Dois Relatórios Interessantes

Lí hoje o relatório “A situação fiscal dos países AAA” da Ventor Investimentos assinado pelos economistas Fernando Gonçalves e Felipe Gottlieb. Os economistas mostram que é muito provável vários outros países desenvolvidos serem rebaixados da categoria AAA como ocorreu recentemente com os Estados Unidos e, o próximo da lista, seria a França, que tem uma divida bruta/PIB que está muito próxima de romper a barreira de 90%. Mas além da França, países como Alemanha, Inglaterra e Canadá todos têm uma relação divida/PIB superior a 80% e entrariam na lista dos candidatos naturais a serem rebaixados pelas três maiores agências de risco (S&P, Moody´s e Fitch).

É claro que esses países poderiam fazer um ajuste fiscal para evitar serem rebaixados, mas aqui mora o problema. A magnitude do ajuste fiscal exigido (aumento de receita e/ou corte de despesas) entre 2010 e 2020 para trazer a divida desses países para 60% do PIB em 2030 é absurdamente elevada. No caso da França seria necessário um aumento do superávit primário equivalente a 6,2 pontos percentuais do PIB; no caso da Inglaterra uma melhora do primário de 9,3 pontos percentuais do PIB; 4,4 pontos percentuais do PIB para o Canadá e 2,2 pontos percentuais do PIB para Alemanha. Mas os dois países que precisariam fazer o maior ajuste para trazer sua razão divida/PIB para 60% em 2030 são os Estados Unidos (aumento do primário de 11.3 pontos percentuais do PIB) e Japão (aumento do primário em 13,3 pontos percentuais do PIB).

O que significa tudo isso? Primeiro, as estimativas acima são conservadoras como alerta os autores do trabalho, já que não incluem o aumento dos gastos que decorrerão do envelhecimento da população. Quando se faz esse ajuste o cenário é ainda muito pior. Segundo, acho impossível que haja ajustes fiscais tão fortes e, assim, a classificação de risco desses países deverá piorar que é a conclusão dos próprios autores. Terceiro, como os EUA tem uma carga tributária muito abaixo da média dos países desenvolvidos, teoricamente, esse país estaria em uma situação melhor que a França para promover os ajustes fiscais necessários, mas dado o ambiente político dos EUA acho isso difícil.

Em resumo, os países desenvolvidos vão experimentar o gostinho de crise fiscal que os Latino Americanos experimentaram nos anos 80. E  no caso do Brasil, embora a sustentabilidade fiscal não seja um problema (o superávit atual leva a uma redução da divida/PIB), causou-me surpresa hoje um relatório da MetLife que mostra que o trabalhador brasileiro está muito mais preocupado com o seu futuro do que os trabalhadores americanos (ver pagina 28 do relatório), o que mostra que apesar do bom momento, muitos ainda não acreditam no futuro do Brasil e nem na qualidade da oferta de serviços públicos.

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