Pérolas que se leem nos jornais…..

Lí hoje na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo e no Valor Econômico:

(1) Infraero diz que investimentos vão atender demanda: A Infraero diz que se organizou para adaptar os aeroportos para a Copa e tem “uma lista de investimentos necessários” não só para grandes eventos mas para poder atender à demanda para os próximos anos e que  parte desses investimentos já estava programada pela Infraero antes mesmo de o país ser escolhido como sede da Copa. (Folha de São Paulo)

–> No mínimo, essas pessoas não viajam com frequência de avião pelo Brasil. Nas minhas viagens tem sido comum ficar em pé nas salas de embarque por falta de espaço, ter dificuldades de recuperar a bagagem devido ao compartilhamento de até três voos na mesma esteira e até ter que passar quase uma hora na fila na pista de decolagem. É claro que a Infraero tem dificuldade de cumprir com a agenda de investimento.

(2)  Governo quer adotar conceito de Superávit Nominal: segundo uma fonte da agência estado: No momento em que o governo adotar a nova contabilidade, o foco deixa de ser o superávit primário. “O superávit primário é um entulho autoritário”, disse a fonte. …… “Não vamos ter que atrelar o pagamento de juros à exigência de um superávit das contas” (Estado de São Paulo).

–>  A fonte para essa matéria da jornalista Beatriz Abreu não sabe o que está falando ou a jornalista não foi precisa na transcrição. Se passarmos a trabalhar com o conceito de superávit nominal, que além das despesas não financeiras passa a incluir o pagamento de juros,  isso pode mostrar que precisamos economizar mais e não menos. Por exemplo, nos últimos 12 meses terminados em setembro, o superávit primário do Governo Central, com todos os truques que já sabemos, foi de R$ 78,4 bilhões ou 2,27% do PIB. Mas como o pagamento dos juros sobre a divida pública foi muito maior, R$ 129,6 bilhões (5,33% do PIB), o resultado foi um déficit nominal de R$ 51,2 bilhões (1,46% do PIB).

Como é que a mudança para o conceito nominal vai terminar como a necessidade de atrelar o pagamento de juros à exigência de um superávit das contas? A explicação talvez esteja abaixo:

(3) Mantega fica para reduzir a dívida para 30% do PIB (Coluna Claudia Safatle no Valor Econômico): “A intenção do ministro é, simultaneamente, mudar a metodologia de medição das contas públicas para o conceito mais abrangente – o nominal, que leva em conta os juros que o Tesouro Nacional paga pela dívida pública. ….. Mantega acha que pode, com juros em queda, zerar o déficit nominal antes de 2014.”

–> Como os juros vão cair se o governo vem diminuindo o superávit primário real e expandindo uma série de operações com eventual impacto fiscal? Reduzir juros na marra como fez a Argentina leva a mais inflação.

Mas ai vem mais uma pérola na mesma coluna:

(4) Arrumar dinheiro para reforçar o caixa do BNDES: “Tão logo seja oficializado no posto, Mantega deverá encaminhar para decisão da presidente eleita as primeiras providências para 2011: arrumar dinheiro para reforçar o caixa do BNDES e enviar ao Congresso o pacote de medidas de incentivo à captação e financiamento de longo prazo. Depois de receber aporte de mais de R$ 200 bilhões do Tesouro Nacional nos últimos dois anos, o BNDES não pode diminuir de tamanho abruptamente e reivindica mais R$ 60 bilhões do Tesouro para o próximo ano”.

-> Este ano o governo já emprestou mais de R$ 60 bilhões para o BNDES (empréstimos para o BNDES comprar ações da Petrobrás + Empréstimo para o projeto do trem Bala + capitalização do BNDES com ações da Petrobrás). Mas o banco ainda precisa de mais R$ 60 bilhões?

Vou ter que parar de uma vez por todas com esse blog e voltar para a faculdade de economia, porque não consigo mais entender a lógica da política econômica.

9 pensamentos sobre “Pérolas que se leem nos jornais…..

  1. Ao que parece, estão dizendo tudo o que não deveria ter sido feito em políticas fiscais. Mas, mesmo assim, o responsável pela Fazenda é mantido para dar continuidade. Continuar o quê? Afinal são claras as necessidade de ajustes fortes.

