Não Precisamos de Economistas Brilhantes

Recentemente, lí em um artigo assinado por André Lara Resende a seguinte história:

 “Tenho consciência de quão anticlimático é concluir que para baixar a taxa de juros é preciso reduzir a despesa e a dívida pública. Logo após o fracasso do Plano Cruzado, com a inflação explodindo para níveis até então nunca vistos, Pérsio Arida e eu, já fora do governo, mas ainda com restos da áurea de milagreiros, fomos convocados ao Palácio da Alvorada para uma reunião com o presidente da República. Ao terminarmos nossa exposição sobre a necessidade imperiosa de reduzir o déficit público, como condição para qualquer tentativa de controlar a inflação, o presidente José Sarney desabafou: “Para controlar a inflação por meio da redução dos gastos públicos eu não preciso de economistas brilhantes“. (André Lara Resende, Juros Equivoco ou jabuticaba- Valor Econômico, 16/06/2011).

Essa história é interessante porque não só políticos, mas muitos economistas acreditam em milagres. Sim, em verdadeiros milagres como o fato do crescimento e a competitividade da indústria ser determinada única e exclusivamente (ou principalmente) por uma taxa de câmbio desvalorizada e taxa de juros baixa. Com essas duas medidas “simples” entraríamos em um circulo virtuoso de crescimento e tudo o mais (qualidade e oferta de mão de obra, poupança necessária para financiar maiores taxas de investimento, crescimento da produtividade, qualidade das instituições, etc.) se resolveria automaticamente.

Hoje, nessa sexta-feira meio parada e depois de um almoço tranqüilo lí artigo assinado pelos economistas José Luis Oreiro e Luiz Fernando de Paula (A Escolha de Sofia: Entre a Desindustrialização e o Fim do Estado do Bem-Estar?) publicado no Jornal Valor Econômico. A versão original desse artigo tinha como objetivo refutar artigo de autoria Samuel Pessoa e Márcio Nakane (A estabilização incompleta) publicado também no jornal Valor Econômico na semana passada.

Leiam os dois artigos e tirem suas conclusões, mas tenho que confessar que a cada linha que lia do artigo de Oreiro e Paula cada vez mais concordava com o artigo que eles pretendiam refutar.

(1) como aumentar a poupança e desvalorizar a taxa de câmbio 

O ponto chave do debate entre os dois artigos (Pessoa e Nakane vs Oreiro e Paula) é a relação juros, câmbio e poupança. Para Pessoa e Nakane, os juros altos no Brasil refletem, em parte, nosso baixo nível de poupança doméstica.

Oreiro e Paula discordam dessa afirmação e afirmam que a taxa de poupança responde a movimentos da taxa de câmbio e até citam como exemplo o início do governo Lula, quando a combinação do real desvalorizado com inflação alta reduziu o consumo privado e aumentou a poupança privada. No período mais recente, de 2008 a 2009, os economistas afirmam que a queda da poupança foi fruto das medidas de desoneração tributária.

Assim, esses economistas, que começam o artigo criticando a necessidade de aumentar a poupança por meio de medidas para conter o crescimento do estado de bem estar social, sugerem a brilhante política de: (1) desvalorizar o real e reduzir o salário real e logo o consumo privado dos trabalhadores (o que significa enganar o eleitor); e/ou (2) aumentar a carga tributária, o que elevaria a poupança doméstica.

Bom, se aumento de carga tributária ocasionasse, necessariamente, aumento de poupança, o setor público hoje teria uma poupança altíssima. A única forma de a poupança pública aumentar é justamente se esse aumento de arrecadação não se transformar em maiores gastos do governo – leia-se gasto de consumo ou transferência. Mas se for para limitar o estado do bem estar social estamos de volta ao ponto que os economistas queriam refutar.

Segundo, para uma desvalorização da taxa de câmbio (R$/US$) se transformar em uma desvalorização real de nossa moeda, os trabalhadores teriam que aceitar passivamente uma perda real dos seus salários (caso contrário a inflação doméstica anularia a desvalorização nominal da taxa de câmbio). Já escutei do professor Oreiro algo do tipo: “pacto social” com os trabalhadores para que esses aceitem, temporariamente, uma redução do seu poder de compra real que ocorreria em seguida a uma desvalorização da taxa de câmbio.

