Mais um truque no Resultado Primário

Qual a grande diferença entre o BNDES e uma empresa privada? várias diferenças entre as quais a capacidade que o BNDES tem de aumentar o seu capital e ainda aumentar suas transferências (pagamento de dividendos) para o seu controlador: a União. Nenhuma empresa privada conseguiria tal mágica. Explico a seguir essa mágica.

Hoje, dia 25 de novembro de 2010, o governo editou o Decreto 7.365/2010 que, no seu Art. 1o , estabelece que:  ” Fica o Conselho de Administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Economico e Social – BNDES autorizado a declarar dividendos complementares à conta da Reserva de Lucros para Futuro Aumento de Capital, relativamente ao saldo existente no balanço levantado em 30 de junho de 2010″.

O que isso significa?

De acordo com o meu parco conhecimento de contabilidade, acho que o truque é o seguinte. O lucro do BNDES, neste segundo semestre, deverá ser bem maior do que no primeiro porque grande parte do lucro do primeiro semestre decorreu da reversão de provisão para devedores duvidosos. Assim, o grosso do lucro vem agora.

Para um banco que precisa urgentemente de recursos para aumentar seu Patrimônio Líquido (PL) para fazer frente ao risco de maiores projetos, o banco teria que aumentar sua “Reserva de Lucros Futuro para Aumento de Capital”, com foi feito, em abril de 2010, quando o banco transferiu R$ 1,99 bilhão da sua Reserva de Lucro para aumento de capital.

Mas o BNDES não é empresa privada. Assim, no final de agosto de 2010, o governou fez uma nova capitalização do BNDES de uma forma diferente. Utilizou R$ 4,5 bilhões de ações da Petrobrás para capitalizar o BNDES. Logo, o banco pode agora se dar ao luxo de turbinar os seus dividendos complementares para transferir mais recursos para o Tesouro Nacional, sem ter que se preocupar com o aumento do PL. o BNDES, como já disse, é especial.

De acordo com essa medida de hoje, tudo aquilo da conta Reserva de Lucros para Futuro Aumento de Capital acima do saldo de 30 de junho de 2010, R$ 953 milhões, será revertido para dividendos complementares (e vai, logicamente, engordar a receita do Tesouro Nacional no final do ano).

 Assim, mais uma vez, o governo conseguiu tirar água de pedra. Capitaliza o BNDES com transferência de ações da Petrobrás, em agosto de 2010, e três meses depois baixa uma norma esclarecendo que o banco não precisa reter parte do seu lucro para a sua capitalização, e poderá utilizá-lo para aumentar os dividendos complementares e gerar uma receita primária maior para o Tesouro Nacional.

Nada mais a comentar, a não ser que estou cada dia mais impressionado com essa contabilidade criativa e tem gente muito esperta, funcionário de carreira, por trás disso.

Política Industrial, JBS/Friboi, etc.

Hoje, o presidente do grupo JBS deu entrevista ao Estado de São Paulo e reclama do tratamento que a empresa vem recebendo do mercado e da imprensa que, entre outras coisas, faz matérias negativas sobre o grupo. O título da matéria (será que joguei pedra na cruz?) mostra a indignação do executivo com as matérias da imprensa e com o comportamento dos investidores privados que penalizam o valor de mercado do  JBS (valor de mercado despencou em mais de 30% este ano e está abaixo do valor patrimonial), que seria uma das companhias brasileiras mais bem sucedida aqui e lá fora.

Já falei sobre esse assunto várias vezes, mas como já está em gestação no BNDES a mais nova versão da política industrial, a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) na sua segunda versão, que agora vai focar em sub-setores ou “elos das cadeias produtivas”, acho que vale a pena voltar ao assunto e, claro, o JBS sempre entra na discussão porque essa empresa em 2008, 2009 e 2010 esteva na lista dos maiores empréstimos diretos do BNDES ao setor industrial.

Em 2008, o JBS pegou R$1,1 bilhão de empréstimos com o BNDES, em 2009, mais R$ 3,5 bilhões, e mais R$ 200 milhões em 2010. Como JBS comprou o grupo Bertin, que tinha recebido R$ 2,5 bilhões de empréstimos diretos do BNDES, em 2008, e mais R$ 200 milhões em 2009, todos esses empréstimos totalizam R$ 7,5 bilhões em um prazo de três anos.

