III Semana Acadêmica de Economia USP-Riberão Preto

Na próxima semana volto, depois de mais de dez anos, a Riberão Preto para participar como palestrante na III Semana Acadêmica de Economia. Recebí hoje a programação que me parece ser muito boa (clique aqui) e com bons palestrantes para tratar de temas que estão longe de serem triviais.

A mesa de abertura vai tratar do tema educação que para mim é um dos temas mais importantes para o futuro do Brasil. Parte dos avanços recentes nesta área deve-se ao trabalho de um dos palestrantes, Reynaldo Fernandes, que passou pelo INEP e melhorou o sistema de avaliação daquele órgão. Hoje, há no Brasil um grande debate sobre (1) modelos alternativos de gestão escolas e promoção de competição; (2) modalidades diferente de currículos para ensino médio; (3) avaliação de professores e mecanimos de incentivo à eficiência, etc.

O debate sobre qualidade de educação envolve tudo isso e um dos temas mais polêmicos é justamente a questão do ensino médio que no Brasil segue um modelo único voltado para a universidade. Há um grupo de pesquisadores que defende que deveríamos adotar não um, mas vários modelos de escola média, inclusive um voltado para o mercado de trabalho para aqueles que não querem ingressar na universidade. É claro que o problema desse modelo, que funciona bem na Alemanha, é que forçamos um adolescente a tomar uma decisão difícil muito cedo — seguir com os estudos voltado para universidade ou para o mercado de trabalho.

Uma boa leitura sobre esse debate são os capítulos da parte 3 do livro Brasil: A nova Agenda Social, 2011, organizado por Edmar Bacha e Simon Schwartzman. No caso específico do ensino médio sugiro também o curto artigo do Claudio Moura Castro publicado recentemente no Estado de São Paulo (clique aqui).

Há vários outros paineis interessante. O painel que participo vai tratar do tema espinhoso da especilização, doença holandesa e o papel das commodities na economia. Há hoje um quase consenso entre economistas que o Brasil tornou-se um país caro para se produzir manufatura. O que não está claro é como lidar com o problema ou mesmo se isso é um problema.

O argumento daqueles que acham que a perda de participação na indústria no PIB é um problema pode ser resumido neste artigo do Dani Rodrik reproduzido no Valor Econômico (clique aqui). E para aqueles que não acham que isso seja um problema recomendo os vários artigos anexos do Pedro Cavalcanti e do Renato Fragelli da FGV-RJ (clique aqui).

A única certeza que tenho neste debate é que: (1) a tendência do Brasil é sim que a indústria perca competitividade e diminua sua participação no PIB. O Brasil tornou-se um país caro espremido entre os baixos salários da China (e outros países Asiáticos) e os altos salários, mas elevada de produtividade de países como Alemanha; e (2) não vejo espaço fiscal sendo criado para desonerar seletivamente a indústria e modificar preços relativos. Esse é um debate que está em aberto no Brasil.

 

 

 

6 pensamentos sobre “III Semana Acadêmica de Economia USP-Riberão Preto

  1. O Brasil tem enormes problemas de governança econômica e enormes problemas estruturais, sistêmicos, Entre os primeiros eu colocaria o desgoverno fiscal atual, que me parece uma pesada bola de ferro grudada na perna dos empresários a impedi-los de serem competitivos externamente e internamente e de obterem ganhos de produtividade em vista da enorme porção de seu faturamento que vai direto para as burras do tesouro (nunca um nome foi tão apropriado). Sem falar, claro, nas distorções do mercado de crédito, no mercado de capitais, que estão diretamente vinculados à baixa taxa de poupança voluntária (ou privada) no Brasil (sim, por que a compulsória atinge níveis quase chineses, mas não é “desviada” para fins produtivos), e consequentemente à pífia taxa de investimento. O Estado é não apenas um despoupador líquido como um deformador absoluto do ambiente de negócios no Brasil.
    Entre os problemas estruturais mais relevantes eu colocaria o da educação. Sei que muitos economistas não atribuem um papel tão relevante para a educação no processo de transformação produtiva e de ganhos tecnológicos, achando que se pode fazer muito com ilhas de excelência e alguma importação de know-how, mas a educação de base é fundamental para a melhoria da produtividade como um todo e para a distribuição de renda.
    Infelizmente, o Brasil está fazendo TUDO (e eu sublinho TUDO) errado em matéria de educação, sobretudo na formação de professores, terreno no qual predominam as novas saúvas do Brasil, as pedagogas freirenas. Se o Brasil tomasse consciência do que vem fazendo de errado e começasse a corrigir esses problemas AGORA, ainda teria tempo de consertar alguma coisa no espaço de 15 anos (SIM, sublinho novamente, 15 anos) e aproveitar o bônus demográfico para ficar um pouco mais e pagar pelos velhinhos que vão comprimir a PEA dentro de mais 20 a 25 anos. Infelizmente isso não vai acontecer e vamos perder boa parte do bônus demográfico com as mesmas bobagens freireanas que devastam, aniquilam a educação brasileira na atualidade (e desde os últimos 40 anos).
    Sou moderadamente pessimista quanto à marcha geral da economia brasileira, mas sou absolutamente pessimista quanto aos problemas fiscais e educacionais. Enfim, esqueço a corrupção por enquanto.
    Mil desculpas por ser pessimista, e a despeito de encontrar excelentes nomes nessa semana de economia em RP, sinto que são (e serão, por muito tempo) poucas vozes clamando no deserto.
    Infelizmente o retrocesso econômico no Brasil é muito grande, e ele é muito mais mental do que material…
    Paulo Roberto de Almeida
    Brasília.

