Ciro Gomes (PSB) e Crise Política

Fiquei surpreso que depois de um período auto-imposto de silêncio, o ex-prefeito, ex-governador, ex-ministro, e ex-deputado estadual e federal, Ciro Gomes, rompeu o silêncio com duas entrevistas. Uma para o portal “Poder e Política” do jornalista da UOL e Folha Fernando Rodrigues (clique aqui), e outra para a jornalista Raquel Ulhôa no Valor Econômico (clique aqui).

Como o ex-ministro gosta de falar, essas entrevistas acabam sendo interessantes, pois ele fala coisas polêmicas, apesar do ex-ministro nem sempre ser coerente com o que fala. Quero destacar três pontos.

Um primeiro ponto que me chamou atenção é a posição do ex-ministro quanto ao funcionamento da Câmara dos Deputados. Segundo ele, a Câmara dos Deputados passa por um crise institucional crônica, onde reina a desorganização e o completo controle do Palácio do Planalto. Na opinião do ex-ministro: “um deputado não vale nada”,  tem pouco ou nenhum poder para contribuir com suas idéias para a agenda legislativa. O Ministro vai ainda além e fala (na entrevista para UOL) que: “a agenda nacional não tem consideração porque o Congresso Nacional, salvo exceções, é uma grande câmara de vereadores, de paróquias que estão ali reunidos potencializando força para rachar um pouquinho de dinheiro. E tem a turma da quadrilha mesmo. Do assalto, do lobby.” Não é claro se essa opinião do ex-ministro é compartilhada por seus colegas de partido, mas o que Ciro também reconhece é que o executivo faz muito pouco para melhorar  o funcionamento do Congresso, já que na opinião dele não separa o joio do trigo.

Segundo, me chamou atenção também a previsão do ex-ministro de que “vai haver uma tensão muito séria [entre os partidos aliados] nas eleições municipais. O próprio Lula já me falou pessoalmente, de boa fé, que o plano dele é fazer um partido só. Ele acha que no Brasil não tem sentido ter esse monte de partidos. A intenção do PT é de aniquilar essas frações”. Será interessante ver como se dará a acomodação da base do governo pós-eleições municipais de 2012, pois isso será importante para a agenda de reformas do governo ou para o aprofundamento do modelo que prevalece desde o mesalão, baseado em aumento do gasto público, aumento de arrecadação e com uma agenda de reformas tímida ou inexistente. Em especial, Ciro Gomes lembra que o governo ainda carece de “um defeito de engenharia política grave” e que isso pode levar a problemas com sua base no Congresso.

Terceiro, no seu melhor estilo, o ex-ministro bate a assopra ao mesmo tempo. Elogia a presidente Dilma porque ela “ela recebeu uma equipe, fruto da injunção político eleitoral e está tendo que consertar essa equipe na medida dos escândalos ou das contradições”, mas fala também que a presidenta governa sem projeto e critica o PAC, que na sua opinião é um “rudimento ínfimo de planejamento”. Adicionalmente, não poupa a base aliada do governo: “o arco de forças que compôs a base de sustentação da Dilma era a crônica de uma morte anunciada. O cimento dessa aliança foi a fisiologia e a expectativa de roubalheira sem nenhuma dúvida”. Uma aliança que, segundo Ciro Gomes, foi se formando e consolidando no pós-mensalão.

Como não sou cientista político, vou me abster de tecer comentários mais profundos sobre as duas entrevistas do ex-ministro. É claro que pelos pontos acima o que chamou minha atenção foi a perspectiva de Ciro Gomes de uma crise política à frente (a depender do comportamento do PT nas eleições municipais de 2012) que pode agravar os reflexos da crise econômica no Brasil – aumentar o preço da aprovação de reformas ou dificultar a agenda do governo Dilma que conta com uma base de apoio político de fidelidade ainda incerta.

7 pensamentos sobre “Ciro Gomes (PSB) e Crise Política

  1. Será quanto Ciro Gomes de quem já tive um bom conceito , recebeu do Gov. Lula para desistir de uma eleição a Presidente da República? Por falar nisso, Lula continua com o mensalão(forma de falar corrupção) para comprar estes políticos e povo batendo palmas…

    • Boa pergunta Dantas. Não sei. A única coisa que tenho certeza é que o partido dele sofre das mesmas contradições que os demais que ele acusa.

  2. Em primeiro lugar, como é a primeira vez que me expresso aqui, me sinto na obrigação de elogiar o autor do blog. Parabéns pela iniciativa e qualidade das postagens.
    Em segundo lugar, o Ciro Gomes me convenceu em votar nele na eleição pra presidente. Vi o candidato ideal, correto, articulador, tinha respostas prontas e bem construídas para qualquer tipo de pergunta. Quando perguntavam de onde viria a verba para determinado projeto, pá, lá estava a resposta perfeita. Passada a eleição quando assumiu um ministério no governo do Lula, o cara que ele provou que não “prestava” para o cargo, morreu pra mim. Nem que seja o único candidato de uma eleição receberá voto meu ou de meus familiares. Sei que esse comentário não tem nada haver com o assunto em pauta, mas quando fala dele tenho que me expressar, obrigado.

    • É Cleverson, entendo o que você fala. Eu próprio no passado tinha uma grande admiração por ele, mas nem sempre ele se mostrou coerente com o que falava. Abs e obrigado por ler o blog.

  3. Caro Mansueto,
    Uma das coisas que vem infelicitando o Brasil, por décadas, é que quem realmente faz o diagóstico correto e tem o medicamento correto, não tem a caneta. É sempre assim!
    Ô raça…

  4. Ciro Gomes expressa na entrevista um pensamento muito afeito ao conservadorismo político. Assim, ele é apenas mais um. A prova? A crítica que ele faz ao parlamento.

    A pergunta que a jornalista não fez é: por que o parlamento brasileiro é assim? Ou, como o parlamento brasileiro ficou assim? Há toda uma história que o político simplesmente elude na entrevista. Faça-me o favor!

    Ciro é um legítimo representante do establishment político que ele critica. Por que ele e o partido dele pouco fazem para mudar esse status quo? Por que a crítica dele não vai à origem, isto é, ao nosso presidencialismo absolutista.

    O conservadorismo político é useiro e vezeiro na artimanha do apelo ao realismo político. Mas o suposto maquiavelismo revela o mais vulgar oportunismo, a desmesurada ambição pelo poder a qualquer custo, a hipocrisia dos nossos jacobinos disfarçada sob faces e falas angélicas. Sem a corrupção ética da esquerda, o campo político de Ciro Gomes, o parlamento seria o que é?

    Parafraseando Fernando Pessoa, “Arre, estou farto de semideuses!”.

  5. Bom, com um pouco de atraso. Mas, o Sr. Ciro, desaparece depois de cada eleição. Da mesma forma, aparece a cada eleição. Como tem respostas para tudo e uma receita para cada problema, é de estranhar que ninguém o queira em suas hostes. Mais não dá para dizer, exceto que ele sempre estaria certo em tudo que critica discordando. Contudo, estaria sempre errado em tudo em que opina concordando. Seria o ideal para o governo, qualquer governo. Exceto para o governo que não precisaria dele para absolutamente nada.

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