Neoliberais e desenvolvimentistas

Valor Econômico – 30 de setembro de 2011

Por Mansueto Almeida

É comum encontrar nas páginas de jornais e em artigos acadêmicos um embate entre os chamados economistas neoliberais e os desenvolvimentistas. Em linhas gerais, os neoliberais são taxados de “cabeças de planilha”, que acreditam ingenuamente em um mercado que se autorregula, na abertura comercial, na liberalização do fluxo de capital e dão importância excessiva aos fundamentos econômicos.

Os desenvolvimentistas seriam aqueles que acreditam no papel regulador do Estado, na proteção do mercado para fomentar a indústria doméstica, defendem a redução da taxa de juros e não veem restrições ao crescimento que não sejam a falta de ação do governo. A preocupação com os fundamentos econômicos é secundária, inclusive com a inflação, pois esse grupo acha irrelevante a discussão se a inflação será, por exemplo, de 6,45% ou 6,75% – a casa decimal pouco importa e, às vezes, nem mesmo o número inteiro.

O debate, quando colocado dessa forma extrema, até faz sentido do ponto de vista acadêmico, mas é pouco construtivo para o debate econômico atual e vários dos economistas que insistem em caracterizar de maneira caricatural seu suposto oponente sabem disso.

Um bom exemplo é o debate em relação à inflação. Em vez da discussão daqueles que defendem uma inflação de 0 a 3% ao ano, neoliberais, e aqueles que não se importam com a inflação, desenvolvimentistas, o debate atual é muito mais sutil e complicado. O que se discute hoje é a velocidade de convergência para a meta de inflação de 4,5% ao ano e as medidas necessárias para que essa convergência ocorra.

Alguns economistas acham que o Banco Central (BC) exagerou no seu cenário catastrófico da economia mundial, outros acham que o cenário do BC é cada vez mais provável e há sim uma chance real de o Brasil reduzir os juros. Mas há um quase consenso que esse esforço de redução do juros só será bem sucedido se acompanhado de maior responsabilidade fiscal e aumento da poupança pública. Essa tese é defendida por economistas que se identificam com as duas correntes.

Outro exemplo é em relação ao crescimento dos gastos sociais. Quando algum economista identificado com a ala neoliberal sugere o controle do crescimento dos gastos sociais como forma de reduzir o crescimento do gasto público, economistas desenvolvimentistas afirmam que seu colega neoliberal está propondo o fim do estado de bem estar social. Novamente, o debate é mais complicado. No Brasil, os gastos sociais crescem quase que continuamente desde a Constituição de 1988, mas é cada vez mais questionável a eficácia distributiva desses gastos e os desenvolvimentistas sabem disso.

Há, por exemplo, claras distorções nos gastos com pensão por morte e com seguro-desemprego, independentemente do debate se o eleitor quer mais ou menos política distributiva. Acho questionável que o eleitor entenda e queira que uma pessoa de 80 anos de idade se case com outra de 20 anos de idade e que esse ou essa jovem usufrua de uma renda vitalícia quando seu parceiro morrer. Da mesma forma, não é comum que os gastos com seguro-desemprego cresçam mesmo quando o desemprego diminui como acontece no Brasil. Racionalizar esses gastos tem adeptos nas duas correntes e, novamente, nenhuma relação com o embate entre neoliberais e desenvolvimentistas.

Em relação à falta de recursos para aumentar os investimentos em infraestrutura, saúde e educação, muitos acham que tudo pode ser “resolvido” com mais carga tributária. Mas aqueles que defendem essa proposta são grupos cuja renda depende mais do seu poder de lobby do que da sua produtividade. O problema é que mais carga tributária, para um país de renda média como o Brasil, fatalmente comprometerá o crescimento da economia. Novamente, neoliberais e desenvolvimentistas se colocam, em geral, contra novos aumentos da carga tributária.

Por fim, a última edição do índice de competitividade global do World Economic Forum mostra, mais uma vez, que os maiores problemas de competitividade do Brasil quando comparado com outros 141 países são: 1) a baixa qualidade da nossa infraestrutura; 2) elevada carga tributária, 3) excesso de regulação; 4) baixa qualidade da educação primária, 5) rigidez no mercado de trabalho; 6) burocracia na abertura de novos negócios, e 7) dívida e spread bancário elevados. Aumentar o investimento em infraestrutura e melhorar a qualidade da educação, por exemplo, não tem absolutamente nenhuma relação com o debate estéril entre desenvolvimentistas e neoliberais.

O que precisamos saber, por exemplo, é como reduzir o spread bancário, aumentar a eficiência do estado na execução de obras públicas, melhorar a eficácia dos gastos sociais, que já são elevados, reduzir as distorções dos gastos com pensão por morte e as regras de concessão do seguro desemprego. No mundo real, o governo é mais pragmático e busca a aprovação do eleitor. Se a elevação da inflação reduzir o índice de aprovação do governo, este voltará a ser mais “neoliberal”. Por outro lado, se a ousadia do Banco Central se mostrar correta, o governo será mais desenvolvimentista. É “simples” assim, mas há ainda economistas supostamente maduros que não se cansam de brincar do bem contra o mal ou da batalha estéril entre desenvolvimentistas e neoliberais.

12 pensamentos sobre “Neoliberais e desenvolvimentistas

  1. Parabéns Mansueto, o artigo é bastante objetivo e supõe-se que o esclarecimento prestado pode afastar das discussões entre as duas correntes de pensamento o viés político que alguns ainda insistem em atribuir, talvez por ignorância ou mesmo má fé. Abraço, Boll.

