Boa Provocação do Economista Pérsio Arida

No meio de um debate econômico cada vez mais pobre, dominado por questões absolutamente irrelevantes para o crescimento de longo prazo como, por exemplo, o valor dos estímulos temporários do governo no curto-prazo e o que o Ministério da Fazenda está “pensando”, a entrevista do economista Pérsio Arida ao Valor Econômico (clique aqui) seguido da coluna que o repórter Cristiano Romero fez sobre essa entrevista hoje quebrou a mesmice do dia a dia da economia (clique aqui).

A proposta do Pérsio Arida não é exatamente original, vários economistas que conheço já haviam dito algo semelhante, mas Arida conseguiu colocá-la de uma maneira mais aceitável. Ao invés de falar em “fim do crédito subsidiado do BNDES”, por exemplo, fala em crédito mais barato para todo mundo e não apenas para uns poucos. Mas o “crédito mais barato para todo mundo” significa, no curto-prazo, que aqueles que têm acesso hoje à créditos subsidiados pagariam uma taxa mais elevada.

Muita gente não havia compreendido isso, de políticos até o próprio presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que na sua última apresentação, no Senado Federal, falou que Pérsio Arida havia proposto a expansão do crédito barato do BNDES para todo mundo. Foi justamente o contrário, “crédito barato para todo mundo” significa acabar com os mecanismos de poupança compulsória e impostos que servem de funding para créditos direcionados: empréstimos com recursos do FGTS, empréstimos do BNDES com recursos do FAT e dívida do Tesouro, etc.

Há três pontos que quero destacar neste debate que, a meu ver, tem pouca chance de decolar no contexto atual. Primeiro, a proposta do Pérsio Arida não significa acabar com crédito subsidiado. Para alguns programas, os subsídios continuariam, mas de uma forma mais explicita como se faz hoje com o crédito agrícola via Banco do Brasil e até com o programa Minha Casa Minha Vida. Nesses casos, o subsídio é orçamentário. É um item da despesa primária do governo federal como os demais itens da despesa e, assim, fica mais fácil para nossos legisladores entenderem que crédito subsidiado tem um custo. Meu amigo Samuel Pessoal (IBRE-FGV e Tendências Consultoria) no ano passado fez exatamente essa proposta (leia aqui).

Segundo, o argumento de Pérsio Arida é simples, mas não consensual. É simples porque “todos” sabem que o crescimento do crédito segmentado imune ou protegido de aumento de taxas de juros diminui a eficácia da política monetária. Já falei isso diversas vezes (clique aqui) e Alexandre Schwartzman já escreveu sobre isso no valor econômico como uma das explicações para elevadas taxas de juros no Brasil (clique aqui). No entanto, há um grupo de economistas com forte influência no governo que acredita justamente no contrário: aumentar o crédito subsidiado do BNDES e CEF (mesmo que o funding para esses novos empréstimos seja o crescimento da dívida) significa mais investimento e logo, aumento da capacidade produtiva.

Terceiro, concordo com Pérsio Arida quando fala que hoje o Brasil já é um mercado mais maduro para captações no setor privado como, por exemplo, o mercado de debêntures privadas que era insignificante por ocasião do lançamento do Real e que hoje já é de 22% do PIB como ele lembra. Mas para muitas empresas grandes com bons indicadores financeiros é muito melhor aplicar para empréstimos bilionários no BNDES do que se dar ao trabalho de ir ao mercado, conversar com dezenas de analistas de bancos privados, fazer reuniões, convencer esses analistas que o seu plano de investimento é consistente, etc. para levantar recursos de bancos privados ou via mercado de ações. Se eu fosse um grande empresário faria elogios ao governo como sendo o único que de fato se preocupa com o desenvolvimento do Brasil, aplicaria para um mega empréstimo no BNDES e até convidaria o banco para sentar no conselho de administração da minha empresa (mas sem direito a voto como muitos fazem).

Em resumo, a provocação do Pérsio Arida não é inteiramente nova ou original, mas um debate provocado por ele é sempre bem vindo, pois ele é um economista brilhante (não o conheço pessoalmente) e tem muito a contribuir para elevar o debate econômico que hoje se restringe a descobrir “o que o governo vai fazer para estimular a economia” ou a um complicado modelo de nome “SAMBA” que não explica porque o Banco Central não iniciou o ciclo de aumento de juros antes das eleições.

