Investimento Público e Eleições

É fato conhecido que sempre em ano de eleição os gastos aumentam. Em 2006, por exemplo, o investimento público do governo federal passou para R$ 20,2 bilhões, ante R$ 13 bilhões em 2005, crescimento de R$ 7 bilhões (valores atualizados para 2009). Ao contrário do que muitos afirmam, essa boa performance do crescimento do investimento nunca se repetiu nos anos seguintes do governo atual, apesar do Programa de Aceleração Econômica (PAC).

No ano passado, ano da crise no qual a boa teoria econômica ensina que o investimento público deve crescer para compensar a queda do investimento privado, o que se viu foi um crescimento pífio do investimento público até menor do que nos anos anteriores. De 2008 para 2009, o investimento público passou de R$ 28, 3 bilhões para R$ 34,1 bilhões, crescimento de R$ 5,9 bilhões. Esse crescimento foi inferior, portanto, à expansão observada em 2006, ano de eleição.

O que está acontecendo neste ano? A mesma coisa. O investimento público está se expandindo a um ritmo muito acima de 2007, 2008 e 2009.  Ou seja, as eleições tem um efeito na execução do investimento público muito maior do que o PAC-1 e PAC-2. Fiz a conta para a expansão do investimento público (exclui estatais e inversões financeiras) de JAN-SET nos últimos três anos e o resultado é o seguinte:

Investimento Publico – valores pagos (R$ correntes) – JAN-SET (2008-2009-2010)

Podemos fazer a seguinte brincadeira. Primeiro, se a execução do investimento público nos últimos dois bimestres do ano repetir os R$ 7,1 bilhões do bimestre JUL-AGO, fechamos o ano com um investimento público por volta de R$ 40 bilhões. Segundo, se o investimento público em SET-OUT for igual ao executado em JUL-AGO (R$ 7,1 bilhões) e crescer para R$ 10,3 bilhões no último bimestre de 2010 (mesma taxa de crescimento de 44% observada no ultimo bimestre de 2009), o ano fecha com um investimento público por volta de R$ 44 bilhões.

Em resumo, vamos fechar o ano com um nível de investimento público (exclui estatais e inversões financeiras) entre R$ 40 bilhões e R$ 44 bilhões, o que deve corresponder  por volta de 1,15% a 1,24% do PIB (supondo um PIB de R$ 3,52 trilhões). O dado oficial do Tesouro Nacional pode até ser um pouco acima desse valor (mais R$2 ou 3 bilhões) quando incluir inversões financeiras, menos empréstimos.

Essa é a boa notícia. Infelizmente, todas as demais contas do gasto continuam crescendo, o que significa mais pressão no gasto público.

2 pensamentos sobre “Investimento Público e Eleições

  1. Caro Mansueto,

    Faltou esclarecer uma coisa em sua análise:

    em 2005 -13 bilhões
    em 2006 – 20 bilhões
    e em 2007??

    Pergunto porque eu ficaria preocupado se o número de 2007 regredisse com relação ao número de 2005.

    No mais, aumento de investimento público em anos eleitorais é algo já extensamento coberto pela ciência política. Esta presente em todos os sistemas eleitorais, é parte indissociável da racionalidade dos atores que atuam no sistema.

    Saudações

    • Gustavo,

      O investimento público não caiu em nenhum dos anos de 2004 a 2010. O que argumentei é que, o efeito eleição, que já era esperado pelo que conhecemos da literatura de ciência política, foi muito mais forte do que o efeito PAC que seria um programa de “aceleração do investimento”. O que estava comparando não era o valor absoluto, mas o crescimento de um ano para outro.

      Os dados do investimento de 2004 a 2009, corrigidos pelo IPCA para valores de 2009, seguem abaixo. Mas o que me assusta é que mesmo quando queremos aumentar o investimento, como foi o ano passado, temos problema. Já no período eleitoral ele deslancha.

      A literatura de ciência politica não responde a essa pergunta porque ela pressupõe que o diferencial vem apenas da “vontade de investir” para ganhar voto, e no caso, do Brasil, acho que há algo mais. Como, por exemplo, os problemas de licenças ambentais deixam der ser problema na epoca de eleição?

      ANO Investimento Variação
      2004 9.092,19 –
      2005 13.084,70 3.992,51
      2006 20.168,99 7.084,29
      2007 24.422,19 4.253,20
      2008 29.487,04 5.064,85
      2009 34.136,74 4.649,70

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