Sobre a Desindustrialização: o que fazer?

O jornal Valor Econômico trouxe nesta segunda-feira matéria sobre um suposto documento do governo, que estaria preocupado com “a desindustrialização negativa que pode ameaçar as contas externas”. Na verdade, o Brasil já vinha dando sinais que seu modelo de crescimento seria baseado no uso de poupança externa financiado por uma maior entrada de capital, o que levaria, naturalmente, a uma maior valorização do real.

A crise não alterou essa trajetória, apenas intensificou um movimento que já vinha se delineando antes da crise. A perda de competitividade de alguns setores intensivos em mão-de-obra, como o setor de calçados, é algo anterior a crise. Até a segunda metade dos anos 90, o Brasil ainda apresentava algum dinamismo nas exportações de calçados que foi perdendo fôlego desde então com a forte entrada da China no mercado mundial. Em 1996, o Brasil exportou US$ 1,6 bilhão de calçados, praticamente o mesmo valor em 2000. Em 2008, as exportações foram para US$ 2 bilhões. Ou seja, de 1996 a 2008, as exportações nesse setor (capitulo 64 da NBM) havia aumentado apenas 23%.

Neste mesmo período, de 1996 a 2008, as exportações de carnes (capitulo 2 da NBM) passaram de US$ 1,2 bilhão para US$ 12,3 bilhões (+891%), as exportações de minérios (capitulo 26) passou de US$ 2,9 bilhões para US$ 18,7 bilhões (+539%) e as exportações de grãos, sementes e frutos oleaginosos (capitulo 12) passou de US$ 1 bilhão para US$ 11 bilhões (+967%). O mundo pós-crise agravou essa tendência que é anterior à crise.

Há que se esclarecer, no entanto, que ainda não passamos por um processo de desindustrialização com queda continua do emprego e da produção industrial. Mas dado que há o risco de que isso venha a acontecer para alguns setores, o que fazer? Não sei e duvido que alguém tenha uma resposta simples para este problema. A última carta do IBRE (ver aqui) trata exatamente deste assunto e chega a defender um maior controle na entrada de capital (estou surpreso), apesar de reconhecer que esse mecanismo é insuficiente.

É claro que a maior parte dos economistas de fora do governo acredita que a única forma de combater a valorização do real é por meio de um maior controle no crescimento dos gastos públicos, que reduziria a pressão de demanda, permitindo ao BACEN trabalhar com juros menores para atingir a meta de inflação. Adicionalmente, um aumento da poupança pública (economia do governo) significaria uma menor necessidade de poupança externa e, logo, saldo em conta corrente menos deficitário devido à queda da demanda.

Dada a nossa dificuldade de controlar os gastos públicos, o que mais fazer?

(1) Por que não baixar a taxa de juros na marra como fez a Argentina? É possível, mas isso levaria a uma inflação maior como ocorreu na Argentina. Alguém de bom senso no Brasil defende isso? sim, há alguns na Esplanada dos Ministérios que acreditam, fortemente, que podemos controlar o crescimento da demanda com restrição ao crédito ao invés do aumento dos juros. Não acredito nisso, mas estou aberto à discussão.

(2) Que tal incentivar com outros mecanismos que não seja o câmbio  (redução seletiva de impostos ou concessão de crédito subsidiado) os setores específicos que são mais afetados pela valorização do real? Isso seria uma alternativa melhor, mas de onde vamos tirar os recursos para fazer essa politica? Reduzindo o superávit primário? O primário já foi reduzido e ainda precisamos aumentar o investimento público. Não vejo muito espaço fiscal, mas há sempre a possibilidade arriscada de utilizar o BNDES para isso via novos empréstimos do Tesouro.

(3) Por que não aumentar as intervenções do Banco Central no mercado cambial? Porque essa politica teria uma custo fiscal altíssimo (já que para não ter aumento da inflação o BACEN teria que aumentar a venda de títulos para o mercado que pagam SELIC) e, mesmo assim, independente do valor da taxa de câmbio, a rentabilidade relativa das commodities continuaria maior do que a dos produtos industrializados,  pressionando novamente a valorização do real.

(4) Por que não aumentar o controle sobre a entrada de capital? Acho que isso fatalmente vai acontecer como já vem ocorrendo, apesar de a maior parte do capital que hoje entra no Brasil (cerca de 70%) ser para aplicação no mercado de ações ou investimento direto externo (IDE). Se o governo exagerar na dose, isso vai levar a uma menor liquidez do mercado de ações e dificultar o financiamento de nossas empresas. E controlar o IDE é literalmente um tiro no pé, já que não temos poupança suficiente para financiar o nosso crescimento.

O que vai acontecer no Brasil?

Não sei, mas desconfio que vem por ai, além de maior controle na entrada de capital e aumento do imposto de renda sobre aplicação de estrageiros em titulos da divida, imposto maior para o minério de ferro e alguns programas especiais de financiamento via BNDES para os setores mais afetados pelo câmbio. A solução de aumentar a tributação sobre algumas commodities especificas (minério de ferro, carvão, petróleo e gás) foi adotada, recentemente, pela Austrália.  Na primeira tentativa de fazer algo mais radical, o primeiro ministro caiu. As exportações de minério de ferro e carvão respondem por 30% da pauta de exportação da Austrália e o  governo fez opção de diminuir a rentabilidade desses setores para estimular, com um câmbio mais desvalorizado, os demais.

Por fim, o pior dos mundos seria controlar as importações como já foi sugerido pela FIESP, pois estaríamos apenas prejudicando o crescimento e empurrando o problema com a barriga, principalmente em um País no qual grande parte do investimento em “inovação” vem da incorporação da máquinas novas (importadas) ao processo produtivo.

Um pensamento sobre “Sobre a Desindustrialização: o que fazer?

Os comentários estão desativados.