21 pensamentos sobre “Boa Provocação do Economista Pérsio Arida

  1. Esses empréstimos do BNDES, altamente subsidiados, foram requisitados pelo Abílio Diniz quando quis incorporar o Carrefour, lembra-se ?. Pois é, fiquei a pensar. Como é que pode um empresário querer tomar R$ 5 bilhões sem risco algum? Se a empresa quebrar, a víúva fica com o que sobrou. Se der lucro, ele é do empresário, que irá pagando o papagaio subsidiado ao longo dos anos. Que moleza hein? Será que o BNDES não quer me emprestar um bilhãozinho?

  2. O debate de ideias é muito importante, sempre. A argumentação do Pérsio é requentada. Já se falou muito sobre isso. O problema é que essa argumentação vem de uma banda de economistas tida como neoliberal. Sei que esse tipo de classificação é problemática, mas ela faz parte ainda do debate político e das disputas do presente.

    Seria ótimo se o BNDES pudesse efetivamente sair um pouco do crédito de longo prazo, deixando mais espaços para o risco privado. Seria ótimo, mas em quanto elevaríamos mesmo a taxa doméstica de investimentos produtivos? Acima de 20% do PIB, 25% quem sabe? Pérsio Arida possui essa estimativa? Se a possui, ela é confiável? Caso contrário, diria Pérsio que precisamos de uma nova reforma da previdência social ou mesmo de uma profunda reforma constitucional para o país crescer sustentadamente?

    Parabéns pelo blog! Bons comentários e respeito à diversidade de opiniões.

  3. E qual o problema do Pérsio Arida ser reconhecido como neoliberal?
    É só no Brasil que existe esse preconceito sem sentido para não dizer outra palavra bem menos educada.
    Com toda certeza, em países como Cingapura, Hong Kong e Nova Zelândia só para citar os países mais liberais do mundo não existe essa “discussão”!

    • O debate é muito bom. Hong Kong, Singapura e mais qual “cidade-Estado” colonizada pelos britânicos no passado é maravilhosa hoje? Por quais razões históricas? A questão do post que fica é relativamente simples, porém já desconfio da resposta. Para quanto mesmo subiria a taxa doméstica de investimentos produtivos com a proposta do Pérsio? Quem sabe 25% do PIB? Alguém apostaria sua reputação?

      • Rodrigo, mesmo que não mudasse em nada a taxa de investimento (cair parece-me difícil pois ja é bem baixa), só o fato da alocação de capital ser transferida para o mercado e dos juros subsidiados do BNDES deixarem de ser uma barreira à entrada de novas firmas já teria um efeito substancial para o país.

        Mas convém lembrar que acabar com o subsídio do BNDES não é uma panacéia, nós ainda temos que escolher entre fazer a reforma da previdência ou cometer suicídio econômico. A bomba demográfica está armada e dessa não temos como fugir.

  4. Em minha opinião, não faz sentido discutir intervencionismo estatal em países com elevado grau de corrupção. Não sou necessariamente contra a intervenção do Estado na economia, mas sou contra a intervenção que se faz no Brasil, porque é guiada por critérios políticos (no mau sentido da palavra).

    Economicamente, tendo a crer que a equalização das taxas de juros tenderia a aumentar a eficiência alocativa dos recursos na economia. Mais uma vez, não somente em função de aspectos teóricos, mas principalmente por acreditar que o BNDES e outros bancos públicos não seguem uma lógica econômica.

    Por fim, destacaria o impacto político da medida. Ela retira importante fonte de poder político do governo federal (como salientado pelo Mansueto), democratizando o sistema de crédito nacional. Dessa forma, permite que as empresas possam questionar mais livremente as ações do governo.

  5. Rodrigo Medeiros,
    Se você realmente acha que Hong Kong e Cingapura adquiriram um elevado padrão de vida devido o fato de esses países ter sido colonizados pelo Reino Unido, então, você não conhece nada sobre o desenvolvimento desses países.

    • Não foi isso que eu disse. Apenas ressaltei que há peculiaridades nos casos citados por ti. Nada além disso. Essas são peculiaridades históricas e derivadas de uma geopolítica da região. Estude um pouco mais e seja um pouco mais educado com um debatedor que coloca nome e sobrenome num post que busca ser sério.

