Cinco Motivos pra você Desconfiar de Alguns Políticos e Consultores Econômicos

Sempre que você escutar uma das afirmações abaixo, pergunte em seguida exatamente o que seu interlocutor quer dizer. Escuto muitos políticos e consultores econômicos falarem sobre esses assuntos sem, propositadamente ou não, deixarem claro o que pensam.

Vamos a lista que elaborei de afirmações supostamente inteligentes que não dizem coisa alguma.

(1) “Precisamos reduzir o custeio e aumentar a eficiência do setor público”

Essa é para mim uma das afirmações mais vagas que existe. Uma frase que todos falam para impressionar, mas que não significa coisa alguma. Reduzir exatamente quais contas de custeio? Passagens de avião? Qualquer economia de custeio será minima se não mexermos  no crescimento das despesas da seguridade social e na política de valorização do salário mínimo.

O ideal seria perguntar aos partidos políticos se eles estariam dispostos a reduzir o crescimento dos gastos sociais, modificar a política de valorização do salario mínimo e modificar a regra de concessão de pensões no Brasil e acabar com as distorções da previdência pública e privada. Claro que falar sobre esses pontos é mexer em vespeiro eleitoral. Assim é melhor falar em redução do custeio e eficiência da máquina, você faz muitos amigos e nenhum inimigo, embora esteja sendo desonesto intelectualmente com todos.

(2) “O Brasil não deve ser preocupar tanto com a convergência para a meta de inflação de 4,5% em 2012. O custo seria muito alto.”

Uma coisa que é cada vez mais clara para mim é que muita gente de dentro e fora do governo fala a favor do sistema de metas e, simultaneamente, faz análises baseadas em otimismo, como uma queda esperada nos preços da commodities em 10% e uma desaceleração suficiente do nível de atividade para trazer a inflação para a meta. Se retirarmos o ano de 2009, temos um inflação média de 2008, 2010 e 2011 próxima de 6% ao ano. O que me parece é que muita gente critica o Banco Central por aumentar a taxa de juros, fala que esse instrumento não funciona, mas ao mesmo tempo não consegue dar uma única solução para trazer a inflação para a meta de 4,5%.

Na verdade, muitos defendem o sistema de metas e, ao mesmo tempo, acham normal que o Brasil trabalhe próximo do seu limite superior. Por que esses economistas ou políticos simplesmente não defendem abertamente um aumento na meta de inflação? Poderiam dizer que acham tolice uma meta de inflação “tão baixa de 4,5% ao ano”.

(3) “Precisamos fazer uma reforma tributária ampla e reduzir o peso dos impostos que sufocam a economia brasileira”.

OK, mas reduzir peso dos impostos por meio de uma agenda agressiva de desoneração tributária significa ou redução do superávit primário ou corte de gastos. Acho que a tendência do resultado primário do Brasil nos próximos três anos já é de redução  para que possamos aumentar o investimento público. Mas se além disso quisermos cortar impostos, seria bom decidir quais gastos serão cortados.Falar em corte de custeio não vale porque voltamos para o problema (1) acima.

Será que algum político ou economista está disposto a defender publicamente corte de despesas sociais ou a modificação da política de valorização do salario mínimo? Será que alguém defende cortes das despesas com o SUS, apesar de quase um terço da população ainda não ter acesso a serviços de saúde? Não confie em alguém que diz que precisarmos reduzir a carga tributária e não fala exatamente quais despesas serão cortadas ou seu crescimento controlado.

(4) “Precisamos de uma política industrial para aumentar a competitividade da indústria brasileira e aumentar as exportações de manufaturados.”

Essa é outra afirmação que todos gostam de falar aos quatro ventos para quem quiser ouvir e as pessoas ainda dirão que você é inteligente. Acontece que desde 2008 com a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP)  o governo tem sido muito eficiente em ajudar empresas grandes em setores nos quais o Brasil já tem vantagem comparativa. O benefício para essas empresas em ter um sócio como o BNDES é muito bom, mas é questionável o benefício dessa política para o Brasil.

E para aumentar a competitividade da indústria brasileira seriam necessárias medidas em diversas frentes: (i) aumentar investimento público para melhorar a infraestrutura e aumentar a competitividade de todos os setores; (ii)  aumentar as concessões de portos e aeroportos para o que setor privado faça os investimentos necessários; (iii) aumentar e melhorar o investimento em educação, modificando inclusive o funcionamento do ensino médio que é muito voltado para o ensino superior; (iv) aumentar o investimento na pré-escola; (v)  melhorar os incentivos a P&D e inovação; etc.

