Confirmado novo empréstimo para o BNDES: R$ 55 bilhões

Não vou  falar mais sobre esse assunto porque já falei muito e, há três semanas, já escreví sobre esse assunto neste blog (clique aqui).

Uma coisa é certa, a renovação do PSI é uma forma de reduzir o custo para o investimento, o que vai, naturalmente, exigir um aumento maior dos juros pelo Banco Central. Não há mágica, se o investimento está sendo subsidiado, significa, que o consumo terá que cair mais e, assim, o arrocho via aumento da SELIC terá que ser maior.

É claro que, comparando com o ano passado, os desembolso do BNDES este ano serão menores. Mas esse novo empréstimo, a meu ver, não faz muito sentido pois é um fator de pressão de demanda em um momento no qual a demanda precisa ser reduzida. Como esses R$ 55 bilhões aumentam a capacidade de emprestimo do BNDES para R$ 145 bilhões, isso prova que o banco tem uma capacidade autônoma de emprestar R$ 90 bilhões por ano, sem precisar de empréstimos do Tesouro Nacional.

Com mais esse empréstimo, o saldo dos emprestimos do Tesouro para bancos públicos passou de R$ 9,6 bilhões, em 2006, para R$ 310 bilhões nesse inicio de 2011.Vale lembrar entrevista do Ministro da Fazenda ao jornal Valor Econômico no dia 20 de julho de 2010:

Valor: Haverá novo aporte do Tesouro no BNDES?

Mantega: Não há novo aporte pensado para o BNDES. O BNDES tem nível de recursos próprios entre R$ 60 bilhões e R$ 65 bilhões por ano. O BNDES também terá que aprender a captar no mercado. Pode colocar debênture, pode captar no mercado internacional e também terá que andar com as próprias pernas. Mas não vamos descuidar da infraestrutura. Então, o BNDES ficará mais focado na infraestrutura e o setor privado poderá entrar, por exemplo, no financiamento industrial de longo prazo, de exportações, construção civil, produtos manufaturados.”

Mas pelo que foi divulgado, o novo empréstimo é para o PSI e não para infraestrutura, diferente do que o ministro falou nessa estrevista ao valor. Como o que é dito hoje por ser modificado amanhã, ninguem com o juízo no lugar acredita que esse será o último empréstimo do Tesouro ao BNDES. Além do mais, como o governo apreendeu a utilizar o banco para gerar receita primária, nada impede que o BNDES este ano compre mais dividendos futuros de outras estatais do Tesouro Nacional.

Bom, vamos acompanhar. A propósito, isso não tem nada a ver com política industrial.

23 pensamentos sobre “Confirmado novo empréstimo para o BNDES: R$ 55 bilhões

  1. Programa de Sustentação do Investimento (PSI) – permite ao BNDES emprestar a uma taxa de juros inferior aquela que seria necessária para cobrir o risco do empréstimo e a remuneração do banco. O Tesouro Nacional banca o subsidio, como faz com o crédito rural.

  2. Prezado Mansueto,

    O mais engraçado de tudo é ver o BNDES tomar dinheiro de debentures a 18-15% a.a e emprestar a 4% a.a. Basta saber fazer a conta do verdureiro para ver que essa equação nunca vai fechar. Nestas condições é inviavel que o banco possa andar pelas próprias pernas.

    att,

  3. Mansueto

    Das duas uma e que dão na mesma. Ou o MF está sem comando, virou casa da mãe Joana, ou o Mantega é somente o porta-voz do MF para o que um “ministro oculto” decide.

  4. Ainda sobre os cortes no orçamento: afinal os cortes foram sobre o executado do ano passado ou sobre a LOA?

    Qual o orçamento final de 2011? É maior ou menor do que o executado do ano passado?

    • Maior. Já com o corte de R$ 50bi e com o veto de R$1,6 bi de despesas, a despesa primária do governo federal aprovada para 2011 será de R$ 717,4 bilhões, R$ 60 bilhões acima do gasto primário de 2010 (excluindo capitalização da Petrobrás) que foi de R$ 657,2 bilhões.

