O que prejudica o crescimento do Brasil?

Pare quem se interessa em acompanhar o debate econômico, vale a pena ler três artigos publicados em jornais e revistas neste final de ano. Vem muito mais por ai na proxima semana.

Edmar Bacha (Jornal Valor Econômico 22 de dezembro de 2010)

Primeiro, recomendo a entrevista do economista Edmar Bacha (PUC-RJ) ao jornalista João Villaverde na edição do Valor Econômico do dia 22 de dezembro de 2010. As principais teses que o professor Bacha defende nessa entrevista são que:

(1) o Brasil, com quase pleno emprego, não está passando por um processo de desindustrialização. O que esta ocorrendo é que o excesso de demanda puxa o custo da mão-de-obra e a indústria não consegue concorrer com os demais setores da economia que estão também contratando muito.

(2) O aumento da demanda por commodities é um fenômeno estrutural. Veio para ficar e vai durar ainda muitos anos. Como somos competitivos nesta área, esse fenômeno seria mais uma bonança do que uma maldição para o Brasil.

(3) Os maiores problemas do Brasil seriam ainda a má distribuição de renda, baixa produtividade, um setor público que ainda abocanha uma parcela muito grande do produto frente a qualidade dos serviços que oferta, um sistema político frágil, um sistema tributário que é uma vergonha e uma Previdência que pode quebrar o país em 2050, baixa poupança doméstica e qualidade ruim do sistema educacional.

Ou seja, os maiores problemas apontados por Bacha não têm nada a ver com taxa de câmbio e com o debate da desindustrialização. O Brasil hoje cresce muito rápido para o nível de poupança doméstica que tem e, para aumentar a poupança, precisa aumentar a poupança pública; o que significa controlar o crescimento dos gastos correntes (INSS, gastos sociais e custeio) e pessoal.

Bresser Pereira (Estado de São Paulo – 24 de dezembro de 2010)

A segunda entrevista que recomendo é a do professor Bresser Pereira (FGV-SP) publicada hoje no Jornal o Estado de São Paulo. Ao contrário do professor Bacha, Bresser vê como o grande problema do Brasil um processo de desindustrialização pelo qual passa a economia brasileira fruto de uma suposta doença holandesa que ocasionou uma forte valorização do real. No mais, para Bresser, os salários no Brasil são artificialmente elevados (fruto de um populismo cambial) e palavras como educação, carga tributária, produtividade e inovação estão ausentes da entrevista o ex-ministro da Fazenda e também ex-ministro da Ciência e Tecnologia. Em uma coisa, no entanto, tanto Bacha como Bresser concordam: a necessidade de aumentar a poupança pública via um ajuste fiscal.

Aloísio Araújo (Revista Insight Inteligência – dezembro de 2010)

Por fim, recomendo também o artigo do professor Aloísio Aráujo (FGV-RJ) na revista Inteligência. Gostei muito desse artigo porque Aloísio foi humilde em reconhecer que houve sim vários avanços no Brasil decorrente da nossa Constituição de 1988, que aumentou os mecanismos de transferência de renda. Com o sucesso do Plano Real,  o aumento das transferências (novos programas sociais e previdência rural) aliada à politica de valorização do salário mínimo trouxe impactos positivos  na redução da pobreza e na queda da desigualdade. Esta última, influenciada também pelo esforço de universalização da educação dos anos da década de 90.

No entanto, se as politicas de transferências de renda tiveram o mérito de ocasionar uma “paz social”, por outro lado, esse modelo não é suficiente para modificar o padrão de crescimento do Brasil. Essas politicas de transferência de renda têm um custo elevado (carga tributária elevada) e seria prudente focarmos mais na educação do que continuar fazendo mais do mesmo. A reforma da previdência seria importante (para reduzir o gasto público), bem como o uso que faremos do período de valorização das commodities para fazer os investimentos corretos em educação, em especial, educação infantil.

Leiam e tirem suas próprias conclusões. Mas neste debate concordo com Edmar Bacha e Aloísio Araújo. Dado os  problemas com a qualidade da educação e dado o modelo social que o eleitor mediano no Brasil parece ter escolhido, não há como crescer mais rápido do que à média do governo Lula (4% ao ano) e não há taxa de câmbio que compense a baixa produtividade da indústria e do setor de serviços no Brasil. Hoje, precisamos olhar mais para o lado da oferta do que para o lado da demanda, pois o problema hoje do Brasil não é insuficiência de demanda.