  2. Paulo,

    compartilho de suas preocupações quanto ao nosso problema educacional e concordo que o foco do setor publico deve ser educação básica de qualidade. A questão fiscal também preocupa por motivos diferente dos países desenvolvidos.

    No caso dos países desenvolvidos, acabei de ler um bom relatório que defende a tese que alguns países que hoje são AAA serão em breve rebaixados e muitos deles terão que fazer um ajuste brutal via corte de despesas porque já têm uma carga tributária muito elevada. O caso que mais preocupa é a França cuja divida/PIB está proxima de ultrapassar o limite de 90% e precisaria fazer um esforço fiscal equivalente a 6,2 pontos percentuais do PIB entre 2010 e 2020 para trazer a divida/PIB para 60% em 2030. Acho dificil isso acontecer.

    No caso do Brasil, com o superávit primário que temos por volta de 3% do PIB é confortável para reduzir a divida, mas o que preocupa é que estamos com uma carga tributária elevadíssima, a indústria perdendo competitividade e ainda com uma baixa qualidade na oferta de serviços púbiclos. As contas que fiz recentemente mostram que, independentemente do debate se o governo será mais ou menos parcimonioso no próximo ano, grande parte dos gastos já está contratada e estimo uma expansão fiscal (aumento de despesa e novas desonerações) entre R$ 65 bilhões e R$ 83 bilhões.

    E o mais engraçado é que no meio dessa nossa aparente tranquilidade, o trabalhador brasileiro está muito mais preocupado do que o trabalhador americano. Daqui a pouco vou postar uma nota sobre isso.

    Mansueto

  3. Meu caro Mansueto,
    Mais importante do que o montante global da dívida pública, ou o esforço orçamentário para cobrir os juros da dívida, estrito senso, seria o CUSTO da dívida, a forma de seu financiamento e a eventual dependência de recursos externos.
    Um exemplo: o Japão é dos países que exibem, provavelmente, a mais alta dívida pública de todos os países avançados, e talvez de todos os países do mundo, tout court.
    Apenas que seu custo é financiado quase totalmente, senão integralmente com poupança nacional (e não necessariamente com extorsão tributária, como no caso do Brasil), seu custo é baixíssimo (provavelmente menos de 1% de juros) e sem qualquer dependência externa.
    Ou seja, o Brasil, mesmo com uma dívida pública bem abaixo de Maastricht (et encore, seria preciso considerar a dívida total, não apenas a líquida), tem um custo elevadíssimo (mais de 12%), não tem poupança para financiá-la, a não ser compulsória, além de toda a extorsão tributária sobre cidadãos e empresas, que vai continuar aumentando.
    Não tenha dúvida: o Brasil caminha para um esgotamente fiscal, como Inglaterra e França conheceram na Idade Média e na idade Moderna, e que resultaram em revoltas fiscais (dos nobres).
    O que o Brasil precisa é de uma “fronda empresarial”, como a antiga fronda aristocrática na França do Ancien Régime, mas isso vai ter de esperar uma crise no BNDES, nos bancos públicos em geral, e na elevação da carga fiscal acima de 40% em termos nominais.
    Ou seja, teremos mais extorsão fiscal pela frente, por mais alguns anos, até que esses empresários comprados aprendam que o governo está preparando a corda que vai enforcá-los, como dizia Lênin.
    Vai demorar um pouco, mas a sociedade vai aprender um dia.
    Pena que será preciso uma ou duas crises antes que isso ocorra.
    Paulo Roberto de Almeida

  4. Entendi o seu ponto, mas no caso da Europa agora eles estão tendo o problema não só do estoque cmo também do custo. No nosso caso, apesar de termos um estoque relativamente baixo temos um custo excessivo e, assim, o esforço fiscal deveria ser maior.

    Concordo e o único equilibrio para o que o governo vem fazendo é ou redução do primário (o que vai acontecer com certeza já em 2012) e aumento ainda maior da nossa elevadíssima carga tributária (o que também espero que aconteça).

    Enquanto isso, deixamos de discutir o que realmente importa: educação, saúde, segurança pública e infraestrutura. Se o governo se preocupasse mais com o que se espera do governo e menos com políticas setoriais estariamos em uma situação melhor.

    Mansueto Almeida

Os comentários estão desativados.