      Por que excluir a capitalização da Petrobrás do ano passado? porque foi algo excepcional, não é um gasto corrente.

  5. Mansueto,
    gostaria de saber qual foi o total gasto/pago com MCMV em 2010, pois no LOA 2010 estava previsto que seriam gastos R$7.2 bi, no entanto parece que foram gastos R$ 6,6bi.

    A dúvida surge quando olhamos para a nota conjunta (do Min.Planejamento e Cidades), pois informam que o limite aprovado para 2010 foi de R$ 12,4bi!! Como o governo chegou neste número, uma vez que o que estava no LOA2010 era R$ 7,2bi?

    Obrigada

    • Barbara,

      Parte dos recursos do MCMV são recursos orçamentários e outra parte são recursos da CEF, por exemplo, que não são recursos do orçamento fiscal e da seguridade social. Talvez esse limite maior seja a soma dos recursos orçamentários com recursos não orçamentários. Eu teria que checar.

      • Ok. Se puder checar eu agradeço, por favor!

        Isso é importante, pois se o orçado foi 12,4 bi e o gasto foi 6,6, então muito pouco foi gasto. Caso o orçado tenha sido 7.2, então 6.6 é praticamente todo o orçamento.

        Sabendo isso, posso “replicar” para 2011 e ter uma idéia da proporção que será usada.

  6. Mansueto

    O assunto é relativo a post anterior sobre os RAP. Mas acho que vale atualizar aqui.

    Reportagem do ESP de 03/03/2010

    “Gasto de R$ 33,9 bi deixado por Lula pode ser cancelado”

    De acordo com a notícia do jornal Valor de 04/01/2011, Dilma herdou R$ 137,5 bilhões de RAP do governo Lula.

    O jornal ESP informa que até 1 de março o atual governo quitou R$ 28 bilhões [fonte: ONG Contas Abertas/Siaf.], restando, portanto, R$ 109,5 bilhões de despesas herdadas do governo Lula.

    Na reportagem de hoje o ESP noticia que:

    “A ministra Miriam Belchior (Planejamento) já orientou seus colegas de Esplanada a selecionar despesas contratadas pelo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que não serão honradas pela sucessora Dilma Rousseff. Levantamento do jornal O Estado de S. Paulo indica que o cancelamento de contratos pode alcançar R$ 33,9 bilhões”.

    Na hipótese de que os R$ 33.9 bilhões sejam os tais RAP não processados que poderiam ser cancelados, então é possível que a diferença entre o que seria cortado e o que restaria da herança seja um valor para os RAP processados, ou os RAP que não podem mais ser cancelados, conforme você explicou no post.

    Subtraindo-se a estimativa de corte apresentada pelo jornal do total de RAP pós 1 de março temos ainda um polpudo um valor de R$ 75.6 bilhões, superior ao corte proposto pelo governo. Talvez esse número seja uma grandeza para o que já ultrapassou o limite do empenho e que não pode ser cortado porque já transitou ou transita para a liquidação, conforme o que você explicou no post do RAP.

  7. Mansueto,
    Essa “criatividade” não estaria indicando falha na LRF? O governo está criando liquidez (“emitindo”) e forçando o BC a esterilizar o que for possível.

  8. Se o BNDES, na prática, faz subsídio dos juros, qual a lógica de dizer que o BNDES consegue captar dinheiro no mercado? Eu tento entender essa lógica meio keynesiana do gasto público gerando riqueza em um passe de mágica, mas não consigo.

    • O BNDES consegue captar dinheiro no mercado, mas é um montante muito pequeno do seu passivo, Quanto a captar dinheiro no mercado, ele não consegue captar por taxas menores do que o Tesouro Nacional. O BNDES só consegue captar por TJLP os recursos do FAT porque é fruto de poupança compulsória.