  6. Cristiano
    Sua resposta ao Medeiros tirou as palavras da minha boca. Recentemente fiz um levantamento sobre as condições em que se deu o desenvolvimento de Singapura, é evidente que o Medeiros não tem nenhuma ideia do que está falando. Quem trata os termos: liberal e neoliberal, esquerdista e comunista a partir da ótica da propaganda partidária (sempre estúpida e simplificadora) não deve ser levado a sério.

    • Talvez você possa expor seu estudo com mais detalhes e ser mais construtivo na argumentação. Quais premissas e qual perspectiva teórica adotou? Esse é um debate que pode ser sério ou será apenas uma questão de colocar um debatedor divergente num canto isolado.

      Afinal, o que o Brasil pode aprender com Singapura? Em que medida essas “lições” são aplicáveis num país de dimensão continental, socialmente heterogêneo e que possui um quadro político-partidário fragmentado, 29 legendas, se não estou enganado? Você acredita na translação de modelos?

      Pensei que o blog do Mansueto fosse um espaço de debates e tolerância, não um lugar de certezas e agressões gratuitas. Enfim, não li nenhum argumento que respondesse ao meu primeiro comentário.

      • Caro Rodrigo,

        você é bem vindo neste blog e pode falar o que quiser e colocar seu ponto de vista. Não tenho o mínimo problema com o debate de ideias e acho que é dessa forma que podemos contribuir para o debate e aprender. Você tem todo o direito de ser cético em relação a proposta do Pérsio.

        A minha opinião é que se quisermos ter um BNDES, pelo menos deveríamos explicitar o custo das operações que estão sendo feitas com empréstimos do Tesouro. Confesso que me agrada na proposta do Pérsio a idéia de acabar com crédito segmentado, tornando explícito no orçamento os subsídios a projetos tidos como importantes e de elevado retorno social. Hoje é assiim que se faz com a agricultura que todos os anos recebe subsídios. O benefício é que o custo fica explicito e se discute no orçamento.

        Acho também que seria bom continuar com BNDES um pouco menor, sobrevivendo do retorno dos seus empréstimos do passado; o que ja dá um fluxo anual de mais de R$ 85 bi. Acho também que o BNDES deveria continuar existindo e seu corpo técnico utilizar como critério nas análises dos projetos o retorno social e não o retorno individual, pois isso banco privado faz.

        Novamente, você tem todo o direito de questionar se isso seria bom e tem também todo o direito de questionar transferências de modelo. Eu acho que Hong Kong e Cingapura são casos interessantes e os dois países investiram muito em educação e, Cingapura, tem um dos melhores sistemas do mundo de seguro saúde com um custo baixo de US$ 1.000 por pessoa. Lá eles têm um um espécie de seguro saúde misto: cada cidadão paga US$ 700 e o governo paga US$ 300 por pessoa e parece que funciona bem. Mas você está correto, pelo que sei, em apontar especificidades históricas dos dois páises.

        Caros, vamos fazer o debate em alto nível e indicar trabalhos que defendam os nossos pontos de vista. Em economia, raramente, há soluções simples e acho que seria bom que indicássemos para outros textos que mostrem as teses que defendemos.

        Abraços,

        Mansueto Almeida

      • “o que o Brasil pode aprender com Singapura? ”

        Importancia de lei e ordem; valor da educacao, de politicas de contencao salarial, economia aberta; politica fiscal ultra-conservadora visando acumular capital; livre movimentacao de capitais (com algumas medidas prudenciais).