Além desses empréstimos diretos, O BNDESpar comprou participação no JBS e no grupo Bertin que hoje são a mesma empresa. De acordo com o balanço patrimonial do BNDES de junho de 2010, o BNDES possuía 17,32% do JBS; algo como R$ 3,9 bilhões (participação societária do custo de dezembro de 2009). Essa participação  coloca o JBS entre aquelas empresas nas quais o BNDESpar aposta muito dinheiro, grupo formado pela Eletrobrás (R$ 4,3 bilhões), Vale S/A (R$ 3,7 bilhões), Valepar (R$ 2,6 bilhões) e FIBRIA (R$ 2,3 bilhões) entre outras.

Assim, a relação BNDES-JBS é mais do que um simples empréstimo para o BNDES. É uma aposta de política industrial que o banco fez no grupo para que este pudesse se consolidar como um grande player no mercado de carnes global. O BNDES fez a mesma aposta com a Fibria (30,4% do capital) para o setor de celulose e com o frigorífico Marfrig, no qual o banco detém 13,9% (R$ 987 milhões) do capital.

Dito isso, seguem alguns esclarecimentos.

(1) Ganho Privado versus Ganho Social: o grupo JBS adotou a estratégia correta de crescimento do ponto de vista privado. Eu como empresário teria buscado o BNDES como parceiro e fonte de recursos. O que se questiona não é o JBS, mas sim o BNDES que nunca explicou claramente os critérios para apostar tanto em um setor no qual o Brasil já tinha uma clara vantagem comparativa. Qual o ganho social dessa aposta?  O crescimento da empresa decorreu mais do acesso ao BNDES ou do mérito dos seus administradores?

O JBS fez o jogo correto, quem teria que se explicar deveria ser o BNDES que se restringiu a falar que precisamos criar empresas globais. OK, mas por que o setor público tem que estar por trás dessa estratégia em companhias que já são competitivas? por sinal, há algumas semanas o economista Josér Roberto Mendonça Barros publicou na sua coluna no Estado de São Paulo (clique aqui) uma avaliação dos impactos do crescimento do JBS na economia brasileira.

(2) Banco de Fomento versus Operações de Socorro: Na entrevista de hoje ao jornal estado de São Paulo, o presidente do JBS deixa escapar que:

“….Sabe o que ninguém lembra? É que o Bertin tinha R$ 4 bilhões de dívida com Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil. Por que ninguém pergunta: o Bradesco te pediu para comprar? O BNDES tinha R$ 2 bilhões. O fato é que naquele momento ninguém tinha balanço para comprar o Bertin. Eu acho que ajudei o Bradesco, ajudei o Santander. Quando eu converso com o Fábio (Barbosa, do Santander), eu digo: olha, você lembra, né? Eu poderia até levar vantagem em cima disso. Mas eu nunca faria isso.”

O curioso é que este não foi o único caso. Como já cometei neste blog sobre matéria de outubro na revista Piauí no caso da venda da Sadia para Perdigão:

“Nildemar Secches, antigo presidente da Perdigão e atual presidente do conselho da Brasil Foods, acha que, sem a intervenção do BNDES, teria comprado a Sadia por um preço muito mais baixo. “A Sadia não ia quebrar, quem ia quebrar eram os acionistas”, disse ele a um amigo. “Nós ficaríamos com a empresa por um preço muito menor.”

E exatamente as mesmas observações valem para o caso da venda da Aracruz celulose, que tinha como acionistas os mesmos controladores do Banco Safra,  para a Votorantim Celulose para formar a Fibria. Os empréstimos do BNDES, além de facilitar as vendas, “salvou” os empréstimos dos bancos privados (ou de seus acionistas).

Essas operações nunca foram devidamente explicadas. De qualquer forma, aqui e acolá acaba-se descobrindo que os bancos privados também foram favorecidos pela posição mais ativa que o BNDES adotou desde a crise do final de 2008.

As dúvidas do mercado não são se este ou aquele empresário “atirou pedra na cruz”, mas sim do que estar por trás do crescimento de várias empresas brasileiras, se uma maior facilidade de acesso a recursos públicos ou a competência excepcional dos seus administradores. Como ninguém se dá o trabalho de explicar a “real política industrial”, fica-se com a impressão que nossas grandes empresas crescem rápido devido a condições excepcionais de acesso a recursos do BNDES.

