Depoimento do Presidente do Banco Central à CAE

Hoje, a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal recebeu o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, para esclarecimentos sobre a política monetária (ver o texto do discurso do presidente do BACEN e o power point aqui). Duas coisas me surpreenderam nessa reunião hoje da CAE.

Primeiro, a ausência da oposição. Não havia quase nenhum senador da base de oposição (na verdade havia uma senadora do PSOL e dois do PSDB) e a sessão de perguntas foi muito mais esclarecimentos do presidente do Banco Central a senadores de partidos aliados do governo. Isso inclusive foi motivo de provocação do senador Lindberg Farias (PT-RJ) que perguntou no final da audiência da CAE: onde está a oposição?

Segundo, a fala do presidente do Banco Central foi mais do mesmo e monótona (nada além do que vem sendo publicado pelos jornais). Mas teve novidades, sendo a principal a política de acumulação de reservas do BACEN. Em linhas gerais, o presidente do BACEN:

a) Elogiou a politico econômica baseada no tripé: superávit primário, regime de câmbio flutuante e metas de inflação. Mas falou que essa política precisa sempre ser aperfeiçoada. O Regime de metas de inflação tem se mostrado adequado para controlar a inflação e é uma política de fácil entendimento por parte da população.

b) Falou do aquecimento do mercado de trabalho. Alguns setores não encontram mais mão-de-obra. Em alguns casos, a reposição dos aumentos salariais tem sido acima dos ganhos de produtividade e dos índices de inflação.

c) A inflação voltou a ser uma preocupação global e motivo de debates em vários fóruns internacionais de bancos centrais. O principal fator por trás da inflação são os preços agrícolas. Economias emergentes são as mais afetadas porque alimentos é importante na cesta de consumo e porque estavam aquecidas. Energia passou agora a ser mais um motivo de preocupação, já que o preço internacional do petróleo aumentou muito nas últimas semanas.

d)  Inflação não decorre apenas do aumento dos preços de commodities. Os preços no setor de serviços estão aumentando e constitui motivo de preocupação.  No curto-prazo, cabe as ações convencionais de política monetária para que as decisões pontuais não contaminem o horizonte mais longo. O BACEN trabalha com um cenário no qual a partir do segundo semestre, a inflação volte para o centro da meta, mas haverá ainda um efeito estatístico no índice de 12 meses e um efeito inércial

e) Entrada de capital vem aumentando muito. Aumentou de maneira excessiva e pode contribuir com um aquecimento excessivo no mercado doméstico. Esse problema tem sido combatido com a politicas de reservas, cujo saldo passou de US$ 205 bilhões , em 2008, para mais de US$ 310 bilhões hoje. Segundo o presidente do Banco Central, não há uma literatura do tamanho ótimo do saldo de reservas internacionais e, comparando com outros países (China, Coréia, Rússia, Hong Kong e Singapura), o Brasil tem um volume de reservas(15% do PIB) muito inferior a esses outros países. Na opinião do presidente do Banco Central, um país mais integrado com o resto do mundo precisa de um volume maior de reservas.

f)  O Brasil precisará ter atenção com a forte entrada de capital para a exploração do pré-sal e, neste caso, o Fundo Soberano será importante para absorver esse excesso de recursos que entrará na economia brasileira.

Em linhas gerais, esses foram os pontos mais importantes que consegui pescar do depoimento do presidente do BACEN à CAE. Do que foi dito, acho que merece destaque três pontos.

Primeiro, em relação à inflação, claramente o BACEN está trabalhando com dados que o mercado não tem ou com um horizonte de convergência diferente do mercado. As expectativas de inflação têm piorado nas últimas três semanas após a última alta da taxa de juros do inicio de março e com um mercado de trabalho aquecido e a demanda também aquecida ainda é difícil ver de onde virá o arrefecimento da inflação.

Segundo, e aqui sim me impressionou, o presidente do Banco Central deixou claro que a política de acumulação de reservas continuará e que isso seria consistente com a maior integração do Brasil com o resto do mundo. Essa política é muito cara e também não há nada na teoria econômica que mostre que um país como o Brasil teria mais benefícios do que custos com um saldo de reservas internacionais de US$ 500 bilhões, por exemplo, ao invés do saldo atual de US$ 316 bilhões, ainda mais em um sistema de câmbio flutuante que requer um saldo de reservas menor do que em um sistema de câmbio fixo, pois os riscos de desequilíbrio do balanço de pagamentos seriam menores.

Embora o presidente do BACEN não tenha sido claro na resposta do custo do carregamento de reservas feita pelo do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), o custo hoje para o saldo de US$ 316 bilhões já é superior a R$ 50 bilhões por ano (diferença de remuneração entre a aplicação das reservas e a SELIC).

Terceiro, a atuação do Fundo Soberano no Brasil para comprar o excesso de recursos que entrarão para a exploração do pré-sal é ainda incerta porque parte substancial desse fundo já foi utilizado na capitalização da Petrobrás e o governo hoje não tem recursos fiscais para fazer novas capitalizações do fundo. Se essas novas capitalizações forem feitas por meio de aumento da dívida, o custo será semelhante às operações de mercado aberto que o BACEN faz para enxugar a liquidez de suas compras de moeda estrangeira.

