Os super salários do serviço público

Hoje, me repassaram essa série de matérias do jornal Correio Braziliense, das jornalistas Ana D’Ângelo e Cristiane Bonfanti, sobre os super salários dos funcionários públicos(clique aqui para ler as matérias). Quero destacar três pontos sobre assunto.

Primeiro, esses salários acima do teto de vários membros do executivo reduz em muito o argumento para que outros poderes respeitem esse limite. Na verdade, se é permitido a um Ministro de Estado ou a um secretário executivo ou adjunto ultrapassar o teto, como dizer a um membro da elite do judiciário ou do legislativo  que isso não é permitido?

Segundo, não vejo problema algum que pessoas mais qualificadas ganhem salários maiores. Sempre foi difícil recrutar pessoas da inciativa privada para cargos no setor público devido aos salários que, para quem não é servidor público de carreira, não são  muito elevados. Por exemplo, o atual secretário de política econômica sofreu para recrutar alguns de seus adjuntos. O que sei (mas não vou citar nomes) é que alguns não aceitaram o convite por questões salariais. Por que o sujeito vai deixar um emprego bom no setor privado para ganhar R$ 8.000 ou menos com secretário adjunto de política econômica?

Terceiro, é antiético o governo utilizar o assento em conselhos de companhias estatais e privadas para complementar o salário de alguns poucos cargos comissionados e não dar maiores explicações sobre o assunto. Mas isso é uma prática antiga e não exclusiva deste governo. É um problema que vem de anos. Mas essa prática pega mal em um momento em que funcionário público que ganha a mais porque dá aula ou cobra por palestras é tratado como “ladrão” no serviço público. O que o Tesouro Nacional fez com seus funcionários é um bom exemplo. Restringe a flexibilidade de seus funcionários para ministrar aulas, mesmo que esses funcionários compensem o horário não trabalhado. Por outro lado, completa o salário dos seus funcionários de direção com cargos em conselhos de administração em empresas sem dar a devida transparência.

O governo pode pagar salários maiores para os seus funcionários mais qualificados e em cargos de direção. Não vejo problema algum com isso desde que o processo seja transparente e não se use de subterfúgios como os mostrados na matéria. O Massachusetts Institute of Technology (MIT), por exemplo, publica a lista dos salários mais elevados da universidade. A lista mostra que há professores com cargo de direção que ganham mais de US$ 600 mil por ano, enquanto outros bons professores não chegam a ganhar um terço desse valor (clique aqui).

Quando o Ministério da Fazenda fala que não “vai se pronunciar sobre o assunto” mostra que transparência é algo seletivo e bom para os outros, enquanto deveria seguir o exemplo do MIT e publicar a lista dos seus funcionários com maior remuneração.

Na verdade, detestamos ser transparentes principalmente com assuntos que diz respeito ao nosso bolso, mas seria melhor para todos que essas questões fossem mais transparentes, principalmente, em um ambiente no qual a proximidade com os governos aqui e lá fora parece ser cada vez mais importante para o sucesso empresarial.

8 pensamentos sobre “Os super salários do serviço público

  1. Vejo com muita satisfação o debate dos desníveis salariais (ou simplesmente remuneratório) no Estado brasileiro. Como pode um professor titular de uma instituição federal de ensino superior ser remunerado muito abaixo de um parlamentar federal?
    Vejamos o que diz a Transparência Brasil: “Parlamentares brasileiros são os que mais pesam no bolso dos cidadãos na comparação com sete outros países. Confronto entre os rendimentos, benefícios e assessoramentos recebidos por parlamentares de Brasil, Chile, México, Estados Unidos, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Itália mostra que brasileiros são os mais caros”.
    http://www.excelencias.org.br/docs/CustosCongressistas.pdf
    Há desníveis enormes entre os três poderes. O poder de barganha das categorias explica tais diferenças salariais?