Onde está o brilhantismo dessa proposta? A proposta de Pessoa e Nakane incomoda porque é explicita e leva à sociedade a debater escolhas, enquanto a proposta de Oreiro e Paula impõe uma perda forçada (ou dificilmente negociada) do poder de compra aos trabalhadores.

 (2) Juros e Mecanismos de Financiamento do Setor Público

Outra tese controversa de Oreiro e Paula é a afirmação que o problema dos juros no Brasil é a taxa de juros de curto-prazo (SELIC) devido a existência de “Letras Financeiras do Tesouro, a “jabuticaba” brasileira, as quais respondem por aproximadamente 35% da dívida mobiliária federal”. Os juros de longo-prazo, segundo esses autores, não seriam anormais quando comparados com as taxas prevalecentes em outros países em desenvolvimento.

Segundo os autores, a existência de LFTs significa que o mercado monetário e o mercado de dívida pública estão umbilicalmente conectados e que a função da taxa de juros como instrumento de política monetária acaba afetando o financiamento da divida pública. Assim, a taxa de juros elevada de curto-prazo no Brasil não teria absolutamente nada a ver com a escassez de poupança doméstica.

Bom, vamos supor que o governo desista de se financiar no curto-prazo e resolva terminar com as LFTs e passe a financiar a divida pública com títulos pré-fixados de longo prazo. Alguém em sã consciência acha que a taxa de juros de longo-prazo vai ficar constante? É quase certo que dada à baixa poupança doméstica, o aumento da oferta de títulos de longo-prazo levará a um aumento da taxa de juros de longo-prazo. O prêmio para alongar a dívida pode aumentar ao invés de diminuir a conta de juros.

RESUMO:

Neste debate entre Pessoa e Nakane versus Oreiro e Paula, concordo mais com os ortodoxos e menos com os heterodoxos. Em nenhum momento Pessoa e Nakane falam do fim do estado do bem estar social e nem mesmo que oferta doméstica de bens é inelástica a longo-prazo. O argumento de Pessoa e Nakane deve ser entendido para o contexto atual no qual, para crescermos mais rápido, batemos em um cenário de inflação e de déficit em conta corrente em alta. Na atual conjuntura, o câmbio mais valorizado poderia aumentar a oferta de bens e produtos e permitir uma taxa de juros menor.

Qual a outra opção? Simples, seguir a recomendação de Oreiro e Luiz Fernando de Paula e mandar o trabalhador pagar a conta de uma desvalorização da taxa de câmbio e/ou controlar a entrada de capital, encarecendo o financiamento das empresas brasileiras e do próprio governo. Para aumentar a poupança doméstica pela redução forçada do consumo privado, não precisamos de economistas brilhantes.

13 pensamentos sobre “Não Precisamos de Economistas Brilhantes

  1. O impressionante é que a opção Oreiro é vista como a progressista, “de esquerda”, preocupada com o bom, o belo e o justo: manda a conta para quem não pode se proteger.

  2. O mesmo Oreiro que depois de 10 anos de doutor, defendendo desvalorização cambial, ainda não entende sequer como funciona o mercado de câmbio.

    Palavras célebres:
    “Eu gostaria que o BC pusesse um piso para a taxa de câmbio e fosse desvalorizando esse piso de forma gradual, a uma taxa de 2% a.m, até eliminar a sobre-valorização cambial.”

    http://jlcoreiro.wordpress.com/2011/04/19/bancos-pressionam-por-alta-da-selic-de-05-ponto-monitor-mercantil-19042011/

    O crédito de achar a pérola foi do blog do Schwartsman.

  3. Pingback: Excelente crítica « De Gustibus Non Est Disputandum

  4. Parbéns pela crítica (corajosa e necessária) e pelo bom senso.
    Existe uma turma de acadêmicos que escreve adotando a técnica (desonesta) de definir pensamentos contrários de acordo com seus interesses (é o caso do Oreiro e muitos outros). Gastam mais espaço definindo erradamente os pensamentos contrários do que expondo os seus (que de fato são embotados ou agridem o saber econômico consolidado). É diferente de defender tese contrária (em economia existe e é possível).
    É necessário que se saiba a diferença entre economistas de bom senso e de pensamento mágico.
    O site cada vez mehor. Parabéns.

