the nation has stopped training enough people in the mid-level skills that factories need”.
    Acho, que além de condições mais favoráveis para investimentos e os empresários o Brasil precisa este tipo de profisionais treinados e qualificados. Não só para a produção de iPhones, mas também para instalações elétricas, construção, reparação automotiva, manutenção de estradas, etc.
    Não está claro onde este tipo de profisionais são treinados no Brasil, como nas faculdades, esses cursos não são oferecidos.

  3. Mansueto, a pergunta que você formulou é fantástica e seria muito interessante ouvir as possíveis respostas da presidente, com um detalhe: metas, números e estudos.
    Creio que temos de avançar num diálogo argumentativo, amparado em números, não apenas em princípios ou no “chute”. Avaliação de impacto, sincronização dos efeitos e por aí vai.
    De qualquer forma, acho que a pergunta que você postou deveria ser o tema principal de alguns debates e conferências.

  4. Uma coisa não ficou clara lendo o artigo: segundo o breakdown de custo, a Apple fica com uma fração muito maior do preço de venda (quase a metade) do que dá a impressão pelos números de trabalhadores mencionados no artigo. Precisaria estudar com mais cuidado.

    O que ficou claro é que a política industrial de auto-suficiência do Geisel, da reserva de mercado, e do Kim III da Korea do Norte, que os desenvolvimentistas tanto adoram, não dá certo. Não dá para o Brasil dominar a indústria de automóveis, de eletrônica, de química, aeronáutica, sem falar de trigo, de milho, e de vinho. A indústria bem sucedida tem que estar nu ecossistema propício. Um país relativamente pequeno como o Brasil tem que se especializar para ser competitivo. Antigamente os Estados Unidos até que podiam se dar ao luxo de competir em todos os setores. Hoje, nem a China.

  5. Alguém aqui quer dormir no trabalho? (hehehe) Se por um lado a flexibilidade trabalhista pode ser defendida a duras penas, não penso que trabalhadores dormindo no local de trabalho seja o simbolo de algo que nós desejamos copiar. Não sei exatamente sobre que bases institucionais isso é possível, mas eu pessoalmente não desejo algo assim.

  6. A realização da ótima pergunta do final do post, equivale a coisas que nunca serão vistas ou ouvidas. Tal como, a vitória do Brasil sobre o Uruguai na Copa de 50, no Maracanã.
    Contudo, ainda dará para ver a vitória do Santos contra o Barcelona, na próxima decisão do Campeonato Mundial de Clubes.
    Mas, apesar do decantado estilo técnico e detalhista da presidente, o mais provável, é que jamais ela faria alguma explanação nesse sentido.
    A exemplo do ocorrido com a Vale, a Oi e outros casos, parece estar no âmago do pensamento do governo fortalecer a presença do Estado e assim, abrir os cofres para estimular setores onde há algum interesse.

  7. Boa pergunta ao final do post. Vale também para as PPPs? O que se precisaria fazer para que empresários façam as PPPs sem pegar recursos no BNDES e sem cobrar pedágios estratosféricos nas tarifas dos serviços ofertados?

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