Novamente Sobre a ANPEC

Um dos debates mais esperado da ANPEC foi a mesa patrocinada pelo Ministério da Fazenda. O Secretário de Política Econômica, Márcio Holland, foi  o primeiro a falar e mostrar a maravilha que é o cenário econômico e de crescimeto para o Brasil, que será puxado pelo mercado interno e pelo “adensamento das cadeias produtivas” – jamais entendi esse termo, mas sempre achei o som muito bonito.

O Secretário de Política Econômica estava em uma mesa de amigos e até mesmo o economista Sérgio Werlang do Itaú, conhecido não apenas por sua capacidade intelectual indiscutível como também por sua língua afiada nos encontros da ANPEC da primeira metade dos anos 90, me pareceu excessivamente otimista  e, quando discordou do Secretário de Política Econômica, o fez de uma forma educada. Por exemplo, Sérgio Werlang nas suas projeções não acredita na meta do primário cheia (3,1% do PIB) para os próximos dois anos (a dele fica em 2,6% do PIB) e elogiou o Banco Central que, na sua opinião, tomou uma medida ousada na redução dos juros que provou ser correta.

Sim pode até sido correta, mas os dados de inflação estão elevados porque exageramos nos estímulos em 2009/2010 e parte da culpa é do BACEN daquela época que, no último trimestre de 2010, não aumentou a taxa de juros, deixando as maldades (aumentos dos juros e restrições ao crédito) para 2011. Agora, mesmo com a crescimento zero do PIB do terceiro trimestre, a inflação está muito elevada e a inflação de serviços acima de 9% ano. Mas é claro que isso é “tolice” já que  a nossa média de inflação em 2008, 2010 e 2011 está perto de 6% ao ano. Desde 2008, ficamos próximo do centro da meta apenas, em 2009, quando o crescimento do PIB foi negativo (-0,33%) e o IPCA foi de 4,3%. Quando se olha o comportamento da inflação no Brasil desde 2008, tem-se a nítida impressão que o centro da meta é 6% e não 4,5%.

No meio de cenários tão positivos coube ao economista do IEDI, Júlio Gomes de Almeida, fazer uma correta provocação. Lembrou que o cenário macro está razoavelmente positivo, mas que o Brasil não tem mais os mesmo instrumentos que tinha em 2008/2009 para combater uma forte retração da demanda. Não há como ser tão ousado nos empréstimos para o BNDES na mesma intensidade de 2008-2009-2010. Lembrou também que a indústria vai muito mal e que não é mais competitiva neste novo cenário da economia mundial e que o governo precisa fazer política anticíclica via aumento do investimento público e não de gastos correntes (ou transferências).

Debate não houve porque não foi permitido a platéia se manifestar (talvez pelo adiantado da hora) e não fiquei até o final porque estava cansado e tinha que retornar várias ligações pendentes. Assim, perdi a fala do economista Yoshiaki Nakano. Mas uma coisa para mim ficou clara, o debate morno que assisti na ANPEC não vai ajudar em nada ao governo na sua difícil tarefa de salvar a indústria, não mostrou de que forma o governo poderá aumentar substancialmente o investimento público e ainda entregar a meta de primário cheia no próximo ano e ninguém comentou que o “fabuloso” superávit primário deste ano vem de uma combinação de fatores que não deve ser repetir: (1) reajustes real do salario mínimo zero; (2) queda nominal na execução do investimento público; e (3) crescimento de receita à uma taxa de 20%, mais do que o dobro do crescimento do PIB.

Esse crescimento extraordinário da receita neste ano reflete parte do crescimento de 2010, pois naquele ano muitas empresas estava compensando seus lucros com os prejuízos de 2009 e, assim, pagando menos impostos. Adicionalmente, o governo arrecadou receitas atípicas como a receita decorrente do novo REFIS e de ganhos judiciais que, apenas no caso da VALE, representou quase R$ 6 bilhões. Alguém acha que a receita continuará crescendo a uma taxa que é o dobro do crescimento do PIB nominal? Eu acredito que não e, portanto, o meu cenário está longe de ser tão cor de rosa e, na falta de espaço fiscal para o governo salvar a indústria, a salvação virá com maior proteção de mercado, o que significa produtos maios caros para nós consumidores.

5 pensamentos sobre “Novamente Sobre a ANPEC

  1. Mansueto,

    Seu texto melhorou muito em relação ao anterior sobre a ANPEC, dizendo quem apresentou quais idéias…eu assisti a fala do Nakano e até fiquei surpresa com seu otimismo…

    Quanto ao salvamento da indústria, seria a hora de lançar “todos pela indústria”…só espero que não seja mais slogan do que tem sido na área da educação…essa eu continuo esperando uma melhora significativa na escola pública…

  2. Como houve um elogio aqui sobre a coerência de uma pessoa com a teoria liberal, gostaria de registrar que o liberal também pode ser entendido, de outra forma, como um sem-teoria, ou seja, alguém que age mais na reflexão situacional do que buscando estar adequado com tal ou qual princípio teórico. Este negócio de buscar coerência entre teoria e prática soa melhor entre os marxistas. Não vejo como um liberal “trair o movimento”, porque seria muito difícil definir o liberalismo como uma ou outra teoria, afinal existem regiões em que a semântica se desloca para a esquerda, outras em que o liberal se contrapõe ao conservador; ainda há os liberais em termos de rejeição ao Estado. No seu caso, se é que você se define como liberal, não vejo que está em nenhum desses 3 grupos. Aos interessados, aqui tem um post onde apresento resumidamente a minha visão: http://ldamasio.wordpress.com/2011/11/30/debate-sobre-liberalismo-no-cfhufsc/

    Aproveito para solicitar que deixe uma nota aqui no blog quando você for palestrar sobre finanças públicas na FGV-SP. No mais, parabéns pelo blog e pelos debates na ordem do dia.

Os comentários estão desativados.