O Novo Capitalismo de Estado

A mais nova edição da revista The Economist traz uma longa reportagem especial sobre o capitalismo de estado. Os modelos de capitalismo de estado em países emergentes que a revista escolheu foram: China, Rússia e Brasil. A Índia ficou fora da lista porque a participação do Estado em grandes empresas é mais o resultado de políticas do passado do que de uma ação ativa do Estado na última década.

Apesar da matéria ser superficial e às vezes confusa, há várias teses interessantes levantadas pela revista. As diferenças desse novo modelo em relação ao antigo capitalismo de estado é que, no atual: (i) o Estado apoia empresas líderes em setores nos quais os países possuem alguma vantagem comparativa, (ii) além da participação do Estado, as empresas têm também acionistas privados, (iii) essas novas empresas são mais agressivas nas operações de fusões e aquisições no mercado doméstico e internacional, e (iv) algumas dessas empresas, apesar do controle do Estado,  são administradas de forma profissional por executivos com experiência.

O problema é que apesar dos pontos positivos,  há vários problemas com esse novo modelo de capitalismo de estado: (i) favorecimento de alguns grupos privados em detrimento de outros; (ii) desconsideração pelos direitos de acionistas minoritários; (iii) corrupção; (iv) o gigantismo de alguns grupos que pelo seu tamanho e importância passam a exercer crescente influência no Estado (o que leva a problemas da influência de empresas reguladas nos órgãos reguladores, etc.); e (v) a crescente tensão entre países para a adoção de maiores restrições ao livre comércio devido à maior presença de empresas que contam com o apoio especial do Estado nos seus países de origem.

A abordagem da matéria lista vários casos de sucesso dessas novas multinacionais híbridas (propriedade do Estado e de acionistas privados) como a China Mobile (empresas de celular da China com 600 milhões de assinantes), Saudi Basic Industries Corporation (uma das mais lucrativas empresas do setor petroquimico) e Dubai Ports. Mas da mesma forma que há companhias saudáveis,  existem também empresas nas quais a intromissão política tornou-se excessiva e causou preuízos à empresa como é o caso da PDVSA e da PEMEX.

A tese da revista, dado que existem vários casos de sucesso, é que as empresas multinacionais de propriedade mista tendem a ter algum sucesso em áreas de infraestrutura, mas são em geral pouco inovadoras quando comparada com empresas privadas. Mesmo neste quesito, no entanto, há também contra-exemplos.

E como o Brasil aparece nesta cobertura especial? O Brasil aparece como sendo um modelo com caracteríticas diferentes da China e Rússia. Enquanto nesses dois países o papel do Estado no capital das empresas é mais visível e direto, no Brasil, a participação do setor público nas empresas se dá de forma indireta (via BNDES e BNDESPAR) e, em muitos casos, o setor público não é o acionista majoritário. Assim, o modelo brasileiro seria um modelo de capitalismo de estado mais light do que o modelo da China e Rússia. Mas sofre como os demais da excessiva intromissão do Estado, como no famoso caso da troca de presidente da VALE, que a revista não cansa de citar como um exemplo de intervenção excessiva do Estado nos rumos de uma empresa que se recusou a seguir a cartilha política.

Qual será o futuro desses novas empresas multinacionais de países emergentes com forte participação do Estado no seu capital?  Não se sabe e a revista aponta que isso vai depender do controle da influência política e do controle da corrupção. De qualquer forma, é possível que esse novo modelo de capitalismo de estado tenha vida longa e influencie outros países a serem mais ativos no apoio a suas empresas (França é um exemplo segundo a revista) e que alguns países passem a controlar essas multinacionais híbridas de países emergentes sob a justificativa de concorrência desleal.

6 pensamentos sobre “O Novo Capitalismo de Estado

  1. Caro Mansueto,
    No limite, quando todos os Estados aderirem a esse modelo sobrará apenas a corrupção, pois todas as supostas vantagens apenas seriam validas contra paises que não tem esse tipo de modelo…grande abraço….btw…os Keyretsus e Chaybols já indicarão esse caminho a China a mais de 20 anos…

  2. Mansueto,

    Li a matéria ontem. Ela acaba sendo uma espécie de resposta ao livro ‘O fim do livre mercado’ (Saraiva, 2011), de Ian Bremmer. A tese é praticamente a mesma.