  7. Caro Rodrigo Medeiros,
    Vamos a teoria econômica então.
    A teoria econômica diz que os fatores que levam um país alcançar um alto grau de desenvolvimento econômico e social são: acumulação de capital físico, acumulação de capital humano entendido como alto padrão de educação e de saúde, inovação tecnológica, sólidas instituições que assegurem um ambiente de negócios seguro e por fim mas não menos importante a liberdade econômica.
    Com relação a acumulação do capital físico, Cingapura teve uma taxa de investimento no período de 2001/2010 de 23,1% do PIB com um máximo de 30,2% do PIB em 2008, Hong Kong teve uma taxa de investimento de 22,1% do PIB com um máximo de 25,3% do PIB em 2001.
    Enquanto isso, o Brasil teve uma taxa de investimento nesse mesmo período de apenas 17,5% do PIB com um máximo de 20,7% do PIB em 2008.
    Com relação a acumulação de capital humano (educação) medido pelo estudo PISA de 2009 da OCDE, Cingapura alcançou 526 pontos em leitura (quinto melhor), 542 pontos em ciências (quarto melhor) e 562 pontos em matemática (segundo melhor). Já Honk Kong alcançou 533 pontos em leitura (quarto melhor), 549 pontos em ciências (terceiro melhor) e 555 pontos em matemática (terceiro melhor).
    Enquanto isso, o Brasil alcançou 412 pontos em leitura (53° colocado), 405 pontos em ciências (53° colocado) e 386 pontos em matemática (57° colocado).
    Por fim, analisando a pesquisa do Fraser Institute que mede o grau de liberdade econômica da maioria dos países do mundo podemos perceber o alto grau de liberdade econômica de Cingapura e de Hong Kong. Cingapura tem um índice de liberdade econômica de 8,7 (2° lugar) e Honk Kong tem um índice de liberdade econômica de 9 (1° lugar)!
    Já o Brasil tem um índice de liberdade econômica de 6,2 (102° lugar)!!!
    Graças a essa liberdade econômica e ao fato de esses países terem aprendido muito com Adam Smith e David Ricardo, esses dois países utilizam intensamente o comércio internacional que proporciona grandes ganhos de bem-estar para esses países!
    Vou terminar por aqui porque o post já está muito longo.
    Com relação a falta de educação, não foi a minha intenção desrespeitá-lo mas sim apenas trata-lo como adulto.

  8. O Estado é como uma vaca, quanto mais tetas, mais gente aparece para mamar; para reduzir a corrupção temos que cortar as tetas, não é fazendo passeatas e protestos que vamos reduzir a corrupção(não que elas não tenha sua importância). Sabemos muito bem que as pessoas respondem a incentivos e que essas pessoas que fazem protestos se pudessem também estariam desviando dinheiro,com a facilidade e a certeza de impunidade é muito provável que desviarão recursos.
    Não adianta vir com moralismos, somente reduzindo o tamanho do Estado e com severas punições melhoraremos isso.
    Acredito que o principal problema do país é o Estado super-inflado.

  9. Eu acho a proposta do Pérsio Arida boa.

    Mas acho importante lembrar que o BNDES nao altera o custo marginal do capital das firmas que recebem recursos dele porque ele nunca financia completamente um projeto de investimento.

    Isso significa que o custo marginal do capital que a firma leva em conta para decidir investir ou nao é o custo marginal do capital na economia como um todo e aí ela decide seu nível de investimento exatamente como faria caso nao recebesse dinheiro do BNDES a menos que ela seja restrita a crédito.

    Mas firmas restritas a crédito sao firmas cujo acesso precário a capital faz com que o retorno marginal do capital da firma seja maior que o custo marginal do capital. Esse é exatamente o grupo de firmas que você gostaria de subsidiar o acesso a crédito de forma a permitir a firma levantar mais capital e aproveitar oportunidades de investimento que ela tem e que ela nao conseguiria aproveitar sem o crédito subsidiado.

    A consideracao acima é importante porque significa que as ineficiências na política de investimento das firmas que o BNDES geram sao, na minha opiniao, muito menores que algumas análises sugerem. Ela também é importante para lembrar que algumas firmas restritas a crédito perderiam muito sem acesso ao crédito subsidiado ofertado pelo BNDES.

    Acho que inclusive o problema do BNDES nao é que ele gera investimentos ruins. Acredito que os principais problemas da sua atuacao sao que:

    a. Ele empresta muito para firmas grandes que dificilmente sao restritas a crédito e aí o subsídio embutido nos empréstimos do BNDES é apenas uma transferência de recursos da sociedade para os acionistas dessas grandes firmas (os acionistas podem usar esse subsídio para aumentarem os lucros como é fazem as montadoras ou para realizar ‘empire building’ como é fez a JBS).

    b. Ele aumenta a taxa de juros de equilíbrio da economia (aumenta o custo marginal do capital).

