Entrevista à rádio CBN

Segue o link para aqueles que se interessarem em escutar a entrevista que dei hoje ao jornalista Carlos Alberto Sardenberg da rádio CBN (clique aqui). A entrevista foi baseada em uma nota simples que fiz, na semana passada, e que havia repassado ao jornal Estado de São Paulo. O jornalista Fernando Dantas aproveitou para fazer matéria publicada hoje na primeira página do caderno “Economia & Negócios” do jornal (clique aqui).

O ponto é simples: com a forte desaceleração esperada para o PIB e a necessidade de aumentar o investimento público, tornou-se elevada a chance de o governo Dilma repetir o mesmo ritmo de expansão do gasto público do governo Lula ou até superar o governo Lula. É claro que se o Brasil estivesse crescendo a 5% seria muito mais fácil acomodar os aumentos de gastos como ocorreu em 2008, quando o PIB cresceu 5,1% e, apesar do crescimento real dos gastos em quase R$ 20 bilhões, a despesa não financeira do governo federal passou de de 17,1% do PIB para 16,6% – uma queda em relação ao PIB.

O risco é se o PIB não ajudar e, agora, com esse regra formal de indexação do mínimo a dinâmica ficou pior. A propósito, apesar de eu achar que a politica do salário mínimo tem cada vez mais um custo elevado frente ao benefício, esse é um debate político. A sociedade pode até decidir por aumentos maiores.

Não cabe a um economista dizer qual deve ser a regra de reajuste do salário mínimo. Estou apenas emitindo uma opinião pessoal quando falo que essa politica tem um custo elevado frente à formas mais eficazes de combater pobreza e desigualdade como o programa bolsa-família e maiores investimento em educação. Mas vários amigos meus discordam de mim e acham que a política atual de reajuste do salário mínimo é boa.

Eu discordo deles porque não conheço no mundo nenhum caso de um país que tenha conseguido reduzir, sistematicamente, a pobreza e a desigualdade por meio de uma política agressiva de aumentos do salário mínimo. Se souberem de algum exemplo específico por favor me mandem a referência. E como já falei, o Brasil tem mecanismos mais eficazes e baratos para aumentar a renda dos mais pobres no curto-prazo, como o bolsa-família e, no longo-prazo, eu prefiro maiores investimentos em educação pré-escolar e educação básica, e  melhoria na progressividade da tributação.

11 pensamentos sobre “Entrevista à rádio CBN

  1. Estou ouvindo sua entrevista neste exato momento. Francamente, Mansueto, sinto nojo. Não das verdades que vc fala. Tenho três filhos homens, e uma moça, a mais nova, de 23 anos. Peço a Deus que não ouçam a sua entrevista. Tudo que terei ensinado iria por algo abaixo: é mais fácil fazer um curso, entrar na ‘nomenklatura’, e deixar de ser um estudioso, pesquisador, um competente profissional liberal. Mais de R$ 12 mil reais iniciais? Santo Deus. Só posso ter sido um idiota ao ensinar, esforço, trabalho, virtude e meritocracia.

  2. Em artigo no Folha de S. Paulo (19.12.11), ‘A equação não fecha’, o prof. Bresser-Pereira foi taxativo: “Uma política que combina alta cambial com aumento nominal de salários é suicida no médio prazo”.

    Cito mais um trecho: “Durante o governo Lula, a taxa de crescimento do PIB dobrou, enquanto que a diminuição da desigualdade econômica, que já vinha ocorrendo, se acelerou. Mas isso foi alcançado sem que o governo enfrentasse o problema fundamental: a taxa de câmbio sobreapreciada”.

    E tem mais: “Nesse quadro, a desindustrialização iniciada em 1990 prosseguiu, mas o setor sobreviveu porque contou com o mercado interno duplamente aquecido: pelo aumento do mínimo e pelo aumento dos salários reais decorrente da baixa do dólar. O país, que deveria apresentar elevado superavit graças ao aumento do preço das commodities, voltou ao deficit em conta-corrente”.

    Bem, e o Poder Legislativo? Qual debate esperar? Segundo a Transparência Brasil, “parlamentares brasileiros são os que mais pesam no bolso dos cidadãos na comparação com sete outros países”:

    http://www.excelencias.org.br/docs/CustosCongressistas.pdf

    Confronto entre os rendimentos, benefícios e assessoramentos recebidos por parlamentares de Brasil, Chile, México, Estados Unidos, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Itália mostra que brasileiros são os mais caros.

    Até que ponto a macroeconomia brasileira não é um espelho do fragmentado quadro político-partidário nacional, 29 legendas? Seria a “cordialidade” diagnosticada por Sérgio Buarque de Holanda em ‘Raízes do Brasil’ o elemento que articula e sustenta a nossa jabuticaba?

