Parabéns aos Heterodoxos da ANPEC

Depois de muitos anos, voltei ao encontro nacional dos centros de pós-graduação em economia, o encontro anual da ANPEC  que ocorreu em Foz do Iguaçu na semana passada. O encontro foi interessante com diversos trabalhos apresentados e com várias mesas especiais. Infelizmente, muitas dessas mesas especiais patrocinadas por órgãos públicos e empresas foram apresentadas exatamente no mesmo horário, o que significa uma baixa  frequência, algo como oito a dez pessoas em muitas delas e várias delas foram muito boas, como a mesa de ajuste fiscal do BID que assisti que juntou o Secretário da Fazenda do Paraná, o Secretário de Finanças de Fortaleza e a ex-FMI e agora consultora do BID Teresa Ter-Minassian.

Todas as noites, na ANPEC, há uma mesa especial de debate de conjuntura e, para a minha surpresa, notei que economistas tradicionalmente alinhados com escolas mais liberais do pensamento econômico estavam otimistas e, por outro lado, economistas mais alinhados com a ala heterodoxa me pareceriam mais cautelosos. Para os mais liberais, o Brasil vai muito bem e há chance concreta de termos um crescimento de 3% a 4% ao ano ao longo dos próximos dez anos.

Todos os problemas relativos ao excesso de crescimento de gastos (mesmo que sejam transferências para famílias), a necessidade de aumentar o investimento público, novos gastos com saúde e educação, o controle da inflação etc. serão adequadamente resolvidos quase que por necessidade, ou seja, “o governo sabe que tem que ser responsável na solução desses problemas” senão ele será punido pelo eleitor.

Esse excesso de confiança de que já estamos com os nosso maiores problemas resolvidos e que o processo eleitoral vai corrigir nosso eventuais excessos é, na minha opinião, um pouco ingênuo. Esse argumento não consegue, por exemplo, explicar porque os EUA e Europa que há cinco anos tinham boas perspectivas de crescimento e chegaram onde estão, atolados em uma crise de solução ainda incerta. Esse pensamento excessivamente otimista de que vamos tomar as medidas corretas não explica, também,  porque já em plena democracia,não conseguimos debelar a inflação com os vários planos de estabilização que antecederam ao Plano Real.

Por outro lado, o que escutei de alguns heterodoxos me deixou surpreso, não de todos, pois há alguns que continuam insistindo na tese que apenas o Banco Central atual que não tem na sua diretoria economistas do mercado é independente e todas outras diretorias do BACEN, de acordo com esse raciocínio, seriam controladas pelo lado negro da força: o sistema financeiro.

Outros economistas heterodoxos com quem conversei, no entanto, questionaram o crescimento excessivo do gasto público (mesmo que isso decorra de maiores transferências) e um deles que já havia passado pelo governo falou em público para o atual Secretário de Política Econômica que o Ministério da Fazenda, na sua época (no governo Lula),  tinha  preocupação com a regra atual de reajuste do salário mínimo e destacou que o cenário para a indústria não é tão bom como o cenário macro. A indústria no Brasil deixou de ser competitiva dado o elevado custo de produção em relação ao resto do mundo e não sabemos (1) como resolver esse problema, (2) se isso é um problema, e (3) se devemos aceitar uma redução da participação da indústria no PIB com sendo algo inevitável. O fato é que, se tentarmos salvar a indústria, isso terá um custo e esse custo precisa ser discutido, pois alguém terá que pagar a conta.

Para a minha surpresa, alguns heterodoxos me pareceram mais sinceros nas discussões e mais pé no chão do que os economista ortodoxos. No mais, sentí falta de professores mais seniores que sempre encontro no eixo Rio e São Paulo nas discussões do mundo real.

Às vezes tenho a impressão que a academia precisa de um “choque de realidade” ou  a realidade precisa se adaptar ao mundo especial da academia. O ideal é quando os dois mundos se encontram, mas pelo que vi na ANPEC me parece que esse encontro ainda é pouco provável, por enquanto.