No caso de incetivos à inovação, estamos falando de poucos recursos que caberiam nas fontes de recursos já existentes. No ano passado, o Banco Mundial emprestou US$ 44 bilhões em 164 operações em 46 países. O BNDES sozinho emprestou US$ 99 bilhões. Sem a ajuda alguma do Tesouro Nacional, a capacidade de empréstimos do BNDES seria ainda de US$ 60 bilhões ao ano, sem contar ainda com a carteira do BNDESPar (por volta de US$ 50 bilhões) que poderia mudar sua composição — desinvestir em algumas empresas e ser parceiro de outras menores em atividades de maior retorno social ou em projetos de infraestrutura.

Hoje, no Brasil, as pessoas falam de política industrial colocando no “mesmo prato” incentivos bilionários a frigoríficos com incentivos menores a até mesmo irrelevantes para atividades P&D e inovação. Investimentos bilionários como a construção do Trem Bala, de navios petroleiros do Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro (PROMEF) e parcerias do BNDESPar com grandes empresas são chamadas de política industrial como também investimentos de R$ 10 milhões para incentivar inovação. O que muitos chamam de política industrial não passa da simples concessão de crédito subsidiado – isso não é nem a velha politica industrial nem a nova voltada ao que os professores de Harvard Rodrick e Hausmann (2003) chamam de  promover “self-discovery”.

Por exemplo, qual a política industrial na construção de refinarias bilionárias pela Petrobrás? absolutamente nenhuma. Lembro-me que Antônio Barros de Castro uma vez foi taxativo quanto a isso: “não há nada de política industrial em colocar aço e cimento juntos e refinar petróleo”. Por outro lado, muito do que fizemos com as pesquisas via Embrapa poderiam ser denominadas de “politica industrial”– foco em inovação e o beneficio da pesquisa não era apropriado por um empresa, mas por todo um setor.

(5) “O Brasil precisa aumentar a sua taxa de investimento para crescer de forma sustentável.”

Pergunte em seguida de que forma o país deve aumentar sua taxa de poupança para financiar o nível maior de investimento sem aumentar de forma excessiva o déficit em conta corrente? A única poupança sob o controle direto do governo é a sua própria poupança: a pública. Assim, para aumentar essa poupança para investir mais significa aumentar a carga tributária ou cortar gastos. Caso isso não seja feito, o aumento da taxa de investimento na economia brasileira será seguido do crescimento do déficit em conta corrente e mais valorização do real.

O jeitinho brasileiro de aumentar a taxa de investimento” – emissão de divida pública para emprestar para o BNDES – não cria poupança. Se crescimento da dívida fosse suficiente para aumentar a taxa de poupança e investimento em uma economia, bastaria aumentar ainda mais a divida pública para aumentar os empréstimos para o BNDES. Hoje esses empréstimos já passam de R$ 300 bilhões e têm um custo elevado, que nunca é explicitamente divulgado nem tão pouco discutido.

Ponto Chave: muito cuidado com políticos, economistas e consultores que prometem o Céu nas suas análises utilizando chavões que todos nós gostamos de ouvir: eficiência, controle do custeio, reforma tributária, controle da inflação, política industrial e aumento da taxa de investimento.

Alguém é contra essa agenda? Absolutamente ninguém. O problema no entanto surge quando os temas acimas são transformados em propostas de política  e, então, se descobre as inconsistências do discurso superficial pró-crescimento. E isso não tem absolutamente nada a ver com teoria neoclássica ou com economistas liberais. Tem a ver com bom senso, o que hoje falta a muita gente no Brasil.

A propósito, não tenho a solução para os pontos levantados acima.Tenho o diagnóstico dos problemas, mas a decisão do modelo de crescimento que queremos é da sociedade, que pode optar por crescer menos e continuar com a mesma politica de valorização do mínimo , sem mudança alguma nas regras da previdência e pensões.

Minha visão sobre conjuntura: podcast Rio Bravo

Na semana passada fui convidado a dar um longa entrevista de 30 minutos para a série de podcasts da Rio Bravo. As perguntas eram baseadas em temas que trato neste blog.  Aqueles que acompaham este blog podem se interessar nas perguntas sobre BNDES, Gasto Fiscal, etc que trato ao longo da entrevista que está disponível na página dos podcasts da Rio Bravo, podcast 194 com o título “BNDES e os campeões nacionais”.

