Perdemos a Chance de Testar o Limite de Redução da Taxa de Juros

Confesso que fiquei intrigado quando lí nas últimas duas semanas economistas como André Lara Resende e Pedro Malan falando da possibilidade de o governo utilizar o agravamento do cenário externo para adotar uma política fiscal mais austera e uma política monetária mais agressiva para testar nosso limite de redução do juros.

Os sinais que vinham do governo com declarações do ministro da fazenda mostrando aos congressistas a importância de controle fiscal como uma forma de reduzir a taxa de juros deixou muitos impressionados. Esse não é o meu caso. Não há a mínima possibilidade de termos uma política fiscal austera em um cenário no qual os gastos fiscais já estão contratados. Fiz nota sobre isso que deverá sair em matéria no Estado de São Paulo neste final de semana, mas a coluna da jornalista Clauda Safatle hoje no Valor Econômico com declarações em off de economistas do governo (leiam aqui) deixa claro uma coisa – esqueçam controle fiscal para o próximo ano.

Assim, os cenários que trabalho nas minhas análises são: (1) com a crise mundial se agravando, perderemos a chance de sermos mais ousados na tentativa de testar nosso limite de redução da taxa de juros; e (2) sem crise lá fora, essa expansão fiscal será sim inflacionária e o BACEN terá que trabalhar por mais tempo com juros elevados.

É claro que os juros serão reduzidos com o agravamento da crise. No entanto, como a política fiscal será expansionista muito mais do lado da despesa corrente do que do investimento, não teremos espaço para testar o nosso limite de redução da taxa de juros.

Por fim, não me contenho em comentar trechos da coluna da Claudia Safatle com declarações em off da equipe econômica.

(1) “Vamos abater o PAC (do superávit primário), porque, agora, vislumbramos uma situação bem estruturada”, informou um ministro.

Bem estruturada em que sentido? O governo olha para a questão do primário estritamente do ponto de vista da sustentabilidade da dívida e, por esse critério, podemos trabalhar com um superávit menor. Não leva em conta que o problema fiscal atual está muito mais relacionado à expansão da demanda e seu efeito inflacionário. Em um contexto de agravamento da crise, a expansão fiscal vai limitar a chance de testarmos uma redução mais ousada dos juros.

No mais, para um país com uma taxa de investimento tão baixa e com promessa de campanha para elevar o gastos com educação de 5% para 7% do PIB e ainda com a necessidade urgente de reduzir impostos para “salvar” a indústria, não consigo ver essa “situação bem estruturada”.

(2) “A estabilidade era uma conquista que não poderíamos perder”, comentou. “Mas a Esplanada (dos Ministérios), hoje, está no chão”, arrematou, referindo-se ao aperto de recursos em que estão os ministérios e os parlamentares que ainda não viram a cor do dinheiro de suas emendas.

A Esplanada está no chão porque não há como fazer, no Brasil, ajuste fiscal de forma rápida, porque o espaço de corte é pequeno: sempre recaí no investimento público (e logo em emendas parlamentares), como de fato tem acontecido este ano, e em itens de custeio (diárias e passagens de avião) que trazem pouca economia. Há que se ter em mente que o corte de R$ 50 bilhões este ano foi no orçamento e não na despesa real. A despesa pública real vem crescendo 4,5%; o que não é uma taxa pequena. Embora esse ministro não tenha falado, a grande economia do ano foi o reajuste real de “zero” do salário mínimo e uma aumento brutal da arrecadação que não se repete próximo ano. O corte de R$ 50 bi foi mais propaganda do que corte real.

(3) A decisão de cortar gastos sempre acaba afetando mais os investimentos do que as despesas de custeio, e não aumentar os investimentos públicos também em 2012 significa condenar o futuro. “Sem novos investimentos, nós não saímos do lugar”, argumentou um colaborador muito próximo da presidente.