Investimento Público e Aeroportos

Quais os itens do investimento público da união que mais crescem de 2007 até outubro de 2010?

Há várias formas de se mapear o investimento público. Esse mapeamento pode ser feito de acordo com o montante gasto por cada ministério ou pela “função”, que seria a finalidade do investimento público. É essencial também incluir nos desembolsos do investimento a execução dos Restos a Pagar, já que mais de 60% do investimento (critério caixa) de um ano vem da execução dos restos a pagar.

Resolvi por curiosidade fazer essas contas para o GND-4, investimento público da união que exclui inversões financeiras. Assim, meus dados serão menores que os dados oficiais do Tesouro, mas uma diferença inferior a 5%.

O que os dados do SIAFI mostram?

(1) No acumulado do segundo mandato do governo Lula, de 2007 até outubro de 2010, o investimento público da união mensurado pelo conceito de GND-4, valores pagos e atualizados para 2010, foi de R$ 122 bilhões. Muitou ou pouco? Bom, no mesmo período, os empréstimos do Tesouro Nacional para os bancos públicos passaram de “zero” para cerca de R$ 260 bilhões. O investimento foi muito baixo. Não há o que discutir.

(2) Desse total do investimento público da união de 2007 até outubro de 2010 (R$ 122 bilhões), a maior execução foi na área de Transporte (R$ 36,2 bilhões) – nenhuma surpresa- seguida pelo investimento em “Defesa Nacional” (R$ 14,6 bilhões). Aqui temos uma surpresa.

Olhando esses dados, surge uma pergunta: Que tipo de investimento público foi feito na área de Defesa Nacional? O programa de reforma e ampliação dos aeroportos está classificado aqui: programa 0631 – Desenvolvimento da Infraestrutura Aeroportuária. Infelizmente, os dados mostram que, de 2007 até outubro de 2010, a execução do investimento público neste programa foi de apenas R$ 845,7 milhões. Mais da metade do investimento com Defesa Nacional é com o reaparelhamento da Aeronáutica (aviões) e da Marinha (programa de submarino que este ano está bombando).

E quanto aos aeroportos? Bom, o PAC de 2007 a 2010 fazia previsão de R$ 3 bilhões. Como investimento até agora é de apenas R$ 845, 7 milhões, mesmo que se chegue até o final do ano a R$ 1 bilhão, esse valor será um pouco mais de 30% do que havia sido previsto no PAC.

E para os próximos quatro anos?

o governo anunciou investimentos de R$ 5,6 bilhões; ou seja, mais do que quintuplicar o investimento executado de 2007 a 2010. Só nos resta rezar pelo governo para que consiga tal feito extraordinário.

Pérolas que se leem nos jornais…..

Lí hoje na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo e no Valor Econômico:

(1) Infraero diz que investimentos vão atender demanda: A Infraero diz que se organizou para adaptar os aeroportos para a Copa e tem “uma lista de investimentos necessários” não só para grandes eventos mas para poder atender à demanda para os próximos anos e que  parte desses investimentos já estava programada pela Infraero antes mesmo de o país ser escolhido como sede da Copa. (Folha de São Paulo)

–> No mínimo, essas pessoas não viajam com frequência de avião pelo Brasil. Nas minhas viagens tem sido comum ficar em pé nas salas de embarque por falta de espaço, ter dificuldades de recuperar a bagagem devido ao compartilhamento de até três voos na mesma esteira e até ter que passar quase uma hora na fila na pista de decolagem. É claro que a Infraero tem dificuldade de cumprir com a agenda de investimento.

(2)  Governo quer adotar conceito de Superávit Nominal: segundo uma fonte da agência estado: No momento em que o governo adotar a nova contabilidade, o foco deixa de ser o superávit primário. “O superávit primário é um entulho autoritário”, disse a fonte. …… “Não vamos ter que atrelar o pagamento de juros à exigência de um superávit das contas” (Estado de São Paulo).