  5. Mansueto,
    Excelente sua explicação e aula. Eu estou lendo todos os artigos que foram publicados no especial que o Valor Econômico publicou até agora e confesso que esse do Paula e Oreiro me surpreendeu.
    Eu particularmente não gosto das teses do professor Oreiro. Eu li o artigo duas vezes no jornal para perceber justamente isso. Você deu uma aula excelente com esse seu artigo.
    Parabéns e acho que o Valor poderia lhe dar um espaço também.
    Acho que você tem muito a agregar.

    Parabéns!

    Abraço,
    Sérgio Ricardo

  6. “Existe uma turma de acadêmicos que escreve adotando a técnica (desonesta) de definir pensamentos contrários de acordo com seus interesses (é o caso do Oreiro e muitos outros). Gastam mais espaço definindo erradamente os pensamentos contrários do que expondo os seus (que de fato são embotados ou agridem o saber econômico consolidado). ”

    Exatamente! Essa “técnica” é usada em TODOS artigos do Oreiro, nos quais ele critica alguém. TODOS. Ele tira uma conclusão desonesta e começa a bater nela, para depois dizer que refutou o artigo do outro. Nesse caso foi a tal escolha de Sofia, que não existe no artigo do Samuel e Nakane. Ele não é um economista sério.
    É curioso como o Valor deu espaço para ele numa série destinada a “economistas renomados”.

  7. “A inelasticidade da oferta agregada a longo prazo parece indicar que para visão ortodoxa a economia opera com pleno emprego da força de trabalho ou que, pelo menos, a economia está com uma taxa de desemprego próxima ao que se denomina de NAIRU, ou seja, taxa de desemprego para a qual a inflação não se acelera.”

    Os Oreiros e frequentadores da AKB em geral insistem nessa de inelasticidade da oferta agregada, mas essa nunca vai colar com pessoas um pouquinho mais espertas.

    É um erro bastante comum dos heterodoxos brasileiros esse papo. Mas é um espantalho fundamental pra convencer os alunos revoltadinhos com tudo isso que está aí.

  8. Avisem ao Oreiro que o que lhe falta são argumentos microconomicamente fundamentados. Fun-da-men-tos mi-cro-eco-nô-mi-cos. Simples assim.

  9. Caro Mansueto, novamente, acho que sua análise sempre é muito clara e explica muito. O que me incomoda um pouco nessa explicação da poupança reduzida determinando os juros elevados é que como temos a maior taxa de juros real (ou uma das maiores), deveríamos também ter a menor taxa de poupança, o que não sei se é verdade. Outro ponto é que não dá para considerar somente a poupança isoladamente, temos que olhar também o lado dos investimentos. De acordo com essa explicação, os juros reais deveriam equilibrar poupança e investimento, mas os juros são elevados em momentos onde há um elevado nível de investimentos e em momentos em que o mesmo é baixo. Você poderia emitir uma opinião comentando isso? Muito obrigado.

    • Luciano,

      na minha modesta opnião, a taxa de juros real de curto-prazo flutua para equilibrar a demanda agregada e, assim, em perídos de excesso de demanda e inflação em alta o juro real pode subir, mesmo que a taxa de investimento esteja baixa. Concordo neste aspecto muito com a análise do Ilan feita no valor de que a taxa de curto prazo flutua em torno da taxa de juros neutra de longo-prazo.

      O que aceito é que o problema dos juros reais altos e anormais no Brasil pode ser explicado não apenas pela deficiência da poupança, mas por uma série de fatores. Mas ainda acho que a escassez de poupança é um dos se não o maior probpema e até parte dos heterodoxos reconhecem isso. A discordância vem da política sugerida para elevar a taxa de poupança.

      Infelizmente, acho que neste debate promovido pelo Valor Econômico, os ortodoxos deixaram muito claro a posição deles e, no caso do heterodoxos, independentmente de concordarmos ou não, apenas Oreiro e Paula colocaram uma proposta na mesa. No caso dos demais heterodoxos que cheguei a ler, não consegui compreender absolutamente qual a explicação deles, estou falando especificamente dos artigos do Marcio Holland, Octávio Barros e o do Fernando Cardin de Carvalho. Não chegeui a ler o artigo do Beluzzo.

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