    O que deveria chamar mais atenção nesse momento é o fato de que os fundos soberanos (SWF) tenham ganhado destaque no jogo global. Segundo The Economist:

    “In the following year a consortium of nine funds, including the Government of Singapore’s Investment Corporation, China Investment Corporation and the Abu Dhabi Investment Council, invested $1.8 billion in BTG Pactual, a Brazilian investment bank spun off from UBS, a Swiss bank.”

    http://www.economist.com/node/21542925

    Seriam coisas desse gênero parte de um “pacto antiliberal” no sentido dado por Persio Arida na Folha?

    http://www1.folha.uol.com.br/poder/1034168-pais-tem-pacto-antiliberal-entre-elites-e-governo-diz-persio-arida.shtml

    The Economist diz de cara que tem uma posição reticente quanto ao capitalismo de Estado, muito embora admita que ele esteja funcionando bem em alguma medida para alguns países. Cita inclusive Cingapura na matéria, que, por sua vez, já foi objeto de discussão neste blog. Vejamos o que diz a matéria:

    “The new kind of state capitalism started in Singapore. Lee Kuan Yew, its founding father, was prime minister for more than 30 years and a tireless advocate of “Asian values” (…) But he also grasped that Singapore’s best chance lay in attracting the world’s most powerful corporations, though he rejected the laissez-faire ideas that flourished in Asia’s other great port city, Hong Kong.”

    http://www.economist.com/node/21542922

    Enfim, os modelos econômicos não são puros e a-históricos. A disputa pelo estado de natureza tampouco é neutra. Quando se toma posição por uma perspectiva teórica há elementos analíticos que acabam transcendendo a ciência positiva.

    Você leu a entrevista do Gabriel Palma no Valor?

    http://www.valor.com.br/brasil/1200002/dependencia-das-commodities-ameaca-economia-diz-palma

    Cordialmente,

    Rodrigo

    • Tens toda razão. Desde o início a revista deixa muito clara a tese que é contra o capitalismo de estado, apesar de reconhecer que há “variedades de capitalismo de estado” e citar exemplos de países desenvolvidos nos quais há ainda grande participação do Estado em algumas empresas.

      Li a reportagem do Gabriel Palma no Valor, mas estava atrás de algum texto mais elaborado no qual ele tenha desenvolvido essas ideias. Se souberes de algum me avise e farei o mesmo. Quanto aos Fundos Soberanos, tens toda razão. É mais um novo elemento neste novo elemento nesta nova realidade do papel mais ativo do Estado nos países emergentes.

      Isso é um tema complexo que está apenas começando. O vice presidente do Banco Mundial, Justin Yifu Li, acabou de lançar um livro sobre o que ele chama de “new structural economics” que é uma espécie de cartilha de política industria e uma tentativa de casar alguns aspectos da teoria Neoclássica com o papel mais ativo do Estado por meio de políticas industriais. Depois vou dedicar um post sobre o assunto.

      Abs, Mansueto

  3. Acredito que haverá num primeiro momento uma grande voracidade para ocupar espaços; posteriormente a nossa velha e saudável competição predatória ou não( caem os fracos); posteriormente a cooperação/colaboração( Inteligência) entre os sobreviventes. É assim desde o início dos Tempos. Eu chamo este modelo de: Organicidade.

  4. Mansueto,

    Como contraponto interessante há o Dani Rodrik(http://www.project-syndicate.org/commentary/rodrik42/English), que proclama que a politica industrial dos Estados nunca deixou de ser importante, e dá exemplos importantes: o setor militar norte-americano, assim como seus mecanismos de política habitacional e energética. Além disso, lembra que os exemplos chinês e coreano são tão acachapantes (ressalvadas suas muitas falhas) que mostra quase por si a importância de uma política industrial.

    Políticas dificeis, cheias de percalços, com possível desvios e má-gestão: não só a política industrial padece desses vícios, mas também a educação e a saúde. Mesmo assim há amplo consenso sobre a necessidade de presença estatal nesses setores. A grande discussão não é entre a presença ou ausência de política industrial, mas entre a boa e a má política industrial (nesse sentido, o BNDES parece, relativamente, um bom instrumento)

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