O que significa o governo ter sangue frio?

Na última sexta-feira, li com cuidado a coluna da jornalista Cláudia Safatle  a partir de uma conversa da jornalista com o economista Armínio Fraga (clique aqui para ler a coluna). É claro que estou no grupo de economistas que admira Armínio Fraga, mas acho que vale a pena comentar alguns dos pontos da coluna.

Na questão fiscal, se por um lado estamos longe do inferno em que se meteu a Europa, estamos longe também do Céu que muitos já enxergam à frente. A minha avaliação é mais ou menos a seguinte.

No longo-prazo, 10 -15 anos, o Brasil tem duas fontes de ganho fiscal excepcionais (1) a receita fiscal decorrente da exploração plena do pré-sal que nas simulações do IBRE-FGV poder ser de 3,5% do PIB; e (2) a economia financeira que teremos com a redução dos juros para níveis próximos ao internacionais. Como o setor público no Brasil paga 5,3% do PIB de juros, caminhar em direção aos juros internacionais representa um ganho de, pelo menos, 3,5% do PIB (ou até mais). Assim, olhando para os próximos 10-15 anos nossa situação fiscal por essa ótica é confortável.

O problema é que para chegarmos ao Céu teremos que passar pelo purgatório, manter nosso esforço fiscal nos próximos anos e, se não fizermos isso, corremos o risco de acabar no “inferno”- não conseguimos reduzir os juros para os níveis internacionais de forma permanente e antecipamos despesas já contando com a receita futura do pré-sal e não teremos espaço para reduzir carga tributária e pode ser necessário até elevar ainda mais a carga. Esse cenário para mim não está descartado.

No próximo ano, não acredito na meta cheia, mas sim em um primário por volta de 2,5% do PIB. Isso não será um desastre, o problema é se o governo tentar repetir 2008/2009 quando ele errou na mão e saímos da crise com uma economia superaquecida e o BACEN teve que elevar os juros novamente. Acho que corremos esse mesmo risco  se o governo tentar utilizar política fiscal para garantir crescimento de 3,5%-4%. Como estamos com uma inflação de serviços elevada e com uma taxa de desemprego bem menor, qualquer excesso traz a inflação de volta em 2013.

A análise do Armínio só faz sentido quando trabalhamos com a hipótese de que o governo não usará a política fiscal para aumentar o crescimento (o que ainda é incerto). Adicionalmente, o resultado primário deste ano está longe de ser a maravilha que Armínio fala. Estamos entregando um superávit porque tivemos um erro de previsão da receita para mais em R$ 44 bilhões. A despesa não financeira do governo federal está crescendo em termos reais por volta de 4%, mas com um PIB que deve crescer menos de 3,5% este ano, a despesa não finaneira do governo federal continua crescendo um pouco mais rápido que o PIB. Além disso, o investimento nominal está em queda.

Literalmente, o fabuloso resultado fiscal deste ano vem da combinação de: (1) mais de 1 ponto do PIB na arrecadação; (2) reajuste real zero do salario mínimo; (3) queda nominal na execução do investimento público. Esses três fatores mudam não apenas no próximo ano, mas também nos anos seguintes. Assim, não é claro para mim qual a trajetória que o governo vai tomar. OBS: não estou falando em cenário desastroso, mas sim da real capacidade de o governo garantir uma redução permanente da taxa de juros o que significa manter o esforço fiscal atual como o próprio Ministro da Fazenda vem falando ultimamente.

Se o governo se comprometesse com um primário cheio por volta de 2,6% do PIB (sem truques) até o final do governo, eu já ficaria feliz. Mas corremos o risco de o governo insistir no primário de 3,1% do PIB e começar novamente a fazer uma série de medidas heterodoxas e utilizar uma política fiscal ativa porque não quer esperar pelos efeitos expansionistas da política monetária. Torço para que isso não aconteça.

Acho que foi isso que a coluna quis dizer com: “Armínio torce para que, agora, o governo “tenha paciência e evite reações precoces”, referindo-se à iniciativas de concessão de estímulos para a retomada do crescimento.” Essa é torcida de todo mundo, mas será que o governo tem “sangue frio” para esperar?  vamos esperar.

9 pensamentos sobre “O que significa o governo ter sangue frio?

  1. Mansueto

    “o resultado primário deste ano está longe de ser a maravilha que Armínio fala. Estamos entregando um superávit porque tivemos um erro de previsão da receita para mais em R$ 44 bilhões.”

    Li a reportagem na sexta-feira e a primeira pergunta que me veio a cabeça foi: Como é possível que Armínio Fraga, um economista de alto calibre, omita na equação do superávit o elemento que você aponta? E como você mostrou nos posts anteriores, o mesmo aconteceu na Anpec. Acho muito estranho não somente a omissão de Armínio e dos economistas da Anpec, mas também o esquecimento da jornalista, que não apresentou para Armínio o que você vem dizendo e provando em vários posts e artigos. Curioso, né?

    Abs.