–>  A fonte para essa matéria da jornalista Beatriz Abreu não sabe o que está falando ou a jornalista não foi precisa na transcrição. Se passarmos a trabalhar com o conceito de superávit nominal, que além das despesas não financeiras passa a incluir o pagamento de juros,  isso pode mostrar que precisamos economizar mais e não menos. Por exemplo, nos últimos 12 meses terminados em setembro, o superávit primário do Governo Central, com todos os truques que já sabemos, foi de R$ 78,4 bilhões ou 2,27% do PIB. Mas como o pagamento dos juros sobre a divida pública foi muito maior, R$ 129,6 bilhões (5,33% do PIB), o resultado foi um déficit nominal de R$ 51,2 bilhões (1,46% do PIB).

Como é que a mudança para o conceito nominal vai terminar como a necessidade de atrelar o pagamento de juros à exigência de um superávit das contas? A explicação talvez esteja abaixo:

(3) Mantega fica para reduzir a dívida para 30% do PIB (Coluna Claudia Safatle no Valor Econômico): “A intenção do ministro é, simultaneamente, mudar a metodologia de medição das contas públicas para o conceito mais abrangente – o nominal, que leva em conta os juros que o Tesouro Nacional paga pela dívida pública. ….. Mantega acha que pode, com juros em queda, zerar o déficit nominal antes de 2014.”

–> Como os juros vão cair se o governo vem diminuindo o superávit primário real e expandindo uma série de operações com eventual impacto fiscal? Reduzir juros na marra como fez a Argentina leva a mais inflação.

Mas ai vem mais uma pérola na mesma coluna:

(4) Arrumar dinheiro para reforçar o caixa do BNDES: “Tão logo seja oficializado no posto, Mantega deverá encaminhar para decisão da presidente eleita as primeiras providências para 2011: arrumar dinheiro para reforçar o caixa do BNDES e enviar ao Congresso o pacote de medidas de incentivo à captação e financiamento de longo prazo. Depois de receber aporte de mais de R$ 200 bilhões do Tesouro Nacional nos últimos dois anos, o BNDES não pode diminuir de tamanho abruptamente e reivindica mais R$ 60 bilhões do Tesouro para o próximo ano”.

-> Este ano o governo já emprestou mais de R$ 60 bilhões para o BNDES (empréstimos para o BNDES comprar ações da Petrobrás + Empréstimo para o projeto do trem Bala + capitalização do BNDES com ações da Petrobrás). Mas o banco ainda precisa de mais R$ 60 bilhões?

Vou ter que parar de uma vez por todas com esse blog e voltar para a faculdade de economia, porque não consigo mais entender a lógica da política econômica.

Trem Bala na Itália – Aumento da Dívida Pública e do Déficit Púbico.

Ontem estava conversando sobre esse tema com dois alunos de mestrado que trouxe da Itália para trabalharem comigo no IPEA durante três meses e, para minha surpresa, eles me falaram: “Na Itália estamos construindo vários trens de alta velocidade e acho que eles se pagam”. Fiquei curioso com essa afirmação e resolvi pesquisar um pouco mais sobre o assunto para ver se meus alunos tinham razão.

Felizmente, o FMI publica quase todos os anos um relatório dos principais riscos fiscais de cada país e, assim, foi fácil encontrar uma análise mais critica sobre o Trem de Alta Velocidade (TAV) na Itália. O que diz a avaliação do FMI? (as informações abaixo retirei de dois relatórios do FMI: Italy Selected Issues, 2006 (Box. 3 pp.91) e Italy Selected Issues, 2007 (pp. 46)

(1) O Treni Alta Velocita’ (TAV) é o maior investimento público já feito na Itália. O primeiro trecho de Turin-Milão-Nápoles tem um custo estimado em €30 bilhões (ou 2,5% do PIB da Itália). Um segundo trecho de Genova-Milão-Verona-Pádua custará um adicional de €14 bilhões (1,16% do PIB) para começar a operar em 2012/13.

(2) Projeto que era privado, em 1991,  foi transformado em obra pública em 1998. No seu início em 1991, os Treni Alta Velocita’ (TAV) italianos eram projetos privados. O governo participava do projeto com 43% do capital e um consórcio de bancos de investimento privado bancava 57% do projeto. Em 1994, o governo Italiano estabeleceu uma garantia ao funcionamento do projeto e, em 1998, devido a crescente incerteza quanto aos custos do projeto, incerteza da demanda futura e atrasos na conclusão das obras, A Rede Ferroviária Italiana (RFI), uma companhia 100% estatal, comprou a participação privada e os TAV passaram a ser, integralmente, investimentos públicos.

