Duas Visões Diferentes do Brasil – 2

Continuando o debate de post anterior deste blog (duas visões diferentes do Brasil), no qual coloquei a visão de dois acadêmicos – Bernard Muller (UNB) e Lee Allston (Univ. Colorado -USA) contra a visão de um dos mais repeitados gestores de recursos privados no Brasil,  Luis Stuhlberger, acho que vale a pena ler o artigo de hoje do Armando Castelar do IBRE-FGV no Valor Econômico (clique aqui).

Castelar levanta dados para subsidiar a tese de Luis Stuhlberger e faz comparações interessantes. Por exemplo, que, em dólar, a alta dos imóveis cariocas no último triênio foi de 169%, muito maior que a alta de 80% no preço dos imóveis americanos no triênio 2002-05, auge da bolha imobiliária, que foi a maior elevação em um período de três anos nos EUA, pelo menos desde 1987, segundo Castelar.

Quem quiser ler mais sobre o comportamento dos preços no mercado imobiliário veja aqui matéria desta semana do jornal o Estado de São Paulo sobre o crescimento do preço dos imóveis no ano passado calculados pela FIPE. Esse aumento de preços dos imóveis não é limitado ao Rio de Janeiro.

Na minha visão, o ponto principal é que o Brasil passou a ser um país caro e ninguém sabe muito bem como lidar com isso. Esse equilíbrio de valorização cambial, alto consumo, elevada carga tributária e aumentos de transferências tem elevado apelo eleitoral e pode ainda se sustentar por alguns anos (por quantos anos ninguém sabe), mas ele é incompatível com maior competitividade da indústria que a acada dia depende de mais proteção negociada com o governo.

Em quanto a China continuar crescendo e os preços das commodities permanecerem elevados, esse modelo ainda tem fôlego e pode nos ajudar a entender algo que tem aparecido de forma consistente nas pesquisas eleitorais: o eleitor não está satisfeito com a qualidade da saúde, educação e segurança pública, mas está feliz porque sua renda cresce acima da inflação e ele encontra trabalho.  Assim, no curto-prazo, há pouco incentivo político para avançar em uma agenda de reformas e muito incentivo político para criação de novos programas e maiores gastos.

13 pensamentos sobre “Duas Visões Diferentes do Brasil – 2

  1. Sou advogado meio teimoso [rs]: economia não é minha praia, pouco entendo, mas tenho um desejo enorme de entender. E como achei uma pessoa que tem o prazer de tornar o assunto [economia] palatável [refiro-me ao Mansueto], eu acabo me animando. Sobretudo pelas suas ‘cross-references’ que são muito úteis.

    Como advogado tem que fazer aquele negócio chamado ‘nexo causal’ para convencer um juiz [não basta fundamentar], meu olhar primeiro é por aí.

    Li o artigo Armando Castelar e saltou-me já no primeiro parágrafo:

    “Basicamente, o artigo [refere-se a Geoffrey Wheatcroft] argumenta que a crise econômica resultou da opção (inconsciente?) da maioria [lá] de ignorar coisas que eram sabidas [lá], mas inconsistentes com a realidade em que as pessoas preferiam acreditar [lá]. Será que algo assim pode estar ocorrendo com o Brasil? Estaremos fazendo vista grossa [com certeza!] para os riscos que corre a economia brasileira? Minha visão é que sim.”

    1. “[Mansueto] Na minha visão,… o Brasil passou a ser um país caro [Santo Deus! Pode colocar isso ao final da Bíblia como verdade verdadeira! Morei 14 anos nos Estados Unidos, tenho 4 filhos lá e não tenho dúvida nenhuma, para o bem de meu bolso: aqui é muito, mas muito mais caro mesmo!] e ninguém sabe muito bem como lidar [Mansueto, eu acho que a ‘elite’ sabe, mas…] com isso. Esse equilíbrio de valorização cambial, alto consumo, elevada carga tributária e aumentos de transferências [pode explicar melhor esse ‘aumentos’? O que é exatamente isso?] tem elevado apelo eleitoral e pode ainda se sustentar por alguns anos (por quantos anos ninguém sabe), mas ele é incompatível com maior competitividade da indústria que a acada dia depende de mais proteção negociada com o governo.”.

    2. É aqui que o artigo do Armando e a ‘visão’ dele se desmancha no ar para mim: ele assume um paralelismo simétrico entre os ‘unknown knowns’ lá com os ‘sabidos e ignorados’ aqui. Mas é diferente, a meu ver!

