Autonomia Financeira do BNDES e Empréstimos do Tesouro

Lí no Estado de São Paulo, nesta semana, matéria que fala que o Ministério da Fazenda já pensa em deixar parte do novo empréstimo de R$ 55 bilhões para o BNDES, autorizado pela Medida Provisória 526,  para o próximo ano. Segundo a matéria, aumentou o medo da MP não ser aprovada devido a desorganização da articulação política do governo. Esse pode até ser o motivo correto, mas levanto aqui outra hipótese.

Segundo informações me repassadas por funcionários do BNDES, o banco teria uma autonomia de empréstimos anual, sem precisar de empréstimos do Tesouro Nacional, por volta de R$ 90 a R$ 95 bilhões. Vou ser conservador e assumir que a autonomia do banco é de R$ 85 bilhões. Fazendo uma conta simples, o BNDES precisaria da ajuda do Tesouro (empréstimos) para o que excedesse sua capacidade anual de empréstimo que foi, nos últimos três anos (2008, 2009 e 2010), de: 3 x R$ 85 bi = R$ 255 bilhões. Neste período, o desembolso total do banco foi de R$ 419,86 bilhões (2008 = R$ 103,8 bilhões; 2009 = R$ 147,6 bilhões; e 2010 = R$ 168,4 bilhões). Assim, faltou R$ 164,8 bilhões.

No entanto, no mesmo período, os empréstimos do Tesouro para o BNDES passaram de R$ 8,24 bilhões (saldo no final de 2007) para 235,93 bilhões (saldo no final de 2010), um crescimento no período (2008-2009-2010) de R$ 227,7 bilhões; muito maior do que a necessidade de R$ 164,8 bilhões identificada acima. Isso sinaliza para uma “sobra” de R$ 62,9 bilhões; recursos repassados pelo Tesouro ainda não emprestados pelo BNDES.

Assim, mesmo que não seja R$ 62,9 bilhões, mas apenas R$ 50 bilhões, o fato é que o BNDES deve ainda ter em caixa uma sobra elevada dos repasses anteriores do Tesouro, o que sinaliza uma elevada capacidade de empréstimo do banco este ano, por volta de R$ 135 bilhões ou até mais, sem nenhum centavo novo de empréstimo do Tesouro.

Em resumo, mesmo que a postergação do novo empréstimo ocorra, isso não deverá comprometer a capacidade de empréstimo do banco este ano, assumindo que o valor desses empréstimos não serão superiores a R$ 135 bilhões. (Na verdade, em todos esses cálculos, estou sendo conservador. Esse valor deve ser ainda maior).

4 pensamentos sobre “Autonomia Financeira do BNDES e Empréstimos do Tesouro

  1. Caro

    Um comentário com perguntas. Se você quiser esclarecer, gostaria de ler suas respostas.

    “Isso sinaliza para uma “sobra” de R$ 62,9 bilhões; recursos repassados pelo Tesouro ainda não emprestados pelo BNDES.”

    “fato é que o BNDES deve ainda ter em caixa uma sobra elevada dos repasses anteriores do Tesouro”

    O BNDES deve ainda ter em junho de 2010 um saldinho de caixa de R$ 62, 9 bilhões? Não entendi o “deve ter”. Isto é, o Banco não deu até hoje publicidade a esse valor? Essa grana está ou estava aplicada no quê? Esse saldo não foi divulgado no balanço do Banco? A lei permite isso? Permite omitir o saldo?

    Se entendi corretamente o que você escreveu, devo concluir que o Banco ainda não divulgou esse saldo de caixa 2010/2011? Usando português claro, o Banco está escondendo do contribuinte que tem ou tinha em caixa uma sobra [e que sobra!] cujo valor supera o que a MP 526 lhe autoriza sacar no Tesouro?

  2. Paulo,

    o banco não está escondendo nada. O aumento das aplicações do BNDES em títulos públicos e o aumento da disponibilidade financeira mostra isso; que parte dos repasses do Tesouro feitos até dezembro de 2010 não tinham sido totalmente. desembolsados.

    Olhando para o balanço do BNDES do final de 2010, nota-se que o banco tinha R$ 11,9 bilhões em caixa (e equivalentes de caixa) e pelo menos R$ 25,6 bilhões em Títulos Públicos. Só ai temos R$ 37,5 bilhões, sem contar as aplicações do banco em fundos exclusivos, etc.

    Em português claro, nem todo os recursos repassados como empréstimos do Tesouro para o banco foram emprestados. O banco iniciou 2011 ainda com recursos desses repasses além dos recursos próprios que são os empréstimos do FAT + retorno dos empréstimos antigos para serem emprestados.

    O saldo não foi omitido e não sei exatamente quanto é. Mas a conta simples que fiz no post não deixa dúvidas, o banco ainda tem em caixa valor substancial dos repasses feitos pelo Tesouro. É claro que não estou contando eventuais ajustes que tenham sido feitos nessa relação Tesouro-BNDES como, por exemplo, o forte pagamento de dividendos ao Tesouro no período e, possivelmente, repasses aos bancos privados para cobrir o subsidio do PSI ainda não pagos pelo Tesouro (esse ponto será matéria de outro post).

  3. Obrigado pelas respostas, Mansueto

    R$ 25,6 bilhões aplicados em Títulos Públicos. Isso quer dizer que o Tesouro repassa bilhões de reais ao Banco pela TJLP e o Banco repassa parte substantiva desse dinheiro ao Tesouro, aplicando em títulos públicos remunerados pela SELIC? Onde vamos parar com toda essa criatividade financeira?

    Não precisa responder de novo, se não quiser. Vou reler o post

    O excepcional e estranho lucro do BNDES
    15/04/2011 por mansueto

    https://mansueto.wordpress.com/2011/04/15/o-excepcional-e-estranho-lucro-do-bndes/

    Abs.

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