      • Entendi…
        Mas Mansueto, por que tantos economistas acham que o governo é alguma espécie de entidade sobrenatural que sempre investe nas áreas que mais necessitam de investimentos, especialmente no Brasil, onde isso não acontece? Nesse ponto, o liberalismo faz muito mais sentido, mas, infelizmente, “liberalismo” é um xingamento no Brasil. Daqui a pouco, em um jogo de futebol, a torcida chamará um juiz de “liberal”, e aí ele sairá de campo chorando, porque para ele esse é um xingamento muito forte…
        É por essas e outras que sou a favor da privatização da Petrobrás. Não aceito, sob nenhuma circunstância, uma estatal petrolífera que precise de injeção de dinheiro público para que paguemos, no final das contas, uma gasolina absurdamente cara. Aliás, na prática, o trabalho real da Petrobrás já é feito pela iniciativa privada, já que a mão de obra é terceirizada.

      • Caro João,

        respeito o seu ponto de vista e concordo com você que não tem problema algum em alguém ser considerado liberal. Na verdade, se tivéssemos seguido o ensinamento de alguns economistas tidos como “liberais”, o Brasil hoje poderia estar em situação melhor. Por exemplo, um dos primeiros trabalhos de economistas no Brasil a mostrar a importância de investimentos é educação foi a tese de Carlos Langoni de 1973. Não foi nenhum economista desenvolvimentista. De qualquer forma, há coisa também que discordo dos economistas mais liberais, embora eu respeite a posição de todos que se autodenominam liberais e não vejo problema nenhum com isso.

        No caso da Petrobrás, você tem toda razão de que o governo não sabe necessariamente mais do que o setor privado. Agora a questão do dinheiro público na Petrobrás foi uma decisão do governo com aprovação do Congresso Nacional. Eu não tenho maiores problemas com o fato da Petrobrás ter o controle estatal, já que pelo menos a empresa tem acionistas privados ao contrários de outras estatais. O que me incomoda é as pessoas acharem que é mais importante para o desenvolvimento do Brasil o tamanho da participação do governo na Petrobrás ao invés da arrecadação e do uso que se faz do dinheiro arrecadado com a exploração do petróleo. Acho, por exemplo, que a mudança do regime de concessões na lei do petróleo foi um grande erro.

  9. mansueto,
    cuanto seran las obligacoes do bndes con el tesouro nacional a final do anno? cuanto foram em 2010? solo por comparacao cuanto som recursos do FAT em 2010 e 2011? cual es el custo dos recursos do FAT?

    obrigado

  10. Mansueto,

    onde eu posso checar esse números para entender a discrepância entre os valores previsto no LOA 2010 e o limite provado para o MCMV?

    Tks!

  11. Dr. Mansueto,

    Considero o Sr. um dos maiores economistas do Brasil e, nesta condição, tomo a liberdade de dirigir-lhe uma pergunta, pois preciso de sua preciosa orientação:

    Em tempos de descalabro nas transferências para o BNDES, Petrobrás, CEF e BB e o esqueleto dos Restos a Pagar posso ainda ter segurança em reinvestir X milhões de reais (R$ X) em Letras de Crédito Imobiliário da Caixa Econômica Federal? O rombo gigantesco do Banco Panamericano afeta a CEF? As LCI pagam 103% do CDI mas não são um papel de tesouraria como os CDBs. A segurança é equivalente – LCI e CDB – na mesma instituição (CEF)? Minha opção é investir com direito à recompra, com carência de 60 dias.

    Sua resposta servirá para eu tomar uma decisão crucial para mim e minha família.

    P.S. Ouvi dizer que o governo ajudou rapidamente o Panamericano pois Bradesco e Itaú estavam carregados de papéis daquela instituição insolvente.

    • Caro DU,

      Se eu fosse você não me preocuparia muito com uma eventual investimentos em papéis da CEF. A CEF e BNDES são bancos 100% estatais e, assim, nunca o governo deixaria que algo acontecesse com esses dois bancos. Em caso de algo inesperado, o governo simplesmente faria uma nova capitalização da CEF como foi feito recentemente. Assim, se a sua preocupação for com o risco de uma eventual bancarrota da CEF, não se preocupe com isso, pois a CEF tem a segurança de ter o Tesouro Nacional por trás, principalmente em um governo que a meta é fortalecer bancos públicos.

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