(3) TAV na Itália não vai gerar fluxo de receita suficiente para pagar o custo da obra. O TAV será pago entre 2009 e 2043 por meio de prestações fixas (“canone di esercizio”). No entanto, desde 2003, o artigo 75 do orçamento do governo Italiano estabelece que o governo assumirá o custo do serviço da dívida não pago pelo TAV com sua receita própria. A estimativa é que metade do serviço da divida seja arcado pelo setor público.

(4) Em 2007, o déficit público na Itália cresceu 0,9% do PIB por causa do TAV. Em 2007, o governo Italiano resolveu absorver parte da divida do projeto do TAV para não contaminar o fluxo de receita futura do projeto com o serviço da dívida.  O resultado foi que o déficit público da Itália aumentou 0,9% do PIB. O problema é que, mesmo com esse aumento do déficit público em 2007, existe ainda a possibilidade de ele crescer ainda mais, pois o governo reconheceu neste primeiro momento apenas metade do custo de  €32 bilhões da linha Turin-Milão-Nápoles.

Olhando para a história dos TAV na Itália é fácil entender porque no caso do Brasil apenas um consórcio foi até agora formado para participar do projeto do TAV (ver matéria publicada hoje no jornal Folha de São Paulo). E no caso dos EUA, Marcos Mendes, Consultor Legislativo do Senado Federal, explicou recentemente no jornal Estado de São Paulo (ver aqui) porque os TAVs não saem do papel, já que parte do seu custo tem que ser arcado pelos governo estaduais que não têm o recurso.

Os Trens de Alta Velocidade (TAV) são bonitos, rápidos e confortáveis para viajar. Não tenho dúvida disso. Mas têm um custo elevado e a experiência mostra que esses projetos não se sustentam sem elevados subsídios públicos. Se a sociedade brasileira decidir que quer construir vários TAVs, respeito a decisão da maioria. Mas para que o debate seja transparente, o governo deveria discutir os custos e benefícios desse projeto no Congresso Nacional, convidando a participação de especialistas em infraestrutura do Brasil e de países que tem experiência com a construção e operação do Trem Bala.

Como isso não está sendo feito, há o grande risco desse projeto se tornar  a “Ferrovia do Aço do neo-desenvolvimentismo” como fala o jornalista Vinícius Torres Freire (clique aqui) na sua coluna hoje na Folha de São Paulo (FSP). A sociedade brasileira precisa compreender que precisamos decidir o que é prioritário, se não fizermos isso, uma carga tributária ainda maior, dívida crescente ou ate mesmo inflação será o resultado. Estou exagerando? Bom, vamos voltar aos livros de história e ver o que aconteceu quando decidimos construir Brasília e manter o crescimento a qualquer custo depois do primeiro choque do Petróleo.

Sobre a Desindustrialização: o que fazer?

O jornal Valor Econômico trouxe nesta segunda-feira matéria sobre um suposto documento do governo, que estaria preocupado com “a desindustrialização negativa que pode ameaçar as contas externas”. Na verdade, o Brasil já vinha dando sinais que seu modelo de crescimento seria baseado no uso de poupança externa financiado por uma maior entrada de capital, o que levaria, naturalmente, a uma maior valorização do real.

A crise não alterou essa trajetória, apenas intensificou um movimento que já vinha se delineando antes da crise. A perda de competitividade de alguns setores intensivos em mão-de-obra, como o setor de calçados, é algo anterior a crise. Até a segunda metade dos anos 90, o Brasil ainda apresentava algum dinamismo nas exportações de calçados que foi perdendo fôlego desde então com a forte entrada da China no mercado mundial. Em 1996, o Brasil exportou US$ 1,6 bilhão de calçados, praticamente o mesmo valor em 2000. Em 2008, as exportações foram para US$ 2 bilhões. Ou seja, de 1996 a 2008, as exportações nesse setor (capitulo 64 da NBM) havia aumentado apenas 23%.

Neste mesmo período, de 1996 a 2008, as exportações de carnes (capitulo 2 da NBM) passaram de US$ 1,2 bilhão para US$ 12,3 bilhões (+891%), as exportações de minérios (capitulo 26) passou de US$ 2,9 bilhões para US$ 18,7 bilhões (+539%) e as exportações de grãos, sementes e frutos oleaginosos (capitulo 12) passou de US$ 1 bilhão para US$ 11 bilhões (+967%). O mundo pós-crise agravou essa tendência que é anterior à crise.