    3. Quando leio em Mansueto que o tal “elevado apelo eleitoral’ — quiçá o politicamente correto para dizer que pão e circo para o ‘povo’ aqui impede que ele enxergue um palmo a frente do nariz — mudará nada por anos, e que ninguém sabe, sinto que há um realismo impecável em contraste ao Armando. Assim o artigo do outro, a meu juízo, começa a vazar água.

    3. O americano comum — aquele que não tem essas benesses que vão de CTPS até troca gratuita de silicone francês encrencado pelo SUS, passando por uma aposentadoria de fazer corar uma Suíça — é um cidadão que, ainda que meio bitolado, tem um senso político muito mais apurado [por razões econômicas, Uncle Sam não alisa!] do que o populacho brasileiro que sabe que ‘arrebente-[suas finanças]-que-o-governo-garante’.

    4. Não creio que, como quer o Armando, “… algo assim pode estar ocorrendo com o Brasil…”, se sustenta. Aqui quebra o nexo causal dele. Toma laranja [EUA] e limão [Brasil], assumindo que os dois são frutas [EUA: 1ª economia; Brasil: 6ª] e, pari passu, assume que as duas coisas são a mesma coisa. Wishful thinking!

    5. Estamos longe. Se já 6º tendo batido a Inglaterra, olhem para o IDH e outros babados!

  2. Acredito que além de todos os motivos ja enumerados por vc mansueto, na minha opinião o que inflacionou o preço dos imóveis em todo Brasil foi a oferta de crédito de maneira exagerada e sem critérios oferecida nos últimos anos,com certeza essa bolha irá estourar..

  3. Sobre a hipótese de que o que leva a bolhas é um elevado nível de poupança para poucos recursos sólidos de investimentos.
    Acredito que isso pode ser aplicado para o caso de imóveis aqui no Brasil, estaríamos recebendo recursos externos, mas quão grande é a parcela de investimento estrangeiro em imóveis?

  4. Como M., tenho também bastante curiosidade sobre as razões que impulsionaram os preços dos imóveis. Castelar fala no grande volume de recursos estrangeiros que entraram no País. Eu acho que ele está certo, embora não saiba exatamente o porquê.

    Em minha modesta opinião, em termos diretos, o que explica, preponderantemente, a elevação no preço dos imóveis é a mais que correspondente expansão do montante financiado. Hoje se financia muitas vezes mais do que em 2004. No entanto, o financiamento é feito com base em recursos captados na poupança e no FGTS. Dessa forma, nada teria a ver com recursos externos.

    Portanto, mantêm-se as minhas dúvidas sobre os mecanismos pelos quais a entrada de capitais produziriam seus efeitos. Vejo a entrada de fundos imobiliários internacionais, compra de ações de construtoras, forte oferta de recursos interbancários, mas confesso que gostaria de ver uma boa análise sobre como tudo isso funciona.

  5. Pingback: Imóveis « De Gustibus Non Est Disputandum

  6. Olá Mansueto,
    Quando você coloca a seguinte hipótese:
    “Enquanto a China continuar crescendo e os preços das commodities permanecerem elevados, esse modelo ainda tem fôlego e pode nos ajudar a entender algo que tem aparecido de forma consistente nas pesquisas eleitorais” é precioso levar em conta alguns dados do mercado imobiliário chinês que não são positivos.
    Existe um rumor muito forte de que está prestes a estourar uma bolha imobiliária na China que é consequência da expansão de crédito dos bancos estatais chineses.
    Inclusive, algumas semanas atrás o governo central chinês teve que ajudar alguns bancos regionais que decretaram um “calote controlado” com o aval do governo central.
    Com esse cenário, a China terá que reduzir o seu nível de atividade e ,por sua vez, a sua demanda por commodities se não o desastre será feio.
    Abraço!

  7. O artigo do Castelar é realmente muito bom (uma cabeça que pensa bem economia).
    Sobre valorizações de ativos: a escolha básica dos agentes é entre a moeda pátria (rendimentos das aplicações líquidas de IRF) e outros ativos (imóveis, ouro, dólares, bolsas, investimentos nas empresas, etc.). O rendimento de uma aplicação de 100% dos CDIs (quase igual selic) líquida de 20% de IRF (1 ano) e de IGPM e IPCA nos anos de 2008 a 2011 foi: IGPM 0,174%; 9,62%; -3,52%; 4,18%. IPCA 4,08%; 3,59%; 1,89%; 2,78%. Considerando a instabilidade do dólar e da bolsa, o crescimento natural do país (aumento do poder de compra da moeda) e os financiamentos hipotecários, os imóveis passaram a ser uma boa opção de investimento. Resultado: valorização dos imóveis acima do IPCA. Bolha?. Ainda não. Mas as valorizações serão menores.