  3. Olá Mansueto,
    Parabéns pela entrevista!
    Eu gostei bastante quando você enfatizou que o investimento em saneamento também é um gasto social!
    Entretanto, em relação a proposta do Sardenberg de permitir que o setor privado faça investimentos nesse setor, eu acho que ainda há uma resistência por parte de alguns partidos políticos.
    Eu digo isso porque aqui no Rio Grande do Sul estava tramitando um projeto de Lei na Assembléia Legislativa de iniciativa do governador Tarso Genro (PT) para impedir a concessão de serviços de saneamento para a iniciativa privada.
    Abraço!

  4. Desculpe-me se digo bobagem, Economia não é minha especialidade, me corrija no que estiver errado.

    A existência de um salário mínimo está baseada no raciocínio de que existe um mínimo valor que se deve pagar a um ser humano para que ele trabalhe 44 horas por semana, por mais simples, humildes e não especializadas que sejam suas tarefas. Em algum momento calcularam o valor salário mínimo como o sendo suficiente para adquirir um mix de coisas e serviços.

    Faz sentido que com o passar do tempo esse valor, pago a um indivíduo, seja reajustado, acompanhando a alta geral de preços. Mas faz sentido de indexar o valor do salário mínimo a um indicador de volume geral da economia nacional?

    A mim parece desprovido de qualquer lógica. Essa parece ser mais a lógica de dividendos de ações do que a lógica de remuneração pela produtividade individual.

    O critério não leva em conta que a população que deve receber o salário mínimo pode ter crescido na mesma proporção do PIB, sem que a produtividade média individual tenha aumentado. Aumentar o salário mínimo pelo PIB forçaria então um crescimento artificial da renda per capita, com inevitáveis desequilíbrios introduzidos na economia – pressão inflacionária, possivelmente.

    Ademais, se a taxa de crescimento do salário mínimo for mantida bem superior à inflação por vários períodos, ele pode ser tornar tão elevado a ponto de provocar a extinção de postos de trabalho formais para os menos qualificados.

    Se se quer dar dignidade ao salário mínimo, o correto seria rever seus fundamentos, recalcular o que se quer pagar, discutir qual a cesta mínima que se quer propiciar. A partir daí, reajustar pela inflação a cada ano, e rediscutir de tempos em tempos.

    • É exatamente essa a dúvida que tenho. Acho que por diversos motivos os aumentos do salário mínimo foram positivos na redução da desigualdades e redução da pobreza. Mas acho que essa política, na margem, tem um custo fiscal elevadíssimo e há um limite para essa política que, como você lembra, é o crescimento da produtividade. Não me atrevo dizer que a política está errada, mas acho que o que se pretende com o salário mínimo, em parte, poderia ser alcançado de forma mais eficiente com instrumentos mais focalizados como o bolsa-família.

      É claro que quanto mais discutirmos essas questões, mais poderemos melhorar o debate me torno do assunto, pois esse debate é por natureza um debate político, como quase tudo que envolve gastos fiscais.

  5. Na atual situação econômica mundial a dita industria nacional não tem chance alguma com produtividade de 0,2 % dos americanos, 0,3 dos Coreanos e até 0,5 dos Argentinos e onde o PIB tem participação de 65 % no consumo, nem conto a China já que lá o PIB depende apenas de 35 % do consumo interno e se transformou na fábrica do mundo pelas enormes transferências de capital e tecnologia das potencias tradicionais em busca de esse mercado e produção de baixo custo e que aproveitaram muito bem passando a produzir bens de média e alta tecnologia, mais o sistema financeiro principal que opera o mercado não é estatal e sim clandestino, com as grandes perdas de mercado na Europa e EUA vai murchar seu PIB para uns 4 %, mais vai barrer o mundo emergente para sua queda não ser maior, isso já vemos aqui, não dá para competir com eles e os países sem parques ind. desenvolvidos vão continuar comprando de quem tiver melhor preço, qualidade e tecnologia com isso a tendencia no mundo e cada um fazer o que seja sua maior vocação, saiba fazer melhor e mais barato que os outros, isso é obvio, como Chile o entendeu mais de 20 anos atrás e deu o resultado de ser o único latino americano AA pelas agencias de risco. Aqui a importância está toda nas multis porque as nacionais só sangram o erário público.
    Estamos sem mais folego e amarrados pela miopia da importância das reformas profundas política, trabalhista e tributária, até da educacional que o grande líder supremo com seus 100 % de aprovação não teve competência e coragem para fazer. Agora vai chegar um novo ciclo de altas tecnologias e inovações que vai tirar as potencias em crisis e ficaremos de novo uns 200 anos para atrás.
    Alias vi no WSJ estes dias que os EUA pela primeira vez em 62 anos será um exportador líquido de petróleo e sus derivados e com enorme tendencia de ir aumentando progressivamente, adeus bilheta premiado.

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