Há que se esclarecer, no entanto, que ainda não passamos por um processo de desindustrialização com queda continua do emprego e da produção industrial. Mas dado que há o risco de que isso venha a acontecer para alguns setores, o que fazer? Não sei e duvido que alguém tenha uma resposta simples para este problema. A última carta do IBRE (ver aqui) trata exatamente deste assunto e chega a defender um maior controle na entrada de capital (estou surpreso), apesar de reconhecer que esse mecanismo é insuficiente.

É claro que a maior parte dos economistas de fora do governo acredita que a única forma de combater a valorização do real é por meio de um maior controle no crescimento dos gastos públicos, que reduziria a pressão de demanda, permitindo ao BACEN trabalhar com juros menores para atingir a meta de inflação. Adicionalmente, um aumento da poupança pública (economia do governo) significaria uma menor necessidade de poupança externa e, logo, saldo em conta corrente menos deficitário devido à queda da demanda.

Dada a nossa dificuldade de controlar os gastos públicos, o que mais fazer?

(1) Por que não baixar a taxa de juros na marra como fez a Argentina? É possível, mas isso levaria a uma inflação maior como ocorreu na Argentina. Alguém de bom senso no Brasil defende isso? sim, há alguns na Esplanada dos Ministérios que acreditam, fortemente, que podemos controlar o crescimento da demanda com restrição ao crédito ao invés do aumento dos juros. Não acredito nisso, mas estou aberto à discussão.

(2) Que tal incentivar com outros mecanismos que não seja o câmbio  (redução seletiva de impostos ou concessão de crédito subsidiado) os setores específicos que são mais afetados pela valorização do real? Isso seria uma alternativa melhor, mas de onde vamos tirar os recursos para fazer essa politica? Reduzindo o superávit primário? O primário já foi reduzido e ainda precisamos aumentar o investimento público. Não vejo muito espaço fiscal, mas há sempre a possibilidade arriscada de utilizar o BNDES para isso via novos empréstimos do Tesouro.

(3) Por que não aumentar as intervenções do Banco Central no mercado cambial? Porque essa politica teria uma custo fiscal altíssimo (já que para não ter aumento da inflação o BACEN teria que aumentar a venda de títulos para o mercado que pagam SELIC) e, mesmo assim, independente do valor da taxa de câmbio, a rentabilidade relativa das commodities continuaria maior do que a dos produtos industrializados,  pressionando novamente a valorização do real.

(4) Por que não aumentar o controle sobre a entrada de capital? Acho que isso fatalmente vai acontecer como já vem ocorrendo, apesar de a maior parte do capital que hoje entra no Brasil (cerca de 70%) ser para aplicação no mercado de ações ou investimento direto externo (IDE). Se o governo exagerar na dose, isso vai levar a uma menor liquidez do mercado de ações e dificultar o financiamento de nossas empresas. E controlar o IDE é literalmente um tiro no pé, já que não temos poupança suficiente para financiar o nosso crescimento.

O que vai acontecer no Brasil?

Não sei, mas desconfio que vem por ai, além de maior controle na entrada de capital e aumento do imposto de renda sobre aplicação de estrageiros em titulos da divida, imposto maior para o minério de ferro e alguns programas especiais de financiamento via BNDES para os setores mais afetados pelo câmbio. A solução de aumentar a tributação sobre algumas commodities especificas (minério de ferro, carvão, petróleo e gás) foi adotada, recentemente, pela Austrália.  Na primeira tentativa de fazer algo mais radical, o primeiro ministro caiu. As exportações de minério de ferro e carvão respondem por 30% da pauta de exportação da Austrália e o  governo fez opção de diminuir a rentabilidade desses setores para estimular, com um câmbio mais desvalorizado, os demais.

Por fim, o pior dos mundos seria controlar as importações como já foi sugerido pela FIESP, pois estaríamos apenas prejudicando o crescimento e empurrando o problema com a barriga, principalmente em um País no qual grande parte do investimento em “inovação” vem da incorporação da máquinas novas (importadas) ao processo produtivo.