  8. Olá a todos,
    A discussão me chegou tarde (não acompanho o blog), mas fui direcionado ao artigo e não concordo com a forma pessimista com que todos estão tratando o tema.
    Acho que os senhores se esqueceram de que antes da CF88 o estado brasileiro era completamente paternalista. Tudo era na base de que “o estado proverá”. Um grande marco da CF88 é justamente a mudança desse estado paternalista para um estado que garante o Direito. E obviamente, tal transição nunca poderia ser abrupta. Hoje vivemos em plena transição.
    Um estado paternalista é mau por essência e apontaria como erros do Brasil de hoje as ações que remontam ao paternalismo exagerado, não o moderado. Na mesma linha, a população mostra que ainda não está pronta para o liberalismo – alguém citou que a população não quer os investimentos que o artigo de Mueller indica, mas soluções imediatistas, em outras palavras, paternalistas, erradas. A boa notícia é que, do meu ponto de vista, as instituições brasileiras não permitirão o paternalismo exagerado e, portanto, não desviaremos muito do caminho correto a seguir.
    Não sou grande especialista no assunto, mas não considero que estamos em situação pior do que tínhamos, estamos sim melhorando e muito. Ainda que tenhamos muitos defeitos a apontar (e verdadeiramente sempre teremos), não acredito que sirvam de argumento contrário ao otimismo do artigo do pesquisador da UnB.

    • É uma posição interessante e não há dúvidas que o Brasil melhorou quando se compara antes e depois da CF de 88. Mas o debate vai além disso. Por exemplo, você identifica melhoras substanciais pós-2005? segundo, por que em um período de relativa bonança externa (boom de commodities) o Brasil cresceu menos que todos os países da América Latina? É possível o Brasil repetir o crescimento do período 2004-2010 sem retomar a agenda de reformas?

      O texto do Mueller e do Allston parte do pressuposto que a melhoria institucional observada desde 1985 levará, necessariamente, a uma trajetória de crescimento sustentável. É aqui que está minha discordância. Nada disso está garantido.

      Abs,

      Mansueto

      • Olá Mansueto, obrigado pela oportunidade de reabrir esse debate.

        Para responder sua primeira questão, vou colocar primeiro o que considero como “melhoras substanciais”: considero tanto as inovações (os resultados não tão óbvios, de políticas recém implantadas) como os frutos de políticas com mais de 10 anos. De fato, de 2005 pra cá, não verifiquei grandes avanços em termos de inovações – daí extraio uma explicação para o crescimento moderado, nada espetacular. Mas vejo muitos frutos de políticas anteriores que foram mantidas. Particularmente, fiquei positivamente surpreso com o aumento de financiamento a pesquisas, especialmente em centros universitários. Nunca imaginei tantos laboratórios com os orçamentos disponibilizados, em especial de 2007 pra cá. Acredito que o acesso a bens também melhorou de forma geral, continuando o observado de 2000 em diante, mesmo que a economia tenha passado por 2008 aos trancos. Esses são apenas dois exemplos que me vêm mais claramente agora, mas poderia pesquisar por outros.

        À sua segunda colocação, no meu ponto de vista, o crescimento é proporcional à exposição às consequências dos problemas de 2008 – os outros países são essencialmente mais frágeis às oscilações externas e o maior crescimento decorre de estarem mais “soltos”. Não acho, portanto, que crescer menos foi ruim, só foi menos. Se tivéssemos problemas reais (falta de crescimento), aí sim teríamos comprovação de estar na direção errada, mas não foi esse o caso. Podemos, talvez, discutir se podemos “abaixar” mais a guarda ou manter um ritmo bem mais conservador.

        Ao terceiro, acredito que sim, é possível manter as políticas atuais sem grandes reformas para crescer. Talvez até o crescimento a menor observado possa ser encarado como um indício de que as políticas atuais ainda tem frutos a dar (mesmo que em doses menores do que muitos gostariam ou esperariam observar). Relembro que não sou especialista em economia, não tenho ferramentas para grandes análises, mas não vejo nada a indicar que é necessário mudar o rumo do barco tão cedo.

        Pelo que entendi, o argumento deles é de que as atuais instituições não nos livrariam de errar (jamais, pressupor isso seria demais), mas fornecem todo um ferramental para corrigirmos os erros observados a tempo de evitar maiores problemas, como o que passa a Argentina, por exemplo. Daí presume-se um crescimento sustentável, ainda que menor do que o esperado.

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