É claro que vale a pena escutar outros podcasts que são muito interessantes. Eu próprio já baixei pelo menos uns vinte para escutar ao longo da semana.  Boa iniciativa esta da Rio Bravo e fico feliz de ter sido convidado a participar e de poder contribuir para o debate, além de ter reencontrado o jornalista Geraldo Samor, um repórter especialista em temas econômicos e que havia conhecido há anos em Boston.

O Leilão do Trem Bala Fracassou: e agora?

Ninguém se interessou em apresentar proposta no leilão de hoje para a construção do Trem Bala. Não houve surpresa já que qualquer pessoa de bom senso e com um mínimo trânsito a pessoas que conhecem o projeto e eventuais interessados já sabia que isso iria acontecer. Os motivos principais do fracasso do leilão foram dois: o preço do projeto e o risco assumido pelo setor privado.

As principais construtoras do Brasil estimaram que o custo do projeto não seria inferior a R$ 50 bilhões, enquanto o governo revisou a proposta para R$ 38 bilhões depois de passar meses falando em um projeto de R$ 33 bilhões. No caso do risco, o setor privado achou insuficientes as garantias oferecidas pelo setor público e não estav disposto a colocar o seu suado dinheirinho em um projeto de risco tão elevado.

Mas se esse resultado do leilão já era esperado, restam então duas explicações para o mesmo não ter sido adiado. Primeiro, uma saída honrosa. O governo mostra que tentou, mas que não houve interessado e, assim, coloca o projeto na prateleira para data futura. Segundo, o governo faz uma revisão no preço do projeto ou aumenta ainda mais a parcela de recursos públicos como “a única forma de viabilizar um projeto que é essencial para a modernização e crescimento do Brasil”.

Espero que o governo faça opção por uma saída honrosa e até aproveite a oportunidade para criticar as empreiteiras. Insistir neste projeto no momento atual no qual há uma nítida dificuldade para fazer projetos infinitamente mais simples como a simples construção de uma pista de pouso em um aeroporto é uma verdadeira miopia e dispersão de esforços.

 É justamente a teimosia de levar adiante um projeto como o Trem Bala que mostra o quanto o Brasil ainda é subdesenvolvido e a mania de grandeza que ainda assola o nosso país.

O BNDES deve se pautar por retorno social

Segue abaixo meu artigo publicado neste sábado no Folha de São Paulo na sessão Tendências/Debates na pp.3.

Folha de São Paulo – 9 de julho de 2011

O BNDES deve participar de projetos com elevado retorno individual?

NÃO

Banco deve se pautar por retorno social

MANSUETO ALMEIDA

Há um grande debate quanto à atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, e de seu braço de aplicação no mercado de ações, o BNDES Participações (BNDESPar).

É claro que nem o BNDES nem mesmo o BNDESPar devem se comportar como uma espécie de hospital de empresas em dificuldades por conta de estratégias equivocadas dos seus administradores e acionistas. Da mesma forma, as aplicações do BNDES ou do BNDESPar não devem se pautar pelo critério do maior lucro esperado, porque, para isso, existem fundos de investimento privados e investidores individuais.

Se o BNDESPar pautasse sua atuação pela busca de projetos de maior retorno individual, essa empresa pública passaria, cada vez mais, a investir naquelas empresas mais competitivas e em setores em que o país já tem uma clara vantagem comparativa.

Esse tipo de atuação não apenas prejudicaria o desenvolvimento do mercado de capitais como também prejudicaria a boa governança das empresas brasileiras, pois as maiores exigências de transparência para conseguir parceiros privados para investimento passariam a ser um critério secundário diante do maior ou menor acesso privilegiado a autoridades governamentais.

O caso recente da fusão Pão de Açúcar/Carrefour, com eventual participação de R$ 4 bilhões do BNDESPar, gerou o saudável debate sobre a atuação do BNDES. Esse caso é apenas um entre vários nos quais o BNDESPar aportou recursos públicos com atuação mais parecida a um fundo de investimento privado do que à de uma empresa de investimento pública, que deve pautar sua atuação em projetos de maior retorno social ou em projetos de inovação, ligada a novas tecnologias ou à descoberta de vantagens comparativas.

Projetos de infraestrutura complexos, que exigem elevados volumes de recursos e de retorno social elevado, são candidatos naturais à possível participação de bancos públicos, mesmo que o retorno individual de alguns desses projetos seja baixo. No caso de investimento privado, o BNDES (e o BNDESPar) poderia se espelhar em algumas experiências internacionais.

