O Brasil de Lula

Este é o titulo do instigante e longo artigo do historiador marxista Perry Anderson da UCLA publicado recentemente no periódico London Review of Books (clique aqui). O artigo começa com uma afirmação que é raro um governante ter uma popularidade maior na saída do que no ínicio do seu mandato. O único caso que foge essa regra é  o caso recente do ex-presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva. Por que? É justamente isso que o artigo tenta responder.

O artigo é um bom retrospecto dos últimos oito anos e não poupa o escândalo do mensalão, a queda do ministro Palocci e o oportunismo de alguns politicos brasileiros que utilizam a troca de partidos como forma de se aproximar do governo de plantão. O artigo é rico em dados e me impressionou o conhecimento que um acadêmico não brasileiro tem dos detalhes que comenta ao longo do texto.

Há várias informações interessantes. Por exemplo, na pp. 5, Anderson fala que as eleições no Brasil em comparação com o PIB é a mais cara das Américas e, em termos absolutos, se aproxima dos EUA. Em 1996, a campanha do presidente Clinton para Casa Branca custou US$ 43 milhões, valor próximo a campanha do ex-presidente FHC para o palácio do Planalto em 1994 de US$ 41 milhões. Embora não seja novidade para brasileiros, o autor mostra como o mix de politicas sociais infladas pelos aumentos reais do salário mínimo, em conjunto com a recuperação econômica a partir de 2004, teve grande influência na reeleição do ex-presidente Lula, apesar do mensalão.

Anderson faz uma análise das versões históricas sobre o governo Lula baseado em três visões distintas. Na primeira visão, o governo Lula seria mais um na lista de governos populistas com um líder carismático na linha de Getúlio Vargas ou de Perón na Argentina.

Na segunda visão, baseada na análise de André Singer,  “o Lulismo” seria algo muito mais próximo ao governo de Franklin Delano Roosevelt (FDR) que retirou milhares da pobreza e iniciou uma série de reformas importantes para a constituição da classe média americana no pós-guerra. De acordo com essa linha, as vitórias de Lula em 2002 e 2006 poderiam ser comparadas as FDR em 1932 e 1936. Na primeira eleição, a vitória veio de uma ampla maioria e, na segunda, a vitória foi liderada pela votação dos eleitores de renda mais baixa. Até mesmo a oposição de círculos mais conservadores ao governo Lula seria semelhante a violenta oposição dos conservadores ao governo Roosevelt.

A terceira visão do contexto histórico do governo Lula é baseado na análise do sociólogo Francisco Oliveira que mostra a aliança do governo Lula com o capital financeiro e do uso do aparelho burocrático do estado, em especial, dos fundos de pensão pelos sindicatos que antes criticavam a aliança entre o Estado e a elite empresarial.

O autor parece simpatizar com a terceira visão acima e mostra que o Brasil passou por um processo de desmobilização política e cultural quando comparado há 30 ou 50 anos atrás e que há ainda grande continuidade na política econômica. Do lado social, Anderson identifica uma ruptura para melhor, apesar da política de combate à pobreza no Brasil ser, preponderantemente, resultado de politicas de transferências de renda ao invés de alguma mudança substancial na estrutura da sociedade; um paralelo que o autor faz com a África do Sul pós-apartheid.

Longe de ser uma exaltação ao governo Lula, o artigo tem uma abordagem crítica, apesar do resultado positivo do governo Lula como mostra o autor desde o início do artigo.

4 pensamentos sobre “O Brasil de Lula

  1. Tenho ressalvas em relação a historiadores marxistas (Eric Hobsbawm inclusive) e ainda mais da UCLA. Eles conseguem encontrar qualidades onde, de fato, não existem, e perseguem a maior das pseudo ideologias, a de achar que a igualdade entre os desiguais é possível.

    Lula reflete o Brasil em suas escolhas equivocadas, vulgaridades assumidas como virtudes e tolerâncias execráveis.

  2. Ahh…Um historiador marxista?!?! E é longe de ser uma exaltação ao governo Lula?
    Claro que vai ser sim. O artigo ja começa grandemente viciado.
    Da forma que foi resumido ai ja dá pra ver como foram omitidos outros dados importantes.
    Tirou milhões da pobreza? REALLY?? Ahahahah…
    A quantidade de miseráveis nas ruas da minha cidade e a peregrinação cotidiana por esmolas pelas casas, várias vezes ao dia, continuam exatamente IGUAL. Sem tirar nem por.
    Eu sou do Nordeste.
    Lula fez o que? Dá uma esmola mensal, ok? Pra mim isso não melhora o país não. E nem tira ninguem da pobreza.
    Com isso vc cria um exército de vendidos, de escravos. Isso so significa uma margem de uns 40 milhões de votos, nada mais. E isso saiu da boca do próprio criador do PT, que hoje, saiu do partido por estar extremamente desiludido.

  3. Eu ainda tento entender por que esperam que programas de transferência de renda realmente tirem milhões de pessoas da pobreza. Ora, se é simples assim, por que não imprimir grandes quantidades de dinheiro e dar de uma vez para o povo, então? Hummm… pensando bem, é isso mesmo o que estão fazendo, de uma forma mais rebuscada, é claro.
    Tomemos como exemplo o Bolsa Família. Consideremos a hipótese de que é somente um programa emergencial. Até quando? Ora, qual político vai querer cometer o suicídio político de acabar com um programa que rende dezenas de milhões de votos? A tendência é a perpetuação do programa.

    Mas tudo bem, ao menos quem está dando o dinheiro é o Estado, não os malvadões capitalistas! Temos que proteger o mundo do livre mercado! No Brasil, por exemplo isso tem funcionado muito bem! É fácil perceber que não há mais grandes conglomerados de empresários ganhando rios de dinheiro, muito menos em contratos milionários com o governo! O povo não é esfolado diariamente pelos capitalistas, e muito menos pelo estado. afinal, a carga tributária é alta, mas os serviços são maravilhosos!

  4. Bom artigo, demonstra sim as contradições do governo Lula , a crítica do Francisco Oliveira da aliança do governo Lula com o capital financeiro e do uso do aparelho burocrático do estado, em especial, dos fundos de pensão pelos sindicatos já está no livro Onitorrinco do sociologo, o que ele não explica ao meu ver por que das várias possibilidades de hegemonia essa foi a vencedora.

    Particularmente o Perry Anderson tem bons textos, entre eles “Linhagens do Absolutismo”, é um analista muito bom que aceita novas idéias sobre as suas pesquisas quando fez um debate com a história dos Anales para aprofundar algumas questões sobre assuntos que o marxismo de então deixava de lado nas analises.

    Algumas das oposições ao Lula, não é apenas por serem setores conservadores como quer o Singer e até historiadores americanos, mas lá como aqui era medo de perder espaço dentro política brasileira, mesmo quando estava claro que o projeto político em termos de estruturas políticas, mas dentro da hegemonia lulista alguns dos apoios eram tão contraditórios como impossíveis gerando atritos conhecidos, desde expulsões em diretórios do PT, radicalização de alguns setores empresariais, facção ambientalistas etc.

    Mas, o texto do Perry Anderson faz o que promete, um debate honesto do que há de melhor das analises do governo passado.

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