Em resumo, parece que o Brasil vai prosseguir com uma política de acumulação de reservas e o custo fiscal desse política é coisa pare se discutir depois. Ao invés de o Brasil aumentar a poupança pública, capitalizar o Fundo Soberano e, assim, influenciar a política cambial, optou-se por aumentar a divida pública para tentar controlar o valor da taxa de câmbio, uma política que tem um custo fiscal elevado.

Será cada vez mais interessante acompanhar a atuação do Banco Central do Brasil, porque a autoridade monetária começou a ver um cenário que nenhum ex-diretor ou ex-presidente do Banco Central consegue enxergar. A conferir quem está com a razão.

8 pensamentos sobre “Depoimento do Presidente do Banco Central à CAE

  1. Olá Mansueto!
    Qual seria o tempo médio, caso o plano ou visão da Autoridade Monetária der certo, para que se tenha resultado ou para sentirmos que estamos no caminho certo.
    Pergunto à vc que acompanhou o Meireles enquanto responsável pelo B. Central, qual o caminho que ele seguiria, o conservador ou iria inovar.
    Obrigado.

    Marcio Manoel.

    • Márcio,

      politica monetária não é minha área, mas confesso que se fosse o Meirelles ele estaria fazendo o tradicional: aumento das taxas de juros de forma mais rápida. Quanto mais rápido for o aumento dos juros e a convergência da expectativa de inflação para a meta, mais rápida a política monetária poderia também ser revertida. Essa política gradual que o BACEN vem adotando, por enquanto, não conseguiu modificar o humor do mercado quanto ao comportamento da inflação.

      O BACEN na época Meirelles, por exemplo, aumentou o juros no final de 2008 apesar de estarmos entrando na crise. Lembro-me que o BACEN justificou a medida afirmando que os dados não eram claros quanto a uma forte desaceleração da economia. Atualmente, tem-se a impressão que o BACEN tem sido mais lento em dar a reposta esperada pelo mercado ou que trabalha com um horizonte de convergência da inflação para a meta diferente do período de 12 meses.

  2. Mansueto,

    Com todo o respeito, creio que o presidente do Banco Central simplesmente vive mesmo é num mundo de faz-de-conta e não conhece profundamente a literatura sobre as áreas do conhecimento econômico afins ao seu trabalho.

    Como você colocou, o discurso dele sobre reservas é desprovido de qualquer nexo, então nem comentarei.

    Sobre a inflação, se o banco central acha que as expectativas de inflação são reflexo do pensamento dos homens maus do mercado financeiro, como pensam muitos, vale notar que quando as expectativas de inflação ficaram acima da meta, o IPCA também ficou. Parece que tem gente que não aprendeu as lições de Friedman e Phelps.

    Se o intuito é trabalhar mirando o teto de 6,5%, teremos que aceitar a meta sendo descumprida sempre que houver um choque de oferta?

    • Rafael,

      Não fale besteira, o Tombini sabe muito e inclusive participou da implementação do sistema de metas de inflação, junto com Werlang e cia.

      Abs,

      Leo

  3. O que o BC faz é utilizar os métodos que resultam em uma maior aprovação popular. Afinal, é mais conveniente se endividar até o pescoço para promover o “crescimento” do país, aumentando de forma absurda os gastos públicos. Gasto público + pó mágico = Crescimento econômico sustentável! Todos sabemos que o governo sabe muito bem como investir o dinheiro…

    Infelizmente, a mentalidade “mercado muito mau, governo bom!” tomou conta até mesmo dos economistas. Isso vai custar caro ao mundo – sim, ao mundo, já que o Brasil só construiu um modelo piorado do que há de pior na política econômica de outros países. Demonizamos o mercado, dizemos que o livre mercado é ruim, como se os governos estivessem fazendo um trabalho muito melhor!

  4. Caro Mansueto,
    Uma pergunta: supondo que estamos em processo de redução dos juros reais neutros (convergência aos juros praticados pelos nossos pares), não faria sentido ser mais vagaroso com os juros e incorrer em algum risco maior da inflação voltar à meta num prazo mais dilatado? Sem dúvidas que é um risco calculado, se der errado vai provocar mais volatilidade no produto, nos juros e na inflação. analisando os dados passados realmente a Selic estaria rumando aos 14%…
    Abraço

    • Não sei se sou a pessoa mais adequada para responder a essa pergunta. Tenho certeza que o pessoal que está no Banco Central são responsáveis e sabem o que estão fazendo.

      Se essa estratégia gradualista se mostrar equivocada porque a convergência a que você se refere não acontecer, podemos pagar um preço alto, mas acho que eles corrigiram a política muito antes disso.

      As pessoas do Banco Central tem um bom relacionamento com o mercado e conversam muito com ex-diretores do BACEN e com analistas de banco. Eles não ficam “dando tiro no escuro”.

      Desculpe não ser mais explicito, mas sempre tenho receio em me manifestar sobre politica monetária pois não é minha área.

  5. Estamos sendo governados novamente por tecnocratas. Na ditadura, eles eram de um lado. Agora, sao do outro lado. Mas seguem sendo tecnocratas insipidos, sem contato humano com o povo, para o qual nao tem senso de prestacao de contas, uma vez que nao tiveram que batalhar pela sua propria eleicao. Incluindo a presidente.

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