No Chile, a produção de salmão em cativeiro e sua exportação decorreram de uma experiência de sucesso da Fundación Chile (uma instituição com orçamento anual de US$ 30 milhões). Tão logo se constatou que a atividade era economicamente viável, a produção de salmão foi vendida para empresa privada; outras empresas privadas, posteriormente, investiram na atividade, que se provou lucrativa. No caso do fundo de “venture capital” Yozma, em Israel, o governo estabeleceu uma parceria com fundos privados, em 1992, para investir em empresas de base tecnológica.

O setor público colocou US$ 8 milhões para cada US$ 20 milhões de recursos privados; os investidores privados tinham opção de compra da participação do governo em até cinco anos. Um investimento inicial minoritário do setor público, de US$ 100 milhões, gerou, depois de dez anos, um valor de mercado de US$ 2,9 bilhões.

O BNDES tem autonomia de empréstimos anuais de quase R$ 100 bilhões, e o BNDESPar tem carteira de ações de mais de R$ 90 bilhões. Recursos mais que suficientes para atuar como banco público, mas insuficientes se esse banco quiser ser o grande investidor “privado” na economia brasileira.

Custeio, PAC e Demanda Agregada

Há duas semanas coloquei neste blog um quiz fiscal. Dado que a execução do PAC aumentou de janeiro a junho em mais de 25%, isso significa que o PAC foi de fato preservado do corte programado de R$ 50 bilhões em fevereiro deste ano e teve impacto expansionista na demanda agregada? A resposta é não e agora explico porque.

Um primeiro ponto que merece esclarecimento é que a única parte do PAC que  é possível acompanhar diretamente via execução financeira do Sistema Integrado da Administração Financeira do Governo Federal (SIAFI) é a parcela pequena (menos de 15%) que é financiada pelo orçamento fiscal e da seguridade social. Um segundo esclarecimeto que poucas pessoas entendem é que as despesas do PAC estão divididas em despesas de investimento propriamente dita, mas também depesas de custeio como são as transferências ao Fundo de Arrendamento Resisdencial (FAR) que servirão para subsidiar as moradias populares do programa Minha Casa, Minha Vida.

Dito isso, está acontecendo algo bastante interessante na execução do PAC que influencia o seu impacto na demanda agregada. Com pode ser observado na tabela abaixo que mostra a variação da execução do PAC (valores pagos) de jan-jun de 2011 (até dia 22) em relaçõa a jan-jun de 2010 com os valores atualizados para junho de 2011, a execução do investimento público do PAC foi reduzida em R$ 1 bilhão (investimento mais inversões finceiras) e as despesas de custeio aumentaram em R$ 2,8 bilhões.

Crescimento da Excução do PAC jan-jun: 2011 x 2010 – valores de junho 2011

Fonte:SIAFI. Elaboração Mansueto Almeida

Acontece que as despesas de custeio do PAC que são na sua maioria transferências para o FAR é um gasto que já teve seu impacto na demanda agregada quando as casas populares estavam sendo construídas. Por isso que falei no quiz fiscal que o crescimento da execução do PAC não está contribuindo para a expansão da demanda agregada, pois o crescimento da despesa de custeio primária (transferências ao FAR) refere-se a investimentos (construção de casas) que já foram feitos no passado pelo setor privado e as despesas de investimento do PAC este ano caíram.

A notícia ruim (dado que hoje o fiscal preocupa muito mais pelo seu impacto na demanda do que pela sustentabilidade da dívida) é que com a segunda etapa do programa habitacional Minha Casa Minha Vida já anunciado pelo governo e que contará com investimentos de R$ 125,7 bilhões até 2014 e subsídios de R$ 72 bilhões para a construção e venda de mais de dois milhões de novas moradias, o efeito expansionista dessa nova fase deste programa começa já no segundo semestre de 2011 independentemente da data do pagamento dos subsídios que terão impacto com um ou mais anos de defasagem.

Em resumo, se você se preocupa com impacto na demanda agregada da despesa fiscal, aconselho a olhar com mais cuidado a composição do PAC. Disponibilizo anexa a nota que fiz sobre o assunto (clique aqui) com algums outros dados. Esta nota foi matéria na primeira página hoje no Jornal Valor Econômico escrita pelo jornalista João Villaverde (clique aqui).