  2. Quanto ao segundo ponto abordado, a questão do superávit primário, como é que fica a lei de responsabilidade fiscal diante de tal pretensão? (Já que nos últimos 12 meses terminados em setembro, o superávit primário do Governo Central, foi de R$ 78,4 bilhões ou 2,27% do PIB.)

    • Nenhum problema quanto a isso, porque, legalmente, o governo pode descontar uma grande parcela dos gastos do investimento da meta e ainda parte dos restos a pagar do ano passado que estão sendo executados este ano. Por isso que no meu ultimo artigo do valor falei da morte do conceito de superávit primário.

      Acho que a única forma dessa ciranda terminar é se comerçarmos a estabelecer limites para a divida bruta (e não a líquida) da forma que é apurada pelo Banco Central – conceito abaixo da linha. Assim, ao invés do foco ser no primário teríamos um meta ou teto de crescimento ou redução da divida bruta/PIB e o primário seria definido a partir dai. Qualquer coisa que o governo fizesse para tentar mascarar não seria eficaz, pois seria mais difícil tentar maquiar a divida publica (bruta) no mercado.

      Mansueto

  3. Caro Mansueto,

    Mais uma para sua coleção…

    Sobre os aeroportos, o Nelson Jobim disse o seguinte: ”A previsão é de que nestes dois grandes eventos aja (sic) um acréscimo de 2% a 4% no volume de passageiros e nossos aeroportos estarão preparados para este crescimento” http://bit.ly/cLoklM

    Abraço,
    Rapha

  4. Só atualizando.

    Fiz um post no meu blog com uma conta simples. Em janeiro, foram transportados 13.362.072 passageiros no Brasil. Um aumento de apenas 4% disso daria algo como 17.816 passageiros a mais por dia. Ora, isso é um pouco menos que a torcida do Bangu. Imagine a quantidade de gente circulando num dia de Copa quando há 3 jogos acontecendo. Que conta é essa que o Jobim fez?

  5. (1) A Infraero está fora da realidade
    (2) Acho interessante adotar o conceito de resultado nominal – o que não seria incompatível com uma meta para a evolução da dívida pública. Em poucas palavras, abre-se um espaço maior para a discussão do impacto de alterações das taxas de juros sobre o resultado fiscal e a dívida pública (a causalidade aumento do sup. primário -> redução da pressão inflacionária -> redução das taxas de juros -> redução da dívida pública é um pouco nebulosa para mim, especialmente quando se trata da primeira setinha), além de solucionar, em parte, o problema da transparência das contas públicas.
    (3) Os canais de transmissão juros -> inflação também são extremamente nebulosos, até porque a inflação brasileira esteve nos últimos anos, grosso modo, associada a elevação do mínimo e a variação da alíquota da Cide como fatores geradores – além de algumas pressões de oferta (cujo impacto foi limitado); fatos estes independentes do comportamento da variável juros.
    (4) Aparentemente o $$ emprestado ao BNDES junto ao Tesouro voltou para que a meta de sup. primário seja alcançada. Como manter um ritmo mais acelerado de investimentos sem aumentar o poder do BNDES? Os bancos privados fornecerão os recursos?

    • Bob,

      Gosto também do resultado nominal. O que acho estranho são os motivos declarados para mudança: diminuir a necessidade de economia do governo (superavit primário real). Acho difícil baixar as taxas de juros na marra.

      A sua explicação para a questão da transmissão do juros na inflação é compartilhada por várias pessoas que conheço. Mas confesso que acho ainda a política monetária eficaz, apesar da fiscal, em muito, diminuir a eficácia da monetária. Mas temos ai um bom tema para debate, porque é certo que o governo vai muito mais na sua linha do que na minha.

      Bom, quanto à questão do BNDES, acho que precisamos criar espaço fiscal para aumentar os gastos com investimento e, para isso, temos que definir o que é prioritário. E acho que parte dos investimentos que o BNDES financia não são prioritários ou poderiam ser financiados por recursos privados com aconteceu com várias operações de Fusão e Aquisição. E muito da participação maior do BNDES em alguns projetos de investimento é fruto do limite que o governo coloca na tarifa final como parece ser o caso de Belo Monte.

      Se formos aumentar a divida para financiar tudo que precisamos fazer, a divida explode. Hoje, no Brasil, tenho convicção que o projeto do Trem Bala não é prioritário. Mas como fazemos esse jogo de emissão de divida e empréstimo para o BNDES, o custo fica escondido e achamos que podemos fazer tudo.

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