    • Obrigado José Luis. Havia ficado na maior dúvida se valia ou não publicar este artigo, mas resolvi fazê-lo porque esse debate de extremos não ajuda em nada a resolver os problemas que temos que resolver.

      Abraço,

      Mansueto

  2. Parabéns pelo belo e correto artigo (o assunto merece). Mas ler escritos de professores de escolas de economia de primeira linha (SP, Brasília, Federais), que o pensamentpo neoliberal é contra todas as formas de regulamentos, que foi o culpado da crise de 2008 (sem especificar uma causa com clareza), é duro (e os alunos?). Se o pensamento liberal é contra o poder discricionário em política econômicae os keynesianos são a favor, quem seria contra normas? O pensamento liberal (e neoliberal) defende normas para limitar o poder discricionário do estado e do mais forte (defender a concorrência, já que não existe liberalismo sem concorrência). A meta de inflação, o superavit primário, o câmbio flutuante, são normas que limitam o poder discricionário (é por isto que são contra). Onde leram (se já leram livros de autores liberais) que o liberalismo é contra as boas normas prudenciais (e sua applicação) e contra auditorias? Os liberais são contra os excessos das normas e daquelas que aumentam o poder discricionário de autoridades.

    Todos de bom senso sabem que a política monetária extremanente expansionista (fed funds abaixo dos T Notes de 2 anos) por muitos anos, fez os ativos que não moeda (imóveis, um deles), subirem muito acima dos IPCs. O risco de crédito com o bem financiado valendo mais do que a dívida era quase zero. Mas deixaram de considerar que uma bolha estava se formando. Quando viraram a política monetária para contracionista foi muito rápido, em excesso e por muito tempo (os fed funds foram fixados acima dos T Notes de 5 anos). A furada da bolha foi rápida e levou de roldão o sistema financeiro americano.
    Os CDS (credit default swap = swap de risco de crédito) foram utilizados pelos bancos americanos para pulverizar riscos (na verdade estavam pulverizando perdas, vendendo micos para desavisados ou gananciosos). Os grandes bancos fizeram isto, no passado, com os títulos argentinos (repassando-os para os aposentados italianos). Quase todos sabiam que a Argentina estava insolvente, mesmo assim era considerada um risco menor do que o Brasil. E a Grécia hoje? Insolvente (sabido por todos). A solução é uma perda transparente (perdão de parte da dívida) ou alongamento sustentado pelo BCE. A Espanha não é insolvente, basta ter um suporte. A Itália apesar de financeiramente insolvente tem economia para suportar um aperto de vários anos e sair da crise.
    http://mageconomia.blogspot.com/

    • Marco Aurélio,

      você tocou em um ponto muito bom. Às vezes fico surpreso com o que nossos professores de economia ensinam e como falsificam o pensamento de outros para tentar defender suas teses. Tenho um grande respeito pela academia, mas como em todo lugar, há pessoas que gostam muito mais de falar mal dos outros do que discutir idéias.

      Bons pontos esses que você levanta da crise e não conhecia essa história dos títulos argentinos que haviam sido repassados para os aposentados italianos. Abs, Mansueto

  3. Nunca entendi porque as pessoas diferenciam neoliberais e desenvolvimentistas por suas supostas orientações de política econômica (é bom lembrar que economistas novo-keynesianos são mainstream e não se enquadram em nenhuma dessas categorias). As propostas de política diferem mesmo dentro desses grupos. O que diferencia essas (e quaisquer outras) escolas de pensamento (se é que desenvolvimentismo é isso) é o método. A diferença é metodológica!
    O ponto é que em política pública não vence quem está “correto”, mas sim aquele que é capaz de convencer os outros. Resume-se a retórica. Como convencer a sociedade em tomar certas atitudes em prol do crescimento de longo prazo? O que vale é o imediato, o agora. Tome reajuste do mínimo, beneficio social, transferências, etc.

    • Há algumas diferenças que são fundamentais, mas acho que esse debate está passando do limite com pessoas falando que o Brasil agora vai crescer porque abandonou a “teoria neoliberal” — nem vou citar nomes porque todos sabem que são essas pessoas.

      Acho uma grande tolice o rumo que tomou esta discussão e quanto a sua observação sobre a retórica, concordo com o seu ponto por isso que é tão difícil fazer reformas aqui e lá fora.

  4. Discordo de Mansueto. Para mim o debate entre desenvolvimentistas e neoliberais não é de forma alguma “estéril”. Para começar, os argumentos neoliberais (e liberais, que antecederam a corrente “neo” nascida nos anos 70 do milênio passado) estão, “grosso modo”, demolidos pelos fatos reais: ou seja, não há, na realidade, “debate” no sentido igualitário do termo. A citação, repisada à guisa de exemplo por Mansueto, de “distorção” relativa à concessão de benefício de pensão por morte de homem de 80 anos que casa com mulher de 20 se liga a fato excepcional, sem significação estatística – o autor não se apoia em dados empíricos -, cuja “correção”, através de modificação da legislação previdenciária, significaria a emergência indesejada de custos (sociais, políticos e econômicos – e psicológicos) muito superiores aos supostos benefícios que adviriam da ação “corretora”.

    • Caro Frederico,

      respeito sua opnião, mas em questão de estatistica, há ampla evidência que o Brasil gasta com pensões por morte 3,5% do PIB, enquanto a média mundial é de 1% do PIB. Marcelo Abi-Ramia Caetano do IPEA fez esses cálculos. Mais tarde coloco neste blog o gráfico que não deixa dúvidas que, no caso de pensões por morte, o Brasil é “um ponto fora da curva”.

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