Engraçado, no inicio do ano falavam que o investimento não seria afetado pelos cortes anunciados. Mas o colaborador da presidenta está correto. É justamente por isso que desde o final do ano passado venho defendendo ajuste fiscal gradual por quatro anos e não apenas em uma ano (clique aqui para ver artigo que publiquei no ano passado no Estadão e aqui para ver minha entrevista ao valor). O problema é que no próximo ano como aconteceu em 2009, a expansão do investimento público será muito menor do que a expansão dos gastos correntes (inclusive previdência e gastos sociais). O governo não está conseguindo definir prioridades, quer continuar o padrão de expansão fiscal da era Lula e ainda aumentar o investimento público.

(4) Nas últimas semanas, a grande maioria dos economistas brasileiros destacou que o momento conspira a favor da manutenção do rigor fiscal e da queda da taxa de juros. Ao contrário do que foi feito na crise global de 2008, quando a ênfase da reação do governo foi mais fiscal do que monetária, dessa vez a recomendação é por um ‘mix’ diferente: manter o gasto sob estrito controle e reduzir a taxa Selic. No Palácio do Planalto prevalece uma visão cautelosa. “Ninguém vai sair baixando os juros assim…. Aqui é tudo muito equilibrado”, comentou um graduado assessor da presidente.

Acho que o “equilibrado” a que se refere o assessor da presidenta é mais ou menos o seguinte: ninguém vai sair baixando os juros assim porque acreditamos que a popularidade do governo está ligada a uma política expansão dos gastos sociais, aumentos reais do salario mínimo e crescimento do investimento público que é uma agenda incompatível com redução permanente da taxa de juros. No mais, acreditamos que o problema de juros no Brasil é um problema ligado ao oligopólio dos bancos privados e não a problemas fiscais, já que temos um superávit primário que é suficiente para reduzir a divida/PIB. Assim, temos espaço para gastar e vamos aumentar o gasto público já que 2012 é ano de eleições e precisamos ajudar nossos aliados.

3 pensamentos sobre “Perdemos a Chance de Testar o Limite de Redução da Taxa de Juros

  1. Mansueto

    Você que está aí em Brasília, e que por isso mais perto de sacar o que se passa nas “internas” do governo, poderia me explicar o que exatamente uma “fonte do governo” pretende ao procurar um jornalista para soltar na imprensa a seguinte informação:

    “Celso Furtado inspira Dilma em saídas para a crisePlantão | 15/08 às 10h19 Valor Online
    BRASÍLIA – Face aos desdobramentos da crise financeira global, a presidente Dilma Rousseff decidiu revisitar a obra do economista Celso Furtado. Quem é próximo à presidente diz: a escolha não foi por acaso. Servem de inspiração a Dilma passagens da obra do economista paraibano segundo as quais o Brasil tem capacidade de construir seu próprio futuro e o Estado deve ser responsável pelo planejamento de longo prazo do país e ter um papel transformador junto à sociedade.

    Nos últimos dias, Dilma citou Celso Furtado no anúncio de duas ações consideradas estratégicas pelo governo, a nova política industrial e o programa de financiamento de bolsas de estudos para brasileiros no exterior. “Ela que pediu a inclusão da citação do Celso Furtado”, comentou um auxiliar da presidente.”

    http://moglobo.globo.com/integra.asp?txtUrl=/pais/mat/2011/08/15/celso-furtado-inspira-dilma-em-saidas-para-crise-925131907.asp

    Com todo respeito que merece a obra acadêmica de Celso Furtado, que deve sim ser lida por quem se interessa por história econômica, eu não vejo no que as ideias dele a respeito da “superação estrutural do subdesenvolvimento” possam se úteis para enfrentar os “desdobramentos da crise financeira global”.

  2. Eu tenho dito isto no maovisivel: a SELIC alta é boa demais para o governo, pois é a alavanca que permite que o BNDES distribua subsídios para assim garantir a cooperação das elites empresariais com o projeto do grupo no poder.

    • Tens toda razão “o anônimo”. Essa sua afirmação é também tema de um paper que em breve estará disponível do Mauricio Cardena, Diretor do The Brookings Institute, com o cientista político Carlos Pereira.

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