O caso do Carrefour e da Prefeitura de Porto Alegre

Segue abaixo uma história que procurava que foi escrita, em inglês, pela professora Judith Tendler do Massachusetts Institute of Technology (MIT) (clique aqui para ver o texto pp.42-47) e utilizada neste texto do Glauter Rocha, pesquisador do CGEE, sobre subsídios fiscais e desenvolvimento local que transcrevo uma parte abaixo.

Esse caso mostra o poder que o governo tem, via negociação e regulação, de promover o desenvolvimento local. O governo não precisa ser sócio do empreendimento. No caso descrito abaixo, o governo de Porto Alegre condicionou a concessão da licença para o Carrefour instalar um hipermercado na cidade à ajuda aos produtores locais na periferia de Porto Alegre para que esses se adequasssem à politica de compras Carrefour e, em caso de êxito, que o hipermercado comprasse parte de seus produtos desse produtores locais.

Foi uma situação que, em inglês, chamamos de win-win solution: ganhou os pequenos produtores que se modernizaram para se tornarem fornecedores do Carrefour e ganhou o Carrefour que teve a autorização para instalar o hipermercado e cumpriu com as várias exigências do governo local, inclusive, contratar pelo menos 10% dos trabalhadores com mais de 30 anos de idade, já que o estudo da prefeitura descobriu que o desemprego gerado pela entrada do Carrefour no mercado seria maior na faixa de idade dos 30-50 anos.  Para alcançar esse resultado positivo, o governo de Porto Alegre não precisou se associar ao Carrefour.

Bem que o novo PT poderia aprender com o velho PT que, na época, governava Porto Alegre.

 O caso do Carrefour e da Prefeitura de Porto Alegre

“…. O primeiro exemplo, extraído de Tendler (2000), envolve uma negociação entre a Prefeitura de Porto Alegre e a cadeia multinacional de hipermercados Carrefour. …No primeiro caso, observa-se que – baseado do Decreto Federal 11.978 de 5 de agosto de 1998, que exige uma análise de impactos dos projetos de instalação de shoppings e hipermercados que ocupem mais de 2.000 m2 – o Governo Municipal de Porto Alegre institucionalizou um processo de avaliação dos impactos sociais, econômicos e ambientais desses projetos, estabelecendo um Comitê dos Grandes Empreendimentos para analisar esses casos.

 No caso específico do Carrefour, que planejava construir um hipermercado na zona norte da cidade, uma análise demonstrou que, para cada emprego gerado por esse novo empreendimento, seis empregos seriam destruídos em um raio de 1.000 metros, devido à incapacidade dos pequenos comerciantes da vizinhança de competir com um grande estabelecimento de descontos como o Carrefour. A redução líquida de renda foi estimada em 1,8 milhões de reais por ano.

 Baseado nessa análise, o Governo Municipal de Porto Alegre solicitou, entre outras coisas, que o Carrefour se comprometesse a comprar produtos, inclusive agrícolas, de fornecedores da zona norte da cidade, requerendo a utilização de um selo indicando o local de origem, e que ele se comprometesse, também, a contratar pelo menos 50% de seus empregados dessa região. O Carrefour atendeu não só a essas, mas também às outras solicitações da prefeitura de Porto Alegre.

 Esse caso mostra, em primeiro lugar, que o poder de barganha dos governos em relação às empresas é considerável, principalmente, se elas desejarem explorar o mercado local; e segundo, que análises de custo-benefício e avaliações de impactos podem ser (e começam a ser!) realizadas pelos estados e municípios que praticam políticas de atração de investimentos no Brasil.

Supermercados, desenvolvimento e falácias

Valor Econômico – o1 de julho de 2011

É grande a importância do pequeno varejo e dos pontos de venda em bairros.

Supermercados, desenvolvimento e falácias

Mansueto Almeida

Causa surpresa a possível participação do BNDESPar com até R$ 4 bilhões na operação de fusão do supermercado Carrefour no Brasil com o grupo Pão de Açúcar. As explicações dadas por autoridades governamentais para a participação de um banco público nessa operação – aumento das exportações e importância que o setor de varejo no Brasil seja controlado por uma companhia nacional – mostram desconhecimento do funcionamento do setor de varejo.

A concentração do varejo é uma tendência mundial. No caso recente do Brasil e América Latina, essa concentração está ligada, do lado da demanda, ao crescimento da urbanização, participação crescente da mão de obra feminina no mercado de trabalho e expansão da renda per capita, que aumentou a demanda por refrigeradores e permitiu ao consumidor estocar por um tempo maior comidas perecíveis, o que diminuiu a necessidade de idas frequentes aos supermercados.

