Politica industrial: O Desenvolvimentista

Neste mês de outubro a Revista Piauí fez uma excelente matéria sobre politica industrial e o debate sobre a atuação do BNDES.  A matéria foi escrita pela repórter Consuelo Dieguez que fez um excelente trabalho e entrevistou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o professor da Unicamp João Manoel Cardoso de Melo, o ex-presidente do BNDES Carlos Lessa, o secretario do Tesouro Nacional Arno Augustin e também conversou comigo sobre o assunto e com mais outros economistas.

A matéria é longa e sugiro a leitura para quem se interessa pelo debate sobre politica industrial. Vários pontos da matéria me chamaram atenção, mas destaco rapidamente os seguintes. Primeiro, fiquei surpreso com a declaração do ex-presidente do BNDES Carlos Lessa.  Consuelo escreve que:

“Em quinze dias de banco, Lessa mudou todos os diretores e superintendentes. “Aquilo lá estava coalhado de tucanos e gente favorável à privatização; eu não podia trabalhar com aquelas pessoas”, explicou. Funcionários tarimbados foram isolados em pequenas salas e deixados sem função. Alguns entraram em depressão e outros se aposentaram. Lessa fez um concurso público e aumentou o número de funcionários de 1.600 para os atuais 2.250. Os novos foram treinados no ideário desenvolvimentista e orientados a não conversarem muito com os antigos. “Foi um período de horror”, contou um velho funcionário. “Havia até câmeras nas salas para vigiar os funcionários.”

Um segundo ponto que me chamou atenção foi uma declaração que a repórter escutou de um amigo do atual presidente do Conselho de Administração da Brasil Foods:

Nildemar Secches, antigo presidente da Perdigão e atual presidente do conselho da Brasil Foods, acha que, sem a intervenção do BNDES, teria comprado a Sadia por um preço muito mais baixo. “A Sadia não ia quebrar, quem ia quebrar eram os acionistas”, disse ele a um amigo. “Nós ficaríamos com a empresa por um preço muito menor.” Um dos acionistas beneficiados foi Luiz Fernando Furlan.

Não saberia dizer se o mesmo ocorreu com outras intervenções do BNDES, mas ao socorrer várias empresa que tiveram prejuízos com operações com derivativos cambiais, é possível que o mesmo tenha ocorrido com outras operações de F&A. Seria muito bom que as grandes operações do banco fossem devidamente explicadas e estudadas, para que se possa de fato mostrar que essas operações não foram de socorro.

Terceiro, no final da matéria, a repórter comenta que o presidente do BNDES Luciano Coutinho “…..Um pouco mais relaxado, deu a sua interpretação para o fato de o banco estar sendo tão criticado. “Atribuo isso a uma excitação natural do período eleitoral. A maioria das críticas não tem fundamento. O banco não fez operação-hospital. As críticas vêm de motivação ideológica ou política, que é conjuntural”, disse”.

É impressionante que tudo que se critica no Brasil seja direcionado para ideologia e questão eleitoral. O BNDES se tornou um banco muito maior do que era há quatro anos e com aportes de recursos sucessivos e crescentes do Tesouro Nacional. Assim, é natural que a sociedade exija maior transparência nos critérios de atuação do BNDES. Será que é tão difícil reponder algumas dúvidas que muitos têm em relação à atuação do banco tanto na área de política industrial quanto nas recentes operações de “gerar caixa para o Tesouro Nacional”?

Leia a integra da matéria aqui.