  2. Mansueto, não só nos “supersalários” falta transparência, mas nos salários em geral também. Mesmo no âmbito federal, é muito difícil como é a remuneração de uma determinado órgão, que carreiras abriga e que níveis de salários são praticados para cada faixa de experiência e antiguidade. O salário que cada um percebe individualmente é sigiloso, naturalmente. Mas as tabelas pecisam ser? Tente achar na internet qual a tabela de salários um órgão de algum ministério e decobrir por exemplo qual seria a remuneração e gratificações possíveis a uma pessoa de determinado nível. É praticamente impossível achar, e mais difícil ainda entender. É razoável que seja assim?

    De resto, o que torna um salário super não é o valor absoluto em si, mas o trabalho que se dá em troca dele. Penso que o povo brasileiro de um modo geral não tem muita resistência a que se paguem salários elevados. Há uma certa aceitação cultural dos extremos remuneratórios, assim como de quocientes elevadíssimos entre salários mais altos e mais baixos em uma mesma organização. Não fosse assim, não veríamos com tanta naturalidade as remunerações exageradas de certos artistas hiperpopulares, jogadores de futebol e coisas do mesmo gênero.

    O que incomoda mais, me parece, é a crença na existência de muitos salários imerecidos, sejam eles altos ou baixos em valor absoluto, e a observação de que os mecanismos usuais de seleção por mérito e desempenho, no serviço público não funcionam.

  3. Pingback: A maior mantegada « De Gustibus Non Est Disputandum

  4. Este é mais um sintoma do Estado patrimonialista – um Estado que serve alguns em detrimento da dignidade humana. Poder-se-ia falar ainda que o Estado não está a serviço do cidadão porque foi capturado por grupos de interesse. Antes que alguém fale em meritocracia ou competência, considere a seguinte passagem de uma entrevista do Leonard Mlodinow para o WSJ: “WSJ: You argue persuasively that much of what we consider a track record of expertise is really an accident of luck. Is there any true expertise, in your opinion? Are there any experts you trust?
    Mr. Mlodinow: I believe there is true expertise in some endeavors, and not in others. There is obviously no such thing as expertise in predicting the results of coin tosses, but there is expertise in predicting the behavior of lasers. I feel that picking stocks or predicting Hollywood hits is more like the former. The process of building a company or making a film is more like the latter. But there is a related question: Given that we are discussing an endeavor in which it is possible, how can you tell if someone has expertise? That is hard, because expertise plus bad luck can equal a failure, and lack of expertise plus good luck can equal success. The only way to tell the two apart is to observe the individual over a long time, which in statistics often means 100 or even 1,000 trials. This is obviously often not possible, so I recommend instead that we judge people by a thoughtful analysis of their intelligence, philosophy, work ethic, etc., rather than simply by their results.” http://blogs.wsj.com/numbersguy/numbers-guy-interview-leonard-mlodinow-329/

      • O Mlodinow é físico e escreveu o livro “O andar do bêbado – como o acaso determina nossas vidas”. O subtítulo diz do que trata o livro. Outro belo livro dele é “O arco-iris de Feynman”. Embora não seja especialista na área, me parece que a produtividade marginal do trabalho e a qualificação da mão-de-obra não dão conta de explicar as remunerações no mundo corporativo e os referidos “super” salários do serviço público. Uma hipótese para explicar o fenômeno pode ser resumida na velha frase: manda quem pode obedece quem tem juízo.

    • ” … expertise plus bad luck can equal a failure, and lack of expertise plus good luck can equal success. […] so I recommend instead that we judge people by a thoughtful analysis of their intelligence, philosophy, work ethic, etc., rather than simply by their results.”

      Sábias palavras, será que isso vale para presidente da república também ? 😉

  5. Recentemente publicaram um artigo na econométrica demonstrando que produtividade nao esta correlacionada com remuneração da forma como imaginamos. A maioria das pessoas nao busca o serviço publico pelo salário, mas pelos penduricalhos que o acompanham. Nao da pra comparar “no seco” o salário do setor privado com o equivalente no serviço publico. É até natural que este pague menos do que aquele.

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