8 pensamentos sobre “Parabéns aos Heterodoxos da ANPEC

  1. Um pequeno retrato de uma pequena realidade. Nem todos os economistas acadêmicos são “alienados”, nem todos os economistas de governo, ou tecnocratas, estão convencidos do básico.
    E o básico me parece ser uma coisa muito simples: o Brasil conseguiu realizar sua estabilidade macroeconômica, mas ela permanece incompleta, pelos mesmos males que levaram ao “caminho grego”, ou até americano: excesso de gastos governamentais, no caso do Brasil agravado por um péssimo ambiente de negócios.
    As empresas brasileiras poderiam até ser competitivas no plano exclusivamente microeconômico se não fossem penalizadas por um excesso de tributação e por uma logística lamentável.
    Pouca gente está disposta a admitir algo muito elementar: o Estado brasileiro, que já foi um indutor do desenvolvimento, tornou-se atualmente um obstrutor desse desenvolvimento, pelo seu papel despoupador e por não cumprir com suas funções elementares no plano do ambiente de negócios e da infraestrutura.
    O outro grande problema brasileiro, que compete também à sociedade, é a tragédia educacional, mas aqui não parece sequer haver consciência do que está errado, para começar a corrigir.
    Paulo Roberto de Almeida

    • Caro Paulo Roberto de Almeida,

      Tens toda razão. O que parecer ser de fácil compreensão, o básico, passa despercebido por muitos. Parece até que há uma fé cega que podemos crescer consistentemente em decorrência de estímulos governamentais, sem resolver nosso problema educacional, elevada carga tributária e excesso de regulamentação. Concordo com você.

  2. Parabéns pelo artigo, Mansueto. Isso mostra, para mim, novamente, como você é uma exceção entre os economistas brasileiros. Não se apega a ideologias, mas ao que está sendo dito por outras pessoas. Faz uns dois meses, eu conversei com o Fernando de Holanda Barbosa, e ele me disse que sempre escutava o que a outra pessoa tinha a dizer, independentemente da linha de pensamento dela. Depois ele refletia e argumentava. Fiquei admirado e entendi porque ele é um grande economista. Também admito que eu não faço isso muitas vezes. Pena que eu não tenha ido ao encontro da Anpec nesse ano. Gostaria de lhe conhecer pessoalmente e conversar um pouco. Um grande abraço! Luciano Nakabashi

    • Luciano,

      mais uma vez obrigado por suas palavras. Pena que não nos encontramos na ANPEC mas próximo ano com certeza vamos nos conhecer pessoalmente e vamos ter chance de conversar. Ano que vem será um ano interessante e com muito desafios.

  3. Mansueto,
    Quando você diz que os “liberais” estão mais otimistas com relação ao futuro da economia brasileira é preciso saber quais liberais?
    Relembrando o grande economista Roberto Campos, ele dizia que o liberalismo assim entendido como o estado mínimo na economia jamais desembarcou aqui no Brasil!
    Como adepto de uma das escolas liberais de economia, a escola austríaca, eu enxergo um cenário nada favorável para a economia brasileira.
    Abraço!

    • Sim, Cristiano

      eu deveria ter qualificado quais liberais me referia e, no caso dos heterodoxos, também deveria ter qualificado quais heterodoxos eu identifiquei que estavam com os pés no chão.

  4. Mansueto,

    Eu também não tinha ido ao encontro da ANPEC por muitos anos e foi uma pena não ter te conhecido lá…sim, eu estava lá representando o Corecon SP para a entrega do prêmio da Sociedade de Econometria…tenho lido seus textos e gostaria de conhecê-lo pessoalmente …fica para uma outra ocasião…

    Também achei uma pena haver algumas apresentações simultâneas de modo que acabei não vendo a que vc citou… mas vi outras muito boas…

    Acho também que vc deveria deixar claro no seu texto quem falou de modo mais otimista e menos otimista…de modo geral, concordo com vc…eu estou mais para otimista…como sempre…

    • Vera,

      pena que não nos encontramos. Fui participar de uma mesa da CNI sobre desindustrialização e no mais aproveitei para colocar o papo em dia com Samuel Pessoa, Alexandre Rands e outros que estavam por lá.

      Mas no próximo ano vamos nos conhecer, pois vou com freqüência a São Paulo e, em fevereiro, devo dar uma palestra na FGV-SP sobre finanças públicas. Sim, você tem razão, deveria ter citado os nomes. Não o fiz porque na próxima semana por outros motivos vou estar novamente no Rio com alguns desses economistas.

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