    • É Paulo fiquei com a mesma dúvida. Não sei de como Armínio ver situação tão confortável. Claro que estamos longe de uma situação desastrosa, mas muito aquém do cenário cor de rosa que ando escutando de muita gente.

  2. Prezado Mansueto,

    Acredito que os juros reais tem uma funcao alocativa no mercado. Juros reais negativos, ou simplesmente baixos, fomentam a geracao de bolhas entre outras consequencias negativas. Os juros reais de varias economias do mundo hoje sao uma anomalia, mas talvez nao algo p/ termos como parametro.

    Quem sabe vc dedica um post ao tema?

    Um abraco,

    Fernando

    • Sim, essa é uma discussão interessante. Vamos ver se no futuro faço um post sobre o tema com convidados, pois esse assunto é sempre espinhoso. Mas concordo com você que os juros internacionais hoje não são normais, mas mesmo que voltem à normalidade, os nossos são mais anormais ainda.

  3. Meus caros,
    Eu, infelizmente, sou incapaz de ser tão otimista (e me pergunto se não sou pessimista em excesso). Estamos batendo na capacidade produtiva. Com uma taxa de investimentos tão pífia, é impossível crescermos muito. Com isto, estamos caminhando celeres a um cenário de estagflação (inflação acelerando e economia em queda). Sucessivos erros de política econômica estão sendo implementados (tanto fiscal quanto monetária). O endividamento das famílias e do setor público estão elevados e são crescentes. Nossas contas internacionais estão fortemente negativas e o mundo parece estar a beira de um colapso. Uma piora do cenário internacional poderia estancar, de uma hora para outra, o financiamento internacional que a economia brasileira. Isto teria um efeito catastrófico em nossa economia (e lembramos que as famílias brasileiras estão, atualmente, fortemente endividadas e há claros indícios de existência de bolha imobiliária). É inacreditável como parece que estamos adentrando a década de 80. Espero ser absurdamente pessimista (e muitos economistas muito bons que respeito são otimistas), mas não consigo fazer outra análise. Estamos em situação diametralmente oposta àquela existente em 2008. Vamos repetir o que sempre fazemos em uma crise internacional forte (o que não ocorreu em 2008). Torço muito para estar completamente errado. O único elemento que me faria ficar mais otimista é ainda o efeito-fundef de aumento da escolaridade média da força de trabalho brasileira (o qual eu também não saberia dizer o tamanho). Como eu já disse, torço muito para estar completamente errado.
    Saudações

    • Claúdio,

      Ainda não estou tão pessimista como você, mas em linhas gerais concordo com a sua análise. Relativamente, estamos bem – sem crise bancária, com superávit primário, redução da desigualdades e pobreza desde 2001, etc. Mas vejo uma série de contradições que você apontou que não vejo nenhum debate sobre o assunto.

      Quanto ao efeito FUNDEF, depois toco neste assunto porque é realmente complicado. Há duas semanas participei de um debate sobre isso e não chegamos à conclusão alguma do efeito da queda da desigualdade educacional no mercado de trabalho – sabemos que tem efeito mas é difícil medir se a desigualdade respondeu mais à queda da desigualdade de anos de estudo ou aos os efeitos de aumento do salário mínimo.

  4. Mansueto,

    Um comentário: acho que a maior economia que o governo fez esse ano foi deixar de reajustar os salários das categorias mais importantes do setor público. E a defasagem está grande em relação a 2007/2008. Estou errado?

    Uma questão: me assusta a elevação de preço nos serviços porque associo a ela a perda de competitividade da economia e da indústria em especial. Assim, IPCA na meta, por conta de queda nos preços de bens industriais e commodities, mas com elevadas variações no preço de serviços é o pior dos mundos, pois sequer os ganhos decorrentes dos elevados preços das commodities nós teríamos. Faz sentido?

    Abraço

    • Rafael,

      A conta de pessoal este ano ainda está alta porque ainda reflete aumentos concedidos no passado. De janeiro a outubro, a folha de pessoal cresceu nominalmente 9,3% que é praticamente o mesmo crescimento de JAN-OUT de 2010, ante o mesmo período de 2009.

      Não entendi a questão da defasagem. Os salários de quase todas as carreiras foram reajustados em 2008-2010. No executivo, os reajustes foram brutais por conta da reestruturação de carreiras. O meu salário aumentou 56%. Acho que o governo tem poder de barganha para segurar novos aumentos por um bom tempo e pode economizar na folha de pessoal.

      Quanto aos serviços, compartilho da ua preocupação. A inflação de serviços está muito alta (9% aa) e deve continuar elevada, mas em patamar menor (7,5% aa) no próximo ano.

      • Não entendo que os salários estejam abaixo de sua média histórica, mas temo que os servidores / sindicatos tomem os picos dos últimos anos como o valor real a ser mantido. Minha ideia é que esses picos tivesssem sido atingidos para muitas carreiras em 2007/08, de forma que agora estariam 15/20/25% defasados. Não parece ser esse o caso. Obrigado pelos esclarecimentos!

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