Do lado da oferta, a saturação da concentração do varejo na Europa e nos Estados Unidos empurrou as grandes redes para os países em desenvolvimento. Adicionalmente, o desenvolvimento tecnológico do setor com o controle de estoques computadorizados e informação on line entre as grandes redes e seus fornecedores aumentou ainda mais a eficiência das grandes redes de supermercados.

Segundo dados da AC Nielsen, as cinco maiores redes de supermercados no Brasil respondiam por 23% das vendas totais do setor, em 1994, e essa participação aumentou para 41%, em 2000. Desde então a participação das cinco maiores redes oscilou ao redor desse valor e atingiu uma participação de 43% em 2009. Mesmo assim, a concentração do setor de supermercados no Brasil ainda é menor do aquele observado em países desenvolvidos da Europa no início do século atual: Reino Unido (60%); Alemanha (75%) e França (67%).

Esse processo de concentração dos supermercados, que é uma etapa natural de evolução desse tipo de comércio levou vários países a adotarem medidas restritivas para contrabalançar esse movimento devido aos riscos que traz para os consumidores pela limitação da concorrência, como foi o caso de alguns estados nos Estados Unidos e até mesmo uma regulação restritiva para instalação de hipermercados em áreas urbanas da França. Este país adotou inclusive uma regulação mais intrusiva para controlar o poder de barganha das grandes redes de varejo (a lei Gallan).

É certo que há enormes vantagens operacionais ligadas à escala de operação e à forma de atuação das grandes redes de supermercados com suas políticas rigorosas de padrões de higiene fitossanitárias. No entanto, além dos riscos que decorre do excesso de poder de mercado e fixação de preço, há também o risco da maior concentração aumentar, excessivamente, o poder de barganha das grandes redes de varejo junto a seus fornecedores.

Um caso clássico da literatura foi o crescimento das exportações de frutas e verduras do Quênia para as redes de supermercados do Reino Unido, que em vez de aumentar, diminuiu a renda de vários produtores e levou a uma concentração da produção. Adicionalmente, em vez de aumentar a renda dos produtores, o crescimento das exportações em volume foi acompanhado por uma queda do valor unitário já que os produtores passaram a arcar com custos maiores referentes a embalagem, controle fitossanitários e custo de transportes impostos pelas grandes redes de varejo inglesas.

Há hoje na literatura de política industrial um quase consenso de que, se o governo quiser adotar algum política setorial para aumentar as exportações de frutas e verduras, por exemplo, o foco deve ser nos pequenos e médios produtores por meio de ações com características típicas de oferta de bens públicos tais como: 1) financiamento ao treinamento da mão de obra para se adequar aos cuidados exigidos no manejo das culturas; 2) informação quanto à política de compra das grandes redes de varejo; 3) políticas que facilitem aos pequenos e médios produtores se adequarem às exigências fitossanitárias das grandes redes de varejo e dos países importadores; 4) incentivos para transporte compartilhado em contêineres refrigerados para portos; 5) políticas de certificação de origem, etc.

Ou seja, para aumentar as exportações de forma inclusiva, que permita não apenas aos grandes, mas também aos pequenos e médios produtores participarem das cadeias de produção que cada vez mais são controladas pelas grandes redes de varejo, o foco da politica pública não deve ser as grandes redes de supermercados, mas sim ações voltadas para a modernização de grupos de produtores em uma mesma região.

Quem tem um mínimo de conhecimento da evolução de firmas regionais no Brasil sabe também a importância que teve e ainda tem o pequeno varejo e supermercados de bairros do Brasil. Em estudo que fiz há alguns anos escutei do diretor industrial de uma empresa, que hoje é um dos líderes no segmento de biscoitos e massas no Brasil, que o crescimento dessa empresa havia sido puxado mais pelas vendas para supermercados pequenos, o que garantia uma margem de lucro maior (por unidade), do que com vendas para o grande varejo, que apesar da margem de lucro menor garantiam um volume de vendas maior.

O argumento de que o BNDES deve participar do processo de fusão entre duas grades redes de supermercados pois essa operação é importante para a geração de emprego e aumento das exportações do Brasil carece de qualquer base empírica e não passa de uma grande falácia. No caso do consumidor, pouco importa a nacionalidade do dono da rede de varejo desde que o produto seja barato. No caso dos produtores, o que importa é conseguir se adequar a política de compras dos grandes supermercados e dos países importadores e não da nacionalidade do grupo controlador.