    A proposta do Pérsio Arida resolve os dois problemas acima. Mas a proposta nada diz sobre o que ocorreria com as firmas restritas a crédito e que simplesmente sao incapazes de financiar seus lucrativos e eficientes projetos de investimentos sem o crédito do BNDES. Eu nao tenho evidência empírica, mas acredito que esse é o perfil da maioria das firmas pequenas e médias que recebem os recursos que o BNDES repassa para bancos privados (que é quase metade do desembolso total do banco).

    Aqui eu acho que qualquer mudança na atuacao do BNDES tem que ser mais cuidadosa. Afinal, o impacto agregado de uma mudança como a proposta pelo Arida é a soma do efeito positivo do fim das transferências, com o efeito positivo da reducao dos juros na economia como um todo e com o efeito negativo da diminuicao do acesso a crédito de firmas pequenas e médias.

    Vários me dizem que esse último efeito é pequeno porque o mercado de crédito privado se desenvolveria o suficiente para mitigar as restricoes de crédito dessas firmas. Mas a curto prazo esse efeito certamente existe e mesmo a longo prazo a evidência sobre resricao de crédito em firmas médias em países desenvolvidos indica que esse efeito pode continuar atuando.

    Portanto, acredito que a boa proposta do Pérsio Arida tem que ser compatibilizada com algum mecanismo que minimize seu impacto sobre as firmas pequenas e médias que recebem recursos do BNDES.

    Como? Podemos manter algumas linhas subsidiadas com recursos orçamentários. Podemos também utilizar o BNDES como ofertante de crédito prazo mais alongado que a média do mercado de forma a melhorar a liquidez dessas firmas e compatibilizar mais acesso a crédito com o a quantidade de capital dessas firmas.

    Mas qualquer dessas solucoes necessariamente passa por examinar qual proporcao das firmas que recebem crédito do BNDES sao realmente restritas a crédito e experimentar os custos relativos de solucoes alternativas para diminuir as distorcoes macroeconômicas que o BNDES gera sem prejudicar as firmas que só conseguem investir graças à ele.

    Aqui é preciso de mais dados e menos argumentos.

  10. Toda profissão tem um viés. Sou economista, mas como também sou formado em direito, não poderia deixar de salientar minha surpresa com o fato de que nenhum comentário aborda os direitos feridos pelo sistema de captação de recursos e de concessão de créditos que estão em discussão.

    Pérsio Arida foi enfático ao criticar o esbulho a que estão sujeitos os trabalhadores ao receberem rentabilidade inferior àquela paga no mercado pelos recursos recolhidos ao FGTS. Todavia, nem liberais nem nosso amigo não liberal atribuíram qualquer relevância a esse fato, que deveria ser merecedor de mais atenção.

    Na concessão de crédito o problema se repete. A Constituição Federal determina que a LDO estabeleça a política de crédito das agências financeiras de fomento. Salvo engano, esse mandamento tem sido virtualmente ignorado pelo Executivo, sob complacência do legislativo.

    Dessa forma, fica para o BNDES “a mentalidade tacanha” , mencionada por Pérsio Arida (eu diria presunçosa), de se atribuir o papel de definidor dos rumos da economia brasileira, menosprezando o fato de que os diversos agentes da economia têm igual direito a se beneficiar do sistema de crédito subsidiado do governo. Reconhecendo-se a escassez do crédito, a justificativa para a sua alocação seletiva deveria ser uma política de crédito previamente definida no âmbito de uma instituição aberta e legítima, no caso, o Congresso Nacional, conforme, acredito, determine a CF.

    Sei que, nesses tempos de arbítrio e desmandos, esse papo dá preguiça e não parece funcionar. Mas democracia é isso aí! Exige empenho.

    Abraço a todos

    • Esse debate poderia ter sido feito na época das privatizações, quando se utilizou recursos públicos do BNDES? Fui aluno da PUC-Rio e assisti na década de 1990 a uma interessante palestra do Pérsio Arido com o então sócio dele no Opportunity, o Daniel Dantas. Não me lembro dessa discussão.

    • O processo de privatizações pode ter sido, mas a discussão específica proposta pelo Pérsio Arida no Valor, alvo deste post do Mansueto, não me lembro. (Ainda em tempo, esse processo deve até ser rediscutido em 2012, quando há a expectativa de instalação de uma CPI.) Tal debate proposto pelo Pérsio poderia ter sido feito quando se utilizou recursos do BNDES para as privatizações? A pergunta é muito simples.

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