Um triste episódio para os economistas

Nesses dias lí algo que me deixou perplexo. A saída organizada na forma de protesto de setenta alunos de economia da aula de Introdução à Economia, em Harvard, ministrada por um dos economistas mais respeitados na academia: Greg Mankiw (clique aqui).

Os alunos saíram da aula do Mankiw com a crítica de que o professor ministrava suas aulas de forma viesada, mostrando apenas as maravilhas do funcionamento do livre mercado e explicando pouco os problemas com o funcionamento do livre mercado que, segundo eles, ocasionou a atual crise financeira.  A economista Robin Wells escreveu uma carta aberta sobre o episódio (We Are Greg Mankiw… or Not?), na qual faz uma autocrítica da maneira que a disciplina economia é ensinada nos dias de hoje.

Não vou entrar nos detalhes, mas acho que nós economistas precisamos ser mais sinceros com o público e colocar para esse público as nossas dúvidas e respeitar opiniões divergentes.  Em economia há divergências enormes e, em alguns casos, não há muito como chegar ao consenso. De qualquer forma, é justamente a exposição ao contraditório que nos leva a crescer, coisa que se faz muito pouco no Brasil porque aqui as pessoas tendem a confundir debate de ideias com ataques pessoais.

O ponto que acho interessante é que a disciplina precisa mostrar mais essas contradições, pois a economia não tem resposta pronta para tudo e o melhor exemplo disso é o crescimento espetacular da China desde os anos 80. Um país no qual os direitos de propriedade não são claros, a burocracia confusa, a justiça não funciona, etc. seria o melhor exemplo de que esse país não poderia crescer sem que fizesse uma série de reformas.  As reformas foram feitas, mas de forma gradual e incompleta. No entanto, essas reformas incompletas mostram-se suficientes para disparar o crescimento daquele país e o que era considerado “obstáculo ao crescimento” de fato não se mostrou obstáculo.

Assim, seria bom para a disciplina “economia” que todos nós fossemos um pouco mais humildes e que debatêssemos mais ideias. Por sinal, nessa linha, um novo site na internet administrado pela Universidade de Chicago é excelente para acompanhar o que os economistas dos melhores departamento de economia dos EUA pensam sobre determinados assuntos.

O site denominado “IGM Economic Experts Panel” faz uma pergunta para um grupo de 40 economistas, sobre determinado assunto, por exemplo, estudantes de escolas públicas teriam acesso a serviços de educação de melhor qualidade se recebessem o dinheiro do governo e escolhessem em qual escola pública ou privada iriam estudar. Os economistas respondem e muitas vezes indicam leituras para fundamentar suas opiniões. As respostas são também agrupadas e  apresentadas na forma de gráfico. Vale conferir para ver que, nem sempre, economistas concordam. Em alguns casos é verdade que há um quase consenso, mas em outros, como o tema acima sobre vouchers, há uma clara divisão.

7 pensamentos sobre “Um triste episódio para os economistas

  1. Sempre julgei uma grande falha no currículo das ciências econômicas uma disciplina sobre a anatomia do mercado. Não seria uma disciplina cheia de fórmulas matemáticas, embora um bom conhecimento sobre séries temporais seria necessário.

    O problema é que poucos sabem sobre esse tema e quem sabe não revela (são os vencedores na gestão de carteiras que se pode contar nos dedos).
    Os mercados não são perfeitos e se distanciam muito da premissa de que são eficientes, embora sejam mais do que os burocratas na alocação de recursos.

    A correta leitura do mercado e o entendimento de sua dinâmica lançam luzes preciosas na análise sobre a economia e permite entender as deficiências da instituição ‘mercado’. Nota: apesar de suas deficiências é melhor do que um Estado forte na alocação de recursos.

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  2. Permita-me um dissenso.

    Antes, devo confessar, que sou advogado. Não sou economista. Li, como geralmente faço seus artigos. Vc é a sobriedade em pessoa (do ponto de vista do assunto economia), e tenho aprendido muito.

    Primeiro li o Open Letter dos alunos. Lá no finalzinho senti que alguma coisa não fazia a casadinha entre o “… we enrolled in Economics 10 hoping to gain a broad and introductory foundation of economic theory…” com o final, “We are walking out today to join a Boston-wide march protesting the corporatization of higher education as part of the global Occupy movement.”

    Em seguida fui ler a defesa feita ao professor por um dos alunos do tal professor, Jeremy Patashnik. Chamou-me a atenção (1), Os alunos não alinhavaram as razões pelas quais discordavam do referido professor; (2) E, de igual modo, lembrava também que os ’70’ “… protesters have managed to connect their complaints of the pedagogy of Ec 10 with the Occupy movement.”.

    A sua observação, Mansueto, “Não vou entrar nos detalhes, mas acho que nós economistas precisamos ser mais sinceros com o público e colocar para esse público as nossas dúvidas e respeitar opiniões divergentes.”, não me parece guardar uma relação lógica e de causa e efeito com o ocorrido em Harvard, muito embora sua observação para maior clareza seja bem vinda.

    Li, finalmente, o que Robin Wells escreveu, em que ela “… warns teachers of letting the classroom become disconnected from the real world.” Nada a ver com o ‘walk out’ ao professor Greg Mankiw. Tudo a ver com a sua recomendação aqui sobre clareza.

    1. Economistas (advogados então, com o ‘juridiquês’ indecente, nem se fala) realmente são herméticos, por vezes;

    2. Acho que os ’70’, guardadas as DEVIDAS PROPORÇÕES (com reforço), fizeram um tipo de protesto como esse último na USP e a bola da vez foi o tal professor;

    3. A ‘casadinha’ sua — economistas ser mais sinceros — não me parece fazer nenhum sentido com o evento de Harvard, muito embora seja um alerta bem vindo a uma enormidade de bobagem e caixa preta que se ouve por aí. Especialmente na minha área.

    • Caro Eduardo,

      excelente observações. Você está totalmente correto quando ao teor das minhas observações. Foram muito mais no sentido geral do que em relação ao evento ocorrido em Harvard, no qual os alunos não pareciam saber exatamente contra o que estavam protestando.

      Você tem toda razão e conseguiu explicar esse caso muito melhor do que eu. Grande abraço, Mansueto

  3. Você cita o Mankiw e depois fala que economistas deveriam ser mais sinceros quanto ao dissenso.
    Em relação ao livro base do Mankiw acho que ele é muito claro quanto a essas discordâncias, mostrando inclusive gráficos que mostram quais os assuntos que economistas mais concordam e discordam.

    • Sim Mario! Sei disso e o Mankiw, inclusive, está na minha lista de blogs recomendados. Quando falei de humildade não quis dizer que o Mankiw é arrogante. Estava falando no sentido geral, pois nós economistas somos, na média, arrogantes e muitas vezes queremos mostra convicção de coisas que não são tão simples. Esse foi o ponto do meu comentário. Mankiw é um GRANDE economista e pouco me importa a posição política dele.

  4. Nem sempre um profissional brilhante ou professor com cultura superior agrada aos alunos. Às vezes o professor muito culto, ótimo ensinando assuntos complexos, não consegue ensinar coisas mais simples. Na minha experiência de aluno já tive professores, extremamente cultos, que não conseguiam ter boa didática para coisas simples (mas complexas para os alunos). Entretanto, todo professor autor de bons livros (ou apostilas) era ótimo ensinado. O Mankiw é autor de ótimos livros (uma experiência profissional muito rica), só a ignorância e a arrogância de jovens para recusar o privilégio de ser aluno dele (pelo menos para falar: fui aluno do Mankiw). Só os EUA para ter um Mankiw dando aulas de Introdução à Economia.

  5. O que me pareceu é que os alunos queriam aprender Keynes, para, a partir daí, saber o que é curva de indiferença. Talvez daqui um tempo o debate não seja sobre aos fundamentos microeconômicos de Keynes, mas sobre as bases Keynesianas da microeconomia…

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